2006/07/28

28 de julho

A 28 de Julho de 1887 nascia o francês Henri-Robert-Marcel Duchamp, artista multifacetado associado ao dadaismo e ao surrealismo: "anything is art if the artist says it is", disse-o. Ele tinha já 74 anos de idade quando no Porto, nesse mesmo dia e mês, um rapazito insiste em nascer uns minutos antes de chegar o dia seguinte. 1961 é também o ano da estreia de «Breakfast At Tiffany's», filme de Blake Edwards baseado na mesma novela de Truman Capote, bem como de «La Dolce Vita» e do musical «West Side Story»; um ano antes iniciados, The Beatles fazem a sua primeira apresentação pública no Cavern Club enquanto Bob Dylan, The Beach Boys e The Rolling Stones só então começam a rolar; do filósofo Bertrand Russell é publicado o ensaio «Has Man A Future?»; o russo Yuri Gagarin fica para a história universal como o primeiro humano no espaço e os norte-americanos lançam o programa espacial Apollo; na Escócia nasce Jimmy Sommerville, que viria a formar os grupos gay-pop Bronski Beat, The Communards e Banderas, antes de seguir uma carreira a solo.
No ano em que Duchamp morreu, a 2 de Outubro, o menino tinha já 7 aninhos. Hoje tem bastantes mais e está de parabéns. Pensa-se!...

2006/07/23

meninas do rio

«Vidas em Arco-Íris: Depoimentos Sobre a Homossexualidade», de Edith Modesto, merece ser repetidamente citado (desta vez da página 160), porque o imprevisto e a surpresa acontecem a cada momento, sem filtros, como já antes se disse. Assim, por exemplo:

[Quem são os/as transexuais?] Vários entrevistados disseram que "há uma grande confusão, mesmo entre os gays, sobre o que é uma drag queen, um transformista um/a transexual, uma travesti..." Por exemplo:
Tiago — "Há uma grande confusão, mesmo entre os gays, sobre o que é uma drag queen, um transformista, um transexual, um travesti... Tem gays transexuais... são pessoas que nascem com um sexo e mudam de sexo. É o caso mais extremo, o corpo passa a ser de outro sexo. Transexual tem peito de mulher, cortou o pinto fora, ele se transformou numa mulher, o sexo mudou. É mais raro, mas também existem transexuais originalmente mulheres que se transformam em homens. Eu não posso condenar essas pessoas. Eu não sei como é a alma delas. O que elas têm, o que sentem. Por que elas tiveram de fazer isso? Eu tenho uma teoria que li uma vez. O cara falava sobre definições sexuais... Tem o sexo com que você nasce e uma identidade sexual que é a postura que você assume, tem a preferência sexual por quem você sente atração e essas coisas não são necessariamente ligadas. E ele mostra um caso assim: uma mulher, nasceu mulher; ela quis ser homem; ela colocou um pênis artificial; mas ela queria se relacionar com homens. Ela nasceu mulher, mas precisou se transformar em homem pra se relacionar com homem. Então o nascimento dela: sexo feminino. Identidade sexual: masculina. Preferência sexual dela: masculina."

A ilustração usada é de um quadro de Edgar Degas. À Lucy F. — a nossa mais querida Menina do Rio, autora do blogue Iluminuras (no título há uma ligação directa, para que o conheçam) — queremos, de forma redobrada, agradecer a oportunidade de ler este livro recém-editado na colecção [CONTRA.luz] da editora Record, do Rio de Janeiro: +1x, obrigado!

(Lucy: Durante as nossas férias consegui ver o filme «Sugar» e vou acabar por adquiri-lo, muito em breve! Para já ficamos atentos aos seus pormenores sobre a Parada Gay do Rio de Janeiro... Beijos!)

2006/07/21

vidas em arco-íris

Em matéria de guias (homo) sexuais o «A to Z of Gay Sex» de Terry Sanderson (The Other Way Press, London, 1994), o «Kamasutra Gay: um Guia Para Heterossexuais, Curiosos & Simpatizantes» de Flávio Furtado (Garrido Editores, Alpiarça, 2002) e o «Håndbok i Homsing» de Børge Skråmestø (Gyldendal Fakta, Oslo, 2004) eram até há bem pouco tempo, ora por uma ora por outra razão, os nossos livros de referência e de consulta. Também não vai muito tempo que descobrimos na Larousse um muito interessante «Dictionaire Des Cultures Gays Et Lesbiennes» de Didier Eribon, mas que entretanto foi retirado do catálogo da editora francesa, sem que esta tenha para já qualquer plano de reedição.
Por um relativo acaso — fruto de uma amizade recente e especial — veio parar-nos às mãos, mais recentemente, uma nova obra que se deverá juntar às já referidas: «Vidas em Arco-Íris: Depoimentos Sobre a Homossexualidade», de Edith Modesto (Record, Rio de Janeiro, 2006). Professora universitária, mãe de um homossexual e também ela activista, Edith levou a cabo um minucioso estudo das homossexualidades masculinas e femininas através de dezenas de entrevistas com homens e mulheres de diferentes idades, geografias, escolaridades, ocupações, raças e posicionamentos perante a vida. As entrevistas foram publicadas tal como se recolheram e aqui se exemplifica (da página 159):

[Você fez uma diferença entre homossexual e gay. Poderia explicar melhor?]
André — "Acho que homossexual é um termo técnico pra tua orientação sexual, pra como você experimenta o teu desejo... Você vive... Você realiza na verdade o teu desejo... Eu sempre costumo usar essa diferenciação... Acho que gay é mais um estilo de vida do que uma orientação sexual, então acho que tem muito homossexual que vive uma vida que não é gay necessariamente..."

Este livro é um álbum de retratos feitos de palavras, é diverso e isento, evita julgar, procura diversificar, atrai e fascina, revela e surpreende. Foi a minha leitura de férias e recomendo sem reservas o seu lançamento em Portugal, às editoras, às distribuidoras, às livrarias. Sugiro o que parece óbvio: editem-no, distribuam-no ou simplesmente importem-no... É que este livro merece grande visibilidade entre nós! Fica ainda uma referência excepcional entre nós na comercialização de obras de temática gay: em Lisboa, a livraria A Esquina Cor de Rosa (há um link no título). Visitem-na e descubram os muitos tesouros editoriais e a excepcional simpatia que lá irão encontrar.

2006/07/10

semana de férias

2006/07/08

soares dos gays

Perdoem-me o trocadilho, certamente haverá quem não ache graça, mas ele veio-me às teclas e não resisti. Já há anos atrás, quando imaginei um movimento portuense de intervenção e defesa dos direitos dos homossexuais, decidi que O Desterrado daria um bom emblema. A torre dos Clérigos foi outra hipótese, mas essa sim resultava um bocado brejeira. Mesmo sem ser emblema de nada, mesmo só como ex-libris arquitectónico do Porto, a coisa é bastante fálica, imagine-se se fosse símbolo de movimento gay! (ainda assim cheguei a fazer o esboço de um cartaz em que uma boca masculina convivia no mesmo rectângulo com a dita — não é preciso fazer um desenho pois não?). Já o Desterrado é mesmo bonito. E é homem e está nu. E é do Porto (do escultor Soares dos Reis, caso não tenham percebido o trocadilho). E é 'desterrado', que para intervenção política é o que mais importa. O emblema do desterrado, quando o imaginei, era cor-de-rosa, como a crença popular acha que é a sensibilidade gay e como o eram, de facto, os triângulos de pano que eram cozidos nos uniformes dos homossexuais que eram mandados para os campos de concentração na Alemanha da segunda guerra mundial. Aqui no Porto e no resto de Portugal, mais avanço menos recuo, continuamos desterrados. E continua a faltar-nos, à maior parte de nós, a coragem para enfrentar de cara levantada a sociedade que nos desterra. Eu não vou poder marcar presença na primeira Marcha do Orgulho do Porto, mas é com uma certa vergonha que confesso que, mesmo podendo, talvez não o fizesse. Fica o meu agradecimento e o elogio a todos os que lá estarão. E à noite, no Sá da Bandeira, encontramo-nos.

[Informações sobre o Orgulho Porto no link contido no título deste post.]

2006/07/06

sitges romântica

O modernismo marcou a Catalunha do início do século XX através das artes, onde a arquitectura teve um papel preponderante e Antoni Gaudí um expoente reconhecido em todo o mundo. Mas não é da Casa Milà ou da Sagrada Família ou mesmo do Park Güell — as obras maiores de Gaudí — que venho aqui falar, antes de outras obras, de outras edificações, que não ficam muito longe da capital catalã.
Com muito calor à porta e férias no horizonte, o meu destaque de hoje vai todo para a pequena localidade de Sitges, situada a uns 40 quilómetros ao sul de Barcelona (sudoeste, para ser mais rigoroso), onde no Verão de 2001 estivemos instalados alguns dias. Inicialmente, arrastados pela Drowned World Tour da Madonna (o meu companheiro é fã, já todos sabem, e eu vou atrás), escolhemos o Hotel Romàntic (na foto e no link) para ficar. Mas já era tarde demais, o hotel estava já cheio para as datas que nos convinham e acabamos num outro a uns 250 metros da praia, o Hotel Montserrat, agradável também mas bem mais modesto e convencional.
Já o mesmo não se pode dizer de Sitges: nos anos 60 foi o principal pólo da contracultura ao regime ditatorial de Francisco Franco; com a democracia desenvolveu-se e tornou-se num grande centro turístico do Mediterrâneo e, para nosso gozo, uma das maiores atracções gay de todo o mundo. Para quem ainda não conhece, Sitges é sol, praia, gente, gente bonita, muita gente, gastronomia, paisagem, discotecas, afectos, vício para quem o procura. Sitges é romântica e é obrigatória. É para ver e para rever. Para estar e para voltar. Bem acompanhado. Com tempo. Com antecipação.
Sitges é para se viver e recordar!