2006/09/28

quadros da vida de salvador dalí

Quantos de nós saberiam que o logótipo da tão popular marca espanhola Chupa Chups foi desenhado em 1969 pelo pintor surrealista Salvador Dalí?... Mas é verdade, a verdade pura e uma daquelas que nos faz crer que afinal ainda não sabíamos tudo sobre o grande pintor catalão. Ele viveu entre 1904 e 1989 e teve por baptismo o nome de Salvador Felip Jacint Dalí Domènech. Foi contemporâneo, colaborador e amigo de Federico García Lorca, Luis Buñuel, Joan Miró, Pablo Picasso, André Breton, Man Ray, Walt Disney e outros que na pressa se esquecem de referir. Na sua actividade passou por Paris e por Nova Iorque. Agora regressa à grande metrópole da costa oeste do Atlântico com «The Secret Life of Salvador Dalí», uma mostra que reúne os 128 desenhos originais que ilustraram a sua autobiografia assim intitulada. A cidade da Pop Art recebe Dalí no Instituto Cervantes a partir de 4 de Outubro, onde a exposição permanecerá até Janeiro do próximo ano, segundo a notícia que se pode ler aqui. Apesar da divulgação destas obras estar focada apenas num único trabalho, o livro «La Vida Secreta de Salvador Dalí» no título original, por mais esta forma se fomenta o reencontro com um dos maiores e mais controversos artistas do século XX que nas últimas décadas foi (não sem remédio) quase votado ao esquecimento pelas inteligências actuais.

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2006/09/26

sobre o david do hockney falso

Faz esta semana um par de meses que quatro queridos Amigos me ofereceram um estojo de pintura acrílica. Sabiam do meu gosto pelas artes e talvez por essa razão foram mais longe do que eu iria e decidiram desafiar-me. O estojo compreendia uma pequena tela, um cavalete, uns quantos pincéis, as tintas e, enfim, as coisas demais que se usam nestas circunstâncias. Fiquei radiante e, então ainda em férias, depressa meti mãos ao trabalho. Escolhi uma foto da minha própria autoria e, numa homenagem ao pintor David Hockney, incorporei o retrato pintado da minha sobrinha Rita no quadro «Mount Fuji And Flowers», que o artista pintara em 1972. Agora terminada a obra confesso que me vi uma e outra vez insatisfeito com o que fazia. Quase mesmo considerei inconclusiva a peça final. Mas mais não era do que insegurança de principiante, julgo eu, e o meu trabalho acabou por ser entregue à pequena Rita, de 6 anos, no domingo passado. Ainda no decurso da concretização deste trabalho adquiri duas outras telas um pouco maiores e elaborei mais dois retratos: comecei pelo do meu sobrinho Henrique (que acabou por ser o 1º a ser terminado, mas ainda falta entregar) e depois pelo do meu afilhado Luís (o 3º a começar, mas o 2º a acabar, que será entregue ainda mais para a frente). Neste momento desenvolvo novos estudos e estou ainda sem a tela para pintar. Mas já para a semana darei certamente início à concretização do novo trabalho: será a maior tela de todas até ao momento e nela farei o meu retrato de LUC, como referi na primeira entrada deste blogue. A imagem que se reproduz acima mais não é do que a de um autêntico quadro falso (uma recriação da Heritage House Galleries), como se pode ver aqui.

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2006/09/25

cesariny e o virgem negra

Volta a falar-se de Mário Cesariny de Vasconcelos, muito a propósito da exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos» dedicada ao artista-poeta do surrealismo português, que no passado dia 20 abriu no Circulo de Bellas Artes de Madrid. Autor de uma extensa bibliografia, a editora Assírio & Alvim descreve este escritor como um "autor de uma poesia excepcional — eventualmente demasiado consciente para ser considerada verdadeiramente surrealista — que apresenta afinidades com a de Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, António Maria Lisboa e a dos surrealistas franceses Breton e Artaud". Apesar de o artista e poeta ainda estar a tempo de alterar alguns dos dados que constituem a sua biografia, não é demais afirmar que "a poesia de Mário Cesariny e, através dele, do surrealismo como atitude intelectual, influenciou toda uma geração de novos poetas, tal como aconteceu com o Modernismo do Orpheu". São as palavras claras do editor que tem vindo a publicar a totalidade da sua obra literária, que supera já a dezena de títulos. Entre eles, «O Virgem Negra – Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiras Por M.C.V.», publicado em 1989, do qual escolhemos um excerto das páginas 69 e 70:

O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia.
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengãoEm não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da Kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço da heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela do lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era qundo o Aleyster Crowel aparecia.
“Iô Pan! Iô Pã!”, dizia,
E era felatio para todos
E pão de ló molhado em malvasia.

(…)

Para saber mais de Cesariny, de Pessoa e dos seus heterónimos, ou mesmo da geração de Orpheu há que adquirir as obras e deixar-se levar E descobrir. E maravilhar-se. O título completo da obra é «O VIRGEM NEGRA – FERNANDO PESSOA explicado às criancinhas naturais & estrangeiras por M.C.V. Who Knows Enought About It seguido de LOUVOR E DESRATIZAÇÃO DE ÁLVARO DE CAMPOS pelo MESMO no mesmo lugar. Com 2 Cartas de RAUL LEAL (HENOCH) ao Heterónimo; e a Gravura da universidade. Escrito & Compilado de Jun. 1987 a Set. 1988».

o navio de mário cesariny

Até 19 de Novembro estará patente em Espanha, no Círculo de Bellas Artes de Madrid, a exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos», comissariada por João Pinharanda e assim designada a partir de uma das suas obras poéticas. Mário Cesariny é uma das figuras maiores do surrealismo português (talvez mesmo a maior), tendo convivido em Paris com André Breton, e o seu trabalho plástico chega a ser menos conhecido entre nós do que a sua obra literária, vasta e de uma grandeza ainda apenas parcialmente revelada e descoberta. Mas se a poesia tem um papel maior, toda a sua obra foi e continua ainda a ser fruto de uma experimentação descomplexada, como seria natural num astro da cultura portuguesa do século XX. Na sua abordagem pictórica, o artista recorre frequentemente às técnicas de colagem, mas de uma forma mais criativa, variada e inesperada, sendo o reflexo do seu entrosamento entre a (sua) arte e a (sua) vida. Exibida em Madrid para apreciadores e curiosos, «Mário Cesariny: Navío de Espejos» congrega obras dos anos 40 à actualidade — desenho, pintura, colagem, objectos e técnicas mistas — e fomenta o reconhecimento da produção plástica do artista que nunca teve receio de chocar, nem de se assumir como ele mesmo. Entre nós, ainda neste princípio do século XXI, Mário Cesariny de Vasconcelos é talvez a figura actual de uma grandeza tanta como a que atribuímos ao também poeta-pintor Almada Negreiros. Bem-hajam! Esta exposição levará à tela, ainda, a 28 deste mês o documentário «Autografia», do realizador Miguel Gonçalves Mendes. A conferir aqui e agora!

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2006/09/23

sereia coreana: a arte de dongwook lee

A imagem ao lado tem por título «Mermeid». O seu autor é um artista sul-coreano chamado Dongwook Lee. O original pode ser visto hoje mesmo em Seul na galeria de arte Arario ou em Londres, não este mas outros trabalhos de Lee e de mais alguns novos artistas, numa colectiva da galeria Union, com a designação de «Give Me Shelter». «Mermaid» é um trabalho de técnica mista com as dimensões de 10x3x3 cm. Como é habitual no trabalho de Dongwook Lee, esta é uma escultura em miniatura, mas não só... Aqui está alguma informação suplementar, que tento sintetizar: a exposição apresentada pela galeria Union corresponde a trabalhos inéditos dos novos artistas coreanos Hyunjhin Baik, Suejin Chung, Osang Gwon, Dongwook Lee e Hyungkoo Lee, que pela primeira vez obtêm visibilidade internacional. Dongwook Lee é tido como um escultor que usa técnicas mistas e trabalha imagens sobre a condição humana e sobre os seus dogmas. Os trabalhos que apresenta são geralmente miniaturas de figuras humanas, em combinações tensas e extremas de horror e beleza. O lado pop da expressão plástica é muito evidente, mas as linguagens usadas são próprias e autónomas. Esta nova geração de artistas inclui Hyungkoo Lee (nascido em 1969), Suejin Chung (1969), Hyunjhin Baik (1972), Osang Gwon (1974) e este Dongwook Lee (1976). Todos eles vivem e trabalham em Seul, na Coreia do Sul.

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2006/09/22

maopost: imagens da revolução maoísta

Cartazes de propaganda política chinesa é o que se propõe divulgar o grupo Maopost. Criado por dois entusiásticos coleccionadores, Pierre Lavigne e Pierre Budestschu, o grupo tem um site com o mesmo nome, que foi recentemente ampliado para oferecer aos visitantes a possibilidade de aquisição de pinturas a óleo personalizadas ao melhor estilo revolucionário da China de Mao Tse-Tung. Pierre-Loïc Lavigne vive na China desde 1998 e é um coleccionador compulsivo dos cartazes revolucionários da época. O seu principal parceiro, Pierre Budestschu, vive e trabalha em Paris como desenhador gráfico e é ele também um coleccionador de posters do tema. Com este duo trabalham Hong Xue-Yan e Bruce Hurnes, ambos como tradutores. A imagem que se mostra dos dois jovens militares é de 1955 e na legenda promove uma vida longa à amizade entre os povos e forças armadas da China e da União Soviética (ou "zhongsu liang guo renmin he jundui de youyi wan sui", no original). Com a revolução cultural chinesa, o povo unido nunca mais seria vencido... Mas detalhes aqui, para tirar dúvidas.

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2006/09/21

o lado plástico de william burroughs

«The Unseen Art of William S. Burroughs» foi a designação com que a galeria de arte londrina Riflemaker fez uma mostra dos trabalhos plásticos do escritor vanguardista norte-americano William S. Burroughs, nascido em 1914 e falecido em 1997. Com a novela «Naked Lunch», de 1959 (que em 1991 veio a ser filme também), Burroughs tornou-se conhecido para além do círculo restrito da chamada Beat Generation, que incluía escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. A sua faceta como artista plástico é pouco divulgada e aqui está uma possibilidade rara de ver ainda um pouco do que a Riflemaker revelou. «Queer» é outra das mais conhecidas novelas com a assinatura de William Seward Burroughs, que recomendamos para leitura.

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2006/09/20

as lagoas azuis dos açores

Temos uma amiga que é dos Açores e de quem há um ano recebemos em nossa casa um belo postal enviado de Santa Maria das Flores. Nele tinha uma deslumbrante fotografia da Lagoa Rasa e, no verso, ela simplesmente escrevera "Guess who!". Claro que não foi difícil de adivinhar quem se nos dirigia de lá, de uma pequena ilha entre a Europa e as Américas... Um ano depois, já neste Verão portanto, chegou-nos outro postal enviado a partir de Angra do Heroísmo. A imagem era bem mais provocadora e ousada, tendo um par de touros de lide da Ilha Terceira com os bichos a esfregar entre si os chifres, como se fosse uma entrega carinhosa num namoro de machos: "a prova de que esta é uma terra muito permissiva", dizia-nos. Como que não bastasse a graça da remetente, desafiava-nos ainda: "que tal começarem a pensar nas próximas férias?!" E assim, na altura ainda mal regressados de uma estadia na praia em Sesimbra, os Açores entraram para os destinos possíveis de uma férias em 2007 (até já sabemos que em S. Miguel existe uma casa que acolhe hóspedes de todas as opções sexuais, que é a Casa da Lanterna). Mas as nossas hipóteses actuais para as vacances do próximo ano são vastas e díspares: Paris, Londres, Madrid, Corunha, Sesimbra e, afinal de contas, também os Açores. Com lagoas tão intensamente azuis, já nem os pequenos sustos como a passagem do furacão Gordon, que agora vai longe, nos desmotivarão de um voo futuro até ao arquipélago que está no meio do Atlântico. Beijinhos, queridas...

o cantor mexicano de pierre et gilles

Do fundo dos baús para a ribalta do Théâtre du Châtelet, em Paris, voltou à cena a opereta «Le Chanteur de Mexico». Até aqui não há nada de especial a assinalar, não fosse o cartaz (que cartaz!) ter sido concebido pela dupla de artistas Pierre et Gilles. A cenografia é de Emilio Sagi e a direcção musical de Fayçal Karoui, com Ismael Jordi, Mathieu Abelli, Rossy de Palma, Clotilde Courau, Jean Benguigui e Franck Leguérinel na interpretação deste trabalho da autoria de Francis Lopez (que morreu em 1995, mas assinou canções para famosos como Josephine Baker e Maurice Chevalier). Ao Ballet et Chœur du Théâtre du Châtelet juntam-se de 20 de Setembro a 1 de Outubro a Orquestra Filarmónica da Radio France e de 31 de Outubro a 1 de Julho a Orquestra Nacional da Île-de-France. Em ambos os casos o Châtelet será um dos locais mais procurados pela população gay de Paris, que encontrará na figura deste cantor romântico um bom pretexto para satisfazer a sua necessidade de arte kitsch contemporânea. E quando por cá, senhor Filipe La Féria, teremos «O Cantor do México»? Estão aqui os principais detalhes.

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2006/09/19

a arte em código de scott blake

Pode dizer-se que Scott Blake, artista norte-americano nascido na Florida, faz arte em código. De facto trata-se de uma técnica em que ele manipula códigos de barras para compor as suas obras, a maior parte das vezes em grande formato. Os seus trabalhos incluem retratos de famosos como Jesus, Andy Warhol, Madonna, Elvis Presley, Marilyn Monroe, Mao Tse-Tung, Bill Gates e dele próprio. Sobre o seu próprio retrato (este já de 2001), Blake afirma: "I wrote FUCK on my forehead for several reasons. One is because I created this portrait in 15 seconds using a bar code postscript which the same process takes my bar code halftone program 4 days to complete. I was also inspired by Abbie Hoffman, who used to write that illegal word on his forehead to detere any unwanted press photographers. This self-portrait is about being in the business of designer pixels." As obras com códigos de barras de Scott Blake incluem flipbooks, T-shirts, canecas, tatoos e certamente virá depois tudo o que mais o bom espírito capitalista permitir criar. Mas são impressionantemente surpreendentes, como se podem ver aqui!

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2006/09/18

marcel duchamp numa sonata dadaísta

«8x8: A Chess Sonata» junta num mesmo filme de época Marcel Duchamp, Man Ray (ambos nesta foto, em Paris), Jean Arp, Jacqueline Matisse, Yves Tanguy, Julien Levy, Richard Huelsenbeck, Alexander Calder, Ceal Bryson, Eugene Pellegrini, Williem de Vogel, W. Sandberg, Dorothea Ernst, Max Ernst, Jean Cocteau, Paul Bowles e Achmed ben el Yaccoubi. Nesta sonata dadaísta são oito as intervenções experimentais que vão juntando os artistas dadaístas (poetas, pintores, compositores, fotógrafos, realizadores) em interacção num filme histórico e criativo com a duração de 70 minutos (687MB), à volta de um tabuleiro de xadrez. O longo e pesado documento disponibilizado pela Grey Lodge pode ser descarregado aqui.

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2006/09/15

luc no céu com diamantes

Não vou explicar o porquê de l'avion rose, mas decidi fazer deste espaço uma forma de dissertar sobre arte. Sobre artes: a minha e a dos outros, na voz e na forma que mais me apetecer. Virei assim em breve dar conta de três trabalhos plásticos meus (todos recentes e um ainda em fase de conclusão) e de um novo projecto em torno de um jovem músico francês que recentemente descobri na internet: Luc. Neste momento ainda estou na fase dos contactos iniciais mas eu espero que a colaboração avance, pois vejo nesta oportunidade o meu momento de homenagear Andy Warhol e Joe Dalessandro, duas grandes referências para mim, e de concretizar o meu desejo de fazer este género de trabalho com um músico que me parece destemido e sem preconceitos. Sobre ele há mais detalhes aqui e do resto se dará conta quando significativo, neste novo espaço.

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2006/09/14

luc dans le ciel avec des diamants

Descobri-o ontem e ele chama-se Luc. Porque é francês e gosta de rock lembrei-me de relacionar o seu nome com a famosa Lucy do quarteto de Lennon e McCartney: Luc dans le ciel avec des diamants. Mas na comparação não deverei ir mais longe do que isso porque do que Luc gosta, de facto, é de Iggy Pop, Nirvana, Radiohead e Gorillaz. Também gosta de H, que é o seu omnipresente companheiro e autor de praticamente todas as fotos e vídeos de Luc (pelo título chega-se ao seu blogue, que é o local ideal para os descobrir). São fotos e filmes curiosos que nos deixam seduzidos e à espera de mais...
Do outro lado da guitarra está Luc e isso significa mesmo que ele faz e toca música. Nada que me surpreenda ou me deixe excepcionalmente fascinado. Mas atrai-me a sua imagem cândida e a preocupação arty que se nota em cada um dos retratos que de si apresenta. E ontem mesmo, o jovem guitarrista até lançou um desafio aos internautas com veia artística para que criem uma obra gráfica (pintura, desenho, banda-desenhada, montagem digital, colagem ou mesmo fotografia de escultura) que reinterprete a sua imagem. Nas suas próprias palavras descreve-se assim: "LUC, Jeune Artiste de 19 ans écrit des poèmes à l’ambiance Rock qui sont les soutiens d’une musique tour à tour hurlée, puis pleurée par sa guitare. A renfort d’humour, LUC créé un monde qui n’appartient qu’a lui. Ses inspirations sont: Nirvana; Iggy Pop; Lacuna Coïl; Rob Zombie; Red Hot Chili Peppers; Radiohead; Ennio Morricone; Gorillaz; et Jean-Louis Aubert. Il aime l’imagerie de Burton, de Rob Zombie et des films de Sergio Léone. Luc est également modèle pour L’HéRéTiQuE depuis début 2006." Luc afirma amar a arte, mas ser incapaz de a criar graficamente. Por isso entende que oferecer-se para modelo do trabalho gráfico de alguém é o seu modo de participar, mais uma forma de ser criativo. Através do seu blogue pode saber-se desde já do regulamento de participação e dos prazos de inscrição. Os trabalhos dos participantes serão depois agrupados para uma exposição e um livro, e também exibidos pela internet.
Eu quero ver... Luc no céu com diamantes.

2006/09/11

dvds: a 11 mais doze

Neste 11 de Setembro reparámos que desde Abril (data da lista anterior) já adquirimos mais doze DVDs: «20 Centímetros» (uma compra intuitiva que se impôs por ser uma deliciosa comédia musical sobre um transexual que tudo faz para se livrar de vez de 20cm de carne), «A Felina» (o inigualável novo clássico com Nastassja Kinski ao lado de Malcolm McDowell e a banda sonora de Giorgio Moroder e David Bowie), «Vespertine Live at Royal Opera House» da Björk (acompanhada em concerto pela inventiva harpista Zeena Parkins e pelo duo gay da electrónica experimental Matmos), «Castro» (a peça sobre os amores trágicos de Pedro e Inês, com a assinatura de qualidade de Ricardo Pais), «Live! The Tank, The Swan And The Balloon» dos Erasure (a versão pop e tão intencionalmente ingénua do bailado clássico «O Lago dos Cisnes»), «Excalibur» ("...quem conseguir soltar a espada da rocha leva o reino de prémio", com alguma graciosa exploração do corpo de Lancelot), «Felizes Juntos» (na foto e no link — talvez um dos filmes da vida do meu companheiro —, é sobre a história de amor de um jovem casal gay asiático à procura do seu destino na América do Sul), «The Very Best of...» dos Japan (o melhor do grupo glam-pop de David Sylvian), «The Girlie Show Live Down Under» da Madonna (Madonna!), «A Flauta Mágica» de Mozart (numa versão com cenários do pintor homossexual David Hockney, a última grande figura da pop art), «O Fantasma de Canterville» (versão do delicioso conto de Oscar Wilde) e «Um Cadáver de Sobremesa» (uma intriga policial com os melhores detectives do mundo e a actuação do verdadeiro Truman Capote). A nova listagem (que exclui um par de filmes duros) desta vez ficou assim (título / autor / género / lançamento / edição):

  • 20 Centímetros / Ramón Salazar / drama / 2005 / 2006
  • 24 Hour Party People / Michael Winterbottom / musical / 2002 / 2003
  • A Felina / Paul Schrader / fantasia / 1982 / 2003
  • A Importância de Ser Ernesto / Cliver Parker / romance / 2002 / 2003
  • Antes Que Anoiteça / Julian Schnabel / drama / 2000 / 2002
  • Ao Sabor das Ondas / Guy Ritchie / romance / 2002 / 2002
  • Beckett on Film / Samuel Beckett / teatro / 2001 / 2001
  • Bent / Sean Mathias / drama / 1996 / 2003
  • Björk: Vespertine Live at Royal Opera House / Björk / música / 2002 / 2002
  • Bruscamenete no Verão Passado / Joseph I. Mankiewicz / drama / 1960 / 2002
  • Cabaret (30th Anniversary Special Edition) / Bob Fosse / musical / 1972 / 2002
  • Castro / António Ferreira & Ricardo Pais / teatro / 2006 / 2006
  • Cidade de Deus / Fernando Meirelles / drama / 2002 / 2003
  • David Bowie: Best of Bowie / David Bowie / música / 2002 / 2002
  • Depeche Mode: 101 / Depeche Mode / música / 2003 / 2003
  • Dolls / Takeshi Kitano / drama / 2002 / 2003
  • Erasure: Hits! The Videos / Erasure / música / 2003 / 2003
  • Erasure: Live! The Tank, The Swan And The Balloon / Erasure / música / 2004 / 2004
  • Eurythmics: Sweet Dreams / Eurythmics / música / 1983 / 2003
  • Eva (All About Eve) / Joseph L. Mankiewicz / drama / 1950 / 2002
  • Excalibur / John Boorman / fantasia / 1981 / 2005
  • Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados) / Stanley Kubrick / thriller / 1999 / 2005
  • Fausto 5.0 / La Fura dels Baus / drama / 2002 / 2005
  • Feliz Natal Mr. Lawrence / Nagisa Oshima / drama / 1983 / 2003
  • Felizes Juntos / Wong Kar-Wai / romance / 1997 / 2006
  • Japan: The Very Best of... / Japan / música / 2006 / 2006
  • Ken Park — Quem és tu? / Larry Clark / drama / 2002 / 2004
  • Là où je Dors / Isabel Barros / dança / 2005 / 2005
  • Laranja Mecânica / Stanley Kubrick / ficção-científica / 1971 / 2003
  • Lisboa Reloaded / vários / música / 2005 / 2005
  • Madonna: Drowned World Tour / Madonna / música / 2001 / 2001
  • Madonna: Music / Madonna / música / 2000 / 2000
  • Madonna: The Girlie Show Live Down Under / Madonna / música / 1999 / 1999
  • Madonna: The Immaculate Collection / Madonna / música / 1991 / 1999
  • Madonna: The Video Collection 93:99 / Madonna / música / 1999 / 1999
  • Marlene Dietrich: An Evening with Marlene Dietrich / Marlene Dietrich / música / 1972 / 2003
  • Morrissey: Hulmerist / Morrissey & The Smiths / música / 2004 / 2004
  • Mozart: A Flauta Mágica / Mozart & David Hockney / música / 1992 / 2006
  • Mulholland Drive / David Lynch / drama / 2001 / 2002
  • My Beautiful Laundrette / Stephen Frears / drama / 1985 / 2001
  • No Fly Zone / Né Barros / dança / 2005 / 2005
  • Nossa Senhora dos Matadores / Barbet Schroeder / drama / 2000 / 2004
  • O Estranho Mundo de Jack (Edição Especial) / Tim Burton / animação / 1993 / 1999
  • O Fantasma / João Pedro Rodrigues / drama / 2000 / 2004
  • O Fantasma de Canterville / Crispin Reece / fantasia / 1997 / 2005
  • Os Pássaros / Alfred Hitchcock / thriller / 1963 / 2001
  • Os Sonhadores / Bernardo Bertolucci / romance / 2004 / 2004
  • Papillon / Franklin J. Schaffner / drama / 1973 / 2002
  • Pet Shop Boys: Pop Art — The Videos / Pet Shop Boys / música / 2003 / 2003
  • Pet Shop Boys: Somewhere / Pet Shop Boys / música / 1997 / 2003
  • Phantom of The Paradise / Brian De Palma / musical / 1974 / 2002
  • Pink Narcissus / James Bidgood / erótico / 1971 / 2005
  • Sex Pistols — o Filme (The Filth And The Fury) / Julien Temple / documentário / 2000 / 2005
  • Sinais de Fogo / Luís Filipe Rocha / drama / 1995 / 2003
  • Smiths: The Complete Picture / The Smiths / música / 1992 / 2000
  • The Cook, The Thief, His Wife And Her Lover / Peter Greenaway / drama / 1990 / 2003
  • The Pillow Book / Peter Greenaway / drama / 1995 / 2003
  • Tudo Sobre a Minha Mãe / Pedro Almodóvar / drama / 1998 / 2001
  • Ubus / Alfred Jarry & Ricardo Pais / teatro / 2005 / 2005
  • Um Cadáver de Sobremesa /Robert Moore / policial / 1976 / 2003
  • Um Coração Selvagem / David Lynch / drama / 1990 / 2003
  • Um Hamlet a Mais / William Shakespeare & Ricardo Pais / teatro / 2004 / 2004
  • Vaga / Né Barros / dança / 2005 / 2005
  • Velvet Goldmine / Todd Haynes / musical / 1998 / 2003
  • Violência e Paixão / Luchino Visconti /drama / 1974 / 2002
  • World Shut Your Mouth /vários / música / 2002 / 2002
Esta listagem era inicialmente bastante pequena e começou a ser colocada no nosso blogue por ser fácil fazê-lo. Os livros e os discos ficaram de fora porque era muito mais complicado. Agora, parece-me, a lista dos DVDs começa a ficar também um pouco longa de mais e isso vai levar-nos daqui para a frente a fazer apenas actualizações das entradas mais significativas. Talvez então faça sentido dar uma outra atenção a alguns livros, a alguns discos de música, ao que mais calhar. A seguir...

2006/09/08

d. quixote às cores

"maria mãe do filho de deus
pela minha janela com persianas japonesas, eu vejo um mundo um pouco confuso, meio tracejado, como uma pintura do münch. mas bem em frente à janela tem uma antena parabólica (que eu sei que é porque já olhei pra ela sem a persiana entre nós), e todas as vezes em que olho pra ela por detrás da persiana, tenho a mesma sensação: parece uma imagem da nossa senhora prestes a se jogar do prédio ao lado. claro, pra isso eu tive que antes ver a cena por detrás das persianas, e depois de pensar "o que diabos aquela santa está fazendo ali?" resolvi checar e percebi que era uma antena, de lado. mas é impressionante, sempre penso isso, quase todos os dias ao acordar. "isso diz muito sobre a sua fé, não é?", diriam os especialistas. i couldn't agree more."

Pronto, assim está como deve ser e é uma citação de parte de uma entrada que, em finais do mês passado, a nossa amiga Lucy F publicou no seu blogue Iluminuras (ilumi.blogspot.com). Achei muito curiosa a situação — esta de confundir antenas com imagens santificadas — e, mais ainda, a singular forma como Lucy a descreveu. Em troca ofereci-lhe o poema «Impressão Digital», do António Gedeão:

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

O texto é de 1956 e faz parte da primeira colecção de poesia que o cientista e escritor português Rómulo de Carvalho publicou sob o título «Movimento Perpétuo», usando como pseudónimo António Gedeão. Desde menino que ele é um dos meus poetas preferidos e só tenho pena agora de não poder transcrever de relance tantos outros poemas dele que também me maravilharam e maravilham. Depois procurei uma imagem para o ilustrar e D. Quixote com o seu fiel escudeiro pareceu-me a melhor solução para pesquisa. Deles, com moinhos poucas vi e com gigantes menos ainda. Vi um desenho, porém, do mesmo ano de 1956 em que D. Quixote está semi-despido, sem pudor, aos pulos defronte do seu fiel companheiro Sancho Pança. A ilustração pertence ao ilustre artista brasileiro Cândido Portinari — há uma ligação directa no título, para se saber e ver mais.
Eu sei também que a Lucy já me tinha prometido uma entrada no Iluminuras a propósito do poema do Gedeão, mas esta já estava começada e eu decidi na mesma acabá-la. Só que agora fico ainda mais curioso e à espera de uma nova surpresa. E eu conto com ela...

2006/09/05

individual de gilbert & george

No início de 2007, a londrina Tate Modern fará uma grande retrospectiva da obra de Gilbert and George. Gilbert Proesch nasceu a 11 de Setembro de 1943 em Itália e George Passmore a 8 de Janeiro de 1942 em Inglaterra. "Temos mais de artistas contemporâneos do que de britânicos, mas o espaço (da Tate Modern) é o mais adequado para a nossa exposição", disse George neste fim-de-semana ao diário britânico The Independent. E Gilbert sublinhou o caricato de serem considerados artistas britânicos, quando ele não o é, mas sim italiano.
Gilbert e George conhecem-se desde 25 de Setembro de 1967 e praticamente toda a sua carreira artística foi desenvolvida de forma unipessoal, uma vez que é difícil destrinçar o trabalho de um do trabalho do outro. A sua obra plástica envolve geralmente fotografia, pintura, escultura e colagem, por vezes com a utilização de materiais menos convencionais como os fluidos humanos. A nudez e sexualidade masculinas são os temas mais recorrentes, num trabalho que é sempre surpreendente, invulgar e belo. Mas há mais notas de invulgaridade, extravagância ou excesso na vida deste casal de artistas gay: George esteve heterossexualmente casado entre 1967 e 1972 e desse casamento tem dois filhos; já nos anos 90, George e Gilbert adquiriram um pequeno café nas proximidades da sua casa e ambos se encontraram por diversas vezes a servir clientes ao balcão; o par possui hoje uma dos maiores e mais avançados computadores gráficos do Reino Unido, com vista à realização das suas próprias obras.
A exposição que a Tate Modern apresentará no próximo ano será, pelo que o próprio museu diz, a maior mostra "individual" do trabalho deste duo tão impressionante e influente na arte contemporânea. A mostra irá ocupar em simultâneo dois pisos do museu, o que pela primeira vez acontecerá com a obra de artistas vivos. O Tate Modern acrescenta que a obra de Gilbert & George é "subversiva, incisiva e atractiva, com foco e inspiração no relacionamento urbano do mundo ocidental", concluindo que "esta exposição é uma oportunidade imperdível para se conhecer mais destes artistas altamente respeitados, mas permanentemente provocadores".

2006/09/01

a voz

Eu aprendi a gostar da voz de Frank Sinatra pela mão de alguém que gostava muito, também, de Edith Piaf (e não era o Gonçalo que, embora goste muito de Piaf, não vai por aí além com o estilo do Frank). Mas foi Francis Albert Sinatra que ficou conhecido, em 1946, pela elogiosa alcunha de The Voice, tudo porque nesse ano ele teve um álbum com o título «The Voice of Frank Sinatra».
Outra voz famosa e que fez história é conhecida por cá como A Voz do Dono. Nesta, a história é ainda mais antiga: tudo começa em 1901, ano em que nascia a Victor Talking Machine Company, empresa que viria a ser uma das maiores do mundo no fabrico de fonógrafos e dos respectivos discos. Durou até 1929, ano em que a Radio Corporation of America, então a maior companhia norte-americana de telecomunicações, adquire a primeira e funde as duas como RCA Victor. Mas esta fusão de empresas passa também pela renovação da entidade comercial e, para tal, a nova companhia recorre à imagem já antes experimentada pela Victor: a de um pequeno cachorro (o Nipper) que se concentra obedientemente num gramofone de onde sai a voz do dono (His Master's Voice). A memória do pequeno Nipper continua viva hoje ainda no logótipo das lojas HMV, como a que sempre visitamos em Oxford Street, nas viagens a Londres.
Já na presente ilustração usei um outro cão e um outro dono. Desconheço o autor da fotografia, o nome do jovem ou do feliz bicho que o acompanha no instante perpetuado. Nem percebi bem se, com tanta movimentação do... dono, é de facto a sua voz que lhe chama a atenção... Enquanto penso na metáfora que me saiu feliz, vou ouvindo a Edith Piaf num disco que o Gonçalo me ofereceu no fim-de-semana passado: «Le Bel Indifférent», peça em um acto de 1940, escrita por Jean Cocteau para a voz da diva francesa, que é mais uma obra de arte a que o tempo não roubou a capacidade de nos deslumbrar. Até já...