"maria mãe do filho de deus
pela minha janela com persianas japonesas, eu vejo um mundo um pouco confuso, meio tracejado, como uma pintura do münch. mas bem em frente à janela tem uma antena parabólica (que eu sei que é porque já olhei pra ela sem a persiana entre nós), e todas as vezes em que olho pra ela por detrás da persiana, tenho a mesma sensação: parece uma imagem da nossa senhora prestes a se jogar do prédio ao lado. claro, pra isso eu tive que antes ver a cena por detrás das persianas, e depois de pensar "o que diabos aquela santa está fazendo ali?" resolvi checar e percebi que era uma antena, de lado. mas é impressionante, sempre penso isso, quase todos os dias ao acordar. "isso diz muito sobre a sua fé, não é?", diriam os especialistas. i couldn't agree more."
Pronto, assim está como deve ser e é uma citação de parte de uma entrada que, em finais do mês passado, a nossa amiga Lucy F publicou no seu blogue Iluminuras (ilumi.blogspot.com). Achei muito curiosa a situação — esta de confundir antenas com imagens santificadas — e, mais ainda, a singular forma como Lucy a descreveu. Em troca ofereci-lhe o poema «Impressão Digital», do António Gedeão:
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
O texto é de 1956 e faz parte da primeira colecção de poesia que o cientista e escritor português Rómulo de Carvalho publicou sob o título «Movimento Perpétuo», usando como pseudónimo António Gedeão. Desde menino que ele é um dos meus poetas preferidos e só tenho pena agora de não poder transcrever de relance tantos outros poemas dele que também me maravilharam e maravilham. Depois procurei uma imagem para o ilustrar e D. Quixote com o seu fiel escudeiro pareceu-me a melhor solução para pesquisa. Deles, com moinhos poucas vi e com gigantes menos ainda. Vi um desenho, porém, do mesmo ano de 1956 em que D. Quixote está semi-despido, sem pudor, aos pulos defronte do seu fiel companheiro Sancho Pança. A ilustração pertence ao ilustre artista brasileiro Cândido Portinari — há uma ligação directa no título, para se saber e ver mais.
Eu sei também que a Lucy já me tinha prometido uma entrada no Iluminuras a propósito do poema do Gedeão, mas esta já estava começada e eu decidi na mesma acabá-la. Só que agora fico ainda mais curioso e à espera de uma nova surpresa. E eu conto com ela...