Na página de um fanzine cultural dos anos 80, reencontro um fragmento de texto atribuído a Jean Genet: Amaste-o demais, e o amor excessivo repugna. Um amor demasiado grande transtorna os órgãos e todas as profundezas, e o que sobe à superfície causa náuseas. As vossas faces são címbalos, que nunca chocam, mas que deslizam em silêncio um pela superfície do outro. Genet escreveu «Querelle de Brest» em 1947 e este texto deve ter origem aí. Em 1982 Reiner Werner Fassbinder realiza a correspondente versão cinematográfica que, tal como o livro original, se torna num símbolo da cultura gay. Entre as duas datas nascemos nós, um em Lisboa e o outro no Porto. Os nossos caminhos cruzam-se em 1986 e a partir daí começámos a sair juntos. É nesse ano, também, que a editora discográfica Ama Romanta se estreia e coloca em circulação o duplo álbum «Divergências». Uma arrojada antologia discográfica com muitas preciosidades musicais, recentemente transferidas para o CD «Sempre». Em ambos se encontra a canção «La Feria», dos Essa Entente (na foto, da época):
Passo o tempo à espera que venhas,
durante a noite sou um louco sem ti.
Num lençol pequeno demais para um,
lençol branco?! Noites sem fim...
À noite espero que te faça esquecer,
o tempo perdido que passaste com elas.
A noite chega, uma lágrima seca,
História de amor?! Qual a tua razão?
Passo o tempo à espera que chegues,
num lençol grande demais para os dois.
À noite espero que te faça esquecer,
lençol branco?! Noites sem fim!
Porquê a razão de nunca sermos dois,
nem que a tarde faça esquecer alguém.
Porquê lembrar o meu corpo em repouso?
Só lembro um beijo nos meus lábios, rapaz...
(Volta rapaz, agora que já sabes as voltas
que eu te armei no lençol, e quanto era
falso...
...acaba com isso!!!)
Como se ligam o «Querelle» de Genet e Fassbinder, com o «La Feria» dos Essa Entente, e nós próprios? Entre os dois primeiros há a particularidade de La Feria ser o nome do bordel de Brest onde o marinheiro George Querelle mais gosta de "navegar". Entre o «La Feria» do álbum e nós há várias particularidades, mas a mais curiosa é que um dia tínhamos connosco o disco numa visita nocturna à discoteca Busto's, a mais queer da época no Porto. Nada foi planeado, mas acabámos por encher-nos de coragem e pedir à DJ para passar o «La Feria». Explicámos o contexto, ela ouviu, gostou e passou. Tanto assim que lhe deixámos o disco, para que o ouvisse melhor. E foi ficando pois sempre que voltávamos a vistosa DJ punha a canção para nós... Sempre! Esta história tem quase 20 anos, pois esse é o tempo que hoje perfaz desde que nos conhecemos.