2006/10/31

o voo rosa de pablo picasso

Qualquer um com a mínima noção de arte já ouviu falar dos períodos azul e rosa na pintura de Picasso. Mas já não será tão fácil, para bastantes, explicar o que afinal representam cada um desses períodos. Neste momento, pela afinidade não inocente com o nome deste blogue, apenas me interessa rever o Período Rosa. Ele corresponde aos anos que ficam entre 1905 e 1907, nos quais o pintor espanhol Pablo Picasso (amigo grande de Cocteau, também ele) se entregou a uma pintura mais quente. Eram os saltimbancos, o circo e o colorido quente de laranja e rosa, que se contrapunha à sensibilidade fria do precedente Período Azul (1901-1904). Diz-se ainda que o Período Rosa é devido ao enamoramento de Pablo pela actriz Fernande Olivier, que ter-lhe-á aquecido a alma durante a sua residência na capital francesa. «Garçon à la Pipe» (na foto) é o quadro mais valioso dessa época. É verdade que nele há também muito azul, mas é algo profundamente quente que transborda na direcção de quem o vê. Ao voo rosa de Pablo Picasso seguiu-se um período pouco conhecido, influenciado por África. Foi por aí que ele chegou ao Cubismo. Poucos saberiam: o FBI considerou-o perigoso e subversivo (ver aqui). E a história vai-se escrevendo.

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2006/10/30

uma casa que também é (álvaro) siza vieira

A Casa Tóló, de Álvaro Leite Siza Vieira, é um dos exemplos mais surpreendentes da nossa nova arquitectura. Situa-se em Ribeira de Pena, na zona montanhosa de Vila Real (Portugal) e é um autêntico arranha-céus construído sobre o declive da colina. Creio que a poderia descrever como uma sucessão de cubos combinados, em que cada cubo corresponde a uma divisão da casa, e que se vão sucedendo lado a lado, uns acima e outros abaixo, relacionando-se harmoniosamente e sendo ligados entre si por uma escadaria que (quase) nunca acaba. É lindo de se ver, pelo menos em fotografia, mas não é casa para qualquer um. Eu imagino o cansaço que será andar para cima e para baixo todo o dia, mesmo para alguém que tenha energias... Não se disse, mas é bom que seja sublinhado que o arquitecto que a desenhou é filho de Siza Vieira, essoutro tão conhecido e respeitado em todo o lado. Lê-se algures, a propósito da intenção do arquitecto, que havia que construir com um orçamento reduzido e, portanto, se evitou escavar a encosta e assim edificou sobre o terreno com a inclinação de 33 graus. O resultado é no mínimo surpreendente. E está à venda no momento deste artigo, como se pode ver aqui. Se tem pernas e dinheiro, compre porque junto com a casa leva uma obra de arte sem igual.

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2006/10/29

michael kirwan, intenso e in-convencional

Michael Kirwan nasceu em Nova Iorque em 1953, onde frequentou a escola experimental para rapazes da Congregation of Christian Brothers. Gostava de desenhar usando uma simples esferográfica sobre sacos de mercearia. A perversão e irreverência dão lugar a problemas que põe frequentemente o jovem Michael de castigo. Apaixona-se e casa, sendo pai 6 meses depois, trabalhando de 1973 a 79 como empregado comercial. Acusado de irresponsabilidade e homossexualidade continuada o seu casamento desfaz-se. Em 1980 assume-se como gay e procura novo emprego. Consegue-o num balneário da East Village, o bairro de Manhattan a rebentar de arte e cultura. A revista Stroke é a primeira a publicar alguns dos seus desenhos, em 1986. Sem outro trabalho, de Nova Iorque segue para Miami ao encontro dum amigo dono do famoso restaurante Strand, que arderia em 1990. Volta a procurar trabalho e consegue-o através de encomendas de ilustrações para revistas como a Freshmen, Gent, Inches, Playguy, Sugah, Torso e outras. É um dos mais famosos artistas eróticos da actualidade e vive hoje em Los Angeles. Diz que o erotismo é a forma mais popular de arte e retrata dessa forma a sexualidade, numa variedade ampla de figuras e formas, idades, etnias e capacidades (ler aqui), com uma expressão intensa, detalhada e colorida, em clara oposição com o mundo convencional.

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2006/10/27

amor pour moi

É tão bom receber um presente inesperado, tanto mais quando ele vem de quem mais amamos e é tão bem escolhido. Falo do meu companheiro e do novo perfume da Cacharel, Amor Pour Homme, que dele recebi no passado dia 25. Este novo Amor é o primeiro perfume masculino da marca, desde há 7 anos. Ele é também o equivalente masculino ao já famoso Amor Amor de 2003. Enquanto no feminino o frasco era intensamente vermelho, no masculino é intensamente azul. De alguma forma mantêm-se os códigos sexuais, mas reescritos de forma enérgica e actual. Não há muito mais que eu queira dizer, pois toda a informação que poderia acrescentar só tornaria menos intenso o momento que se pretende aqui recordar, o gesto, a presença. Com um belo modelo, o cartaz da Cacharel apela ao Amor de forma simples e feliz. É isso que eu quero para mim e para nós e, se era essa a intenção, Ele acertou plenamente. Obrigado, querido, por todos os presentinhos e pelo teu amor!

antony gormley reinventa a escultura

Há uma centena de esculturas humanas dispersas à borda da água, ao longo dos 3 quilómetros da praia de Crosby, em Liverpool. São todas iguais, feitas num ferro fundido ao tamanho real, e representam em pacífica nudez o seu próprio autor: o escultor britânico Antony Gormley, nascido em 1950. A obra foi intitulada «Another Place» e, mais do que um simples conjunto de escultura, é na verdadeira acepção uma instalação de arte. Estão lá desde Julho de 2005 e recentemente questionou-se se aí deveriam continuar ou não, por motivos de segurança, já que quase houve um acidente com três nadadoras curiosas e arrojadas, que se dirigiram à estátua mais afastada da praia. O certo é que as esculturas foram visitadas por meio milhão de pessoas e tornaram-se num símbolo actual para a terra de onde saíram os Beatles e que em 2008 espera ser Capital Europeia da Cultura (ver cartaz aqui). O seu destino seria Nova Iorque, mas um grupo de admiradores terá conseguido reunir os 3 milhões de euros necessários para ficar tudo na mesma. Antony Gormley não gosta de falar de si próprio, ou da sua arte, mas é dele a afirmação "I think of sculpture as something coming up from under the earth, becoming as we all are earth above ground, but retaining a feeling of having been hidden and then revealed". A arte sobrevive ao tempo, mas é sempre tempo de ser criativo e de a reinventar.

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2006/10/26

donde está alfreda benge

Alfreda Benge é a mulher de Robert Wyatt, fundador nos anos 60 e 70 dos grupos The Wilde Flowers (homenagem a Oscar Wilde), Soft Machine (livro de William S. Burroughs) e Matching Mole (trocadilho com machine molle, de soft machine). Alfie (o diminutivo carinhoso) foi assistente do realizador Nicolas Roeg, que fez «The Man Who Fell to Earth», com David Bowie como o belo extraterrestre (por muita coincidência, ou talvez não tanta, William Burroughs e Nicolas Roeg usaram recorrentemente técnicas designadas por cut-up, ou seja uma forma de recorte e colagem aleatória numa produção artística, para suscitar efeitos imprevistos e repetitivos). Benge namorou Warren Beatty e com ele conheceu Robert, que ficou relegado a uma cadeira de rodas em 1973, por ter caído dum 3º andar. Ambos foram a sua maior ajuda nesses tempos, mas o galã do cinema acabou por seguir o seu caminho deixando Alfie e Bob juntos para sempre (aqui há mais detalhe). Companheira de um homem fisicamente diminuído mas intelectualmente brilhante, a sua arte foi tomando forma e visibilidade, ganhando espaço nas capas dos discos de Robert e amigos. Diz-se que «Dondestan» retrata a passagem do casal pela Nazaré e, em detalhe, vê-se mesmo o jornal comunista Avante! sobre a mesa.

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2006/10/25

sempre (20 anos)

Na página de um fanzine cultural dos anos 80, reencontro um fragmento de texto atribuído a Jean Genet: Amaste-o demais, e o amor excessivo repugna. Um amor demasiado grande transtorna os órgãos e todas as profundezas, e o que sobe à superfície causa náuseas. As vossas faces são címbalos, que nunca chocam, mas que deslizam em silêncio um pela superfície do outro. Genet escreveu «Querelle de Brest» em 1947 e este texto deve ter origem aí. Em 1982 Reiner Werner Fassbinder realiza a correspondente versão cinematográfica que, tal como o livro original, se torna num símbolo da cultura gay. Entre as duas datas nascemos nós, um em Lisboa e o outro no Porto. Os nossos caminhos cruzam-se em 1986 e a partir daí começámos a sair juntos. É nesse ano, também, que a editora discográfica Ama Romanta se estreia e coloca em circulação o duplo álbum «Divergências». Uma arrojada antologia discográfica com muitas preciosidades musicais, recentemente transferidas para o CD «Sempre». Em ambos se encontra a canção «La Feria», dos Essa Entente (na foto, da época):

Passo o tempo à espera que venhas,
durante a noite sou um louco sem ti.
Num lençol pequeno demais para um,
lençol branco?! Noites sem fim...

À noite espero que te faça esquecer,
o tempo perdido que passaste com elas.
A noite chega, uma lágrima seca,
História de amor?! Qual a tua razão?

Passo o tempo à espera que chegues,
num lençol grande demais para os dois.
À noite espero que te faça esquecer,
lençol branco?! Noites sem fim!

Porquê a razão de nunca sermos dois,
nem que a tarde faça esquecer alguém.
Porquê lembrar o meu corpo em repouso?
Só lembro um beijo nos meus lábios, rapaz...

(Volta rapaz, agora que já sabes as voltas
que eu te armei no lençol, e quanto era
falso...
...acaba com isso!!!)

Como se ligam o «Querelle» de Genet e Fassbinder, com o «La Feria» dos Essa Entente, e nós próprios? Entre os dois primeiros há a particularidade de La Feria ser o nome do bordel de Brest onde o marinheiro George Querelle mais gosta de "navegar". Entre o «La Feria» do álbum e nós há várias particularidades, mas a mais curiosa é que um dia tínhamos connosco o disco numa visita nocturna à discoteca Busto's, a mais queer da época no Porto. Nada foi planeado, mas acabámos por encher-nos de coragem e pedir à DJ para passar o «La Feria». Explicámos o contexto, ela ouviu, gostou e passou. Tanto assim que lhe deixámos o disco, para que o ouvisse melhor. E foi ficando pois sempre que voltávamos a vistosa DJ punha a canção para nós... Sempre! Esta história tem quase 20 anos, pois esse é o tempo que hoje perfaz desde que nos conhecemos.

2006/10/24

a figura de patrick procktor

Há um disco de Elton John que tem na capa uma imagem muito bonita: «Blue Moves» (aqui pode ser vista, pois não é a que está ao lado). O seu autor foi Patrick Procktor, artista britânico que nasceu em 1936. Na verdade, ele nasceu em Dublin: era o filho mais novo do contabilista de uma companhia petrolífera, mas aos 4 anos, com a morte do pai, mudou-se para Londres. Na sua passagem pela Highgate School foi aluno do pintor paisagista Kyffin Williams. Mas teve que abandonar a escola, para procurar trabalho e ajudar a família. Ingressou depois na Royal Navy onde viria a aprender Russo. Foi intérprete do British Council e a pintura surgiu como mera ocupação dos tempos livres. As suas influências terão sido a arte figurativa e artistas como William Coldstream ou Keith Vaughan. Em 1958 concorreu à Slade School of Fine Art e foi admitido. Em 1962 torna-se artista profissional e no ano seguinte expõe em Londres (The Redfern Gallery), conquistando a admiração de artistas ligados à música e artes do espectáculo. Tornou-se conviva de homens de arte como Derek Jarman, Francis Bacon e Cecil Beaton. O seu amor por Gervase Griffiths tornou inequívoca a sua homossexualidade, mas em 1973 casaria com Kristen Benson. Foi eleito membro da Royal Academy em 1996, morrendo com 67 anos de idade em 2003.

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as ovelhas de jean-luc cornec

The Silence Of The Lambs?... Não, pois nem se tratam de cordeiros, mas de ovelhas, neste caso. E estas são mesmo muito diferentes das outras, a que nos habituámos. Não são de carne e osso, nem se dão por diminutivos como se fossem saídas de um conto infantil ou mesmo de uma história de ficção científica. Existem, podem ser vistas, tocadas até e, creio bem, ouvidas também. Se são funcionais ou não, é o que menos importa. São arte e estão à vista de todos que invistam no Museum für Kommunikation (o Museu das Comunicações, em Frankfurt, Alemanha, a constatar aqui). Foram feitas com fio eléctrico e outro equipamento telefónico. O seu nome não é simples, pelo menos para um simples lusitano como eu: Telefonschafe; mas, feitas as consultas, creio confiadamente que se traduz por "Ovelha-Telefone". Elas têm um autor: o artista plástico bretão Jean-Luc Cornec. Arrisco também que é bem possível que o século XXI venha a ser considerado o das comunicações. Mas o certo é que cada vez menos poderemos encontrar aquele ambiente pastoril que caracterizou a Europa em muitas décadas do século XX. Não estará longe o dia em que só ouviremos estas ou outras ovelhas semelhantes a balir. Bastará que o mundo continue a sua marcha actual e alguém ligue o número certo!

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2006/10/23

diálogos de amadeo de souza-cardoso

A partir de 15 de Novembro poder-se-á ver a nova exposição de Amadeo de Souza-Cardoso que vai exibir obras de 1907-1918 (quase todo o seu período de actividade) relacionadas com as cumplicidades artísticas do seu tempo. Serão cerca de 260 obras, podendo tornar-se num acontecimento de referência para os apreciadores de Amadeo. «Diálogos de Vanguarda» estará em Lisboa até 14 de Janeiro no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. O pintor português nasceu em Amarante, em 1887 (aqui há uma ligação à cidade). Em Lisboa frequentou a Academia de Belas Artes antes de em 1906 irromper em Paris, onde tomaria contacto com as novas vanguardas europeias. Regressou em 1913 e foi o percursor da arte moderna, fazendo exposições pouco convencionais no Porto e em Lisboa, ainda que bem menos estranhas na Europa e Estados Unidos. Estava em Barcelona com Antoni Gaudí quando, em 1914, foi surpreendido pelo rebentar da I Grande Guerra. Regressa e em 1916 expõe no Porto um total de 114 obras intituladas «Abstraccionismo», que depois seguem para Lisboa, provocando escândalos atrás de escândalos. Morreu em 1918 e apenas 7 anos depois Paris rende-lhe uma calorosa homenagem. Em Portugal é criado o Prêmio Souza-Cardoso em 1935, para distinguir pintores modernistas.

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2006/10/21

a palavra em zhang huan

A arte de vanguarda também se faz na China e Zhang Huan (1965) é disso um grande exemplo. Começou a mostrar-se em Pequim, integrando o grupo de criadores pós-Tianamen que se designava por Beijing East Village. Quem o conhece afirma que a sua acção é perturbadora e fascinante. E que a nudez é quase permanente, como se tal não existisse, como se fosse tão natural quanto respirar: "Nudity is absolutely necessary in my performance", disse-o na entrevista para uma revista de arte. Irremediavelmente ligado à tradição budista, isso reflecte-se no trabalho conceptual que exerce essencialmente sob a forma de performance, instalação, fotografia, escultura e pintura: "Only in its nakedness can the body be truly felt and its relationship with the spirit be identified through its direct contact with the object", acrescentou. Sobre a sua obsessão pelo corpo, diz ainda: "When I was young, my mother often told me 'you have to study hard so when you grow up you have a bright future'. But I never liked to read books. I tried many different ways to keep myself awake I would bite my hands, stab my flesh with a pen"... Divide-se no presente entre Xangai e Nova Iorque, onde a galeria Max Lang está a exibir até ao próximo dia 28 uma selecção das suas obras no período de 1995 a 2006. Há mais detalhes aqui.

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2006/10/20

antónio olaio, um artista com vista

António Olaio (1963) licenciou-se pela Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1987 e rapidamente emergiu enquanto performer e artista plástico. Fazia parte, já na primeira metade dos anos 80, da nova geração de artistas que na cidade se faziam ver através de galerias como a Roma e Pavia e o Espaço Lusitano. Integrava nas Belas Artes o Grupo Missionário e depressa engrenou na máquina pós-moderna que a cidade alimentava por essa altura. Dividia-se entre o Porto e Coimbra, pintando e projectando o corpo e voz no grupo pop Repórter Estrábico. A obra de António Olaio foi-se definindo e consolidando com os anos, alargando à vídeo-arte e a projectos multidisciplinares, como resulta da sua associação ao guitarrista João Taborda. «Room With a View» (160x90 cm, 2003) é o título grafado a óleo sobre o óleo da própria tela que aqui se mostra, o que é estranho e típico no pintor. Tanto o actor de «Red River» (John Wayne) como o artista que criou o ready-made «Fontaine» (Marcel Duchamp) são constantes na sua obra. É um dos coordenadores da revista Homeless Mona Lisa, que deve ser explorada aqui. Escreveu «Ser Um Indivíduo Chez Marcel Duchamp» e «Singing My Art Away» que, a par com «António Olaio: o Artista é Um Ready-Made Auxiliado» de João Lima Pinharada, se tornam essenciais para rever toda a lógica da canção onde se diz: "Blood red is my favourite colour".

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...mãos à obra

Há 1 ano escrevi: "Hoje, quinta-feira 20 de Outubro de 2005, demos início ao nosso adiado blog. Não que outras experiências equivalentes não tenham sido produzidas, mas esta talvez seja (não creio que em definitivo) uma forma de estarmos constantemente em linha, entre nós e os nossos comentadores... Para já só estamos a fazer registo e experiências. Se alguém nos descobrir aqui, não ligue aos conteúdos. O tempo dar-nos-á tempo para irmos acrescentando, modificando, melhorando. E com frequência, certamente! Para o Gonçalo, um beijo imenso."
Um ano depois, aproveito para dizer que esta experiência valeu a pena, que se multiplicou e que tem propiciado o enriquecimento de conhecimentos e o alargamento de amizades. Porque é costume também nestes casos recorrer-se à estatística aqui temos, pela mera curiosidade, uns quantos números que respeitam aos 365 dias de gayfield (alguns dos valores foram extrapolados das medições obtidas após 6 de Outubro pela Google Analytics):
- 107 entradas publicadas;
- 10.980 visitas anuais;
- 05:39 minutos de duração média na consulta da página mais visitada;
- 3,41 dias de espera média entre novas entradas (postagens).
Há mais parâmetros que gostaria de avaliar, mas não o faço pela sua complexidade e falta de interesse público. Porém gostaria de deixar a promessa do nosso empenho neste blogue por mais um ano e de agradecer em nome dos dois todas as participações que fomos recebendo ao longo destes 12 meses. Com a simplicidade do momento, de nós para todos que nos vão acompanhando, um abraço imenso e... mãos à obra!

2006/10/19

o poder do ipod shuffle

O mais pequeno leitor digital de música que existe, o novo iPod Shuffle, já está à venda por todo o lado e continua a despertar o meu fascínio... Caracterizado por um preço acessível e uma qualidade sonora acima de qualquer discussão, o novo modelo com acabamentos em alumínio anodizado segue as tendências actuais da Apple para toda a sua linha iPod e iMac. Não se pense que este modelo é apenas a revisão do que já era comercializado com o mesmo nome (muito bonito também). O novo iPod Shuffle foi completamente redesenhado transformando-se num (ainda mais) minúsculo instrumento de prazer, capaz de conceder 12 horas continuadas de leitura com um só carregamento de energia. Com 1GB de capacidade, este pequeno engenho permite gravar até 240 músicas, para escutar em loop continuo ou baralhado. Sendo minúsculo, pode ser preso à lapela de um blusão, ao cinto ou simplesmente colocado no bolso pequeno dos jeans. Conjugado com o software iTunes, este aparelho permitirá uma série de funções complementares muito atractivas e fáceis, que importa explorar.
Isto é o que eu penso, mas gostaria que daqui surgisse um mini-debate já que tenciono comprá-lo no próximo sábado para o oferecer ao Gonçalo. Era para ser uma surpresa (como será quando ler isto), mas prefiro que ele tenha a opção de me instruir sobre outras preferências ou alternativas. E eu fico atento...

o naturalismo boémio de patrick angus

Que haverá na pintura de Patrick Angus (1953-1992) que possa ter levado o argumentista Robert Patrick a referi-lo como "o Toulouse-Lautrec de Times Square"? Em primeiro lugar não existirão dúvidas quanto ao que foi em vida o seu ambiente de acção, o de Times Square, elegante e movimentado bairro de Manhattan, Nova Iorque, que nos seus dias terá tido muito em comum com a boémia parisiense de Montmartre que Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) frequentou no seu tempo; em segundo, na obra de ambos os pintores se retrata esse mundo reprimido das liberdades absolutas, dessas do corpo e do pensamento, vividas com espectacularidade em antros obscuros como (nos anos 90 do século XIX) o cabaret Moulin Rouge ou (nos anos 80 do século XX) em bares, discotecas e casas de prostituição de Manhattan. Em termos plásticos, diz-se que a obra de Patrick Angus se pode situar entre as de David Hockney e David Park, o que se entende melhor se nos dermos ao trabalho de as confrontar. O traço de Angus é geralmente contido, as cores são carregadas, o motivo permanece distante, a intensidade do momento toca-nos. Como se pode ver aqui, quase sempre retrata, a uma distância prudente, os homens que lhe são próximos e os seus encontros regulares com anónimos que se entregam a uma sexualidade naturalista, aberta e sem limites.

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2006/10/18

edouard dermit, o enfant terrible

A imagem é de «Butterfly», a serigrafia original de Edouard Dermit, assinada à mão e numerada 29/100, com aprox. 50x65 cm, que adquirimos para a nossa casa em Outubro de 2004. Dermit nasceu a 18 de Janeiro de 1925 em Gallignano, Itália, e apesar de ser bastante mais novo do que Jean Cocteau (que nasceu em 1889) foi o seu último companheiro e, por conveniência testamentária, também seu filho adoptivo. Participou em diversos filmes do artista francês: «L'Aigle À Deux Têtes», «Orphée», «Les Enfants Terribles», «La Villa Santo-Sospir» e «Le Testament d'Orphée». Cocteau morreu em 1963 mas no ano seguinte Dermit ainda fez «Thomas le Imposteur», realizado por Georges Franju a partir do conto de Cocteau. Em 1965 conclui em Fréjus os frescos que havia iniciado com o seu companheiro, na Chapel Notre-Dame de Jérusalem (também conhecida por Chapelle Cocteau - que pode ser visitada aqui). Tornou-se antiquário e o maior experto sobre a vida e obra de Jean Cocteau, tendo dirigido a reabilitação da sua casa-museu em Milly-la-Forêt. Edouard Dermit faleceria em Paris, a 15 de Maio de 1995. Tal como no epitáfio do seu amante, que diz "Eu permaneço entre vós", também Edouard permanece entre nós: mesmo à entrada da nossa casa!

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2006/10/17

desconstrução à robert davies

A fotografia de Robert Davies, um inglês nascido em Birmingham, em 1964, pode ser considerada uma arte menor? Que tem ela de especial? Até que ponto pode mesmo ser considerada arte? Estas e outras questões poderiam ser racionalmente exploradas por quem vê na arte algo que está muito para além de um "simples" acto tecnológico aplicado a uma mero momento de futebol! Davies formou-se em 1993 no Royal College of Art, não é um simples habilidoso. Interessa-se pela percepção do quotidiano, pelo detalhe. Nas suas fotos prevalece o abstracto, apesar de ser da realidade que parte e a que nos leva em última análise. Até os seus primeiros retratos da figura humana mais não eram do que uma estranha visualização topográfica das formas do corpo. Todo o trabalho de Bob anda à volta de um conceito de desconstrutivismo, como é o caso ainda dos seus jogadores de futebol (a imagem ao lado é a do jogador brasileiro Carlos Alberto e pode ser adquirida aqui). São imagens feitas a partir de filmes dos grandes jogos, de momentos escolhidos e fotografados e transformados em novas imagens esborratadas e pixeladas (que apontam para um retorno ao pontilhismo de Georges Seurat), onde apenas se preserva o essencial da forma, a saturação da cor... O mais belo da imagem no seu próprio entendimento.

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2006/10/16

sinais dos space invaders

A primeira invasão dos Space Invaders ocorreu em 1978, como se descobrirá adiante. Mas os Space Invaders da geração actual estão no nosso planeta já desde os anos 90, ao contrário do que muitos bons terrestres poderão pensar. Chegaram e instalaram-se de forma insuspeita em mais de 30 cidades em 5 continentes, contando com a colaboração anónima e quase sempre clandestina de um artista francês. Fixaram-se em Paris, em Londres, Amesterdão, Berlim, Los Angeles e até Nova Iorque. De Portugal não se aproximaram mais do que à distância da espanhola Barcelona (na imagem). Os invasores deixam a sua marca onde passam. Uma ou mais vezes. São geralmente placas feitas de pequenos ladrilhos cerâmicos, como se fossem a ampliação do monstro extraterrestre retirado do vídeo-jogo do mesmo nome (o tal que já cá anda desde 1978 e foi trazido por Toshihiro Nishikado, como se pode ver e até jogar aqui). Agora estão fixados em prédios e em monumentos. Nas pontes e nas ruas. Foi em Paris que estiveram pela primeira vez, mas recentemente atingiram 52 sinalizações só em Viena. Estranhos, mas ornamentais, estes invasores do espaço urbano tornam-se amigos da paisagem e dos não menos estranhos terrestres que a preenchem. Pode parecer que não, mas vieram para ficar.

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2006/10/15

paisagens e retratos de david hockney

De 15 de Setembro a 28 de Outubro, a galeria londrina Annely Juda Fine Art expõe 25 novos trabalhos de David Hockney, «A Year in Yorkshire», pintados ao longo do último ano e que representam o ciclo das estações em East Yorkshire, o condado de origem do artista. A exibição inclui duas telas com cerca de 2x4 metros, ambas divididas em seis partes, carregadas de intensidade tonal, de traço imediato e fluído, colorido rico e textural, como no melhor trabalho do artista. O britânico David Hockney nasceu em 1937 em Bradford e estudou no Royal College of Art entre 1959 e 1962. A sua primeira exposição a solo foi em 1963 e a mais recente que teve lugar em Londres, na mesma galeria, aconteceu já em 1977. É um dos maiores artistas da Pop Art e talvez mesmo o maior artista vivo. Após 12 de Outubro também o National Portrait Gallery mostrará na capital britânica, até 21 de Janeiro, uma nova mostra de retrato de David Hockney, intitulada simplesmente «Portrait», como consta aqui. Mostrar-se-ão 150 trabalhos de todas as épocas, incluindo alguns criados para este acontecimento, tratando-se de um género dos mais apreciados na sua obra e que incluirá auto-retratos, retratos de família, de amigos e de amantes.

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2006/10/13

o subconsciente para lucian freud

Nasceu em Berlim em 1922. Face ao advento do nacional-socialismo, em 1933 a família de Lucian Freud deixou a Alemanha e instalou-se em Londres. Os seus primeiros quadros tiveram um toque de Surrealismo. Eram retratos de plantas, de amigos, de familiares, de colegas, de amantes. Dizia: "The subject matter is autobiographical, it's all to do with hope and memory and sensuality and involvement." Entende que a nudez, tal como nos irracionais, deixa ver a animalidade que há nos seus modelos. Por isso os corpos que mostra são também expressões do subconsciente, do indivíduo, do instinto e do desejo. Um caso sério também fora da pintura: casou com diversas mulheres e disse-se (no Sunday Telegraph a 1 de Setembro de 2002) que teve já mais de 40 filhos ilegítimos. Apesar de ser um dos mais importantes artistas na Inglaterra actual, as suas obras foram muito pouco expostas ao longo das décadas. Só em 1996 a Abbot Hall Art Gallery (na remota Kendal) conseguiu reunir um total de 40 obras que expuseram toda a carreira. A Tate Britain proporcionou uma retrospectiva mais alargada, conforme se poder saber aqui, em 2002. Talvez nem fosse necessário dizer que Lucian é neto de Sigmund, o Freud que inventou a psicanálise. Como se isso pudesse ainda surpreender alguém.

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2006/10/12

os bons tempos de mel roberts

Uma boa fotografia faz-se porque há um bom fotógrafo por detrás da máquina, seja ela qual for ― digo eu. Mesmo que o modelo seja um simples amigo, um indomável culturista ou um consumido prostituto. Foram principalmente esses que se colocaram à frente das duas Rolleiflex usadas nos anos 60 e 70 por Mel Roberts, com as quais fez mais de 50.000 imagens de uns 200 modelos, alguns também amantes: "I tried to make it as enjoyable as I could", dizia-o a propósito dos rapazes imortalizados pelas suas câmaras. Os modelos (homossexuais ou não) geralmente acompanhavam-no numa viagem de 2 ou 3 dias pelo Yosemite National Park ou pela comunidade de Idyllwild, onde conheciam e conviviam com os seus amigos. Os retratos reflectem isso: rapazes junto à piscina (a imagem ao lado pode ser adquirida aqui) ou expostos livremente ao sol da Califórnia: "we might look back wistfully at this period of openness and experimentation, before AIDS, before sunscreen". Esses eram os tempos em que "quando se conhecia alguém e com ele se passava uns bons momentos, as calças desciam com a maior das facilidades. Bastava só que nos apetecesse" ― explica ainda. Será que hoje, com os seus 82 anos, Mel Roberts continua a fazer... fotografia?

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2006/10/11

jamie reid volta a atacar

Londres vai aquecer em 2007 com a exposição Panic Attack! Art in The Punk Years que assinalará os 30 anos do movimento punk na capital britânica. Será na Barbican Art Gallery, entre 1 de Junho e 31 de Agosto, que todos os devotos renderão mais uma homenagem aos Sex Pistols e a muitas outras bandas musicais, mas também aos activistas culturais e a artistas como o incontornável Jamie Reid. A data de 1977 corresponde ao lançamento do polémico single «God Save The Queen», que seria parte do não menos famoso álbum «Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols». Ora é aqui precisamente que entra Jamie Reid, o situacionista que foi o criador de quase toda a mais famosa pictografia dos Sex Pistols e do movimento punk que lhes sucedeu. Foi ele que colocou o alfinete de bebé sobre os lábios da rainha Isabel II, foi ele que trouxe para as ruas o esvaziamento político dos símbolos nazis, foi ele que uma década mais tarde criou a capa do emblemático single «No Clause 28» de Boy George. Em 2007 Jamie Reid terá 60 anos, o dobro da sua idade de então. E nos 30 anos que passaram o punk não morreu, nem a estética que o define. Bem pelo contrário, internacionalizou-se, renovou-se e redefiniu-se. Panic Attack! reflectirá sobre sobre toda essa variedade. Para mais detalhes e actualizações consulte-se a programação aqui.

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las rosquillas de almodóvar

Demorou algum tempo até que o último filme de Almodóvar fizesse sentido para mim. Mau sinal. Ou talvez não, talvez Almodóvar continue a ser um excelente realizador e eu seja, agora ou desde sempre, um mau espectador. Enquanto via o filme ia analisando a sua construção, o desempenho das actrizes, o esforço do realizador para manipular a imagem hollywoodesca da Penélope Cruz... Mau Sinal. Na minha cabeça um bom filme vê-se com os sentidos e as emoções, as análises formais só vêm depois, de regresso a casa. Achei o filme mau? Claro que não. É bem provável que o bem-amado realizador nunca tenha feito nem venha alguma vez a fazer um mau filme, mas nestes três últimos mastiga-se muito. E a propósito de digestão, repararam-me naquelas rosquillas? A mim fizeram-me água na boca e quando a Carmen Maura disse que queria eu pensei "e eu também!". Quando saí da sala pus-me a pensar se haveria por ali perto algum botequim que vendesse bolinho semelhante. Mas claro que não havia. Depois, já conformado, é que comecei a perceber o filme e como é bonito ver que as pessoas dependem umas das outras e, nos filmes do Almodóvar pelo menos, se ajudam umas às outras. E o Luís vinha emocionado. Bom Sinal.

2006/10/10

arte porno de daniel j. skråmestø

Em 1973, num dia de Outubro, nasceu Daniel J. Skråmestø. Entre 1992 e 96 estudou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e trabalhou alguns anos na Noruega como designer gráfico. Hoje vive na capital portuguesa onde desempenha ainda essa profissão, a par da sua actividade como artista plástico e escritor (pode consultar-se aqui o blogue onde vai expondo a sua nova escrita). Todo o trabalho artístico de Daniel é desenvolvido sobre fotografias porno recolhidas na internet, inicialmente trabalhadas em baixa resolução com o Photoshop. Os passos seguintes são a composição, iluminação e coloração, todos dados por processos digitais. Uma vez concluída esta fase, o artista imprime o seu trabalho inacabado sobre papel ou tela, que passará a adaptar manualmente usando material convencional de pintura. Usando ainda o envernizamento com pincel ou spray, a obra é acabada com o aspecto de pintura a óleo. Assim produz múltiplos falsos, que são depois numerados e assinados antes de entrarem no circuito comercial. "O aspecto porno das imagens é importante. Eu gosto da ideia de transformar algo considerado sujo em algo artístico", diz-nos Daniel. Os seus trabalhos são conhecidos internacionalmente e foram já exibidos nos Estados Unidos, Noruega e Portugal. Parabéns!... ;-)

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2006/10/09

as apropriações de glenn brown

Glenn Brown (nascido em 1966 no Reino Unido) é um "salteador" da arte que encontra por aí e lhe vai agradando. E é um "salteador" esperto, porque mascara os seus "furtos" com roupagens que os tornam distintos dos originais, num traço ziguezagueado ou pouco-mais-ou-menos assim, sinuoso, firme porém, certo do seu destino. Pois é, Glenn lê a arte dos seus mestres (Salvador Dalí é um dos maiores, veja-se ainda aqui) e transforma-a ao seu gosto e estilo, em pintura e escultura. Na verdade, as obras originais e as criadas por este artista confundem-se à distância mas, vistas ao perto são sem a menor dúvida intensamente distintas. Apesar disso, já aconteceu ser acusado de plágio, pelo fotógrafo Tony Roberts, e o diferendo legal teve mesmo que ser resolvido por acordo posterior à abertura do processo judicial. Em que ficamos, tendo em conta que os direitos de autor são coisa séria, mas nem todos os autores o são (ou às vezes são demais)? Veja-se, compare-se, pesquise-se, discuta-se, elogie-se, difame-se, aprecie-se, aplauda-se, esconda-se, esqueça-se... Glenn Brown já passou por tudo isso no seu reino natal, mas também na Alemanha, nos States e na Austrália. Eu não me importava nada de ter um quadro dele ou, pelo menos, de ver um em Portugal!

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2006/10/08

um postal de scott blake

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2006/10/07

amir nikravan e hiper-realismo

Creio que a origem de Amir Nikravan é iraniana. Que estranho, para começar! À esquerda está um quadro seu, um óleo sobre papel, sem título, recente ainda, deste ano de 2006. É grande, no seu metro de largura por cerca de 60 cm de altura. Como o autor, também o quadro é estranho e tem uma força tremenda. É uma força que se repete e encontra em outras obras do pintor. Eu descobri-o aqui, mas poderemos encontrá-lo em outros locais, haja vontade de o conhecer. Este mundo de imagens do artista islâmico apenas existe fora do Islão mas, mesmo assim, é universal. São momentos que tanto podem ser registados em Teerão, como em Moscovo, Pequim ou Washington. São momentos da vida de gente como nós. Momentos que nós já experimentamos ou estivemos tão perto deles que por pouco teríamos dado conta. São imagens dum hiper-realismo não contido. Libertário, verdadeiro, eventualmente chocante. É sexo puro, são sexos, são múltiplos por simples acção dos espelhos, às vezes. Estão em casa, na rua, nos urinóis onde se cruzam, se examinam, se trocam... Observam-se fixamente ou se recusam, fugindo à evidência. Perturbado, ou excitado?

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2006/10/06

cópias originais de peter doig

Um dos grandes problemas dos pintores de hoje é a barreira que (n)os impede de sair para a rua e pintar uma figura, uma paisagem. Na vida agitada da cidade, no caos de máquinas e gente, a solução passa muitas vezes pela aplicação de uma mecânica compensatória. Assim é que artistas como o escocês Peter Doig (nascido em 1959) se socorrem de imagens capturadas em livros, revistas, jornais, filmes ou mesmo nas fotografias que eles próprios fazem. Doig nasceu no Edimburgo, acompanhou a família para Trindade e Tobago, depois para o Canadá e Londres, onde viria a estudar arte e iniciar uma carreira de sucesso. A maior parte do trabalho de Doig é dedicado à paisagem ou a cenas da sua infância canadense. O seu retrato não é realista no sentido de reproduzir o modelo, mas antes uma interpretação artística pessoal e momentânea (ao lado, «Heart of Old San Juan», 1999). Outra das suas abordagens é obter uma imagem e modificá-la através de sucessivas fotocópias, para que a imagem final seja já muito diferente da original. Na cópia final a óleo, o pintor demonstra a preferência pela intensidade de cor característico dos períodos impressionista e pós-impressionista. Em 2002 regressou a Trindade e Tobago, onde se estabeleceu com a sua família. No ano seguinte iniciou uma colaboração com o artista local Che Lovelace, que pode ser seguida aqui, no blogue do StudioFilmClub.

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2006/10/04

a pop art de takashi murakami

Há algo de infantil e de provocativo na arte de Takashi Murakami. E quase sempre surgem a par, talvez para nos confundir, num acto de louvável inteligência que saltita entre o melhor da tradição japonesa e o mais criativo da arte ocidental. Nascido em Tóquio, em 1962, este é um dos mais importantes artistas da actualidade. O seu trabalho não se define em poucas palavras e abarca a produção de objectos comerciais e de moda, a escultura e a pintura, circulando pelos mais importantes museus do Japão, Europa e América. Na sua obra há influências da manga japonesa, de Jeff Koons, Roy Lichtenstein ou Jackson Pollock. Foi comparado imensas vezes a Andy Warhol, o que bem poderá justificar-se pelas características muito pop do que cria. Até a escultura de 1998 que se mostra ao lado (com 254x117x91 cm) se intitula «My Lonesome Cowboy» no que parece uma homenagem manifesta ao filme «Lonesome Cowboys». O próprio espaço em que vive e trabalha com os seus colaboradores se chama Hiropon Factory (onde se instalou com a Kaikai Kiki Co., a visitar), como na Factory prateada que Warhol criou para si e para os seus. Só que se Warhol pegou nas estrelas e as vulgarizou, Murakami pega no vulgar e promove-o a estrela. Os tempos são outros e este homem novo na arte não esconde o seu interesse bem actual pelas técnicas de gestão de Bill Gates. Não vá a arte morrer de velha!

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2006/10/03

regresso à futuro de matti suuronen

O arquitecto finlandês Matti Suuronen desenhou em 1968 uma casa semelhante a um disco voador, com o objectivo de ser usada como cabine de esqui ou habitação de férias. Os anos 60 foram marcados pela poderosa intervenção da ciência na vida universal (a Lua seria conquistada por Armstrong em 1969) e muito do design reflectia com optimismo essa situação. Era o advento da idade espacial, o futuro trazido ao presente, o sonho de uma vida simplificada pelas novas máquinas e de tempos livres cada vez menos adiados. A casa desenhada por Suuronen tinha 3 metros de altura por 8 de diâmetro e acomodava até 8 pessoas no seu interior. O nome de baptismo era bem claro na intenção visionária: Futuro. Esta nova forma de habitação pré-fabricada foi concebida em plástico reforçado (poliéster e fibra de vidro), que era um material inovador, muito barato e bastante leve. Facto que acrescentava ainda o benefício da mobilidade, já que a Futuro havia sido concebida com a intenção de ser deslocalizada (este é um termo de uso corrente de que eu não gosto, e só o uso por provocação) por helicóptero. A crise do petróleo em 1973 veio, porém, agravar os custos de produção (uma vez que o plástico é um derivado desse) e o total de casas construídas ficou-se apenas pelas 96, das quais uma metade na Finlândia, o país de origem. No entanto a Futuro teve descendência nos Estados Unidos pela mão do inventor (também filósofo e designer) R. Buckminster Fuller: a sua Dymaxion House pode ser vista no Henry Ford Museum & Greenfield Village e também aqui.

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a emergência da pop de patrick wolf

Patrick Wolf é um daqueles meninos bonitos que conquistam logo pela imagem. Ou parece ser, a julgar por mim e pelo que vai por aí ao olhar para os seus 23 anitos de um nascimento irlandês. Compositor, violinista e cantor das suas próprias canções, aos 11 anos Pat começou a experimentar instrumentos e equipamentos menos vulgares para uma criatura com meras aspirações pop: órgãos de brinquedo e um theremim feito em casa são dois bons exemplos. Muito antes de começar a gravar os seus primeiros discos em solitário fez parte (com 14 anos apenas) do projecto Minty e (aos 16) formou o duo Maison Crimineaux que acabou por ser a catapulta da carreira a solo, que começaria finalmente em 2003. Nós só soubemos de Patrick um ano depois, quando saiu o álbum «Lycanthropy». Eu corri a procurá-lo (onde o deveria encontrar mais certamente) mas ninguém ainda ouvira falar deste menino e músico de pouco mais de 20 anos. Nem mesmo pelo facto de o álbum estar na posição nº 39 dos discos do ano do jornal britânico New Musical Express. Que voltasse a procurar, disseram-me, e assim fiz... Foi preciso esperar mais um ano para que «Wind In The Wires» saísse e uns quantos portugueses, desses mais importantes, acordassem e tecessem desmesurados elogios ao segundo disco de Patrick. Papinha feita, as lojas de discos encheram-se de CDs de Patrick Wolf.
Mais um ano passou e há, agora, um novo álbum anunciado (prevê-se que chegue ao mercado apenas em Fevereiro de 2007), que deverá ter por título «The Magic Position». Diz-se que a 23 deste mês, «Wind In The Wires» estará nas lojas e, daí, todos nós voltaremos a sofrer de uma quanta licantropia. Com a emergência de bem acolher uma estrela pop agora já confirmada e reconhecida.