2006/12/31

adeus, 2006

Mais um ano e mais um balanço. O possível, de novo feito a dois e do que, como no ano passado, mais nos sensibilizou e marcou ao longo dos dias, das semanas, dos meses, das oportunidades: a cada um de nós em particular ou, quando a convergência o determinou, aos dois em conjunto que é sempre bem melhor. Esta volta a ser uma lista de escolhas discutíveis, mesmo até porque foi a que hoje especificamente nos apeteceu aprovar e divulgar neste gayfield. Não nos preocupou estar in ou estar out dos gostos massificados, nem é nossa intenção demonstrar seja o que for (habituados a estar "out" num país em que o que conta é estar "in" — e em ambos os casos as aspas estão com profundo propósito —, escolhemos o que nos deu mais prazer, mesmo que os outros achem a escolha démodée ou inadequada. Com um propósito bem diferente, inverso e invertido, que nos reencontremos já aqui ou onde nos der mais jeito:

  • cinema: «O Segredo de Brokeback Mountain» Ang Lee (2=)
  • concertos: «Music For 18 Musicians + Daniel Variations» Steve Reich and Musicians & Synergy Vocals (2=)
  • discos: «Stabat Mater» Bruno Coulais / «Winterreise» Franz Schubert (Peter Pears / Benjamin Britten)
  • dvds: «Pink Narcissus» James Bidgood / «Liza With a Z» Liza Minnelli & Bob Fosse
  • figuras: Mãe / Luís
  • internet: lavionrose.blogspot.com / www.thecoolhunter.net
  • livros: «Butt Book» Butt magazine / «Close Range» Annie Proulx
  • lojas: Por Vocação / ECI
  • momentos bons: o novo emprego Dele / o meu novo emprego
  • projectos: casa nova, vida nova / casa nova
Um grande 2007, para todos!...

sexualidade precoce em anthony goicolea

O artista plástico nova-iorquino de descendência cubana Anthony Goicolea nasceu em 1971. A fotografia, desenho, vídeo e instalação são os géneros principais em que se exprime artisticamente este homossexual que se formou pela Universidade da Geórgia. Androgenia e (homo) sexualidade precoce são constantes nos seus trabalhos que podem ser vistos regularmente nas galerias Postmasters (Nova Iorque) e Aurel Scheibler (Berlim). A alemã BMW atribuiu-lhe em 2005 o seu prémio de fotografia, o que mostra que a arte de Goicolea não está assim tão longe da dita normalidade. O seu trabalho desafia os padrões morais por introduzir um erotismo questionável, mas o seu grau de elaboração (que passa pela astuta escolha dos modelos, do vestuário, caracterização e pós-produção informática) obriga a uma apreciação positiva: muitos dos seus retratos são de si próprio, muito jovem em aparência apesar dos seus 35 anos de idade. A artista Cindy Sherman (ver aqui), com quem chegou a fazer várias exposições conjuntas, foi influenciada pelo trabalho de Goicolea, especialmente ao nível do uso extensivo de ferramentas de tratamento de imagem, do auto-retrato e da narrativa de temática sexual. Mas essa será talvez motivo para uma entrada em 2007. Um bom ano!

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/29

barahona possollo pós-expressionista

O pintor e desenhador Barahona Possollo é português e nasceu em Lisboa no ano de 1967. Foi licenciado pela Faculdade de Belas Artes dessa cidade, com a classificação de 18 valores, e entre 86 e 89 também frequentou o curso de arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Em 1988 participou pela primeira vez numa colectiva e em 1992 fez a sua primeira individual. Em 1995 leccionou como assistente convidado nas Belas Artes e colaborou pela primeira vez com os Correios de Portugal na produção de originais para a emissão de selos. Essa colaboração prolongou-se através dos anos, destacando-se a série de estampilhas comemorativa dos 500 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia. Aqui soubemos que a sua arte, onde se nota alguma influência expressionista, está a ser mostrada no Museu Nacional de História Natural (antigo edifício da Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica nº 58, Lisboa) e "só perde quem não pode mesmo fazer outra coisa senão perder". Ao lado está o óleo sobre tela que tem por título «D. Sebastião». É de 1992 e mede 140x140 cm.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/28

hergé, tintim por tintim

Poucos sabem quem foi Georges Rémi (1907-1983), mas já Hergé (correspondente a RG, as iniciais de "Rémi, Georges") não estará longe de associação imediata ao nome de Tintim, o jovem aventureiro que nos roubou muitas horas de sono com as suas reportagens pelos quatro cantos do mundo. Georges nasceu na Bélgica, mas foi do seu irmão Paul que veio a inspiração para a figura de Tintim, que seria vista pela primeira vez em 1929. Apesar de as aventuras de Tintim se terem popularizado com edições dos seus livros em mais de 40 línguas, Hergé esteve por detrás da criação de outras histórias em quadradinhos com figuras como Quike, Flupke, Jo, Zette e Jocko. Foi elogiado como um Walt Disney europeu e influenciou os mais importantes ilustradores, notadamente nas figuras de Asterix, Lucky Luke, ou Blake e Mortimer. Aos 50 anos de Tintim até Andy Warhol, na Nova Iorque de 1979, lhe realiza uma série de retratos-homenagem. Em 2007 vão completar-se os 100 anos sobre o nascimento do artista e o Centro Pompidou, em Paris, presta-lhe uma nova homenagem que vai até 19 de Fevereiro (ver aqui). Considerado sem discussão como um dos maiores artistas do século XX, o exterior do belo edifício desenhado pelos arquitectos Renzo Piano e Richard Rogers é agora adornado com uma tela gigante de 40 metros que convida a viajar no foguetão das fantasias de RG.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/23

boas festas



o natal com oliviero toscani

Mesmo quem não conhece o fotógrafo italiano Oliviero Toscani (1942) não pode dizer que não observou já uma ou duas das suas polémicas imagens publicitárias, pelo menos. Toscani fundou com o designer norte-americano Tibor Kalman, ainda nos anos 90, a revista Colors (que pode ser consultada aqui) e notabilizou-se como autor de muitas das mais famosas fotografias ligadas à marca Benetton (lembram-se da imagem do jovem sacerdote e da cândida freira que se beijavam apaixonadamente nos lábios; ou dos preservativos coloridos, ao tom das United Colors of Benetton; ou até dos três corações dissecados e identificados "white / black / yellow"?). Nos anos mais recentes foram as fotos que fez para a marca de moda Ra-Re (ao lado está uma delas) que mais se evidenciaram. Como no poema do Gedeão, também a discussão faz (ou deveria fazer) o mundo avançar e o trabalho deste fotógrafo promove-a a todo o instante. E eu creio que não é inocente a utilização neste período de Natal da composição exemplificada: por mais uma vez (e de forma não pouco polémica) a discussão do conceito de família volta a ter lugar. Para mim serve-me: este e o tradicional. Por isso também, umas Boas Festas para todos vós!

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/22

os nus de david romero

Há uns 2 anos, a altura em que começámos a decorar a nossa casa, procurámos investir em alguma boa arte que conseguíssemos adquirir. O trabalho de David Gremard Romero, homossexual mestiço de raças mexicana e norte-americana, foi alvo da nossa atenção. Ele nasceu na Califórnia e instalou-se em San Francisco, em 1996, com grandes ambições. Devido à sua raça e sexualidade cita o escritor negro e homossexual James Baldwin: "I feel like I've hit the jackpot". Diplomado com honra pelo Art Institute of San Francisco, a grande cidade gay encorajou David Romero, sem dúvida: a sua obra retrata sempre os seus amigos, os seus amantes, a si próprio. São imagens das suas relações pessoais, quotidianas, onde procura exprimir todas as experiências emocionais da sua vida. Para ele, um desenho ou uma pintura são "an object of intimacy far superior to any photograph" pois quando olha um desenho recorda sempre todos os detalhes do que lhe está ligado: o tempo, a conversa que decorria, a forma como sentia quem retratava, o seu próprio estado de espírito - "in an almost visceral way". Ao entrar no nosso quarto encontram-se na parede do fundo, ao lado da janela, dois belos nus de David Romero, ao estilo dos que se podem ver aqui.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/21

maravilhas capitais para a new 7 wonders

Vamos eleger as Novas 7 Maravilhas do mundo, revendo as escolhidas na Antiguidade: as pirâmides de Gizé, os jardins suspensos da Babilónia, a estátua de Zeus em Olímpia, o templo de Ártemis em Éfeso, o mausoléu de Halicarnasso, o colosso de Rodes e o farol de Alexandria. A primeira referência a esta escolha é feita num poema bimilenário de Antípatro de Sídon. No 3º milénio, a New 7 Wonders propõe-nos 21 maravilhas capitais: a acrópole de Atenas, na Grécia (1), Alhambra, em Espanha (2), as ruínas de Angkor, no Camboja (3), a basílica de Santa Sofia, na Turquia (4), o castelo de Neuschwanstein, na Alemanha (5), a pirâmide de Chichén Itzá, no México (6), o coliseu de Roma, em Itália, (7), o Cristo Redentor, no Brasil (8), a estátua da Liberdade, nos EUA (9), as estátuas da Ilha de Páscoa, no Chile (10), a Grande Muralha, na China (11), o Kremlin e a Praça Vermelha, na Rússia (12), Machu Picchu, no Peru (13), a Ópera de Sidney, na Austrália (14), Petra, na Jordânia (15), as pirâmides de Gizé, no Egipto (16), Stonehenge, no Reino Unido (17), o Taj Mahal, na Índia (18), o templo de Kiyomizu, no Japão (19), Tombouctou, no Mali (20) e a Torre Eiffel, em França (21). Vote-se aqui e depois veja-se a proclamação em Lisboa. "As maravilhas da Antiguidade pertencem ao passado e, à excepção das pirâmides do Egipto, nenhuma delas continua a existir", justificam. Eu votaria na Torre Eiffel!

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/20

a originalidade em ruth gwily

A israelita Ruth Gwily (Telavive, 1974) merece ser conhecida entre nós. Estudou na academia de arte e design Bezalel (Jerusalém) e, concluída a sua formação, trabalhou como ilustradora para diversos jornais e revistas. O seu estilo gráfico é simples e suave, rico em detalhe e imaginação, muito teatral nas suas próprias palavras, e é assim mesmo que ela se relaciona também com o mundo da banda desenhada e com o da pintura (a aguarela), onde podemos descobrir alguns dos seus mais brilhantes trabalhos (ao lado reproduz-se «Criminal Kids Practise Creative Writing, as Therapy», obra de 2006). É fascinante ainda a sua escolha da cor, desses tons esbatidos ou envelhecidos, muito bem integrados no desenho. Diz gostar do trabalho de Henry Darger, David Hockney, Frida Khalo e de outros artistas. Sobre a Arte, ou o futuro da arte, Ruth cita o designer David Carson, director gráfico da revista Ray Gun, e diz "everything has been done before, you are the only original thing you can offer to this world". No blogue Foggy Grizzly (aqui) pode ler-se uma entrevista com o seu depoimento.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/19

tu.

A Personalidade do Ano para a revista Time és Tu, ponto final. Tu, sim, Tu mesmo que agora nos lês neste blogue e mais uns quantos milhões de pessoas! A revista Time entende que todos nós, que fazemos da internet uma máquina viva de troca de informação, somos a Personalidade do Ano de 2006. Figuras como os presidentes da China, da Coreia do Norte e do Irão ficaram excluídas da escolha final (a não ser que eles próprios sejam também habituais utilizadores desta sociedade de informação). O prémio da Time existe desde 1927 e no ano passado foi atribuído a três personalidades que ajudaram grandiosamente no combate às doenças que afligem os povos do Terceiro Mundo: Bono, Bill Gates e a sua esposa Melinda. Mas agora, para a revista Time, as personalidades são anónimos como Tu e eu, e nós, que fazemos com que a democracia global funcione, algo a que eles chamam "new digital democracy": é tempo de criar um novo entendimento global, não de político para político, não de personalidade para personalidade, mas de cidadão para cidadão, de pessoa para pessoa - dizem. E nós estamos de acordo!

da paixão e de antonin artaud

«La Passion de Jeanne d'Arc» é um filme mudo realizado em 1928 por Carl Theodor Dreyer, que originalmente esteve para ser sonorizado. Num dos principais papéis, o de Jean Massieu, está o actor francês Antonin Artaud (na foto), mais conhecido como escritor. A obra de Artaud (1896-1948) é ampla em género compreendendo ainda, para além da escrita e da representação, o desenho. A sua vida singular foi marcada pela crítica estética e metafísica, pela deambulação e pela doença: em 1937 ele foi confundido com um louco, internado e transferido de manicómio em manicómio durante 9 anos. No hospital psiquiátrico de Rodez, onde permaneceu os últimos 3 anos de clausura, estabeleceu uma relação epistolar com o seu médico, que fez com que este reconhecesse o valor do doente-poeta. Estas cartas serviram para ancorar a sua consciência, moribunda pelos efeitos dos electrochoques - "que ninguém ignore os meus gritos de dor e que eles sejam ouvidos" - enquanto o conceito bilateral do Teatro da Crueldade germinava com «Le Théâtre et Son Double», uma das peças fundamentais da dramaturgia europeia do século XX. Artaud voltaria a contemplar a luz de Paris em 1946, dois anos antes da sua morte. É aí que realiza a emissão de rádio «Pour En Finir Avec Le Jugement de Dieu», que pode ser ouvida aqui.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/18

os ovos de manuel casimiro

Pintor sobretudo, mas também escultor, fotógrafo e cineasta, o português e portuense Manuel Casimiro nasceu em 1941, mas vive em França desde 1976. Os ovos são um elemento distinto e identificativo na sua obra: geralmente um círculo ovalado que se sobrepõe a uma imagem de base funcionando como elemento temático principal da obra. Essa, a obra, geralmente pintura de técnica mista, costuma ter duas componentes bastante distintas que se fundem pela arte do seu gesto: uma base clássica e universal (no exemplo ao lado, o «Projecto Bandeira Nacional», é a bandeira de Portugal) e um elemento sobreposto (os elementares ovos a que me referi). Pode-se descobrir um outro exemplo do seu belo trabalho aqui («Édipo Explicando o Enigma, Intervenção em Uma Imagem de Ingres»). Como se vê, somos assim levados porventura a uma leitura impensada e autónoma da imagem de fundo, dos espaços, das narrativas de base, que se transformaram pela sua pintura intervencionada em algo subvertido, dissonante, independente e actual. A primeira retrospectiva da obra de Manuel Casimiro foi apresentada em Serralves há apenas 10 anos, em 1996. Presentemente o artista vive e trabalha em Nice.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/16

malas flores

Tenho em mãos o número mais recente da revista espanhola Zero, que recebemos mensalmente por subscrição desde há quase um ano. Na página 18, a abrir a secção «Cartas//», uma de David Terrones, sob o título «Camino Santo» chama a minha atenção. Conta ele que decidiu planear umas pequenas férias com o seu companheiro e, para cumprir um antigo desejo de ambos, decidiram fazer o famosíssimo Caminho de Santiago. Diz-nos que os primeiros dias da viagem foram divertidos, até ao momento em que atingiram o que chamaram "España profunda". "Una noche, hartos de oír ronquidos por todas partes y de comer menús de peregrino" decidiram separar-se do grupo e procurar um hotel. Queriam dormir como um casal, numa cama de casal, "pero ya se sabe: malas caras y excusas por todos lados". Adiante, após algumas novas tentativas infrutíferas e olhares homófobos pelo caminho, chegaram a Leão. Dirigiram-se a um hotel (que identificam na carta), onde um deles havia previamente feito a marcação de um quarto com cama de casal. Mas à chegada, o gerente olhou-os de cima a baixo e disse haver um problema "(sabíamos que el problema éramos nosotros)" e deu-lhes como solução um quarto duplo. Foi neste ponto que eu reflecti sobre uma experiência semelhante que nós tivemos há quase uma meia dúzia de anos, em pleno Douro vinhateiro. Também nós decidimos fazer umas pequenas férias, não numa marcha ao túmulo de um santo, mas antes ao berço do nosso vinho maior. Recomendaram-nos um hotel rural, telefonei, fiz uma marcação para quarto com cama de casal, nunca disse quem me acompanharia (ninguém o faz, porquê haveria eu de o fazer?) e, à chegada: "desculpem mas há um problema, porque estamos em obras e não temos quartos com cama de casal disponíveis, só se ficarem num quarto duplo, pois com duas camas, etc, etc". A figura do tipo, do recepcionista? Um gajo mais novo que nós, filho da dona da casa, armado em esperto numa terra de cegos (essa conclusão veio da observação do cavalheiro, nos dias seguintes). Só que aqui o cego era ele, mais ninguém. A mãe, dona do hotel, desfez-se em simpatias connosco, nomeadamente durante os jantares que fazíamos no restaurante, e insistiu muito para que recomendássemos a casa aos nossos amigos. Perante a simpatia dela não pudemos dizer que não, mas devido à inaceitável atitude do filho (e futuro dono, certamente), claro que não o poderíamos fazer. O hotel não o vou identificar pelo nome, mas posso provar que lá estivemos e, por isso, posso até apresentar uma queixa ou reclamação que vai sempre a tempo de provocar estragos. Não o quero fazer, no entanto. Isto basta. A imagem, para quem o conheça, é suficiente. Malas flores...

2006/12/15

la netrebko

Um dia, estava eu descontraído a ver televisão, quando me detive no canal 2 da RTP para ver a transmissão de um concerto Prom. O maestro Gianandrea Noseda dirigia a orquestra filarmónica da BBC com um empenho e expressividade que me prenderam ao ecrã. Depois de finalizada uma peça de Dvorák, entra em palco uma jovem soprano que de imediato iluminou a cena: com uma beleza física que tinha correspondência na voz, e uma graça e confiança que talvez só a juventude permita, Anna Netrebko, numa série de três árias de Dvorák, Puccini e Bellini, conquistou-me incondicionalmente. Não tenho os conhecimentos de música necessários para avaliar a voz de Netrebko por comparação à das suas rivais (e suspeito que rivalidade é coisa que não falta neste meio), mas não lhe detecto mácula e duvido que o seu carisma tenha igual. Neste Natal a Netrebko lançou um novo disco na Deutsche Grammophon, para a qual grava em exclusivo. É o «Russian Album» dedicado ao repertório russo, onde não só acrescenta à doçura da sua voz a doçura da língua materna, como nos revela algumas das mais belas páginas da música russa, desta vez acompanhada pela orquestra do teatro Mariinsky, dirigida pela mão de Valery Gergiev — O maestro do momento. Esqueçam a Sofie Von Otter: se a ária de Tchaikovsky que abre o «Russian Album» e a canção de Rachmaninov que logo se lhe segue não os convencer de que encontraram a banda sonora para o vosso Natal, então não sei mesmo que mais vos diga.

joe phillips à procura do mr. right

Joe Phillips nasceu em Atlanta nos anos 60. Em miúdo recebeu um bloco de papel e marcadores que o levaram à arte: "that started my life long obsession with art". Vagueou com a família de cidade em cidade, até ao momento em que ingressou numa escola de artes criativas. A arte passou a ser então o seu alimento, o seu gesto e o seu sopro: "it was a veritable episode of «Fame»", esclarece. Eram os intensos anos 80 e nas suas vestes incomuns Joe mais parecia um músico da new wave. Com o irmão Lex descobriu a BD, e os super-heróis Flash e Lanterna Verde. Procura trabalho nesse mercado e consegue-o, chegando à famosa DC Comics. Para agradar a um público alargado, a sua criatividade tornava-se mais convencional. 15 anos depois cria o Gaijin Studio, em Atlanta, no qual esteve apenas 3 anos. Instala-se em casa e faz tudo para rentabilizar os seus projectos. Muda-se para S. Francisco, com o namorado e, após o fim dessa relação, para San Diego. Aí cria um negócio com orientação gay: o «JoeBoy Dress-me Magnets» e os calendários «Boys Will Be Boys» são dois exemplos do seu sucesso, que se mantém no presente. Mas apesar dos seus belos rapazes, ainda lhe falta descobrir o seu Mr. Right. Talvez aqui um dia se saiba :-)

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/14

underground art de paul middlewick

A arte underground de Paul Middlewick a que me refiro é literalmente arte dos subterrâneos, porque se encontra relacionada com o Metro de Londres (ou London Underground, na designação original). Foi em 1933 que Harry Beck criou o mapa do Metro que viria a tornar-se num ícone do design gráfico. Esse mapa foi actualizado ao longo dos anos, devido ao crescimento da rede londrina de metropolitano, mas ainda hoje mantém o seu traço original e com ele continua a servir os viajantes dos quatro cantos do mundo que utilizam a rede ferroviária urbana da capital britânica. Foi apenas há 17 anos atrás (praticamente ontem, tendo em conta que os mapas existem há já mais de 70) que o artista Paul Middlewick descobriu, ao programar uma viagem no Metro, que de um conjunto de linhas, estações e junções se obtinha o imprevisto desenho de um elefante. Como um desvendador de enigmas foi descobrindo ao longo dos anos mais e mais animais. Daí surgiu o projecto Animal On The Underground, que pode ser conhecido aqui. A imagem que escolhi para ilustrar esta entrada é de um veado, não de uma rena de S. Nicolau, apesar de o poder parecer. Quem possa que a procure no mapa do underground de Londres, que deve estar num frenesim, por esta época do ano.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/13

a morte segundo jacques-louis david

Em 1793 o pintor Jacques-Louis David (1748-1825, nasceu em Paris e morreu em Bruxelas) assinava o quadro «La Mort de Marat» (ou «Marat Assassiné»), que hoje se encontra na capital belga, exposto no Museu de Arte Moderna dos Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica. O retratado é Jean-Paul Marat, um jornalista revolucionário francês assassinado na sua própria casa por Charlotte Corday, uma jovem monárquica. Este óleo sobre tela de 165x128 cm é um dos meus eleitos entre toda a pintura universal. Nele é muito perturbante a forma nobre mas desprotegida como a vítima se volta na direcção do observador (homicida, pintor, espectador). Há uma morte quente, ainda, que se depreende da postura descontraída, dos objectos suspensos, da pena numa mão e do bilhete escrito na outra. E o verde do fundo que vai sendo tomado pelo negro profundo que cresce à sua volta. Há também o sangue que escorre, a faca ensanguentada, abandonada, e a mensagem do pintor sobre o naco de madeira: "À MARAT / DAVID / L'AN-DEUX". Os detalhes sobre o quadro estão aqui. Da Morte sabe-se menos, muito menos, e está-se sempre a aprender.

Importado do blogue l'avion rose

20061213

2006 Dezembro 13, dia de festa. Porque ele existe e eu o amo. Muito. Porque faz anos, hoje. O meu menino desta vida comum desde há 20 anos. Porque ele é o centro da minha vida. Porque o adoro. Porque ainda não aprendi a viver sozinho. Sem ele. Porque o desejo comigo todos os dias, para que o possa sentir e amar mais e mais. Para o amar mais e mais ser amado. Para que cada dia seja partilhado o mais intensamente possível, vezes sem conta, como que nunca tenham fim. Para comemorarmos juntos, muitas vezes, os trezes de dezembro(s). Para que o mundo seja melhor, porque o mundo connosco juntos só pode ser melhor. Para eu estar presente, tu estares presente, mais presentes. Para se ser presente. Para se dar presentes, como um que tenho para ti e que te darei mais logo. Eu espero que o tempo passe, que o dia passe. Que seja feliz, que sejas feliz. Muito. Parabéns, meu querido! (A imagem é da fotógrafa turca Bennu Gerede.)

2006/12/12

amor e sexo por daniel j. skråmestø

Gostava de saber se o português Daniel J. Skråmestø (1973) é mais conhecido pelos seus quadros ou pela sua escrita. Mas tal não é também tão importante assim... Três anos já passados sobre a sua primeira impressão comercial, o livro «Olhos de Cão» editado pela D. Quixote em 2003, «Pequenas Histórias de Amor e Sexo» vem à luz do dia neste final de 2006. Desta vez em edição de autor, convém dizê-lo para o tornar mais especial, mas que se pode encontrar à venda no site Lulu.com em três versões ao gosto do freguês: para download (US$ 2.50), em formato impresso ilustrado a preto-e-branco (US$ 9.11) ou, numa variante acabada de surgir, a versão alargada e ilustrada a cores, que visa servir os apreciadores mais entusiastas das fotografias que o escritor também pinta (US$ 32.28). A pintura de Daniel J. Skråmestø é já uma referência internacional nos meios dedicados à arte gay, e mesmo a sua escrita começa a ultrapassar as nossas fronteiras. O autor vive em Lisboa e o seu novo livro contém sete contos e alguns poemas. Aqui poderão recolher mais alguma informação pela voz do autor, que é também responsável pelo blogue O Mal dos Livros.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/11

alison jackson: o principezinho vai nu

Nasceu em 1960. Alison Jackson, a fotógrafa inglesa conhecida pelos seus falsos instantâneos detalhadamente elaborados. Não a conhecem? São famosas as suas fotografias da rainha Elisabeth II, do primeiro-ministro Tony Blair, do principezinho William, da super-princesa Diana (de boa memória), ou do presidente George W. Bush (o mesmo não se dirá). Começou como escultora e foi mesmo premiada como tal pelo Chelsea College of Art. Só depois se virou para os banhos de prata (refiro-me aos banhos da fotografia) ingressando no também londrino Royal College of Art. A sua popularidade atingiu um pico em 1999 com a exposição de "retratos de família" da princesa Diana e Dodi Al-Fayed. A fotógrafa usou para tal sócias das personalidades visadas, compondo imagens convincentes mas altamente improváveis, como era já seu costume. A artista, de origem aristocrática, vive actualmente numa sumptuosa mansão de uma das ruas mais faustosas do bairro de Chelsea. Faz TV desde 2001 (primeiro para a BBC e agora para o Channel 4) e tem um livro editado em 2004 pela Penguin. Encontram-no aqui e, mesmo que não chegue a tempo deste Natal, a compra vale sempre a pena. Até porque, afinal, o principezinho vai nu.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/08

na barbearia de marc da cunha lopes

Há uma década atrás comprei uma máquina de cortar cabelo, para que o passasse a cortar em casa. Só muito recentemente é que consegui convencer o meu companheiro a fazê-lo também. Nestes dez anos que passaram poupei dinheiro que deu para pagar a máquina e, se o amealhasse, teria dado também para umas pequenas férias e, agora que somos dois a fazê-lo, a poupança duplicou. Mas esse nem é sequer o lado melhor da opção. Cortar o cabelo, um ao outro, tornou-se num fétiche sexual que faz com que as nossas cabeças andem sempre bem aparadas. Também Marc da Cunha Lopes encontrou nos cortes de cabelo um tema apelativo para as suas belas fotografias. Criativo como fotógrafo de arte, moda e publicidade, trabalhou para nomes famosos como a Sony Playstation, a Pink TV, ou as revistas Wich, Anthem e PrefMag (que pode ser apreciada aqui). Cunha Lopes é inequivocamente um artista de origem lusófona que vive em França, como se pode ver pelo contacto do seu site. Sobre ele esperamos no futuro poder acrescentar algo mais. Por cá teremos novo corte de cabelo neste fim-de-semana e, para além das actividades habituais, talvez aproveitemos a inspiração para também fazer fotografia.

Importado do blogue l'avion rose

a sagração

Tenho um interesse especial pela música contemporânea que, como acontece com as artes plásticas, parece despertar em muita gente a mais viva desconfiança. E porque carga de água haveria eu de me interessar por um Alban Berg (que, diga-se de passagem é já um clássico) quando o Verdi me passa ao lado? Há gente maliciosa que acredita que é por pretensão mas, tal como a água benta, digo em minha defesa que dela tomo muito pouco. Fascina-me a dissonância, talvez, um certo espírito de defesa da diferença e a ambiguidade implícita na dicotomia clássico/contemporâneo. Por uma qualquer razão que desconheço, as pessoas parecem aceitar melhor, apesar de tudo, a contemporaneidade na arte (plástica) do que na música, mas as razões para isso, das neurológicas às culturais, são demasiado complexas para aqui e para mim. Há duas peças fundadoras em particular que me apaixonaram e introduziram no mundo da música moderna: o «Pierrot Lunaire» de Schoenberg (que a Sociedade Porto 2001 não deixou que eu visse o Pierre Boulez a dirigir) e a «Sagração da Primavera» de Stravinsky. Esta última, obra prima incontestada da música do século XX, que enfureceu o público na sua estreia, vai ser apresentada em concerto na Casa da Música pela Orquestra Nacional do Porto, no dia 16 às 21h00, em conjunto com obras de Richard Strauss e Sofia Gubaidulina. Recomendo (passo a pretensão) vivamente a compra de um bilhete, e se a música não for motivação suficiente, há ainda a razão filantrópica de última hora, porque a Casa da Música resolveu oferecer o concerto à Abraço.

2006/12/07

flipbooks ao estilo de scott blake

Scott Blake nasceu em 1976 em Tampa, na Florida, vivendo actualmente em Omaha, no Nebraska. Ao aproximar-se a chegada do ano 2000 anunciava-se por todo o lado a iminência de um ímpar problema informático, um Apocalipse digno das melhores novelas de ficção científica. Na jovialidade e criatividade dos seus 24 anos, ele lembrou-se de recorrer ao programa Photoshop e começar a conceber uma imagem nunca imaginada de Jesus. O Cristo da salvação era assim convocado à problemática da passagem do milénio, compondo o retrato apenas com vulgares códigos de barras produzidos no seu próprio computador. O bug está hoje mais que ultrapassado e esquecido, mas a obra deste artista inovador continua a ser produzida e lembrada. Por todo o mundo o seu trabalho tem merecido admiração, sendo exibido em galerias de arte, vendido em lojas ou por via postal e disponibilizado na internet. Entre as suas mais recentes criações está um flipbook sobre o 11 de Setembro. E um kit para produzir em computador livros com pequenas sequências animadas (flipbooks) ao gosto de cada um: encontram-no aqui, à disposição de todos, propiciando aos mais habilidosos e criativos um interessante presente de Natal, ou uma experiência invulgar.

Importado do blogue l'avion rose

stonewall over the rainbow

«Over The Rainbow» está intimamente ligada à discoteca Stonewall (na foto), de Nova Iorque. A sua clientela era maioritariamente gay e underground. Estávamos em 1969 em Greenwich Village e, lá dentro, na noite que antecedeu a madrugada de 28 de Junho, «Somewhere Over The Rainbow» ouvia-se pela voz da diva Judy Garland. Todo esse tipo de figuras que povoa o celulóide de Andy Warhol e Paul Morrissey dançava, bebia, beijava e convivia. Uma rusga policial entrou pelo estabelecimento dentro, fechou as saídas e deteve homens e mulheres identificados como homossexuais, bissexuais ou transexuais. Um quarto de hora depois a polícia anunciava que deixaria sair quem tivesse consigo identificação pessoal. Detidos ainda ficaram, no entanto, não só os que não puderam identificar-se como também todos os transexuais. Apesar disso, os clientes revoltaram-se contra a autoridade e alguns conseguiram mesmo escapar-se para o exterior. Ao longo da madrugada, a polícia foi libertando alguns dos detidos, que depois se juntavam à crescente multidão que se juntava no exterior. A situação acabou por explodir e fazer de Stonewall a primeira batalha política pela igualdade nos direitos entre todos, indistintamente do género sexual. LGTB é a sigla que nos dias de hoje abarca os géneros não heterossexuais que lutam pela igualdade e universalidade dos direitos civis. Stonewall sobrevive na memória histórica do século XX, «Somewhere Over The Rainbow» continua a ser o seu hino e, talvez por isso mesmo, o artista Gilbert Baker fez no ano seguinte, com esse mesmo arco-íris, a bandeira que foi usada pela primeira vez no Gay Pride de San Francisco e sob a qual hoje todos desfilamos quando ousamos reivindicar os nossos direitos.

2006/12/06

lonsam, artista erótico japonês

A arte erótica deve ser encarada como o resultado da conjunção harmoniosa de um par de valores: o erotismo e a arte. Quer um, quer outra, apelam de diferentes maneiras a cada um dos observadores: para uns a arte tem que obedecer a determinados padrões, mas para outros não; para uns o erotismo deve circunscrever-se a determinados limites, outros preferem que os limites sejam infringidos e alargados. Descobri-o aqui e o seu trabalho pareceu-me suficientemente interessante para que fosse divulgado, mesmo quando quase nada se sabe do seu autor. Como muitos outros artistas, felizmente, LonSam é um desses criadores obscuros que nos arrebatam de alguma maneira. O seu trabalho reflecte as fantasias (homo) sexuais de um japonês entregue à cultura do seu país. Foram poucas mais que 30 as imagens de LonSam que descobrimos mas por elas podemos ver que é um artista preocupado com um ideal de perfeição e com o detalhe. O resultado são essas belas ilustrações muito explícitas e provocantes, elaboradas sobre fotografias da sua própria autoria, que em pleno exaltam um erotismo menos convencional. Também por isso esperamos mais, num destes dias.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/05

os narcisos de duane michals

O Narciso da parábola do poeta poderia ser o modelo desta bela foto de Duane Michals... O fotógrafo nasceu em 1932 numa família operária da Pensilvânia. A arte começa a dominar os seus interesses aos 14 anos, altura em que frequenta um seminário de aguarela no Instituto Carnegie, em Pittsburgh. Meia dúzia de anos depois decide investir a sua bolsa de estudo numa carreira virada para as belas-artes e em especial para o surrealismo de Magritte, Chirico e Balthus. O design gráfico seria o passo seguinte e a partir de 1956 frequenta a Parsons School of Design, em Nova Iorque, mas só por um ano. Sai para seguir carreira em artes gráficas e publicidade e, por essa via, é levado a uma visita de 3 semanas à União Soviética, em consequência da qual sente uma atracção especial pela experiência fotográfica. Autodidacta e criativo absoluto, nas suas viagens faz invulgares retratos das pessoas com quem se envolve. Nunca visto como um verdadeiro fotógrafo pelos seus modelos é talvez por isso, também, que as suas fotos revelam simplicidade e verdade. Sem nunca ter montado um estúdio, Duane Michals vive da fotografia desde 1969. Na sua obra predominam as sequências fotográficas que contam alguma história, onde acrescenta por vezes um pequeno texto que integra o conjunto. O seu livro «Salute, Walt Whitman», a que se refere aqui, é uma obra a descobrir.

Importado do blogue l'avion rose

2006/12/04

francis bacon e a repulsa do belo

Há um par de anos ouvi de um amigo algo que não esperava: que a pintura de Francis Bacon faz jus ao seu nome, porque mais parece a retratação de pedaços de carne num talho. Francis Bacon (1909-1992) foi um dos mais inovadores artistas plásticos britânicos da segunda metade do século XX. Nasceu na irlandesa Dublin de Joyce e Wilde, e também ele se dedicou em muito a analisar e interpretar temas polémicos como a sexualidade, a religião, a transgressão do sagrado. A sua primeira exposição aconteceu em 1945, mas nessa época era só de paz que se queria falar. Corpos mutilados, cores carregadas e intensas, traços arrastados, esmagados, caracterizavam a sua obra e tal não era oportuno no momento. Então, como hoje, aqueles quadros provocavam repulsa. Mas a obra deste artista merece sem dúvida ser reencontrada e repensada. Quando tudo à nossa volta perde o sentido no seu mais elevado expoente de beleza tradicional, estes quadros deixam-nos olhar de novo para a pintura. Fazem-nos regressar a uma distância prudente. Dialogar em silêncio, reencontrar-nos com o além e inatingível, como comuns mortais. A imagem é do tríptico «Three Studies For a Crucifixion», que se encontra aqui.

Importado do blogue l'avion rose