2008/02/28

ingrid, ingrid!


Foi descoberta por Rainer Werner Fassbinder num teatro de variedades, e nem sequer vão muitos anos que também nós descobrimos, vimos, ouvimos e até conversámos com Ingrid Caven na sua passagem pelo Rivoli, no Porto, quando se apresentou ao vivo com o pianista Peer Raben num concerto inesquecível. Recordamos a sua voz doce e cavernosa, os seus trejeitos elaborados, a ponderação teatral aplicada a todo o tempo, a confluência em cada momento do cómico e do trágico, numa forma grandiosa, inovadora e surpreendente. «Chambre 1050» foi o disco dessa época, do ano 2000, e é uma sugestão para quem descubra interesse na amostra apresentada no vídeo.

2008/02/21

um top 30

Foi sem grande hesitação que acatei o pedido do Special K (ver no título) que me desafiou para apresentar uma lista da música que mais me tocou ao longo da vida. Pensei em fazer uma espécie de Top 10, que logo vi que teria que alargar para 20, mas que no final ficou em 30 e com muito disco relevante de fora. Estou a lembrar-me de alguns, mas vamos analisar a lista que proponho que nos levará de certeza a outras associações:

(Anos 60)
1) 1967: The Velvet Underground & Nico: «The Velvet Underground & Nico», tinha eu 6 anos e nesse tempo quase não me lembro de ter dado atenção à música. Mas este é o ovo de tudo o que me interessaria ao longo das décadas seguintes, em particular o artista Andy Warhol, a modelo-cantora Nico, e os músicos John Cale e Lou Reed;

(Anos 70)
2) 1973: Pink Floyd: «The Dark Side Of The Moon», um ano antes da revolução, é um dos discos mais intemporais e que mais valorizei nesse tempo em que se gravava para cassete dos vinis de outros miúdos, e onde incluiria os bem sonantes Supertramp, o épico Rick Wakeman, os poéticos The Doors, o excêntrico Elton John, ou os incomparaveis Genesis ainda de Peter Gabriel ou, tardiamente, The Who de «Quadrophenia»;
3) 1977: David Bowie: «Low», nos meus 16 anos, rebenta com todas as tradições e torna-se num disco de referência por um músico de referência, numa parceria dourada com Brian Eno, ex-teclista dos Roxy Music, que vem atiçar um gosto por derivados futuros que incluiriam os Japan como principal referência;

(Anos 80)
4) 1980: Young Marble Giants: «Colossal Youth» abre os anos 80, as hostilidades com os companheiros musicais que não saem do passado, e lança laços fortes com os arrojados companheiros que vão chegando, à procura de novas referências, sem passado, com futuro;
5) 1981: Soft Cell: «Non-Stop Erotic Cabaret» acontece quando chego aos 20 anos de idade e é só «Tainted Love» inconfessado, explosivo e activo, deixando uma marca que me leva a acompanhar o trabalho vindouro da dupla e em especial o de Marc Almond;
6) 1982: GNR: «Independança» terá sido o meu «Ar De Rock» porque era deste som urbano e inovador que eu andava à procura, e que me levou a interessar-me por nomes adjacentes como os Heróis do Mar, António Variações, Rádio Macau, Mler Ife Dada, Pop Dell'Arte, Essa Entente, Linha Geral, Xutos & Pontapés;
7) 1982: John Cale: «Music For A New Society» marca nesse ano a relevância de John Cale fora dos Velvet Underground, ficando como um marco na capacidade de renovação e de inovação, influenciando escutas transversais como Talking Heads, Ramones, The Fall, Squeeze e Happy Mondays;
8) 1983: Echo & The Bunnymen: «Porcupine» é apenas um dos muitos excelentes discos do grupo, podendo colocar ao lado nomes como Bauhaus, Virgin Prunes, Gene Loves Jezebel, The Sound, Magazine, Modern English, Cocteau Twins, X-mal Deutschland;
9) 1983: Psychic TV: «Dreams Less Sweet» foi um disco avançado para o seu tempo, uma mistura de experimentalismo puro, de misticismo apócrifo e de revelação, com muitas antecipações do que a música viria a ser nos anos que se seguiriam. Numa outra onda, mas logo ali ao lado, estavam os Crass;
10) 1983: The Durutti Column: «Amigos Em Portugal» é o mais belo disco de música estrangeira feito em Portugal, editado pela Fundação Atlântica que marcaria a sua chancela nos primeiros discos de um punhado de novas propostas portuguesas;
11) 1984: Bronski Beat: «The Age Of Consent» chegou-me à vista pelas mãos de um colega de estudos, dizendo sem pudor que era "um disco de paneleiros" e isso trouxe-me aonde estou hoje (num blogue de paneleiros sem complexos);
12) 1984: Dali's Car: «The Waking Hour» junta duas figuras marcantes na música que eu ouvia na época (Peter Murphy dos Bauhaus e Mike Karn dos Japan), num disco quase esquecido, que nesse tempo era um catalisador constante de cada fim de dia de trabalho;
13) 1984: David Sylvian: «Brilliant Trees» é a estreia do belo vocalista dos já extintos Japan, afirmando uma voz doce numa música envolvente, que por seu lado me levaria a escutar Ryuichi Sakamoto, depois Philip Glass, Michael Nyman, Leonard Cohen e também os Style Council do ex-Jam Paul Weller;
14) 1984: Sétima Legião: «A Um Deus Desconhecido» é a sequela lógica ao single «Glória», ficando como a primeira colheita de muitas que se esperaram e seguiram;
15) 1984: The Smiths :«Hatful Of Hollow» tocou-me muito (se bem que o álbum anterior com que se estrearam não o tenha feito da primeira vez que o ouvi) e ficou um pacto para sempre vindo das guitarras de Johnny Marr, da poética sublime escrita e cantada por Morrissey e da referência constante a Oscar Wilde, apenas distraída por algumas intervenções assinaláveis de grupos como The Felt, Aztec Camera, Housemartins ou Madness;
16) 1985: Robert Wyatt: «Old Rottenhat» é um dos discos mais simbólicos do baterista dos ex-Soft Machine (nome pilhado a William S. Burroughs), que inclui a faixa «East Timor» e vai fazendo referências a Portugal em mais um par de álbuns, sempre não-alinhados e fascinantes;
17) 1985: The Cure: «The Head On The Door» saiu quando eu estava de passagem por Paris e ficou-me essa ligação, assim como a associação admitida em entrevista entre um dos temas do disco e uma marca de vinho do Porto;
18) 1986: Communards: «Communards» é o regresso em duo de Jimmy Sommerville que deixara os Bronski Beat e nos trouxe um álbum cheio de belas canções, entre elas «So Cold The Night» que foi um hino nosso no início da nossa relação a dois;
19) 1986: Vários: «Divergências» é uma belíssima antologia de nova música portuguesa, fruto da editora Ama Romanta, que incluía mais um hino especial da nossa "luta": «La Feria» dos Essa Entente;
20) 1987: Pop Dell'Arte: «Free Pop» foi o primeiro álbum do grupo de João Peste, depois do êxito extraordinário do máxi-single que incluía «Querelle» e «Mai '86», enquanto por aí as bandas mais alternativas continuavam a defender um novo estatuto para a música moderna portuguesa;
21) 1987: Tones On Tail: «Night Music» é um disco de uma época, obscuro e sintético quanto baste, uma obra-prima com a assinatura do ex-Bauhaus Daniel Ash, com aliás também o foi o trabalho primeiro dos Love & Rockets;
22) 1988: Marc Almond: «The Stars We Are» inclui a voz de Nico, numa derradeira gravação antes do acidente que a vitimou mortalmente, mas é também o mais feliz álbum de Marc Almond, muito pop, muito produzido, muito Pierre et Gilles, enquanto Momus anda por perto, The The também, os Frankie Goes To Hoollywood, os Erasure, Depeche Mode e Pet Shop Boys;
23) 1989: Gavin Friday: «Each Man Kills The Thing He Loves» é Oscar Wilde, Jacques Brel e Bob Dylan muito bem revisitados pelo ex-companheiro de Bono e ex-vocalista dos Virgin Prunes de boa memória;

(Anos 90)
24) 1991: Coil: «Love's Secret Domain» entra pelos anos 90 com a sua mensagem de amor alucinado, marcada pela vertigem, pela entrega sem medida, pela música sem paralelo, pelo sonho;
25) 1991: The Ex & Tom Cora: «Scrabbling At The Lock» mostra o grupo punk holandês na companhia de um violoncelista extraordinário, fazendo com que a electricidade das guitarras e a energia da bateria se liguem numa espiral de som que nos prende e agita, mas é também uma porta para variantes criativas como Fred Frith, Heiner Goebbels, Arto Lindsay, até mesmo Caetano Veloso e Tom Zé;
26) 1993: Philip Glass & Allen Ginsberg: «Hydrogen Jukebox» é o fruto de uma colaboração essencial entre o compositor-músico e o escritor-declamador, e é a geração beat a inscrever marcas bem actuais na última década do século XX;
27) 1994: Chumbawamba: «Homophobia» é o disco mais marcante do grupo punk-pop-disco que descobri na minha segunda viagem a Londres, um par de anos antes, sendo provocante, alarmante, combatente e absolutamente cativante;
28) 1999: Brian Eno: «I Dormenti» é uma edição de autor da música para uma instalação de arte, devendo ser tocado em loop, incessantemente, na tradição da melhor musica ambiental (muzak, dizia-se noutros tempos) deste grande compositor e produtor. William Ørbit poderia estar aqui, ou Wendy Carlos, ou The Residents, ou os Negativland, ou Steven Brown;

(Recentes)
29) 2004: X-Wife: «Feeding The Machine» abre a discografia maior desta banda electro-punk do Porto, da qual espero novidades relevantes. Caso contrário volto a ouvir todos os discos de Alan Vega e dos Suicide;
30) 2006: Bruno Coulais: «Stabat Mater» fecha esta selecção de discos e referências discográficas essenciais. É possivelmente a obra maior de um compositor conhecido pela bandas-sonoras que assinou, num registo certamente bem diferente deste trabalho de música contemporânea que me marcou num par de momentos difíceis para cada um de nós e para as nossas mães.

Gostaria de ter referido ainda Laurie Anderson, Bel Canto, The Clash, Serge Gainsbourg, Martin L. Gore, In The Nursery, os Kraftwerk, Linha Geral, Madonna (via Gonçalo), Morrissey a solo, Jorge Palma, Pere Ubu, Pixies, Ramones, Sex Pistols, Sigur Rós, Siniestro Total, Patti Smith, Patrick Wolf e outros mais. Creio que não o fiz, mas o esforço foi grande e mesmo assim terá valido a pena!

2008/02/14

ao meu valentine

Hoje, assim que cheguei ao local de trabalho, a minha faladora colega perguntou-me se eu sabia qual a razão de se dizer que o Dia dos Namorados é dia de S. Valentim. Apanhado de surpresa, tentei dar-lhe uma resposta inspirada numa memória de fonte incerta, que acabei por vir confirmar à net. E estava certa, se bem que não me lembrasse de toda a história com o detalhe que encontrei e que partilho aqui convosco:
A coisa teve origem no século III, em consequência de um decreto do imperador Cláudio II (nascido por volta do ano de 214 DC e imperador apenas entre 268 e 270). Preocupado com a formação de um grande exército a nova lei proibia a realização de casamentos, acreditando-se que assim haveria maior disponibilidade dos jovens. Apesar desta proibição, o bispo romano Valentine continuou em segredo a celebrar casamentos. Mas foi descoberto e preso. Os jovens ocorreram ao local onde se encontrava preso e lançavam-lhe flores e mensagens. Entre eles estava uma jovem cega, filha do carcereiro, que se chamava Asterius. Com a ajuda secreta do pai conseguiu visitar Valentine e acabaram por se apaixonar. O bispo chegou a escrever-lhe uma carta assinada "do seu Valentine" (expressão que é hoje bem popular) e conta-se que a jovem Asterius recuperou milagrosamente a visão. Como seria de esperar numa história deste género, o bispo acabou por ser condenado à morte e foi decapitado. A 14 de Fevereiro!...
Para ilustrar esta peça com algo bem alegre e actual escolhi uma imagem ("The patron saint of young lovers, St. Valentine was beheaded by Romans in 269AD") da autoria de Brad Wilson. Podem vê-la e saber mais sobre o fotógrafo pela ligação acima. Mas atenção que no site de destino avisa: "!WARNING! that there's some nudity and sacrilegious stuff there". Apesar de todas as imagens terem temática religiosa, não se fiem na santidade canónica do jovem fotógrafo.
Hoje, eu, ao meu Valentine desejo um dia muito feliz :-)

2008/02/01

haja deus, que aja deus

Uma amiga mandou-nos a ligação para o seu blogue, que passa a constar da nossa lista de proximidade e da ronda que fazemos quase todos os dias. Não resistimos a comentar uma das entradas e a mostrar-vos aquilo em que nem queremos acreditar, embora pareça muito credível. Parece verdade, talvez seja verdade. Quem quiser que o confirme, quem desejar que o testemunhe. Este é um espaço aberto, gente!
Agora uma coisa é para nós clara: haja Deus, que aja Deus...