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2010/01/08
2010/01/02
2009/12/27
blake no jardim do amor
«Canções de Inocência e de Experiência» teve edição recente pela Assírio & Alvim. As ideias defendidas pelo artista britânico William Blake (1757-1827) no livro «Songs of Inoccence and Experience», de 1789, foram extraordinariamente arrojadas para o seu tempo e mantêm-se ainda hoje vivas e válidas, apesar da civilização ter progredido mais 200 anos. "Mostrando os Dois Estados Contrários da Alma Humana", este belo livro de poesia e gravura de Blake é uma das edições mais bonitas e mais interessantes do ano que se aproxima do fim. Da tradução de Jorge Vaz de Carvalho, transcrevo o poema que originalmente se intitulou «The Garden of Love» e que é uma defesa da naturalidade da sexualidade, contrariada pela posição repressiva da Igreja:Eu fui ao Jardim do Amor,
E vi o que nunca avistara:
Capela foi posta no meio,
Lá no verde onde eu brincara.
E os portões da Capela fechados,
E Não hás de. escrito sobre a porta;
Pois voltei ao Jardim do Amor,
Que tanta doce flor comporta;
E vi-o repleto de campas,
E lápides em vez de flores;
E Padres de preto, em rondas por perto,
E sarça a prender, meu gozo & querer.
2009/12/26
2009/10/15
retrato de inutilidades
Inspirei-me nas "100 inutilidades sobre mim" do blogue Farpas & Bitaites para um retrato de inutilidades sobre mim próprio. Aqui fica, à espera que mais alguém nos siga o exemplo:- Gosto de cinema de autor.
- Martini é o meu aperitivo preferido.
- Escolho viajar de avião por ser prático e acessível.
- Fiz um curso de observação de estrelas variáveis.
- Gosto de animais, desde que seja fora de casa.
- O medicamento que mais uso é o Ben-Uron.
- Quando o despertador toca eu levanto-me de imediato.
- Não costumo beber demais.
- Gosto de pimenta e piri-piri na comida.
- Gosto de sol e de praia.
- Gostava de estar só menos vezes.
- Não tenho tempo para ver todos os DVDs que compramos.
- Tive sexo gay regular ainda antes dos 10 anos, com outros miúdos.
- Gosto de comprar roupa com um bom desenho.
- O meu companheiro não me deixa cozinhar, para ser eu a lavar a louça.
- Eu (também) não roo as unhas.
- Gosto de assados e de grelhados, preferencialmente de peixe.
- Não gostei do filme "Jonas Que Terá 25 Anos No Ano 2000".
- Eu haveria de ser astronauta ou mergulhador.
- A relação com o meu companheiro dura desde 1986.
- Gosto de conhecer e descobrir novas cidades.
- Serei milionário quando achar um bilhete da lotaria premiado.
- Sou hiper-activo.
- O meu armário tem a porta aberta, mas eu continuo à porta.
- Gosto de viver no Porto.
- Aprendi a cortar o cabelo a mim próprio há 12 anos.
- Nos restaurantes escolho o que não como em casa.
- Fujo de neuróticos, como o diabo da cruz.
- Sou muito mais tímido, do que pareço.
- Adoro o cheiro de couro curtido.
- É um horror assistir à matança do porco.
- Só vejo futebol por um acto de patriotismo.
- Adoraria ir de férias e não ter de voltar.
- Não uso o telemóvel de uma forma banal, como se não tivesse custos.
- Gosto de homens já feitos mas ainda com um ar de juventude.
- Em pequeno, a minha cor favorita era a "de cenoura".
- Em criança às vezes fazia chichi na cama e tinha complexos com isso.
- Agitei a bandeira de um partido nas Legislativas de 2009.
- Fui contra a liberalização do aborto.
- Lembro-me muito bem das amizades especiais de há muito tempo.
- Provei uma francesinha e não gostei.
- Adormeço facilmente, mas durmo pouco.
- Bebo água quase como quem bebe leite ou toma um medicamento.
- Mordi uma criança em criança.
- Nasci e vivo no Porto, cresci por todo o lado, mas ainda não sei aonde vou morrer.
- No Verão gosto mais de gelados de água do que de leite.
- Não consigo passar um dia sem café.
- Gosto das flores na Primavera e do calor no Verão.
- O meu primeiro vinil foi "The Dark Side Of The Moon", mas ainda não o comprei em CD.
- Fumei durante muitos anos, mas deixei completamente há mais de cinco.
- Penso que se pode ser mais criativo com um pepino, do que com uma banana.
- Sou um bom fazedor de sopa.
- Pensei em ir viver para Espanha por mais de um par de vezes.
- A vida é um processo contínuo de aprendizagem.
- Eu tenho cócegas quando me contam uma boa anedota.
- Sou leão, sinto-me leão, não me envergonho de ser leão.
- Penso que detenho um conhecimento vasto, mas ainda não conheci Deus.
- Toda a vida ouvi dizer que estava mais magro, mas nunca desapareci.
- Quando estou em baixo preciso de dormir.
- Tenho respeito pelos outros e detesto quando me desrespeitam.
- Posso demorar a tomar uma decisão, mas depois sou firme até prova em contrário.
- Já fui assinante da Zero.
- Às vezes gostava de estalar os dedos na cara de alguém.
- Detesto música aos berros.
- Nunca comprei paloco a pensar que era bacalhau, mas um dia vou experimentar.
- Gosto de pão ainda quente com manteiga.
- Controlo o meu consumo de álcool quando vou conduzir.
- Gostava de jogar alguma espécie de strip poker, mas nunca aconteceu.
- Tenho um afilhado lindo, de quem tenho sempre muitas saudades.
- Gosto de artes plásticas, especialmente de arte contemporânea.
- Passo pelo menos metade do fim-de-semana a trabalhar.
- Prefiro receber em casa, do que acompanhar ao restaurante.
- Acho que nunca experimentei com um Óscar.
- Durmo com uma almofada debaixo da cabeça e outra ao lado da minha.
- Vivo com o meu companheiro já vai para três anos, mas há uma vida em comum há mais de vinte.
- "A Minha Bela Lavandaria" é talvez o filme da minha vida.
- Politicamente sou ambidestro, mas só em caso de necessidade.
- Detesto sopas frias e comidas com natas ou afins.
- Gosto de me rir com os meus amigos.
- Gosto do modelo da garrafa do licor Malandrice.
- Não gosto de ver a sanita destapada.
- Parece que sempre fui um bom aluno, mas em criança era "distraído".
- Passo mais tempo ao computador do que deveria.
- Sou famoso pelo sentido de organização, mas às vezes deixo-me ir.
- Não acham que o Sherlock Holmes também era gay?
- Não consigo adormecer sem uma boa causa.
- Não tenciono provar caracóis.
- Prefiro as luzes frias às incandescentes.
- Já fumei cachimbo porque gostava do cheiro, mas desisti.
- Gosto de ler revistas masculinas gay. E não, nunca passo à frente as imagens.
- A estatuária religiosa também é arte.
- Entrei para o clube dos utilizadores de Havaianas pelo pé do Gonçalo.
- Serei duro de quebrar, ou darei para torcer?
- Actualmente e salvo excepção, família minha nem morto!
- Fui à tropa contrariado, mas gostei.
- Não gosto de jogar às cartas, excepto o tal póquer de que falava.
- Gosto de gémeos idênticos do sexo masculino.
- Detesto fazer uso de "download" (descarregar), "printar" (imprimir), "zipar" (comprimir) e de usar estrangeirismos desnecessários.
- Penso que casarei muito em breve com o meu companheiro.
- Este blogue não existiria se eu não fosse um homem feliz.
2009/10/14
morrer como um homem
"Morrer Como Um Homem", o novo filme de João Pedro Rodrigues, teve estreia nacional na abertura do 13º QueerLISBOA, a 18 de Setembro. Quase um mês depois (a 15 de Outubro) chega finalmente às salas comerciais, com a garantia de inconformismo e de qualidade que caracterizam o cinema deste realizador português."You were already here before entering, and you will remain after you have left". Quem arrisca, já a partir de amanhã?!...
2009/10/13
antónio variações em leilão
A 12 de Novembro vão a leilão, em Lisboa, 200 peças pessoais de António Variações (1944-1984). Há de tudo um pouco: fotografias, roupas, manuscritos das suas canções, retratos de Amália, dele, da sua família, chapéus, cassetes e um universo pessoal de fantasias que quase todos cobiçámos e queremos conhecer e sorver. A P4LiveAuctions organiza o leilão, que poderá ser seguido em directo pela internet. Acima há uma ligação ao catálogo completo, para que a cobiça cresça e faça a máquina funcionar. Quando a cobiça não tem juízo, a carteira é que paga. Mas o António acrescentaria "deix'a pagar, deix'a pagar, se tu estás a gostar"...
2009/10/05
dolce & gabbana no. 6
Estes dias, todos os dias, quando vou trabalhar, no passo fadado e enfadado com que me dirijo ao local, passo por uma multitude de posters em que os corpos que ilustram a campanha para a colecção de novos perfumes da Dolce & Gabbana são reproduzidos em tamanho supernatural. Este "No. 6 L'Amoureux" conquistou a minha preferência, e anima-me no princípio do dia... e o perfume também não é nada mau.
2009/08/19
serviço público
[Ligação no título e imagem ampliável com um clique.]
2009/08/16
2009/08/03
dois homens beijando-se (iv): o beijo do memorial
Este é o beijo que vêem as pessoas que visitam o Monumento Aos Homossexuais Perseguidos Pelos Nazis, em Berlim. Num bloco de betão com 4 metros de altura, os artistas Michael Elmgreen e Ingar Dragset (de que já aqui tínhamos falado) abriram uma pequena janela através da qual se pode espreitar estes dois homens beijando-se. Este memorial sublinha o carácter secretivo que as relações entre dois homens ou duas mulheres tinham que manter... e têm, a maior parte das vezes, que manter; mas, ao mesmo tempo, convida o espectador a ver o beijo de dois homens tal como é — belo e banal, como os outros. Mas o direito a beijar-se (ou dar as mãos ou trocar gestos de afecto) em público, no meio de outros direitos tão importantes entretanto já conquistados, teima em demorar. Demora porque não depende directamente de leis, depende da visibilidade e da habituação. E para que as pessoas se habituem é preciso que os homossexuais se mostrem e se beijem, como no memorial de Berlim. Talvez por isso, por medo que se crie habituação e liberdade, o monumento foi já vandalizado duas vezes (a última das quais em Dezembro do ano passado). O mesmo medo — e o mesmo ódio — terá vitimado ontem dois jovens israelitas num centro de apoio LGBT em Telavive. Só por um beijo, ou por algo de tão belo e banal como isso.[O vídeo do beijo do memorial de Berlim está nesta ligação ao YouTube e, por tempo limitado, mostra-se na coluna aqui ao lado.]
2009/07/30
para merce cunningham
Com um toque de ousadia, o blogue Wayne's Nude Musicians lembrou Merce Cunningham como "choreographer, an associate (perhaps, lover) of 20th century composer, John Cage" e fê-lo bem porque também nós tivemos esse pensamento, essa intuição! Cunningham nasceu a 16 de Abril de 1919 e faleceu a 26 de Julho de 2009. Da sua morte soubemos só no dia seguinte e foi em sua memória que de imediato colocámos na barra lateral o pequeno filme que reproduzimos abaixo e em que o víamos a dançar sobre música do amigo e compositor John Cage, esse reconhecidamente homossexual. A dança, a música, as artes plásticas giravam sobre si e à sua volta como um todo que precisa de acção e elevação para coexistir, para sobreviver mais além da banalidade, perdurar no tempo. Com ele partilharam momentos os artistas Jasper Johns, Roy Lichtenstein, Andy Warhol e Robert Rauschenberg. Nas suas coreografias usou a música de Cage, de David Tudor, Emmanuel Dimas Pimenta, Mikel Rouse e Gavin Bryars, mas também a dos Sonic Youth, dos Radiohead ou Sigur Rós. Talvez Merce Cunningham não seja ainda suficientemente conhecido, talvez lhe tenha faltado essa maior popularidade, esse "golpe de asa" de que falava o Mário de Sá-Carneiro mas que neste caso não poderia ser outra coisa senão a mera banalização a que sempre fugiu e que é a que hoje nos pisca o olho em quase todos os meios de informação.2009/07/28
2009/07/25
reviver o passado na costa brava
2009/07/22
dois homens beijando-se (ii): jónsi & alex
2009/07/01
terça-feira, 19 de janeiro de 1988
Café Müller é o título. Como música, algumas canções ou árias de óperas — não me lembro do nome da coreógrafa (é uma mulher). Numa sala cheia de cadeiras deambulam figuras sonâmbulas; um homem atarefado a afastar as cadeiras que se cruzam no caminho dos bailarinos que correm de uma ponta à outra do palco. Há uma mulher com ridícula cabeleira ruiva, ridículo sobretudo e sapatos de tacão alto; vai apressada, nervosa, intrometida e curiosa e depois tira a cabeleira, o sobretudo e os sapatos e executa movimentos que, seguramente, há muito sonhava ousar. As sonâmbulas, chocam lentas e pesarosas contra as paredes; uma tira a camisa... e passado um bocado um homem entra, como que louco, com ataques de... de loucura, e depois já está abraçado à que tinha tirado a camisa; mas um homem vem que não os quer assim, muda-lhes os gestos, as posições, mas os primeiros voltam à originalidade do quererem estar abraçados como querem; mas volta o outro e troca-os, e eles desfazem-se e a situação repete-se números sem conta, até que já não sabem como queriam estar. E entretanto a outra mulher (a que choca contra as paredes) roda na porta que roda, colocada ao fundo da cena. E a ruiva persegue um homem como ela e...[entrada de diário sobre a transmissão de Café Müller na RTP2]
Já tenho saudades da Pina Bausch.
2009/06/24
2009/06/15
campanha "no h8"
Como muitos já terão verificado, parece ter havido um ataque ao sítio que aloja as assinaturas dos subscritores do Movimento pela Igualdade (que já eram perto de 7000). Ignoro se esse ataque visava esta petição em particular ou outras que aí se fizessem e se as assinaturas se perderam ou podem ser recuperadas. Parece-me claro que, seja qual for o caso, as assinaturas ressurgirão. Por outro lado, este pequeno contratempo faz pensar numa certa urgência que existe de que o Movimento pela Igualdade adquira visibilidade e peso no curto período de campanha que existe até às legislativas, para que os partidos se confrontem uma vez mais com a questão, para que de novo se posicionem, para que o PS e José Sócrates reiterem a sua promessa de dar acesso a pessoas do mesmo sexo ao casamento civil. Gostaria de ver um só logótipo (já vi pelo menos dois), t-shirts, emblemas, cartazes ou anúncios — que tal abrir um jornal ou uma revista de grande circulação e ver anúncios com fotografias das personalidades-chave que generosamente deram o seu nome a esta campanha, com a frase, por exemplo, "José Saramago subscreve o Movimento pela Igualdade"! Não sei se é viável, se há dinheiro ou vontade, mas, para não perder o impulso do enorme passo que já se deu, seria importante fazer novas acções e não deixar esmorecer a questão. Nos EUA, um fotógrafo de celebridades, Adam Bouska, iniciou uma campanha que consiste em fotografar anónimos e conhecidos com uma t-shirt branca, fita isolante metalizada sobre a boca (simbolizando o silenciamento da voz), e o slogan "NO H8" pintado na cara (não à Preposition 8, que bane o casamento entre pessoas do mesmo sexo e, ao mesmo tempo um fonético "NO HATE" — não ao ódio). A campanha (ligação no título desta entrada), que conta já com mais de 600 fotos de subscritores, é visualmente muito eficaz e já teve a atenção de jornais e televisões. Não há como negar o poder das imagens para seduzir, informar e mobilizar. A exploração dos suportes visuais deveria ser a próxima etapa do Movimento pela Igualdade mas, mesmo tendo já dado a cara, a Ana Zanatti não pode fazer tudo sozinha.
2009/06/12
recém-casados
Nalguns países, Estados Unidos (ou parte deles) incluídos, podemos utilizar a expressão recém-casados para nos referirmos a dois homens ou duas mulheres que, em posição de igualdade perante a lei, o fez — casou. E é com essa expressão, mais exactamente «The Newlywed Gays», que o New York Times destaca em capa de revista de Abril do ano passado um longo artigo de Benoit Denizet-Lewis sobre as motivações e preparativos do casamento, bem como o acompanhamento dos primeiros tempos da vida de casal, de alguns jovens gay que decidiram dar o passo — casar! Ao longo do texto, e pelas entrevistas que são conduzidas aos protagonistas destas bodas alegres, revelam-se casos de longos noivados e outros de amor à primeira vista; festas de casamento com família, convidados e rituais, e simples registo civil; dúvidas e certezas; distribuição de tarefas domésticas; reacções de família e de pessoas no dia-a-dia; sucessos e divórcios... O artigo funde a familiaridade de situações a que estamos já habituados pelo convívio com casais heterossexuais com as novas realidades criadas pelo reconhecimento do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Podem ler o artigo seguindo a ligação no título desta entrada e, talvez, como aconteceu comigo, concluir que a legalização do casamento entre homossexuais é na verdade um pequeno mas urgente passo, perante tudo aquilo que fica pela frente, por fazer... E depois sonhar com os deliciosos quadros de felicidade conjugal com que Erwin Olaf parodia a América dos anos 50, nas fotografias que ilustram o texto.
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