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2005/12/13

o amor de longe

«L'Amour de Loin» , o DVD descoberto quase por acaso no escaparate de uma loja de discos, assinalará o nosso dia 13 de Dezembro...
A ver em breve, a dois, este é o registo da estreia em 2000 da primeira e aclamada ópera da compositora finlandesa Kaija Saariaho, baseada no mesmo texto de Amin Maalouf, um libanês que há 30 anos se tornou habitante de Paris e já teve livros traduzidos para 26 línguas.
Da música não haverá certamente muito que dizer porque Kaija é já uma figura de grande prestígio entre os compositores contemporâneos mais inovadores e a sua obra é já nossa conhecida, particularmente a que se inscreve no domínio da música electroacústica, na linha de Pierre Boulez.
Do texto pode dizer-se que é colorido e inspirado na vida de um jovem príncipe que foi um dos maiores trovadores do século XII. Jaufré Rudel (o príncipe-trovador) decidiu abandonar a vida desregrada que levava e dedicar-se à procura do amor da sua vida, um amor diferente dos que conhecera, especial, sublime. Sem o encontrar, vai constantemente compondo canções em seu louvor, num canto de esperança infinda. Os seus companheiros, em coro, rodeiam-no e tentam demonstrar-lhe que tal amor é impossível, que não existe, que não pode ter lugar. Mas Jaufré não perde nunca a esperança e vive do seu sonho de amor imaginado.
É um peregrino regressado das terras cristianizadas de além-mar que, um dia, traz a boa nova, descrevendo uma mulher fantástica que encontrou em Tripoli e que se deixou enamorar pela descrição do príncipe que lhe escrevia canções de amor.
Impulsivamente, o príncipe lança-se ao mar, à descoberta do seu "amor de longe", mas de tanta precipitação e falta de preparo para a viagem, acaba por adoecer no trajecto e chega já moribundo ao seu destino. Desesperado, o fiel peregrino que o acompanha vai ao encontro da mulher amada, a condessa Clémance, avisando-a da chegada do príncipe, que se encontra doente e quase já sem vida, pedindo-lhe que o receba imediatamente na cidadela. É por fim na presença da sua amada que Jaufré retoma aos poucos a consciência. E nos braços um do outro, prometem mutuamente que se amarão para todo o sempre.
Mas Jaufré morre e Clémance revolta-se contra os céus e contra si própria, por se considerar a responsável por tão trágico fim. Retira-se então para um convento e a última cena da ópera revela-a como religiosa, em oração. As palavras não são suficientemente perceptíveis para que possamos entender se na sua prece se dirige a um longínquo deus ou ao seu "amor de longe".
Uma nota extra para o colorido intenso e o forte impacto visual da mis-en-scéne, apesar do seu despojamento e simplicidade...
Muitos parabéns!

2005/12/02

super pop dell'arte

João Peste e os seus Pop Dell’Arte merecem os parabéns antecipados, pois terão editado, já a 9 de Janeiro próximo, uma nova antologia que revisita a matéria apresentada sem que, mesmo assim, seja motivo de redundância e desmotivação dos fãs.
Esta nova colecção de pérolas musicais (e poéticas, leia-se bem) olha ao para trás 20 anos completos de carreira e reescreve, como vem sendo hábito, o muito que ainda há-de vir na vida dos Pop Dell'Arte.
«POPlastik 1985-2005» incluirá 20 temas como os clássicos «Querelle», «Sonhos Pop», «My Funny Ana Lana», «Avanti Marinaio», «Poppa Mundi», «Mrs. Tyler», «2002», «So Goodnight» e «Illogik Plastic», mas também incluirá 3 temas inéditos e recentes: «(J'ai Oublié) All My Life», «Stranger Than Summertime» e «No Way Back». O disco terá por capa um pequeno anjo ferido por flechas, lembrando o martírio de S. Sebastião, que é um ícone do imaginário gay.
A antecipar o lançamento do álbum, os super Pop Dell’Arte vão estar em concerto no Lux (Lisboa), a 29 de Dezembro.

2005/11/30

lésbicas e crucifixos

Recentemente, já todos saberão, duas raparigas de um liceu de Vila Nova de Gaia foram repreendidas por namorarem à vista de quem as quisesse ver, tal como, sem terem de pensar duas vezes no assunto, o teriam feito namorados heterossexuais. A repreensão é obviamente homofóbica, tanto mais que agora a Constituição Portuguesa proíbe explicitamente a discriminação com base na orientação sexual. O conselho directivo da escola em questão, no entanto, achou por bem revelar aos pais de uma das raparigas (maior de idade e própria encarregada de educação) a homossexualidade da filha e, enquanto algum professor equiparava na sala de aulas a homossexualidade à toxicodependência, determinou que todas as demonstrações de afecto amoroso, homo e heterossexuais, seriam banidas da escola, no que mais não parece ser do que uma preconceituosa e injusta forma de contornar a lei. Infelizmente a sociedade portuguesa corre muito atrás da sua Constituição, e até alguns dos seus mais distintos arautos, como Miguel Sousa Tavares (não resisto a comentá-lo porque me surpreendeu), consideram que demonstração de afecto entre homossexuais é exibicionismo a que, como neste caso, as outras "crianças" de uma escola secundária não têm que estar expostas.
E a remoção dos crucifixos das paredes das escolas? A minha primeira reacção foi pensar: tolerem-se os crucifixos e quaisquer outros símbolos religiosos, tal como gostaria que se tolerassem as diferenças motivadas pela orientação sexual. Mas o problema, está claro, é que faz tanto sentido que a escola pendure os crucifixos nas paredes como, improvavelmente, que colasse posters de casais de lésbicas a beijarem-se. A escola pública não tem que impor padrões de comportamento, quer sejam sexuais ou religiosos, violando a diversidade salvaguardada pela lei, nem proibir que um alun@ leve um crucifixo ao peito enquanto passeia de mão dada com @ namorad@.
(Nota: a imagem, só para alindar, é da serie televisiva norte-americana «The L Word», conforme link no título deste post.)

2005/11/24

à espera do buda

O rapaz-Buda está lá há 6 meses, dizem, em meditação profunda — ouvi-o hoje na TV e já fui confirmar aos sites de notícias. E eu nem sequer duvido, já que essas coisas têm sempre uma base de verdade em que até dá para acreditar. Dizem também que não come nem bebe; que simplesmente está para ali, espiritualmente ligado ao além, num estado de transe que nem é lá, nem é cá.
Mas eu, cá, pus-me aqui a fazer as contas, para ver se valeria a pena fazer o mesmo. Concluí que certamente ficaria os 6 meses sem o meu ordenado, que não passaria o Natal em família mas que, se pudesse poupar na renda da casa, na alimentação, no seguro do carro que vou ter que pagar em Dezembro e numa porrada de presentes que a quadra e os aniversários de 6 meses de vida implicam… talvez valesse a pena.
Depois, melhor ainda, quando regressasse já teria o novo Presidente. Com sorte um novo Governo. Se calhasse mesmo bem até teria um novo País, que este também está a precisar de ir meditar para o Nepal...
Por lá o menino de 15 anos continua na sua e o povo atento em seu redor. À espera do Buda?!...

2005/11/19

amor causa

A nova campanha publicitária da Renova traz à memória os escândalos criados em torno das imagens polémicas de Oliviero Toscani para a Benetton: o tema escolhido pela empresa do papel-higiénico são as Bem-Aventuranças do Novo Testamento e, com efeito, as imagens foram já proibidas em França.
Eu nunca percebi porque é que a Benetton não podia fazer publicidade-política — parece-me que vender roupa com imagens bonitas e social e politicamente positivas é melhor do que vender roupas com imagens bonitas... só. Claro que compreendo os argumentos que condenam o compromisso comercial na mensagem "moral", mas as últimas décadas têm contribuído para revelar os mais variados esquemas (leia-se "compromissos") nas aparentemente mais isentas instituições e eu, mal por mal, prefiro o cinismo comercial perpetrado às claras ao que fica escondido por debaixo de espessas camadas de virtude... Adiante.
A campanha da Renova, intitulada «Amor Causa», é constituída por imagens belíssimas fotografadas na Rocinha, com habitantes da favela como modelos, que ilustram as Bem-Aventuranças através da sugestão de passos da vida de Jesus Cristo. Esta série de anúncios está associada à angariação de fundos para um projecto de intervenção social na Rocinha — a maior favela do Rio de Janeiro — nomeadamente através da venda de um livro contendo as imagens fotografadas por François Rousseau.
Eu acho a campanha muito bonita, socialmente relevante e moralmente pertinente. Preferiria que não tivesse um logótipo da Renova num canto? sim; mas já ninguém faz nada a troco de coisa nenhuma... a não ser, por exemplo, os jesuítas que realizam trabalho social naquelas paragens e que estão na base deste «Amor Causa» — bem-aventurados sejam.