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2007/12/12

okay, o civismo não deveria ser legislado

Li ontem num jornal um artigo de opinião sobre o consumo de tabaco a que não pude evitar este meu comentário. Começava por dizer nele Luísa Castel-Branco que "O tabaco faz mal. O tabaco mata." E prosseguia com comparações que eu até acho bem pouco relacionadas, como as gorduras em excesso, o sal em excesso, o álcool, a droga, a violência nas escolas, na noite, em casa... Mas até entendo aonde queria chegar. Afirmava ainda que "como fumadora, tenho consciência de que não se fuma num ambiente com pouco ar e com crianças, ou outras pessoas a quem o tabaco incomode", mas recusava-se "a aceitar este politicamente correcto importado..." e acrescentava que "talvez o Estado devesse olhar também para os fumadores como pessoas que necessitam de salas de chuto em vez de criminosos!"
Pois bem, nós até somos ex-fumadores. Nós até toleramos os fumadores e os fumadores reparam nisso. Nós até trabalhamos com patrões fumadores que simplesmente abusam porque são patrões. Nós até chegamos a casa a cheirar a tabaco, não porque o desejássemos. Nós até abrimos o guarda-fatos no dia seguinte e sentimos ainda e intensamente o cheiro do charuto do patrão do dia anterior. Nós até gostamos de tabaco, pois não deixámos de fumar porque não gostássemos de o fazer. Deixámos de fumar porque nos fazia mal, porque nos dava cabo do orçamento, porque fazia mal aos que estavam junto de nós. Deixámos por querermos e insistirmos nessa decisão, em não voltar a fumar. Okay que o civismo não deveria ser legislado. Okay, mas parece-me que é necessário. E duvido que seja suficiente. O que é pena, como noutras coisas também! Terei sido claro?...

2007/07/02

jay diers no anonimato de um motel

Às vezes quase nos sentimos mal pela quantidade de imagens de jovens que passam aqui (mesmo as clássicas, como o recente «S. João Baptista» de Caravaggio). Mas a juventude é de facto uma fonte inesgotável de beleza e, por mais que se goste de homens com algum músculo ou com qualquer outro atributo menos habitual nos juvenis, a juventude volta sempre e manda "para canto" qualquer um que já não a tem. Jay Diers é um fotógrafo norte-americano que sabe isso e usa-o. O chame da juventude está nas fotografias que nos apresenta. É isso que lhe interessa, é isso que o seduz, é isso que nos seduz. Mas não só, pois há nas suas imagens belos tratos de detalhe que fazem com que dele fique bem mais do que a simples imagem de um bom apreciador: ele é também um bom intérprete e um bom criador. Estes três são estágios diferentes que só um bom fotógrafo consegue alcançar em pleno. É o caso! Mais, de ânimo leve muitos pensariam que se defendia aqui o trabalho de um simples amador de rapazes e de fotografia, mas nesta ele é mesmo um profissional: fez imagem para a revistas Blue (da Austrália), Manner (da Alemanha) e, desde há pouco, para a Playgirl (esta pode dizer-se universal). Nas lojas da internet (essas normais e universais também) pode encontrar-se ainda Jay Diers em livro: «Visions» e «Raw Youth» são já seguidos por «A Night at The Motel», a nova edição que vem mostrar obra recente inspirada nas primeiras práticas sexuais fora de casa, no anonimato próprio de um motel.

Importado do blogue l'avion rose

2007/06/14

uma bandeira vermelha

Nas palavras de José Saramago, a esquerda "deixou de ser esquerda". O mais estranho nas recentes afirmações do Nobel da Literatura é, segundo o jornal Público, dizer também que não conhece "nada mais estúpido que a esquerda".
Para Saramago, bem conhecido pelo seu posicionamento histórico como militante do Partido Comunista Português, os governos estão a tornar-se "comissários do poder económico". Explicou que "o mundo é dirigido por organismos que não são democráticos, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio". Até "já não há governos socialistas, ainda que tenham esse nome os partidos que estão no poder", acrescentou como alusão aos executivos português e italiano.
Estas declarações terão sido proferidas na conferência «Lições e Mestres» que se realizou em Santillana del Mar (não muito longe de Santander, em Espanha) e confrontou as opiniões de Saramago com as de outros pensadores e escritores. "Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda". Para José Saramago é tempo de balanço e insubmissão: "estamos a chegar ao fim de uma civilização e aproximam-se tempos de obscuridade, o fascismo pode regressar; já não há muito tempo para mudar o mundo. (...) É altura de protestar, porque se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam e não fazemos nada por contestá-los, pode dizer-se que merecemos o que temos".
A notícia pode ser consultada na sua versão integral através do link neste título.

2007/06/09

rankin: visto e revisto

A diversidade de técnicas no trabalho do fotógrafo e cineasta britânico Rankin não permite classificá-lo de forma simples e universal. Os seus retratos tanto cobrem a reportagem de moda, como a sua interpretação do íntimo masculino ou feminino, da sensualidade, ou da nudez. Observando que a nudez feminina se tornou normal, com «Male Nudes» o fotógrafo tentou de alguma forma compensar essa diferença. O projecto tornou-se num livro apresentado em 2001 pela Universe Publishing, onde se pode ver o resultado de uma invulgar procura de modelos através dos anúncios pessoais da revista Time Out. Dessa forma, o fotógrafo chamou a si os modelos e com eles procurou um comum acordo para encontrar as poses ideais, os cenários, os acessórios que fariam a boa fotografia. Na diversidade e na banalidade das figuras, esses homens revelaram-se muito para além do seu universo, permitindo obter resultados divertidos, sensuais, arrojados e surpreendentes — como é afinal o normal nas fotografias de Rankin. A sua vida como fotógrafo começou nos anos 90 e na revista de artes Dazed & Confused, mas hoje ele é um dos artistas mais sonantes da fotografia britânica.

Importado do blogue l'avion rose

2007/05/31

ewoud broeksma: a têmpera da fotografia

O holandês Ewoud Broeksma (1957) começou a fotografar por volta dos seus 30 anos de idade e apenas se tornou conhecido no início dos anos 90 realizando ou dirigindo, de 1994 a 99, uma grande quantidade de fotografias de atletas para jornais e revistas da Holanda. Num estilo que lhe é próprio, sublinhou uma espécie de humor olímpico a cada um dos seus retratados. Mas esse humor está também presente quando os assuntos são outros: o Love Parade de Berlim, o Giro de Itália, ou os belos surfistas de Leça da Palmeira... Melhor ainda só mesmo aquelas fotografias voyeuristas de pessoas ora vestidas (primeiro), ora nuas (depois, como se mostram acima)... Explorem o seu site, porque há nele uma imensidão de belas fotos que vale a pena descobrir. Para os mais entusiasmados há ainda a possibilidade de adquirir uma colecção de fotografias em livro ou avulso, ou mesmo de contratar o fotógrafo. Ah: eu não gosto de Motörhead, mas gosto de ver o Tim nas fotografias. E a culpa é do temperamento do Ewoud... Não concordam?

Importado do blogue l'avion rose

2007/05/26

wyatting com robert wyatt

Robert Wyatt assinou há dias um novo contrato de edição com a Domino. «Comicopera» é o título provisório do novo álbum deste músico e cantor excepcional, que já foi o baterista dos Henry Cow, Matching Mole, Soft Machine e Wilde Flowers. A solo iniciou-se em 1970 com «The End of an Ear» e o seu último disco de originais foi «Cuckooland», lançado em 2003 pela Hannibal, que incluia colaborações de velhos amigos como Phil Manzanera, Brian Eno, David Gilmour, Karen Mantler e Annie Whitehead.
Recentemente Robert Wyatt serviu para baptizar uma nova expressão que define a acção de escolher e pôr a tocar em público, numa jukebox, discos ou temas que perturbem os outros frequentadores do mesmo espaço. A expressão criada foi "wyatting", tendo sido lançada por Carl Neville, um professor londrino de Inglês, de 36 anos de idade, e já por várias vezes foi usada em blogues e em revistas de música. O jornal The Guardian perguntou a Robert Wyatt o que achava disso e o músico disse simplesmente que "I think it's really funny" mas "I'm very honoured at the idea of becoming a verb". A Robert nunca faltou sentido de humor, nem vontade de trabalhar, e «Comicopera» deverá sair já em Setembro para igualmente nos surpreender e deliciar.

Imagem via Domino Recording Company
Importado do blogue gayFEEL

2007/05/17

bruce labruce

Conheci Bruce LaBruce (1964) pelo seu fanzine queerpunk J.D. e, depois, através da importação de um exemplar (ainda em VHS) do seu filme de culto «No Skin Off My Ass», um must have do cinema homossexual. Escritor, actor, fotógrafo, realizador, este canadiano nascido Justin Stewart é uma referência verdadeiramente excepcional no mundo da arte gay mais marginal. Se isto lhe diz alguma coisa, o melhor é mesmo estar atento e não o perder de vista...

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2007/05/08

dennis cooper: crónicas de amor e sexo

Como escritor, Dennis Cooper (1953) seguiu os modelos de Rimbaud, Verlaine, De Sade ou Baudelaire. Ainda jovem escreveu poesia que expunha a sua vida emotiva e sexual entre os punks e os jovens artistas libertários da sua época, que nele viam um líder. Deixou a sua Califórnia e os States em 1976 e foi ao encontro de Londres, no velho Reino em revolução punk e anarquista. Chegou, viu e venceu, envolvendo-se nos movimentos mais contestatários de então. Criou a editora Little Caesar e a revista com o mesmo nome. Progrediu, mas em 1979 voltou à Califórnia e lá dirigiu iniciativas artísticas com figuras tão relevantes como Gerard Malanga, o poeta, fotógrafo e realizador que ombreou regularmente com Warhol. Em 1982 edita a sua primeira novela, de título «Wrong». Dois anos depois parte para Nova Iorque e em 87 para Amesterdão, na Holanda. Aí acaba de escrever o seu primeiro grande romance, «Closer», enquanto faz algum dinheiro como correspondente de diversas revistas norte-americanas (a Village Voice e outras). Regressa a NY onde inicia colaborações com a revista ArtForum. Segue-se «Frisk» em 1991, novela nova, e depois «The Dream Police: Selected Poems '69-93», «Jerk» e «Try» (em 1994), «Horror Hospital Unplugged», «All Ears» e «Guide» (em 1997), «Period» (2000), «My Loose Thread» (2002), «The Sluts» (2004) e «God Jr.» (2005). Para ler (em livro), ver (em vídeo) ou ouvir (em disco, como na sua colaboração com John Zorn ou Kathy Acker), porque a arte e a homossexualidade sempre estiveram presentes nas suas crónicas... de amor e sexo.

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2007/04/13

slava mogutin, o russo de nova iorque

Slava Mogutin (1974) é russo e siberiano de Kemerovo. Na adolescência foi para Moscovo, onde começou uma carreira como jornalista. Ainda apenas com 21 anos era já elogiado por uns e condenado por outros devido aos seus textos libertários que defendiam os homossexuais. Ele foi o primeiro jornalista abertamente gay na imprensa russa, sendo acusado de diversos crimes de "ofensa deliberada às normas morais geralmente aceites", de "provocação e divisão social, nacional e religiosa" e de "propaganda da violência, patologia psíquica e perversão sexual" (chega???). O seu nome corria nos tribunais e no ar pairava a ameaça de uma pena de prisão quase certa, que poderia durar 7 anos. Com a ajuda da Amnistia Internacional e da PEN American fugiu para Nova Iorque, onde se exilou. Aí é hoje considerado como um artista ao nível dos famosos Nan Goldin, Wolfgang Tillmans ou Terry Richardson. Soldados, punks, skaters são parte do objecto da sua escolha que se mistura com sexo, muito sexo, muita acção e sinais de revolta, de contestação, de amplo inconformismo. As fotos de Slava Mogutin são instantes pensados para não fazer concessões. Estão carregadas de dor, de prazer, de inocência, de fatalidade, de entrega, de despojamento. Nas suas imagens há algo de sinistro e de inatingível, que aos poucos vamos entendendo. Há pornografia, e não pouca. Às vezes só mesmo uma suave sugestão, algum erotismo, mas sempre uma enorme entrega que revela a grandeza do seu amor à arte, do seu amor à linguagem dos sentidos. Slava está hoje representado nas galerias mais arrojadas e mais conceituadas e nas melhores revistas de arte e de moda como a i-D, Butt, Visionaire, Honcho, BlackBook, Playgirl e a Stern. Foi capa da revista portuguesa Umbigo (veja-se aqui). Tem 7 livros publicados em russo e traduções para 6 línguas. Em 2005 criou uma parceria artistica com o seu companheiro Brian Kenny: o colectivo Superm.

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2007/03/10

herb ritts

Se cá já todos temos em casa pelo menos uma foto tirada por Herb Ritts (1952-2002), fotógrafo norte-americano de moda e realizador de pequenos clips que trabalhou com Madonna, Chris Isaak ou Jack Nicholson por exemplo. Fez fotografia para as mais famosas revistas de moda, também. Morreu com sida, em Los Angeles, vítima de pneumonia. Sem saber qual escolher, pela foto (do Herb), pelo modelo (o David) e pelo fato (de Ziggy) fica «David Bowie», fotografia de 1990...

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2007/03/06

dan kapelovitz

Parece que Dan Kapelovitz é essencialmente um repórter de excentricidades e que colaborou diversas vezes com a revista porno (heterossexual) Hustler. Não tenho a certeza, sequer, se é ele próprio que ilustra os seus trabalhos de reportagem ou de opinião, mas sem dúvida este delicioso cartoon que encontrei associado ao seu nome merece ser partilhado convosco. Sem (mais) palavras...

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2007/03/05

trilogia do nu: 1. rob monroe

Recentemente, andava eu nas minhas navegações de trabalho pela internet fora, quando me deparo com o meu querido Rob Monroe. Conheci o Rob há cerca de 25 anos atrás, num dia em que, depois de respirar fundo e me encher de coragem, me dirigi ao quiosque que existia na paragem de eléctrico ao pé da minha casa, peguei numa revista Playgirl e, com a cara vermelha como um tomate, estou certo, a entreguei no balcão para pagar. Depois terá seguido entre os meus cadernos de escola ou muito provavelmente, e a jogar pelo seguro, dentro da camisa, até casa e, passado o perigo de um encontro à entrada com os pais ou algum irmão que tudo descobrisse, até ao meu quarto. Nessa altura teria 13 anos e a excitação de ter nas mãos uma revista com homens nus, numa altura em que a consciência da minha homossexualidade era ainda nova e confusa, não pode ser comparada à de um rapaz heterossexual que nas suas mãos tem a primeira Playboy. Nesse dia, como noutros que pequenos acontecimentos marcaram, comecei a aceitar a minha diferença e — obrigado Rob — a desfrutá-la.

2007/02/19

é joe oppedisano, ninguém toma a mal

Escolhi Joe Oppedisano para um destaque que já vem programado desde Dezembro. Josef começou há 20 anos a fazer design de moda, trabalhou para a Calvin Klein, Neiman Marcus, L'Uomo Vogue, Vanity Fair, Detour Magazine, Sony Music e para as estrelas do espectáculo. Tinha já 30 anos quando decidiu largar a criação de moda e virar-se exclusivamente para a fotografia, que tanto admirava. Começou como um dos fotógrafos favoritos da revista britânica Q, e os seus novos projectos foram tomando forma. Alguns anos depois tem entre os seus maiores clientes as revistas New York Times, Esquire, Spoon, Instinct e a famosa Butt. A sua fotografia é claramente de autor e a interpretação das suas obras nem sempre é clara ou pacífica. Pode-se ver bem como isso assim é através da foto ao lado, onde um jovem em atitude claramente animalizada domina selvaticamente, com a sua "arma", um sujeito maior, mais velho e mais forte, talvez até muito mais poderoso (o ambiente lembra muito o submundo da máfia). No mercado acabou de aparecer o livro «Testosterone» (Bruno Gmünder, ver aqui), no qual ele dá a conhecer uma selecção de fotos sobre temática erótica masculina. Porque é carnaval e ninguém deverá tomar a mal mostrarmos assim este exemplo "visceral" da arte de Joe Oppedisano.

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2007/02/02

dos irmãos e dos casamentos

Há muito tempo que tenho fantasias com gémeos e cheguei mesmo a relacionar-me com um par deles, éramos então todos adolescentes. Frequentávamos o mesmo liceu e a mesma classe e um dia aconteceu, já não me lembro bem como ou porquê. Hoje não sei o que é feito deles e embora os da foto sejam também portugueses, na verdade são dois conhecidos modelos fotográficos: os irmãos Guedes. Há uns tempos tiveram um conjunto de fotografias publicadas na Wallpaper, que nos faziam crescer água na boca. Eram belas fotos de praia e dunas que podem ser apreciadas ainda no blogue Tulipboys, para onde remete o link do título. Também a propósito de irmãos (assunto recorrente nas curtas férias que agora terminaram) conto-vos que fiquei a saber que quando há irmãos que são filhos de pais ou mães diferentes a lei designa-os de forma curiosa: se a mãe é comum e o pai não, os irmãos são uterinos; se o pai é comum e a mãe não, então são germanos. Foi assim que entendi, pelo menos, do discurso de um advogado com quem falei. Agora, ainda mais interessante: quando um(a) homossexual não tem outras ligações familiares que não sejam os irmãos, sabiam que no caso da sua própria morte são os irmãos que herdam?... Pois, o companheiro não recebe mesmo nada de nada por direito, a não ser por testamento. E o testamento pode mesmo excluir os irmãos de vir a receber seja o que for (mas já não pode excluir totalmente os pais, os filhos ou o cônjuge legal se ainda existir como tal). Por tudo isto é que esta coisa do dito "casamento homossexual" não é só uma mariquice e deve ser levada muito a sério. É mesmo uma questão de direitos civis que não deve ser mais tempo adiada!

2007/01/08

os punks de roberta bayley

Roberta Bayley fotografou os punks que nos anos 70 emergiam em Nova Iorque. Fez fotografia para capas de discos (dos Ramones e Richard Hell, por exemplo), mas também para páginas de fanzines e de revistas. Esbarrei com o trabalho dela onde menos o poderia imaginar - a Playgirl - e com uma foto assaz rara e surpreendente: a de Sid Vicious descendo as calças e mostrando toda a sua virilidade (que não é muita e à qual a autora do texto prefere chamar-lhe junk, mas isso são só detalhes). Apesar de ser contemporânea de Robert Mapplethorpe, outro famoso artista que fotografou Patti Smith, os Television, Philip Glass e em larga escala a nova cultura musical emergente em Nova Iorque, Bayley dedicou-se mais a esvaziar as suas fotos de individualismos (centrando-se no todo do movimento - o punk) enquanto Mapplethorpe apontou as câmaras ao indivíduo (mesmo quando se pode integrá-lo nalgum movimento - o gay ou o pop). Roberta nasceu em Pasadena, frequentando a universidade de San Francisco entre 1968 e 71. Adoptou Nova Iorque para residir e aí efectuou a sua primeira exposição individual em 1993. «The Downtown Show» (aqui) é um bom local para descobrir um pouco mais sobre Roberta e os movimentos que a envolveram.

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2007/01/04

adalberto libera: beleza mediterrânica

Para quem gosta de casas invulgares, a Casa Malaparte situada na Punta Massullo da ilha italiana de Capri é uma boa escolha: aumentem a imagem e vejam-na, na majestade dos seus 69 anos de idade. Foi concebida por volta de 1937 pelo arquitecto Adalberto Libera (1903-1963). O seu dono original, Curzio Malaparte, foi um jornalista e escritor que documentou as mudanças políticas e culturais da Itália dos anos 1930-50, inicialmente estando com Mussolini e, depois, com os Aliados. A imensa casa que encomendou a Adalbero Libera continua lá e pode ser localizada com ajuda de navegadores geográficos como o Google Maps: é ver em 40°32′44″N e 14°15′37″E. Há nela uma larga escadaria de um vermelho quente, que é marcante. Eleva-se na falésia como se se tratasse de um obelisco deitado. Após a morte do seu proprietário, a villa foi abandonada e negligenciada, sofrendo estragos significativos. Jean-Luc Godard mostra-a num filme em 1963, mas o primeiro restauro aconteceu apenas no final dos anos 80. Hoje é um belo imóvel onde se mantém muito do mobiliário original (ver mais aqui). Quem me dera olhá-la de fora e de longe que fosse, com uma companhia romântica, a partir de um pequeno iate.

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2006/12/23

o natal com oliviero toscani

Mesmo quem não conhece o fotógrafo italiano Oliviero Toscani (1942) não pode dizer que não observou já uma ou duas das suas polémicas imagens publicitárias, pelo menos. Toscani fundou com o designer norte-americano Tibor Kalman, ainda nos anos 90, a revista Colors (que pode ser consultada aqui) e notabilizou-se como autor de muitas das mais famosas fotografias ligadas à marca Benetton (lembram-se da imagem do jovem sacerdote e da cândida freira que se beijavam apaixonadamente nos lábios; ou dos preservativos coloridos, ao tom das United Colors of Benetton; ou até dos três corações dissecados e identificados "white / black / yellow"?). Nos anos mais recentes foram as fotos que fez para a marca de moda Ra-Re (ao lado está uma delas) que mais se evidenciaram. Como no poema do Gedeão, também a discussão faz (ou deveria fazer) o mundo avançar e o trabalho deste fotógrafo promove-a a todo o instante. E eu creio que não é inocente a utilização neste período de Natal da composição exemplificada: por mais uma vez (e de forma não pouco polémica) a discussão do conceito de família volta a ter lugar. Para mim serve-me: este e o tradicional. Por isso também, umas Boas Festas para todos vós!

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2006/12/20

a originalidade em ruth gwily

A israelita Ruth Gwily (Telavive, 1974) merece ser conhecida entre nós. Estudou na academia de arte e design Bezalel (Jerusalém) e, concluída a sua formação, trabalhou como ilustradora para diversos jornais e revistas. O seu estilo gráfico é simples e suave, rico em detalhe e imaginação, muito teatral nas suas próprias palavras, e é assim mesmo que ela se relaciona também com o mundo da banda desenhada e com o da pintura (a aguarela), onde podemos descobrir alguns dos seus mais brilhantes trabalhos (ao lado reproduz-se «Criminal Kids Practise Creative Writing, as Therapy», obra de 2006). É fascinante ainda a sua escolha da cor, desses tons esbatidos ou envelhecidos, muito bem integrados no desenho. Diz gostar do trabalho de Henry Darger, David Hockney, Frida Khalo e de outros artistas. Sobre a Arte, ou o futuro da arte, Ruth cita o designer David Carson, director gráfico da revista Ray Gun, e diz "everything has been done before, you are the only original thing you can offer to this world". No blogue Foggy Grizzly (aqui) pode ler-se uma entrevista com o seu depoimento.

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2006/12/19

tu.

A Personalidade do Ano para a revista Time és Tu, ponto final. Tu, sim, Tu mesmo que agora nos lês neste blogue e mais uns quantos milhões de pessoas! A revista Time entende que todos nós, que fazemos da internet uma máquina viva de troca de informação, somos a Personalidade do Ano de 2006. Figuras como os presidentes da China, da Coreia do Norte e do Irão ficaram excluídas da escolha final (a não ser que eles próprios sejam também habituais utilizadores desta sociedade de informação). O prémio da Time existe desde 1927 e no ano passado foi atribuído a três personalidades que ajudaram grandiosamente no combate às doenças que afligem os povos do Terceiro Mundo: Bono, Bill Gates e a sua esposa Melinda. Mas agora, para a revista Time, as personalidades são anónimos como Tu e eu, e nós, que fazemos com que a democracia global funcione, algo a que eles chamam "new digital democracy": é tempo de criar um novo entendimento global, não de político para político, não de personalidade para personalidade, mas de cidadão para cidadão, de pessoa para pessoa - dizem. E nós estamos de acordo!

2006/12/16

malas flores

Tenho em mãos o número mais recente da revista espanhola Zero, que recebemos mensalmente por subscrição desde há quase um ano. Na página 18, a abrir a secção «Cartas//», uma de David Terrones, sob o título «Camino Santo» chama a minha atenção. Conta ele que decidiu planear umas pequenas férias com o seu companheiro e, para cumprir um antigo desejo de ambos, decidiram fazer o famosíssimo Caminho de Santiago. Diz-nos que os primeiros dias da viagem foram divertidos, até ao momento em que atingiram o que chamaram "España profunda". "Una noche, hartos de oír ronquidos por todas partes y de comer menús de peregrino" decidiram separar-se do grupo e procurar um hotel. Queriam dormir como um casal, numa cama de casal, "pero ya se sabe: malas caras y excusas por todos lados". Adiante, após algumas novas tentativas infrutíferas e olhares homófobos pelo caminho, chegaram a Leão. Dirigiram-se a um hotel (que identificam na carta), onde um deles havia previamente feito a marcação de um quarto com cama de casal. Mas à chegada, o gerente olhou-os de cima a baixo e disse haver um problema "(sabíamos que el problema éramos nosotros)" e deu-lhes como solução um quarto duplo. Foi neste ponto que eu reflecti sobre uma experiência semelhante que nós tivemos há quase uma meia dúzia de anos, em pleno Douro vinhateiro. Também nós decidimos fazer umas pequenas férias, não numa marcha ao túmulo de um santo, mas antes ao berço do nosso vinho maior. Recomendaram-nos um hotel rural, telefonei, fiz uma marcação para quarto com cama de casal, nunca disse quem me acompanharia (ninguém o faz, porquê haveria eu de o fazer?) e, à chegada: "desculpem mas há um problema, porque estamos em obras e não temos quartos com cama de casal disponíveis, só se ficarem num quarto duplo, pois com duas camas, etc, etc". A figura do tipo, do recepcionista? Um gajo mais novo que nós, filho da dona da casa, armado em esperto numa terra de cegos (essa conclusão veio da observação do cavalheiro, nos dias seguintes). Só que aqui o cego era ele, mais ninguém. A mãe, dona do hotel, desfez-se em simpatias connosco, nomeadamente durante os jantares que fazíamos no restaurante, e insistiu muito para que recomendássemos a casa aos nossos amigos. Perante a simpatia dela não pudemos dizer que não, mas devido à inaceitável atitude do filho (e futuro dono, certamente), claro que não o poderíamos fazer. O hotel não o vou identificar pelo nome, mas posso provar que lá estivemos e, por isso, posso até apresentar uma queixa ou reclamação que vai sempre a tempo de provocar estragos. Não o quero fazer, no entanto. Isto basta. A imagem, para quem o conheça, é suficiente. Malas flores...