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2007/02/07

george cayford, o mestre do desenho

Nasceu em 1931, George Cayford. Foi educado no Royal College of Art (ver aqui). Trabalhou inicialmente como ilustrador e designer gráfico na sua própria empresa e, mais tarde, para o London College of Printing onde instruiu sobre as artes da ilustração e do design. A sua ambição profissional e a sua vida pessoal nem sempre se relacionaram da melhor forma. E ser filho de um político socialista não lhe minimizava as fricções sociais nem fazia dele um artista mais tolerado. Apesar das suas aptidões e da excelência do seu trabalho como professor e mestre de desenho, eram os seus retratos de belos nus masculinos incomodavam quem dele se aproximava. No papel ficavam as poses originais e espontâneas dos seus modelos, registadas a carvão e pastel em traços rápidos e precisos. George Cayford sublinhava isso na explicação das suas técnicas preferidas: a velocidade do esboço é importante para definir de imediato a imagem no papel, captando prontamente a frescura e espontaneidade do momento. «Drowing For Pleasure», «Drowing With Mix Media», «Drowing Figures And Portraits», «The Encyclopedia of Pastel Techniques», «The Encyclopedia of Drowing Techniques» e «Life Drawings Class» são alguns dos livros escritos ou participados pelo artista.

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2007/01/06

de cruzeiro seixas e cesariny

Cruzeiro Seixas é uma das figuras maiores da pintura portuguesa do nosso tempo. Nasceu em 1920, na Amadora, e cresceu com o expressionismo e o neo-realismo. Foi "amigo de peito" de Mário Cesariny (são os dois, na foto). "Tirei apenas o 5º ano de desenho da Escola António Arroio, mas com os professores nunca aprendi nada. Nunca gostei de aprender, a não ser comigo mesmo" - disse-o. E continuou: "Conheci o Mário Cesariny na escola António Arroio. Era um rapazinho lindo. Engatei-o! Nem tínhamos bem conhecimento do que era a homossexualidade. Nessa altura era tida como uma doença. A mim interessava-me fazer amor, não vício, isso nunca fiz. Namorados? Eu e o Mário?... Não, era coisa de garotos, que passou!... (...) Líamos muito o Régio. O Casais Monteiro menos, o António Botto depois. Estrangeiros, claro, havia o Oscar Wilde da «Balada do Cárcere de Reading»..." (mais aqui). É com Cesariny, Carlos Calvet, António Maria Lisboa e Mário-Henrique Leiria que que a partir de 1948 desenvolve actividade surrealista, assinando desenho e pintura, mas também objectos e poesia. A sua obra mostra-nos figuras híbridas, planos que valorizam a perspectiva e a profundidade de campo, contrastes luminosos, nuances de cor, surrealismo de uma espécie fantástica que deriva das propostas de Breton e Di Chirico.

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2007/01/04

à espera de mais histórias...

Há três versos encerrados na página 77 do novo livro de Daniel J. quase me parecem um haiku japonês (ou hai-cai), no qual o poeta canta as variações da natureza e a sua influência na própria alma. As «Pequenas Histórias de Amor e Sexo» que Daniel nos conta são narrativas de experiências apaixonantes, na primeira pessoa. Histórias de amor e de sexo. Das sete, «O Perversor» (págs. 30 a 71) é a minha preferida. Mas há mais, todas elas muito simples e muito belas, com alguns desenhos do autor à mistura. A edição é dele próprio, o escritor-designer, mas por isso também muito cuidada. Está disponível na net (veja-se através do link neste título). Se o anterior «Olhos de Cão» (Dom Quixote) era um livro com a energia de um começo, «Pequenas Histórias de Amor e Sexo» é o livro que esperávamos de Daniel J. o na sua escrita. Um bom agoiro para quem sempre mais espera...

Há dias em que me basto, em que me tenho a mim.
Nada dói, nada falha, nada falta.
Os dias bons não são assim.

2006/12/31

adeus, 2006

Mais um ano e mais um balanço. O possível, de novo feito a dois e do que, como no ano passado, mais nos sensibilizou e marcou ao longo dos dias, das semanas, dos meses, das oportunidades: a cada um de nós em particular ou, quando a convergência o determinou, aos dois em conjunto que é sempre bem melhor. Esta volta a ser uma lista de escolhas discutíveis, mesmo até porque foi a que hoje especificamente nos apeteceu aprovar e divulgar neste gayfield. Não nos preocupou estar in ou estar out dos gostos massificados, nem é nossa intenção demonstrar seja o que for (habituados a estar "out" num país em que o que conta é estar "in" — e em ambos os casos as aspas estão com profundo propósito —, escolhemos o que nos deu mais prazer, mesmo que os outros achem a escolha démodée ou inadequada. Com um propósito bem diferente, inverso e invertido, que nos reencontremos já aqui ou onde nos der mais jeito:
  • cinema: «O Segredo de Brokeback Mountain» Ang Lee (2=)
  • concertos: «Music For 18 Musicians + Daniel Variations» Steve Reich and Musicians & Synergy Vocals (2=)
  • discos: «Stabat Mater» Bruno Coulais / «Winterreise» Franz Schubert (Peter Pears / Benjamin Britten)
  • dvds: «Pink Narcissus» James Bidgood / «Liza With a Z» Liza Minnelli & Bob Fosse
  • figuras: Mãe / Luís
  • internet: lavionrose.blogspot.com / www.thecoolhunter.net
  • livros: «Butt Book» Butt magazine / «Close Range» Annie Proulx
  • lojas: Por Vocação / ECI
  • momentos bons: o novo emprego Dele / o meu novo emprego
  • projectos: casa nova, vida nova / casa nova
Um grande 2007, para todos!...

2006/12/28

hergé, tintim por tintim

Poucos sabem quem foi Georges Rémi (1907-1983), mas já Hergé (correspondente a RG, as iniciais de "Rémi, Georges") não estará longe de associação imediata ao nome de Tintim, o jovem aventureiro que nos roubou muitas horas de sono com as suas reportagens pelos quatro cantos do mundo. Georges nasceu na Bélgica, mas foi do seu irmão Paul que veio a inspiração para a figura de Tintim, que seria vista pela primeira vez em 1929. Apesar de as aventuras de Tintim se terem popularizado com edições dos seus livros em mais de 40 línguas, Hergé esteve por detrás da criação de outras histórias em quadradinhos com figuras como Quike, Flupke, Jo, Zette e Jocko. Foi elogiado como um Walt Disney europeu e influenciou os mais importantes ilustradores, notadamente nas figuras de Asterix, Lucky Luke, ou Blake e Mortimer. Aos 50 anos de Tintim até Andy Warhol, na Nova Iorque de 1979, lhe realiza uma série de retratos-homenagem. Em 2007 vão completar-se os 100 anos sobre o nascimento do artista e o Centro Pompidou, em Paris, presta-lhe uma nova homenagem que vai até 19 de Fevereiro (ver aqui). Considerado sem discussão como um dos maiores artistas do século XX, o exterior do belo edifício desenhado pelos arquitectos Renzo Piano e Richard Rogers é agora adornado com uma tela gigante de 40 metros que convida a viajar no foguetão das fantasias de RG.

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2006/12/19

da paixão e de antonin artaud

«La Passion de Jeanne d'Arc» é um filme mudo realizado em 1928 por Carl Theodor Dreyer, que originalmente esteve para ser sonorizado. Num dos principais papéis, o de Jean Massieu, está o actor francês Antonin Artaud (na foto), mais conhecido como escritor. A obra de Artaud (1896-1948) é ampla em género compreendendo ainda, para além da escrita e da representação, o desenho. A sua vida singular foi marcada pela crítica estética e metafísica, pela deambulação e pela doença: em 1937 ele foi confundido com um louco, internado e transferido de manicómio em manicómio durante 9 anos. No hospital psiquiátrico de Rodez, onde permaneceu os últimos 3 anos de clausura, estabeleceu uma relação epistolar com o seu médico, que fez com que este reconhecesse o valor do doente-poeta. Estas cartas serviram para ancorar a sua consciência, moribunda pelos efeitos dos electrochoques - "que ninguém ignore os meus gritos de dor e que eles sejam ouvidos" - enquanto o conceito bilateral do Teatro da Crueldade germinava com «Le Théâtre et Son Double», uma das peças fundamentais da dramaturgia europeia do século XX. Artaud voltaria a contemplar a luz de Paris em 1946, dois anos antes da sua morte. É aí que realiza a emissão de rádio «Pour En Finir Avec Le Jugement de Dieu», que pode ser ouvida aqui.

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2006/12/12

amor e sexo por daniel j. skråmestø

Gostava de saber se o português Daniel J. Skråmestø (1973) é mais conhecido pelos seus quadros ou pela sua escrita. Mas tal não é também tão importante assim... Três anos já passados sobre a sua primeira impressão comercial, o livro «Olhos de Cão» editado pela D. Quixote em 2003, «Pequenas Histórias de Amor e Sexo» vem à luz do dia neste final de 2006. Desta vez em edição de autor, convém dizê-lo para o tornar mais especial, mas que se pode encontrar à venda no site Lulu.com em três versões ao gosto do freguês: para download (US$ 2.50), em formato impresso ilustrado a preto-e-branco (US$ 9.11) ou, numa variante acabada de surgir, a versão alargada e ilustrada a cores, que visa servir os apreciadores mais entusiastas das fotografias que o escritor também pinta (US$ 32.28). A pintura de Daniel J. Skråmestø é já uma referência internacional nos meios dedicados à arte gay, e mesmo a sua escrita começa a ultrapassar as nossas fronteiras. O autor vive em Lisboa e o seu novo livro contém sete contos e alguns poemas. Aqui poderão recolher mais alguma informação pela voz do autor, que é também responsável pelo blogue O Mal dos Livros.

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2006/12/11

alison jackson: o principezinho vai nu

Nasceu em 1960. Alison Jackson, a fotógrafa inglesa conhecida pelos seus falsos instantâneos detalhadamente elaborados. Não a conhecem? São famosas as suas fotografias da rainha Elisabeth II, do primeiro-ministro Tony Blair, do principezinho William, da super-princesa Diana (de boa memória), ou do presidente George W. Bush (o mesmo não se dirá). Começou como escultora e foi mesmo premiada como tal pelo Chelsea College of Art. Só depois se virou para os banhos de prata (refiro-me aos banhos da fotografia) ingressando no também londrino Royal College of Art. A sua popularidade atingiu um pico em 1999 com a exposição de "retratos de família" da princesa Diana e Dodi Al-Fayed. A fotógrafa usou para tal sócias das personalidades visadas, compondo imagens convincentes mas altamente improváveis, como era já seu costume. A artista, de origem aristocrática, vive actualmente numa sumptuosa mansão de uma das ruas mais faustosas do bairro de Chelsea. Faz TV desde 2001 (primeiro para a BBC e agora para o Channel 4) e tem um livro editado em 2004 pela Penguin. Encontram-no aqui e, mesmo que não chegue a tempo deste Natal, a compra vale sempre a pena. Até porque, afinal, o principezinho vai nu.

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2006/12/05

os narcisos de duane michals

O Narciso da parábola do poeta poderia ser o modelo desta bela foto de Duane Michals... O fotógrafo nasceu em 1932 numa família operária da Pensilvânia. A arte começa a dominar os seus interesses aos 14 anos, altura em que frequenta um seminário de aguarela no Instituto Carnegie, em Pittsburgh. Meia dúzia de anos depois decide investir a sua bolsa de estudo numa carreira virada para as belas-artes e em especial para o surrealismo de Magritte, Chirico e Balthus. O design gráfico seria o passo seguinte e a partir de 1956 frequenta a Parsons School of Design, em Nova Iorque, mas só por um ano. Sai para seguir carreira em artes gráficas e publicidade e, por essa via, é levado a uma visita de 3 semanas à União Soviética, em consequência da qual sente uma atracção especial pela experiência fotográfica. Autodidacta e criativo absoluto, nas suas viagens faz invulgares retratos das pessoas com quem se envolve. Nunca visto como um verdadeiro fotógrafo pelos seus modelos é talvez por isso, também, que as suas fotos revelam simplicidade e verdade. Sem nunca ter montado um estúdio, Duane Michals vive da fotografia desde 1969. Na sua obra predominam as sequências fotográficas que contam alguma história, onde acrescenta por vezes um pequeno texto que integra o conjunto. O seu livro «Salute, Walt Whitman», a que se refere aqui, é uma obra a descobrir.

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2006/11/27

mário cesariny, 83 anos depois

Ontem, aos 83 anos de idade, Mário Cesariny de Vasconcelos deixou-nos. Com ele partiu uma das maiores figuras da cultura portuguesa do século XX. Foi poeta, pintor, surrealista e tudo... Às 14 horas de hoje teve lugar o seu funeral, em Lisboa. Ele era um dos raros que nunca queria elogios, nem agradecimentos. Na nossa casa permanece em memória e em livros...

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2006/10/26

donde está alfreda benge

Alfreda Benge é a mulher de Robert Wyatt, fundador nos anos 60 e 70 dos grupos The Wilde Flowers (homenagem a Oscar Wilde), Soft Machine (livro de William S. Burroughs) e Matching Mole (trocadilho com machine molle, de soft machine). Alfie (o diminutivo carinhoso) foi assistente do realizador Nicolas Roeg, que fez «The Man Who Fell to Earth», com David Bowie como o belo extraterrestre (por muita coincidência, ou talvez não tanta, William Burroughs e Nicolas Roeg usaram recorrentemente técnicas designadas por cut-up, ou seja uma forma de recorte e colagem aleatória numa produção artística, para suscitar efeitos imprevistos e repetitivos). Benge namorou Warren Beatty e com ele conheceu Robert, que ficou relegado a uma cadeira de rodas em 1973, por ter caído dum 3º andar. Ambos foram a sua maior ajuda nesses tempos, mas o galã do cinema acabou por seguir o seu caminho deixando Alfie e Bob juntos para sempre (aqui há mais detalhe). Companheira de um homem fisicamente diminuído mas intelectualmente brilhante, a sua arte foi tomando forma e visibilidade, ganhando espaço nas capas dos discos de Robert e amigos. Diz-se que «Dondestan» retrata a passagem do casal pela Nazaré e, em detalhe, vê-se mesmo o jornal comunista Avante! sobre a mesa.

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2006/10/25

sempre (20 anos)

Na página de um fanzine cultural dos anos 80, reencontro um fragmento de texto atribuído a Jean Genet: Amaste-o demais, e o amor excessivo repugna. Um amor demasiado grande transtorna os órgãos e todas as profundezas, e o que sobe à superfície causa náuseas. As vossas faces são címbalos, que nunca chocam, mas que deslizam em silêncio um pela superfície do outro. Genet escreveu «Querelle de Brest» em 1947 e este texto deve ter origem aí. Em 1982 Reiner Werner Fassbinder realiza a correspondente versão cinematográfica que, tal como o livro original, se torna num símbolo da cultura gay. Entre as duas datas nascemos nós, um em Lisboa e o outro no Porto. Os nossos caminhos cruzam-se em 1986 e a partir daí começámos a sair juntos. É nesse ano, também, que a editora discográfica Ama Romanta se estreia e coloca em circulação o duplo álbum «Divergências». Uma arrojada antologia discográfica com muitas preciosidades musicais, recentemente transferidas para o CD «Sempre». Em ambos se encontra a canção «La Feria», dos Essa Entente (na foto, da época):

Passo o tempo à espera que venhas,
durante a noite sou um louco sem ti.
Num lençol pequeno demais para um,
lençol branco?! Noites sem fim...

À noite espero que te faça esquecer,
o tempo perdido que passaste com elas.
A noite chega, uma lágrima seca,
História de amor?! Qual a tua razão?

Passo o tempo à espera que chegues,
num lençol grande demais para os dois.
À noite espero que te faça esquecer,
lençol branco?! Noites sem fim!

Porquê a razão de nunca sermos dois,
nem que a tarde faça esquecer alguém.
Porquê lembrar o meu corpo em repouso?
Só lembro um beijo nos meus lábios, rapaz...

(Volta rapaz, agora que já sabes as voltas
que eu te armei no lençol, e quanto era
falso...
...acaba com isso!!!)

Como se ligam o «Querelle» de Genet e Fassbinder, com o «La Feria» dos Essa Entente, e nós próprios? Entre os dois primeiros há a particularidade de La Feria ser o nome do bordel de Brest onde o marinheiro George Querelle mais gosta de "navegar". Entre o «La Feria» do álbum e nós há várias particularidades, mas a mais curiosa é que um dia tínhamos connosco o disco numa visita nocturna à discoteca Busto's, a mais queer da época no Porto. Nada foi planeado, mas acabámos por encher-nos de coragem e pedir à DJ para passar o «La Feria». Explicámos o contexto, ela ouviu, gostou e passou. Tanto assim que lhe deixámos o disco, para que o ouvisse melhor. E foi ficando pois sempre que voltávamos a vistosa DJ punha a canção para nós... Sempre! Esta história tem quase 20 anos, pois esse é o tempo que hoje perfaz desde que nos conhecemos.

2006/10/10

arte porno de daniel j. skråmestø

Em 1973, num dia de Outubro, nasceu Daniel J. Skråmestø. Entre 1992 e 96 estudou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e trabalhou alguns anos na Noruega como designer gráfico. Hoje vive na capital portuguesa onde desempenha ainda essa profissão, a par da sua actividade como artista plástico e escritor (pode consultar-se aqui o blogue onde vai expondo a sua nova escrita). Todo o trabalho artístico de Daniel é desenvolvido sobre fotografias porno recolhidas na internet, inicialmente trabalhadas em baixa resolução com o Photoshop. Os passos seguintes são a composição, iluminação e coloração, todos dados por processos digitais. Uma vez concluída esta fase, o artista imprime o seu trabalho inacabado sobre papel ou tela, que passará a adaptar manualmente usando material convencional de pintura. Usando ainda o envernizamento com pincel ou spray, a obra é acabada com o aspecto de pintura a óleo. Assim produz múltiplos falsos, que são depois numerados e assinados antes de entrarem no circuito comercial. "O aspecto porno das imagens é importante. Eu gosto da ideia de transformar algo considerado sujo em algo artístico", diz-nos Daniel. Os seus trabalhos são conhecidos internacionalmente e foram já exibidos nos Estados Unidos, Noruega e Portugal. Parabéns!... ;-)

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2006/09/28

quadros da vida de salvador dalí

Quantos de nós saberiam que o logótipo da tão popular marca espanhola Chupa Chups foi desenhado em 1969 pelo pintor surrealista Salvador Dalí?... Mas é verdade, a verdade pura e uma daquelas que nos faz crer que afinal ainda não sabíamos tudo sobre o grande pintor catalão. Ele viveu entre 1904 e 1989 e teve por baptismo o nome de Salvador Felip Jacint Dalí Domènech. Foi contemporâneo, colaborador e amigo de Federico García Lorca, Luis Buñuel, Joan Miró, Pablo Picasso, André Breton, Man Ray, Walt Disney e outros que na pressa se esquecem de referir. Na sua actividade passou por Paris e por Nova Iorque. Agora regressa à grande metrópole da costa oeste do Atlântico com «The Secret Life of Salvador Dalí», uma mostra que reúne os 128 desenhos originais que ilustraram a sua autobiografia assim intitulada. A cidade da Pop Art recebe Dalí no Instituto Cervantes a partir de 4 de Outubro, onde a exposição permanecerá até Janeiro do próximo ano, segundo a notícia que se pode ler aqui. Apesar da divulgação destas obras estar focada apenas num único trabalho, o livro «La Vida Secreta de Salvador Dalí» no título original, por mais esta forma se fomenta o reencontro com um dos maiores e mais controversos artistas do século XX que nas últimas décadas foi (não sem remédio) quase votado ao esquecimento pelas inteligências actuais.

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2006/09/25

cesariny e o virgem negra

Volta a falar-se de Mário Cesariny de Vasconcelos, muito a propósito da exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos» dedicada ao artista-poeta do surrealismo português, que no passado dia 20 abriu no Circulo de Bellas Artes de Madrid. Autor de uma extensa bibliografia, a editora Assírio & Alvim descreve este escritor como um "autor de uma poesia excepcional — eventualmente demasiado consciente para ser considerada verdadeiramente surrealista — que apresenta afinidades com a de Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, António Maria Lisboa e a dos surrealistas franceses Breton e Artaud". Apesar de o artista e poeta ainda estar a tempo de alterar alguns dos dados que constituem a sua biografia, não é demais afirmar que "a poesia de Mário Cesariny e, através dele, do surrealismo como atitude intelectual, influenciou toda uma geração de novos poetas, tal como aconteceu com o Modernismo do Orpheu". São as palavras claras do editor que tem vindo a publicar a totalidade da sua obra literária, que supera já a dezena de títulos. Entre eles, «O Virgem Negra – Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiras Por M.C.V.», publicado em 1989, do qual escolhemos um excerto das páginas 69 e 70:

O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia.
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengãoEm não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da Kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço da heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela do lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era qundo o Aleyster Crowel aparecia.
“Iô Pan! Iô Pã!”, dizia,
E era felatio para todos
E pão de ló molhado em malvasia.

(…)

Para saber mais de Cesariny, de Pessoa e dos seus heterónimos, ou mesmo da geração de Orpheu há que adquirir as obras e deixar-se levar E descobrir. E maravilhar-se. O título completo da obra é «O VIRGEM NEGRA – FERNANDO PESSOA explicado às criancinhas naturais & estrangeiras por M.C.V. Who Knows Enought About It seguido de LOUVOR E DESRATIZAÇÃO DE ÁLVARO DE CAMPOS pelo MESMO no mesmo lugar. Com 2 Cartas de RAUL LEAL (HENOCH) ao Heterónimo; e a Gravura da universidade. Escrito & Compilado de Jun. 1987 a Set. 1988».

o navio de mário cesariny

Até 19 de Novembro estará patente em Espanha, no Círculo de Bellas Artes de Madrid, a exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos», comissariada por João Pinharanda e assim designada a partir de uma das suas obras poéticas. Mário Cesariny é uma das figuras maiores do surrealismo português (talvez mesmo a maior), tendo convivido em Paris com André Breton, e o seu trabalho plástico chega a ser menos conhecido entre nós do que a sua obra literária, vasta e de uma grandeza ainda apenas parcialmente revelada e descoberta. Mas se a poesia tem um papel maior, toda a sua obra foi e continua ainda a ser fruto de uma experimentação descomplexada, como seria natural num astro da cultura portuguesa do século XX. Na sua abordagem pictórica, o artista recorre frequentemente às técnicas de colagem, mas de uma forma mais criativa, variada e inesperada, sendo o reflexo do seu entrosamento entre a (sua) arte e a (sua) vida. Exibida em Madrid para apreciadores e curiosos, «Mário Cesariny: Navío de Espejos» congrega obras dos anos 40 à actualidade — desenho, pintura, colagem, objectos e técnicas mistas — e fomenta o reconhecimento da produção plástica do artista que nunca teve receio de chocar, nem de se assumir como ele mesmo. Entre nós, ainda neste princípio do século XXI, Mário Cesariny de Vasconcelos é talvez a figura actual de uma grandeza tanta como a que atribuímos ao também poeta-pintor Almada Negreiros. Bem-hajam! Esta exposição levará à tela, ainda, a 28 deste mês o documentário «Autografia», do realizador Miguel Gonçalves Mendes. A conferir aqui e agora!

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2006/09/21

o lado plástico de william burroughs

«The Unseen Art of William S. Burroughs» foi a designação com que a galeria de arte londrina Riflemaker fez uma mostra dos trabalhos plásticos do escritor vanguardista norte-americano William S. Burroughs, nascido em 1914 e falecido em 1997. Com a novela «Naked Lunch», de 1959 (que em 1991 veio a ser filme também), Burroughs tornou-se conhecido para além do círculo restrito da chamada Beat Generation, que incluía escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. A sua faceta como artista plástico é pouco divulgada e aqui está uma possibilidade rara de ver ainda um pouco do que a Riflemaker revelou. «Queer» é outra das mais conhecidas novelas com a assinatura de William Seward Burroughs, que recomendamos para leitura.

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2006/09/14

luc dans le ciel avec des diamants

Descobri-o ontem e ele chama-se Luc. Porque é francês e gosta de rock lembrei-me de relacionar o seu nome com a famosa Lucy do quarteto de Lennon e McCartney: Luc dans le ciel avec des diamants. Mas na comparação não deverei ir mais longe do que isso porque do que Luc gosta, de facto, é de Iggy Pop, Nirvana, Radiohead e Gorillaz. Também gosta de H, que é o seu omnipresente companheiro e autor de praticamente todas as fotos e vídeos de Luc (pelo título chega-se ao seu blogue, que é o local ideal para os descobrir). São fotos e filmes curiosos que nos deixam seduzidos e à espera de mais...
Do outro lado da guitarra está Luc e isso significa mesmo que ele faz e toca música. Nada que me surpreenda ou me deixe excepcionalmente fascinado. Mas atrai-me a sua imagem cândida e a preocupação arty que se nota em cada um dos retratos que de si apresenta. E ontem mesmo, o jovem guitarrista até lançou um desafio aos internautas com veia artística para que criem uma obra gráfica (pintura, desenho, banda-desenhada, montagem digital, colagem ou mesmo fotografia de escultura) que reinterprete a sua imagem. Nas suas próprias palavras descreve-se assim: "LUC, Jeune Artiste de 19 ans écrit des poèmes à l’ambiance Rock qui sont les soutiens d’une musique tour à tour hurlée, puis pleurée par sa guitare. A renfort d’humour, LUC créé un monde qui n’appartient qu’a lui. Ses inspirations sont: Nirvana; Iggy Pop; Lacuna Coïl; Rob Zombie; Red Hot Chili Peppers; Radiohead; Ennio Morricone; Gorillaz; et Jean-Louis Aubert. Il aime l’imagerie de Burton, de Rob Zombie et des films de Sergio Léone. Luc est également modèle pour L’HéRéTiQuE depuis début 2006." Luc afirma amar a arte, mas ser incapaz de a criar graficamente. Por isso entende que oferecer-se para modelo do trabalho gráfico de alguém é o seu modo de participar, mais uma forma de ser criativo. Através do seu blogue pode saber-se desde já do regulamento de participação e dos prazos de inscrição. Os trabalhos dos participantes serão depois agrupados para uma exposição e um livro, e também exibidos pela internet.
Eu quero ver... Luc no céu com diamantes.

2006/09/08

d. quixote às cores

"maria mãe do filho de deus
pela minha janela com persianas japonesas, eu vejo um mundo um pouco confuso, meio tracejado, como uma pintura do münch. mas bem em frente à janela tem uma antena parabólica (que eu sei que é porque já olhei pra ela sem a persiana entre nós), e todas as vezes em que olho pra ela por detrás da persiana, tenho a mesma sensação: parece uma imagem da nossa senhora prestes a se jogar do prédio ao lado. claro, pra isso eu tive que antes ver a cena por detrás das persianas, e depois de pensar "o que diabos aquela santa está fazendo ali?" resolvi checar e percebi que era uma antena, de lado. mas é impressionante, sempre penso isso, quase todos os dias ao acordar. "isso diz muito sobre a sua fé, não é?", diriam os especialistas. i couldn't agree more."

Pronto, assim está como deve ser e é uma citação de parte de uma entrada que, em finais do mês passado, a nossa amiga Lucy F publicou no seu blogue Iluminuras (ilumi.blogspot.com). Achei muito curiosa a situação — esta de confundir antenas com imagens santificadas — e, mais ainda, a singular forma como Lucy a descreveu. Em troca ofereci-lhe o poema «Impressão Digital», do António Gedeão:

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

O texto é de 1956 e faz parte da primeira colecção de poesia que o cientista e escritor português Rómulo de Carvalho publicou sob o título «Movimento Perpétuo», usando como pseudónimo António Gedeão. Desde menino que ele é um dos meus poetas preferidos e só tenho pena agora de não poder transcrever de relance tantos outros poemas dele que também me maravilharam e maravilham. Depois procurei uma imagem para o ilustrar e D. Quixote com o seu fiel escudeiro pareceu-me a melhor solução para pesquisa. Deles, com moinhos poucas vi e com gigantes menos ainda. Vi um desenho, porém, do mesmo ano de 1956 em que D. Quixote está semi-despido, sem pudor, aos pulos defronte do seu fiel companheiro Sancho Pança. A ilustração pertence ao ilustre artista brasileiro Cândido Portinari — há uma ligação directa no título, para se saber e ver mais.
Eu sei também que a Lucy já me tinha prometido uma entrada no Iluminuras a propósito do poema do Gedeão, mas esta já estava começada e eu decidi na mesma acabá-la. Só que agora fico ainda mais curioso e à espera de uma nova surpresa. E eu conto com ela...

2006/08/22

amizade e amor: feminina

Na Quinta do Marquês, em Oeiras, concentram-se estátuas dos grandes poetas (e prosadores) portugueses e, entre elas, uma de Mário de Sá-Carneiro (da autoria do escultor Francisco Simões) em bela pose que a imagem perfeitamente documenta.
O Mário nasceu a 19 de Maio de 1890 no 3º andar do número 93 da Rua da Conceição, em Lisboa, e morreu em 1916, com apenas 26 anos de idade. Foi íntimo e colaborador do grande Fernando Pessoa, mas a sua obra foi distinta e autónoma, pautada pelo desencanto, pela solidão, pela obsessão e pela doença... do corpo e da alma, como se costuma dizer. Suicidou-se a 26 de Abril em Paris, no seu quarto do Hotel de Nice (hoje chamado Hotel Ninon), situado ao nº 29 da Rue Victor Masse.
90 anos depois da sua morte, a obra de Sá-Carneiro continua ainda hoje aberta a interpretações, mas parece mais que óbvio e quase universal que nela explorou também e insistentemente a (sua própria?) vertigem sexual, como parece incontroverso no caso da novela «A Confissão de Lúcio», centrada nos relacionamentos amorosos entre Lúcio, Marta e Ricardo de Loureiro. O mesmo se passa com «Feminina», um poema escrito em Paris no mês de Fevereiro do ano do suicídio, onde uma outra sexualidade — uma outra identidade sexual — é conjecturada como uma vontade bem sua:

Eu queria ser mulher para me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para puder estender
Pó-de-arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher para não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro —
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer potins — muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
e aguçá-los ao espelho, antes de me deitar —
Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios,
que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
e enganá-los a todos — mesmo ao predilecto —
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me puder recusar...

São curiosas a ilações que surgem do verso com que Mário de Sá-Carneiro termina, ao dizer-nos querer ser mulher para (na condição feminina) se puder recusar a si próprio (ao ser masculino universal, no fim de contas). No título desta entrada há a ligação a um pdf com 188 páginas da monografia sobre o autor realizada pela Biblioteca Nacional em 1990.