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2009/11/09

berlim renasceu a nove

Berlim, Berlim morreu a nove. // Cenário: / Yorckstr... sucessão de viadutos de ferro / enegrecidos pela ferrugem, / onde as velhas linhas para leste, / entregues à voracidade do tempo, / se equilibram sobranceiras... / (...) / Berlim, Berlim morreu a nove.

O texto vem da canção dos Mão Morta que em 1992 integrou o álbum «Mutantes S.21», um dos melhores da sua carreira. Nove é a data mágica de Berlim, a cidade dividida pela II Grande Guerra. Há vinte anos atrás, a 9 de Setembro, o governo da República Democrática Alemã aceitou fazer tombar o Muro e dar esse primeiro passo para a reunificação da Alemanha e para o fim da Guerra Fria na Europa. A velha Berlim morreu para renascer. Abaixo Berlim, viva Berlim. Berlim renasceu a nove.

2009/11/05

meninos de lágrima

Para facilitar, vamos por partes:
1) Eu sou (somos, cá em casa) completamente a favor da extinção das barreiras legais ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e também sou totalmente empenhado (somos os dois) na igualdade civil (sem restrições) dos casais formados por pessoas do mesmo sexo aos de sexo diferente;
2) Daqui se depreende que somos também convictos defensores do pleno acesso à adopção, fazendo-a depender apenas dos factores que sejam justos (os habituais, vamos dizer assim) e não de um conceito de sexualidade limitado, baseado nos modelos que prevêem um só pai, uma só mãe ou então, preferencialmente, um pai e uma mãe como "a" fórmula naturalista (talvez a primeira, a da primazia, mas não a única que sobra);
3) Sem ir mais longe, com isto ainda nos espantamos (apesar de todos os maus exemplos de que vamos sabendo a todo o tempo) por a sociedade portuguesa continuar a preferir ter crianças órfãs e abandonadas nos seus orfanatos — os seus "meninos de lágrima" —, defendendo para essas crianças um ideal que acontece menos vezes do que seria de desejar, dando-lhes somente uma mão cheia de nada, que são as promessas ainda e sempre à espera de se cumprir;
4) O meu (nosso) projecto pessoal de família não prevê a adopção (pelo menos de imediato), mas tal não impede que defendamos e lutemos por mais esse ideal, na óptica de uma maior igualdade social para nós e para todos, incluindo as crianças de hoje e os homens e mulheres de amanhã;
5) Somos contra qualquer referendo sobre o acesso ao casamento civil (como já se explicou na entrada anterior), compreendendo-se que a alteração à lei do casamento possa merecer e encontrar o consenso mais alargado possível da sociedade e do Parlamento ao excluir o acesso à adopção;
6) Talvez essa seja a melhor solução política imediata para obter apoios em quadrantes mais amplos, retirando força ao reaccionarismo que se vai manifestando ainda na sociedade mais conservadora;
7) Apostando no futuro e na mudança, continaremos a lutar acreditando que o tempo mostrará a quem cabe a razão, fazendo com que estes meninos deixem de ter os seus olhos banhados de tristeza.

2009/11/04

a cartada do referendo

Nem o Bispo do Porto, D. Manuel Clemente, nem o deputado do CDS-PP, Ribeiro e Castro, defendem o referendo sobre a igualdade no acesso ao casamento civil porque acreditem que é matéria que democraticamente deva ser referendada. Os direitos não se referendam, muito menos os de uma minoria, ponto final. O que tanto D. Manuel Clemente como Ribeiro e Castro sabem, é que a campanha para um referendo sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo daria o espaço necessário à exploração da homofobia e dos medos sobre o acesso de casais homossexuais à adopção. A criação de um circo referendário em torno dos direitos civis da minoria homossexual facilitaria, talvez, uma vitória do Não e, portanto, a interdição do casamento civil aos casais do mesmo sexo. Acontece que direitos não se referendam e muito menos os de uma minoria. Mais, se o argumento é o do debate, a questão tem vindo a ser discutida há vários anos, com especial intensidade em 2008 por motivo dos projectos de lei apresentados pelo BE e pelos Verdes em Outubro do ano passado. Se o argumento (rebuscadíssimo) é o da falta de legitimidade de uma maioria relativa do PS para mudar a lei, então não esqueçamos que a muito clara, noticiada e debatida intenção do PS de legislar sobre a matéria constava do programa eleitoral que foi a votos e ganhou. Mas a intenção de legislar no sentido de permitir o "casamento gay" também faz parte, se não explicita pelo menos implicitamente, dos programas do BE e de Os Verdes, como os eleitores que votaram neles bem sabem. A lei só passará se os votos destas três forças, em constituição de uma maioria absoluta de representatividade democratica e legitimamente concedida, assim o permitirem. Finalmente, se o argumento é o da comparação com o referendo sobre a IVG, não ignoremos que quando se discutiu interrupção voluntária da gravidez se discutiu um conceito bio-ético de vida e de direito à vida em colisão com os direitos das mulheres e, em certo sentido, dos homens, em geral. O direito dos homossexuais à igualdade perante a lei é garantido pela Constituição e deve traduzir-se na igualdade no acesso ao casamento civil, direito esse que em nada afectará o direito ao casamento já existente para os casais heterossexuais — que para nenhum efeito legal e vinculativo, portanto, têm de se pronunciar sobre o assunto.

2009/10/22

sínodo sueco aprova o casamento gay

Segundo a edição online do Jornal de Notícias (ligação acima), "a Igreja da Suécia aprovou hoje o casamento religioso dos homossexuais, que já era autorizado pela lei sueca desde 1 de Maio. A medida, que será aplicada a partir de 1 de Novembro, foi adoptada por uma maioria de cerca de 70 por cento dos 250 membros do sínodo sueco, indicou a instituição religiosa protestante em comunicado. No sínodo foi também aprovada uma liturgia para os casamentos homossexuais, de acordo com o mesmo comunicado. Aquando da adopção da lei pelo parlamento sueco em Abril último, a Igreja luterana, separada do Estado em 2000, apoiou a reforma mas adiou a aprovação formal para o sínodo."
Ao contrário do que acontece em muitos dos outros países que têm legalizado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, na Suécia "os casais heterossexuais podem escolher entre o casamento civil e o religioso, enquanto que os casais homossexuais só estavam autorizados, desde 1995 e até agora, a unirem-se através de uma parceria tornada legal por uma cerimónia civil."
Na Suécia o Estado e a Igreja estão separados (ao contrário do Reino Unido, onde a Igreja é liderada pela Rainha), fazendo com que esta decisão tenha uma grande importância em termos de consciência social, religiosa e de Estado. O texto do Jornal de Notícias lembra ainda que "o casamento religioso tem neste país nórdico valor civil."

2009/10/16

o bloco contra-ataca

Segundo o Diário de Notícias, o Bloco de Esquerda (BE) terá entregue hoje na Assembleia da República um diploma que pretende legislar sobre o alargamento do casamento civil a pessoas do mesmo sexo, desafiando o Partido Socialista (PS) a pôr em prática o seu "discurso do diálogo". Em conferência de imprensa o novo líder parlamentar do BE, José Manuel Pureza, terá mesmo dito que "se outras forças políticas convergem para soluções neste terreno isso significa que fizeram um caminho e que está aberta a possibilidade de pôr termo a situações de discriminação totalmente inaceitáveis", o que é uma verdade mais do que óbvia. A nova voz do BE disse ainda ter uma "expectativa grande" quanto à reacção do PS nesta e noutras matérias como uma proposta para suspender a avaliação dos professores e uma outra para aumento e requalificação das prestações da Segurança Social.
Se este calor de Verão já fora de época nos deixar de repente parece muito certo que o Inverno não será menos quente. Mas depois do Inverno, como será?...

[Imagem de Wilson Dias/ABr, CC 2.5]

2009/10/15

retrato de inutilidades

Inspirei-me nas "100 inutilidades sobre mim" do blogue Farpas & Bitaites para um retrato de inutilidades sobre mim próprio. Aqui fica, à espera que mais alguém nos siga o exemplo:
  1. Gosto de cinema de autor.
  2. Martini é o meu aperitivo preferido.
  3. Escolho viajar de avião por ser prático e acessível.
  4. Fiz um curso de observação de estrelas variáveis.
  5. Gosto de animais, desde que seja fora de casa.
  6. O medicamento que mais uso é o Ben-Uron.
  7. Quando o despertador toca eu levanto-me de imediato.
  8. Não costumo beber demais.
  9. Gosto de pimenta e piri-piri na comida.
  10. Gosto de sol e de praia.
  11. Gostava de estar só menos vezes.
  12. Não tenho tempo para ver todos os DVDs que compramos.
  13. Tive sexo gay regular ainda antes dos 10 anos, com outros miúdos.
  14. Gosto de comprar roupa com um bom desenho.
  15. O meu companheiro não me deixa cozinhar, para ser eu a lavar a louça.
  16. Eu (também) não roo as unhas.
  17. Gosto de assados e de grelhados, preferencialmente de peixe.
  18. Não gostei do filme "Jonas Que Terá 25 Anos No Ano 2000".
  19. Eu haveria de ser astronauta ou mergulhador.
  20. A relação com o meu companheiro dura desde 1986.
  21. Gosto de conhecer e descobrir novas cidades.
  22. Serei milionário quando achar um bilhete da lotaria premiado.
  23. Sou hiper-activo.
  24. O meu armário tem a porta aberta, mas eu continuo à porta.
  25. Gosto de viver no Porto.
  26. Aprendi a cortar o cabelo a mim próprio há 12 anos.
  27. Nos restaurantes escolho o que não como em casa.
  28. Fujo de neuróticos, como o diabo da cruz.
  29. Sou muito mais tímido, do que pareço.
  30. Adoro o cheiro de couro curtido.
  31. É um horror assistir à matança do porco.
  32. Só vejo futebol por um acto de patriotismo.
  33. Adoraria ir de férias e não ter de voltar.
  34. Não uso o telemóvel de uma forma banal, como se não tivesse custos.
  35. Gosto de homens já feitos mas ainda com um ar de juventude.
  36. Em pequeno, a minha cor favorita era a "de cenoura".
  37. Em criança às vezes fazia chichi na cama e tinha complexos com isso.
  38. Agitei a bandeira de um partido nas Legislativas de 2009.
  39. Fui contra a liberalização do aborto.
  40. Lembro-me muito bem das amizades especiais de há muito tempo.
  41. Provei uma francesinha e não gostei.
  42. Adormeço facilmente, mas durmo pouco.
  43. Bebo água quase como quem bebe leite ou toma um medicamento.
  44. Mordi uma criança em criança.
  45. Nasci e vivo no Porto, cresci por todo o lado, mas ainda não sei aonde vou morrer.
  46. No Verão gosto mais de gelados de água do que de leite.
  47. Não consigo passar um dia sem café.
  48. Gosto das flores na Primavera e do calor no Verão.
  49. O meu primeiro vinil foi "The Dark Side Of The Moon", mas ainda não o comprei em CD.
  50. Fumei durante muitos anos, mas deixei completamente há mais de cinco.
  51. Penso que se pode ser mais criativo com um pepino, do que com uma banana.
  52. Sou um bom fazedor de sopa.
  53. Pensei em ir viver para Espanha por mais de um par de vezes.
  54. A vida é um processo contínuo de aprendizagem.
  55. Eu tenho cócegas quando me contam uma boa anedota.
  56. Sou leão, sinto-me leão, não me envergonho de ser leão.
  57. Penso que detenho um conhecimento vasto, mas ainda não conheci Deus.
  58. Toda a vida ouvi dizer que estava mais magro, mas nunca desapareci.
  59. Quando estou em baixo preciso de dormir.
  60. Tenho respeito pelos outros e detesto quando me desrespeitam.
  61. Posso demorar a tomar uma decisão, mas depois sou firme até prova em contrário.
  62. Já fui assinante da Zero.
  63. Às vezes gostava de estalar os dedos na cara de alguém.
  64. Detesto música aos berros.
  65. Nunca comprei paloco a pensar que era bacalhau, mas um dia vou experimentar.
  66. Gosto de pão ainda quente com manteiga.
  67. Controlo o meu consumo de álcool quando vou conduzir.
  68. Gostava de jogar alguma espécie de strip poker, mas nunca aconteceu.
  69. Tenho um afilhado lindo, de quem tenho sempre muitas saudades.
  70. Gosto de artes plásticas, especialmente de arte contemporânea.
  71. Passo pelo menos metade do fim-de-semana a trabalhar.
  72. Prefiro receber em casa, do que acompanhar ao restaurante.
  73. Acho que nunca experimentei com um Óscar.
  74. Durmo com uma almofada debaixo da cabeça e outra ao lado da minha.
  75. Vivo com o meu companheiro já vai para três anos, mas há uma vida em comum há mais de vinte.
  76. "A Minha Bela Lavandaria" é talvez o filme da minha vida.
  77. Politicamente sou ambidestro, mas só em caso de necessidade.
  78. Detesto sopas frias e comidas com natas ou afins.
  79. Gosto de me rir com os meus amigos.
  80. Gosto do modelo da garrafa do licor Malandrice.
  81. Não gosto de ver a sanita destapada.
  82. Parece que sempre fui um bom aluno, mas em criança era "distraído".
  83. Passo mais tempo ao computador do que deveria.
  84. Sou famoso pelo sentido de organização, mas às vezes deixo-me ir.
  85. Não acham que o Sherlock Holmes também era gay?
  86. Não consigo adormecer sem uma boa causa.
  87. Não tenciono provar caracóis.
  88. Prefiro as luzes frias às incandescentes.
  89. Já fumei cachimbo porque gostava do cheiro, mas desisti.
  90. Gosto de ler revistas masculinas gay. E não, nunca passo à frente as imagens.
  91. A estatuária religiosa também é arte.
  92. Entrei para o clube dos utilizadores de Havaianas pelo pé do Gonçalo.
  93. Serei duro de quebrar, ou darei para torcer?
  94. Actualmente e salvo excepção, família minha nem morto!
  95. Fui à tropa contrariado, mas gostei.
  96. Não gosto de jogar às cartas, excepto o tal póquer de que falava.
  97. Gosto de gémeos idênticos do sexo masculino.
  98. Detesto fazer uso de "download" (descarregar), "printar" (imprimir), "zipar" (comprimir) e de usar estrangeirismos desnecessários.
  99. Penso que casarei muito em breve com o meu companheiro.
  100. Este blogue não existiria se eu não fosse um homem feliz.

2009/10/07

o porto, em palavras curtas

Logo pela manhã apanho no "site" do Público a extensa entrevista-quase-artigo-de-opinião de Artur Santos Silva (presidente do BPI) a Rui Rio (presidente da Câmara Municipal do Porto), que está disponível pela ligação neste título. Perante o que li eu correspondi com um dos primeiros comentários do dia, o possível para quem gostaria de dizer bastante mais em palavras curtas:
— Sou um "independente" e nunca votei no Rui Rio, mas ainda considero a possibilidade de votar. Só que as dúvidas são muitas, as certezas são poucas e as que são certezas andam muito divididas entre a avaliação positiva e a negativa. Como me recuso a votar na Elisa Ferreira (queremos na CMP alguém que saiba bem o que quer), ainda vou ter de me decidir. Uma abstenção é o caminho mais provável, neste caso. Infelizmente!

Eu disse abstenção porque não é com facilidade que eu entrego o meu voto a alguém, em troca de coisa nenhuma. Mas o destino trocou-me as voltas e, à hora de almoço, na minha ida a casa, encontro na caixa do correio um desdobrável de João Teixeira Lopes, candidato pelo Bloco de Esquerda, que enumera "Doze Propostas, Doze Prioridades" da sua nova apresentação à CMP. Vale a pena listar todas destacando eu, entre elas, a 6ª:
1. Combate à crise através da acção da Câmara...
2. Prioridade à reabilitação do Edificado...
3. Despoluir o Douro num período de 4 anos...
4. Devolver o Teatro Rivoli à População do Porto...
5. Requalificar os mercados municipais...
6. Combate à discriminação e à violência, para fazer do Porto uma cidade de acção anti-homofóbica e antimachista, favorável aos imigrantes e ajustada aos cidadãos portadores de deficiência. Criação de um centro comunitário LGBT.
7. Apoiar a autonomia dos idosos...
8. Democratizar a democracia...
9. Reduzir a necessidade de utilização do automóvel...
10. Transparência total...
11. Defender o processo de regionalização...
12. Projectar o Porto no mundo...

A abstenção vai definindo-se como um caminho cada vez menos provável para o boletim de voto que entregarei no próximo domingo. Sei que depois Rui Rio presidirá de novo, quase de certeza, à Câmara Municipal do Porto. Mas ao ter escolhido João Teixeira Lopes e o Bloco de Esquerda nestas eleições autárquicas, eu saberei ter identificado a opção certa para mim. Porque será uma opção por quem respeita a igualdade e promove o fim de vícios sociais que continuam a perpetuar a exclusão nesta cidade.

2009/09/30

cenários

Cenário possível: o Presidente fala, o PS reage em força, o Presidente sente-se justificado para convidar o segundo partido mais votado nas Legislativas para formar um governo, possivelmente de coligação com o terceiro partido mais votado, e o casamento e tantas outras esperanças de cada um vão à vida. Cenário impossível: fazer de conta que temos um bom Presidente! Escutaram?!...

2009/09/23

noite pela igualdade


É SIMplex: "Género, racismo, orientação sexual, deficiência. Com Elza Pais, Jorge Lacão, Vera Jardim, Miguel Vale de Almeida, Inês Medeiros e testemunhos de cidadãos, queixas, debate, propostas, música. Venham tod@s!" É a noite da política da Igualdade, bem mais SIMplex do que pode a muit@s parecer!...

2009/09/22

um homem... e o seu marido

Há muitos anos que vinha adiando a leitura de Armistead Maupin (sim, eu sei). Não houve razão nenhuma especial — quando me cruzei com algum dos seus livros não calhou, e quando se calhar lhes teria pegado não me cruzei com eles. Ou algo parecido. Há uns dias atrás, numa livraria, peguei no "Michael Tolliver Está Vivo", e na badana onde se resume a biografia de Maupin li, a terminar o texto, "Armistead Maupin vive em São Francisco com o marido, Christopher Turner". E eu pensei: ora aí está o que eu preciso, o livro de um autor que tem um marido. E é do Maupin, que vou finalmente ler. E estou a ler e recomendo a quem ainda não o fez, ler Maupin ou o "Tolliver". Mas esta entrada é mesmo sobre homens e os seus maridos. Não "companheiros", "colegas", "amigos" ou "namorados", mas MA-RI-DOS, como o "husband" com que Christopher Turner (o marido de Maupin) é também referido na legenda que acompanha a foto do autor na Wikipedia (que é a que utilizo nesta entrada). O termo "marido", no contexto do casamento entre dois homens, faz-me pensar na homofobia de quem propõe "contratos de parceria" (e na cretinice do director da revista GQ, que num inquérito do "Público" considerava que o casamento que "já é uma festa pirosa e foleira" seria levada ao exagero pelos homossexuais) — por que malfadado raio um homossexual não há de ter direito ao casamento? Com fraque, gravata branca, flores e bolo de noivo, se lhe apetecer... E por isto, porque para mim é importante que em breve se possa falar em Portugal sobre um homem e o seu marido, sobre mim e o meu direito a ter um marido, e porque acredito que uma vitória de Manuela Ferreira Leite nas eleições do próximo Domingo pode vir a significar anos (4, 10, quem sabe) de atraso na alteração da lei do casamento civil, é que eu vou votar PS. Há quem acredite que o voto no BE é o mais coerente com este desejo, mas o voto no BE (por fuga ao PS) pode significar a vitória do PSD. E eu não quero a Manuela Ferreira Leite mais o Paulo Rangel mais o Cavaco Silva, em trio, a ensombrar a minha vida. Pelo sim pelo não voto no PS, que desta vez não poderá escusar-se dizendo que a alteração não constava do programa, está lá bem clara — "(...) o compromisso do PS assenta em: (...) remover as barreiras jurídicas à realização do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo" —, com o Miguel Vale de Almeida para o lembrar.

2009/09/18

votar pela mudança

Quando falamos aqui do direito de acesso ao casamento civil por todos os cidadãos independentemente da sua orientação sexual, não estamos a defender a alteração ou redução de nenhum direito já existente na sociedade civil. Aliás, é da sociedade civil que falamos pois as questões religiosas dizem apenas respeito às religiões e aos seus legítimos representantes e praticantes.
Quando falamos do direito de acesso ao casamento civil por todos os cidadãos portugueses, homens e mulheres, falamos de um direito tão natural e legítimo numa sociedade plural quanto outros que já foram conquistados e assimilados pela sociedade. Como quando se aprovou a liberdade religiosa, ou o fim da escravatura, do racismo e do machismo, por exemplo.
Que achariam, o que fariam todos vós se entre nós só o catolicismo fosse permitido, se entre nós os não-brancos voltassem a ser escravos dos brancos, se entre nós se afirmasse o racismo e a discriminação sexista contra as mulheres?...
Há quem não queira mudar, há quem defenda valores — mas que valores?...
E os homossexuais — homens e mulheres — que amam outra pessoa — como os heterossexuais — e querem com ela viver uma relação estável e plena, como os seus pais ou irmãos e toda a sociedade livre?!... Será que ainda há alguém com dois dedos de testa que não se sinta chocado com isto?... E será que alguma mulher ou algum cidadão não-branco votaria no partido que mais a/o seduzisse se esse partido lhe retirasse todos os direitos que sempre desejou conquistar?... Nem que seja só pelo direito, já que direito e obrigação são coisas bem diferentes!...
Como em Espanha e noutros países da Europa e do mundo, Portugal também vai mudar. Temos necessidade e urgência. Não cruzamos os braços. Exigimos esse direito de todos: do Estado, dos partidos, da sociedade e de todo o cidadão.
De ti também, votando contra o conservadorismo de MFL e apoiando a vitória de JS.
Qualquer voto contra o PS será a favor do PSD/MFL. Por isso votar pela mudança, nestas eleições, é votar PS!

2009/09/16

ambição

A ideia de que o voto é secreto serve mais para silenciar as nossas discordâncias democráticas do que para promover a democracia. Todos temos o direito de manter secretas as nossas opções pessoais, incluindo o voto, mas também temos o direito (e às vezes o dever) de o tornar "público".
Eu não sou um eleitor fiel a nenhum partido e sempre procuro escolher na boca das urnas aquele que mais se aproximou dos meus interesses, das minhas preocupações, dos meus projectos e das minhas convicções. Mas não vejo essa avaliação só numa perspectiva de proximidade, mas também na perspectiva da viabilidade.
Com isto diria que, neste ponto da situação, o meu voto das próximas legislativas só poderia ser concedido a um de dois "partidos": ou o Bloco de Esquerda (que propôs — e muito bem — o casamento e a adopção de forma igual para todos, independentemente da sua orientação sexual) ou o Partido Socialista (que deixou cair o projecto do Bloco, em votação na Assembleia da República, mas o incluiu entretanto e de forma objectiva no seu actual programa eleitoral).
Também diria que o meu voto não poderia ser dado nas próximas eleições à Coligação Democrática Unitária (a CDU ainda não entendeu que não há nenhuma razão para que os futuros casais do mesmo sexo não possam adoptar crianças), ao Partido Social Democrata (Ferreira Leite e Cavaco Silva juntos são obscurantismo demasiado para mim e para o País), ao Partido Popular ou a qualquer outro.
Como a escolha dos portugueses parece estar definitivamente comprometida entre o PS e o PSD, não creio que o voto no BE seja uma opção que sirva os meus interesses. Nas Europeias votei no BE, para dar vitalidade e sangue fresco à construção da Europa e também um sinal de atenção ao Primeiro-Ministro de Portugal, mas agora votar no BE é dar a vitória a Ferreira Leite! E isso não, nunca!

Não sou pessoa de preparar e enviar textos, filmes ou caricaturas sobre os políticos de que não gosto. Ainda que algumas vezes tenha recebido algumas, ridículas, de pessoas que deveriam ter mais um palmo de testa do que efectivamente têm... e eu tenho muita pena dessas pessoas. Se não tenho a iniciativa de as atingir com provocações engraçadas (que há muitas, é só escolher no catálogo do mau gosto, da piroseira pura), pelo menos essas pessoas têm contado com a minha resposta para saber que há quem pense diferente delas, quem também tenha ambição e outras perspectivas, mas não usa sistematicamente esses mesmos recursos. Hoje faço-o excepcionalmente com uma brilhante ilustração que parece ser do caricaturista António e que eu uso por via do blogue com ligação no título.

Talvez assim seja possível fazer avançar Portugal um pouquinho mais. E talvez também tu possas ajudar, porque isto diz-nos respeito a todos: a mim, talvez a ti ou até a um filho ou a um neto que possa um dia querer viver e crescer num país mais justo e onde também ele possa ser um cidadão verdadeiramente livre e não discriminado!...

2009/09/13

cegueira ou falta de pudor?

"Debate final mantém empate entre Sócrates e Ferreira Leite. Desengane-se quem pensava que ia conseguir perceber, através do frente-a-frente televisivo entre José Sócrates e Manuela Ferreira Leite ontem transmitido pela SIC, quem será o vencedor das eleições de 27 de Setembro. A forma como ambos os líderes se apresentaram no debate foi equilibrada e não houve de parte a parte nenhuma distracção que liquidasse a sua imagem (...)". É assim que a jornalista São José Almeida abre um artigo (destacado na primeira página do sítio do Público) sobre o debate que ontem juntou frente a frente José Sócrates e Manuela Ferreira Leite. Que o debate não nos diz quem vai ganhar já se sabe como já se sabia, razão pela qual quem pensava que dito resultado lhe seria revelado ontem na SIC estava, de facto e como bem diria La Palisse, enganado. Mas a forma como ambos se apresentaram foi "equilibrada"? E não houve distracção?... Se não que "liquidasse", pelo menos que abalasse a imagem? Será que não vimos exactamente o mesmo debate, em que um para o bem e para o mal se compromete; e a outra diz que sim, que não e que talvez, que é branco e é preto e também cinzento? E já nem falo na falta de tacto das investidas contra Sócrates, seja nas pouquíssimo diplomáticas referências aos vizinhos espanhóis a propósito do TGV (que já mereceram, de resto, comentários jornalísticos e oficiais de Espanha, e um diz-que-não-diz de Ferreira Leite), ou no inesquecível "O Senhor Engenheiro parece aquele que mata os pais para dizer que é órfão"?... Há um grau de interpretação e subjectividade possível numa análise, claro, mas desculpem lá (Sócrates e Casamento à parte) isto ou é cegueira ou absoluta falta de pudor.

[A ilustração é da autoria de João Coisas, para o SIMplex.]

2009/09/07

debate a 9 de setembro

Recebemos e divulgamos:

«Estando a cerca de três semanas de um acto eleitoral — as eleições legislativas — e apresentados publicamente os programas dos diferentes partidos políticos, julgamos que é de particular importância a realização de um debate sobre políticas de igualdade, de modo a que as visões e projectos de cada partido possam, nessa(s) área(s), ser explicitados e para que os/as cidadãos/ãs possam não só deles ter conhecimento como debatê-los e esclarecer dúvidas. Tendo em conta que o valor da igualdade faz parte do ADN do MPI — designadamente a defesa do acesso ao casamento civil por parte de pessoas do mesmo sexo — realizarar-se-á a 9 de setembro, em Lisboa, sob iniciativa do MPI, "Igualdade(s) em debate", com representantes dos partidos políticos e moderação de Ana Sousa Dias e José Luis Peixoto, para o qual a presença de todos/as é fundamental.
Este debate pode ser outro grande momento de visibilidade pública do MPI e das causas que defende e um grande passo rumo a mais igualdade!
Apelamos à vossa participação e a uma ampla divulgação.
Vemos-nos no dia 9**»

Está na hora de confrontar os partidos e dar visibilidade à causa da igualdade no casamento — apareçam no Hotel Ibis Saldanha no dia 9 de Setembro pelas 21h00.
[Clique na imagem para ampliação de pormenores]

2009/09/02

sobre dinheiro, felicidade e esperança

O dinheiro contribui para a minha felicidade? Sem dúvida, ingenuidade nenhuma pode contrariar esta constatação. Portanto importam-me as questões do trabalho e do desemprego, das finanças, da economia, dos muitos ordenados mínimos e dos poucos máximos. E importa-me, nesta questão como noutras (digo-o sem pretensa virtude), que também os meus compatriotas sejam felizes — que tenham trabalho e que sejam justamente remunerados por ele. Também me importam os alunos, os professores e o sistema educativo. E, no meio disto tudo, que Portugal evolua e se torne num país melhor (ou ainda melhor) para viver. Se acredito que estes propósitos serão melhor servidos com Manuela Ferreira Leite à frente do Governo? Não. Nem por um segundo. Mas esse poderá bem ser o cenário que teremos no dia depois de 27 de Setembro, se as pessoas não pararem para pensar com cabeça fria na dispersão dos votos pelas pequenas alternativas com que pretendem (em muitos casos) vingar as suas frustrações em Sócrates. O voto de 27 de Setembro deve ser um voto útil — não faz sentido castigar Sócrates, se com isso se gera um mal maior. E eu quero poder casar, aí estaria outro e enorme contributo para a minha felicidade! É verdade que o PS (depois do chumbo das propostas de lei de Outubro passado) não me transmite confiança absoluta na mudança do código civil que permitiria às pessoas do mesmo sexo contrair o casamento. Mas Sócrates faz campanha pela igualdade no casamento, e isso dá-me esperança. E eu prefiro viver quatro anos de esperança do que quatro anos de certeza... de que nada acontecerá nesta matéria.

2009/08/03

dois homens beijando-se (iv): o beijo do memorial

Este é o beijo que vêem as pessoas que visitam o Monumento Aos Homossexuais Perseguidos Pelos Nazis, em Berlim. Num bloco de betão com 4 metros de altura, os artistas Michael Elmgreen e Ingar Dragset (de que já aqui tínhamos falado) abriram uma pequena janela através da qual se pode espreitar estes dois homens beijando-se. Este memorial sublinha o carácter secretivo que as relações entre dois homens ou duas mulheres tinham que manter... e têm, a maior parte das vezes, que manter; mas, ao mesmo tempo, convida o espectador a ver o beijo de dois homens tal como é — belo e banal, como os outros. Mas o direito a beijar-se (ou dar as mãos ou trocar gestos de afecto) em público, no meio de outros direitos tão importantes entretanto já conquistados, teima em demorar. Demora porque não depende directamente de leis, depende da visibilidade e da habituação. E para que as pessoas se habituem é preciso que os homossexuais se mostrem e se beijem, como no memorial de Berlim. Talvez por isso, por medo que se crie habituação e liberdade, o monumento foi já vandalizado duas vezes (a última das quais em Dezembro do ano passado). O mesmo medo — e o mesmo ódio — terá vitimado ontem dois jovens israelitas num centro de apoio LGBT em Telavive. Só por um beijo, ou por algo de tão belo e banal como isso.

[O vídeo do beijo do memorial de Berlim está nesta ligação ao YouTube e, por tempo limitado, mostra-se na coluna aqui ao lado.]