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2009/02/20

lembrando gisberta

Faz agora três anos que morreu a Gisberta e para o assinalar o Grupo de Reflexão e Intervenção do Porto (GRIP) da associação ILGA Portugal organiza o debate «Lembrando Gisberta: Identidade de Género e Cidadania», que tem lugar no Clube Literário do Porto, sábado dia 21, a partir das 15h30. Estarão na mesa o psicólogo, investigador e activista LGBT independente Dr. Nuno Carneiro, o interno de psiquiatria do Hospital de Júlio de Matos Dr. João Tavares, o advogado estagiário Dr. Ricardo F. Diogo e a representante do GRIP Luísa Reis, além da moderadora Drª Salomé Coelho, doutoranda em Estudos Feministas.
O comunicado do GRIP acrescenta ainda:

Em Fevereiro de 2006, Gisberta Salce Júnior foi encontrada morta numa obra abandonada no coração do Porto. Era mulher, transexual, e excluída.
Foi insultada, humilhada, agredida e violentada ao longo de vários dias, e finalmente atirada para um poço onde morreu afogada. Os responsáveis foram um grupo de 14 adolescentes entre os 12 e 16 anos de idade. A maioria deles estava ao cuidado da mesma instituição de acolhimento de menores tutelada pela Igreja Católica.
Exposto o caso, os responsáveis pela morte de Gisberta foram julgados no Tribunal de Família do Porto. A sentença considerou que ela não tinha sido vítima de homicídio, antes o seu cadáver – ainda vivo – ocultado; o motivo não foi determinado, mas o tribunal excluiu a possibilidade de se tratar de transfobia. Afirmou também que o que se tinha passado tinha sido 'uma brincadeira de mau-gosto que correu mal'.
Gisberta nunca foi reconhecida como mulher pelo Estado português, e foi essa mesma falta de reconhecimento que não a deixou ser cidadã. A sua morte bárbara foi o ponto final que pôs a descoberto a exclusão sobre a qual foi forçada a construir toda a sua vida.
Três anos depois, nada mudou: o estado português continua a recusar-se a reconhecer a identidade e cidadania das pessoas transexuais, e nenhum partido apresentou qualquer proposta de Lei de Identidade de Género.
Cabe a nós, aos cidadãos e à sociedade civil, denunciar a mais extrema forma de violação dos direitos humanos – a supressão da própria identidade e cidadania – e exigir a mudança.
Dia 21 de Fevereiro, às 15:30h, juntem-se a nós – para que não nos esqueçamos, e para que nunca mais façam Gisbertas de qualquer um de nós!

2008/10/29

que portugalidade?

Segundo notícias hoje chegadas à TV, parece que a nossa ganapada poderá vir a passar automaticamente de classe escolar até que complete os 12 anos de idade. Esta notícia teve por base uma recomendação do Conselho Nacional de Educação ao respectivo ministério, entretanto já divulgada noutros meios da comunicação social. Pelo que se entendeu parece que já não importará se se é bom ou mau aluno, se se vai ou não às aulas, se se agride ou não os colegas, empregados ou professores... A primeira preocupação do Estado será passar de ano os alunos e só depois, então, se pensará nas alternativas ao "insucesso" escolar.
Não posso deixar de manifestar a minha estupefacção extra e de exibir que isto é afinal, como se costuma dizer, mais uma pedrinha para o meu sapato. É que esta coisa de estarem sempre a actualizar o grau da escolaridade mínima (da quarta classe ao 12º ano) até pode fazer algum sentido numa sociedade que se quer cada vez mais culta e mais moderna, mas tal não deveria ser nunca uma obrigação universal e descontrolada, mas apenas uma opção ditada pelas vocações de cada um. Tanto mais que tem vindo a penalizar todos os que optaram nos seus tempos de estudante pelo ensino básico (ou mais do que isso, alguns) e hoje se vêm desvalorizados numa sociedade que só reconhece diplomas, mesmo quando os seus titulares mal sabem executar o mais essencial da sua portugalidade: falar e escrever correctamente o Português!

[A imagem é de uma reinterpretação artística do Galo de Barcelos por Carla Gonçalves.]

2008/10/07

flash mob (porto)

Vista no blogue do Miguel Vale de Almeida que a recebeu via UMAR, passamos a informação sobre uma flash mob no Porto:

«Dia 9 de Outubro, quinta-feira, todas/os à estação de metro da Trindade, às 12h!

Traz uma folha com a frase “ACESSO AO CASAMENTO CIVIL”.

Chega um pouco mais cedo e age naturalmente, como se fosses um/a mero/a utente à espera do metro. O objectivo é que estejamos todos/as dispersos/as e não em multidão.

Quando forem exactamente 12h, segura a tua folha. És uma estátua. Não fales nem te mexas. O importante é a tua mensagem.

Passados 2 minutos em que estás completamente estático/a, guarda a tua folha e retoma o teu percurso.

TU SEGUES. A MENSAGEM FICA. PORTUGAL AVANÇA.»

2008/09/28

uma mensagem aos deputados

O Paulo, o Miguel e o Alberto já tinham mostrado este texto, com o qual se pretende fazer chegar a nossa voz aos deputados que no dia 10 de Outubro vão votar os projectos de lei do BE e do PEV. Publicamo-lo aqui para que outros mais o vejam, copiem e enviem. Para além do endereço dos grupos parlamentares, no final desta entrada encontram um link que aponta para uma página oficial do Parlamento, através da qual podem enviar o texto a cada um dos deputados individualmente. Quem sabe se estas mensagens não fazem a diferença?

Assunto: No dia 10 de Outubro, SIM à liberdade e à igualdade.

No próximo dia 10 de Outubro, a Assembleia da República será chamada a votar projectos que estabelecem finalmente a igualdade no acesso ao casamento.

Esta é uma questão de direitos fundamentais, é uma questão de cidadania, é uma questão que determina a qualidade da nossa democracia. Trata-se de acabar com a humilhação de muitas mulheres e muitos homens que são ainda discriminadas/os na própria lei por causa da sua orientação sexual. Trata-se de afirmar finalmente que gays e lésbicas não são cidadãos e cidadãs de segunda.

A Assembleia da República terá finalmente a oportunidade de afirmar o seu empenho nesta luta pela igualdade e pela liberdade – e a oportunidade de contribuir de forma particularmente simples para a felicidade de muitas pessoas.

O fim da exclusão de gays e lésbicas no acesso ao casamento consegue-se com uma pequena alteração no texto de uma lei, que não implica custos nem afecta a liberdade de outras pessoas. Porém, será um enorme passo no sentido da igualdade e contra a discriminação. E como demonstraram as discussões sobre o voto para as mulheres ou sobre o fim do apartheid racista na África do Sul, o preconceito que existe na sociedade não pode nunca justificar a negação de direitos fundamentais. Pelo contrário, votar contra a igualdade é legitimar e encorajar a discriminação.

Esta votação representa por isso uma enorme responsabilidade, pelas implicações que terá no reforço ou na recusa do preconceito.

Porque recuso a discriminação na lei portuguesa e porque esta é a oportunidade de repor a justiça e cumprir o princípio constitucional da igualdade, seguirei com atenção esta votação - e apelo ao voto favorável de todos os membros deste Grupo Parlamentar e à defesa intransigente da igualdade no próximo dia 10 de Outubro.

Endereços de email dos grupos parlamentares:
blocoar@ar.parlamento.pt
gp_pcp@pcp.parlamento.pt
gp_pev@ar.parlamento.pt
gp_pp@pp.parlamento.pt
gp_ps@ps.parlamento.pt
gp_psd@psd.parlamento.pt

e de cada um dos deputados em particular:
www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Deputados.aspx

2008/08/19

já o número 2

Já está nas bancas a edição de Agosto da Com'Out. Na capa, Madonna, a propósito do 50º aniversário (já aqui celebrado com hino e tudo) e do concerto de dia 14 de Setembro (o último a chegar é heterossexual :-) Este número inclui ainda entrevista a Richard Zimler; reportagem sobre os jovens e a saída do armário; fins-de-semana coloridos no Algarve; a Sparkling Party e o Labyrinto. No editorial comenta-se a economia associada ao 'euro cor-de-rosa', chamando a atenção para o caso espanhol e para o facto do volume do consumo dos gays e lésbicas vizinhos ter feito pesar a balança política a seu favor. Mas, mais importante, a equipa da Com'Out denuncia a hipocrisia de empresas portuguesas que, apesar de terem uma grande parte dos seus lucros a provir do consumo do público glbt, estão relutantes em anunciar os seus produtos na revista. É pena que em Portugal não exista um movimento associativo capaz de gerar boicotes às marcas homófobas. Mas, como de facto não existe, para já o melhor que podemos fazer é continuar a comprar a revista e, dessa forma, fazer pesar a balança a nosso favor.

2008/05/23

filmes à letra

Há 3 anos, o GRIP (Grupo de Reflexão e Intervenção do Porto da ILGA Portugal) apresentou o seu primeiro ciclo de cinema. Em parceria com a UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) o GRIP propõe-se de novo a apresentar um ciclo de cinema, que desta vez terá lugar no espaço Maria Vai Com As Outras (Rua do Almada nº 443, no Porto), com a porta aberta a quem queira entrar.
Em quatro fins-de-semana, a partir de 30 de Maio, Filmes À Letra será dedicado aos temas que representam cada uma das letras da sigla LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros). Durando até 5 de Julho, o ciclo decorrerá nas noites de sexta-feira e sábado, após as 22h30, integrando oito filmes e quatro debates que acontecerão após os filmes de sábado. Para abordar a transsexualidade, a bissexualidade, o lesbianismo e a homossexualidade masculina, o programa de Filmes À Letra é o seguinte:

30 de Maio (sexta-feira)
«Boys Don't Cry»
(Transsexualidade / biografia, romance, drama.) O jovem Brandon muda-se para Falls City, onde encontra emprego, faz novos amigos, e conhece Lana, a namorada. Mas ninguém a não ser Brandon sabe que ele não nasceu da maneira que o imaginavam. Baseado numa história real. Óscar para Melhor Actriz Principal e Melhor Actriz Secundária, Globo de Ouro para Melhor Actriz e Melhor Actriz Secundária. 1999, EUA, M/16. Realizadora: Kimberley Pierce. Elenco: Hilary Swank, Chloe Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendan Sexton.

31 de Maio (sábado)
«Ma Vie en Rose»
(Transsexualidade / comédia, drama.) Ludo é tratada pelos pais, irmãos e professores como rapaz. Mas, num mundo de adultos confusos, só ela consegue ver com clareza suficiente para saber que nunca foi outra coisa que não uma menina. Globo de Cristal para Melhor Filme, Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro. 1997, França, Bélgica, Reino Unido, M/6. Realizador: Alain Berliner. Elenco: Georges du Fresne, Michèle Laroque, Jean-Phillipe Écoffey. No final, conversa com Nuno Carneiro (psicólogo, Faculdade de Psicologia do Porto) e elementos do GRIT (Ivo, Filipe, Luísa).

6 de Junho (sexta-feira)
«Gia»
(Bissexualidade / biografia, drama.) Um filme baseado na história de Gia Carangi, a primeira super-modelo. A beleza de Gia, recém-chegada a Nova Iorque, captura o olhar de uma agente, e ela ascende rapidamente no mundo da moda. Mas, ao mesmo tempo que se envolve com Linda, descobre que não consegue deixar de se sentir sozinha. Globo de Ouro para Melhor Actriz Principal e Melhor Actriz Secundária. 1998, EUA, M/16, 126 minutos. Realizador: Michael Cristofer. Elenco: Angelina Jolie, Elizabeth Mitchell, Eric Cole, Kylie Travis.

7 de Junho (sábado)
«Kinsey»
(Bissexualidade / biografia, drama.) Baseado na vida e trabalho de Alfred Kinsey, cuja pesquisa mudou para sempre a maneira como era vista a sexualidade. Globo de Ouro para Melhor Filme, Melhor Actor Principal, Melhor Actriz Secundária, nomeação para Óscar de Melhor Actriz Secundária. 2004, Estados Unidos/Alemanha, M/16, 118 minutos. Realizador: Bill Condon. Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Peter Sarsgaard, Chris O'Donnell. No final, conversa com Isabel Menezes (psicóloga, Faculdade de Psicologia do Porto).

20 de Junho (sexta-feira)
«Imagine Me And You»
(Lesbianismo / comédia romântica.) Rachel e Hector namoram há anos, e decidem finalmente casar-se. Pouco antes do casamento, ela conhece Lucy. A amizade vai crescendo, e Rachel não consegue deixar de pensar na nova amiga mesmo depois do casamento. Nomeado para Prémio da GLAAD de Melhor Filme. 2005, EUA/Inglaterra/Alemanha, M/12, 98 minutos. Realizador: Ol Parker. Elenco: Piper Perabo, Lena Headey, Matthew Goode, Celia Imrie e Anthony Head.

21 de Junho (sábado)
«Producing Adults»
(Lesbianismo / drama.) Venla quer engravidar, mas o namorado, Antero, tem medo que um filho comprometa a sua carreira. Ela acaba por pedir ajuda a uma colega na clínica de fertilidade, Sati, e entre as duas desenvolve-se uma relação que vai para além do profissional. Prémios FIPRESCI e Rosebud para o Melhor Filme. 2004, Finlândia/Suécia, M/12, 102 minutos. Realizador: Aleksi Salmenpera. Elenco: Kari-Pekka, Tolvonen, Minna Haapkyla, Minttu Mustakallio. No final, conversa com Maria João Silva (Associação para o Planeamento da Família).

4 de Julho (sexta-feira)
«The Bubble»
(Homossexualidade masculina / romance, drama.) Noam, um soldado israelita, conhece Ashraf, um jovem palestiniano, num posto de controle. Dias mais tarde, voltam a encontrar-se na casa que Noam partilha com Yali e Lulu. No meio do conflito, o amor nasce espontaneamente entre os dois. Prémio CICAE do Festival Internacional de Berlin e Melhor Argumento no Festival Internacional de Durban. 2006, Israel, M/16, 114 minutos. Realizador: Eytan Fox. Elenco: Ohad Knoller, Alon Friedman, Daniela Virtzer, Yousef Sweid.

5 de Julho (sábado)
«Wedding Wars»
(Homossexualidade masculina / comédia.) Ben pede ao irmão, Shel, designer de cerimónias, para organizar o seu casamento com Maggie. Shel descobre que afinal é Ben quem é responsável pelo discurso contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo que o governador Welling, pai de Maggie, vai usar na sua campanha eleitoral. Shel fica indignado, e organiza uma greve! 2006, EUA/Canadá, M/12, 87 minutos. Realizador: Jim Fall. Elenco: John Stamos, Eric Dane, Bonnie Somerville, Sean Maher. No final, conversa com Gabriela Moita (psicóloga, Faculdade de Psicologia do Porto) e encerramento do ciclo.

A imagem por nós escolhida é retirada do filme «The Bubble».

2008/05/17

stop homophobia

Hoje é o Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia. Pretende-se com ele combater todas as formas de repressão devida à orientação sexual ou à identidade de género, promovendo a igualdade de direitos e oportunidades entre os cidadãos, muitas vezes negada pelos próprios governantes.
Da mesma forma que foi criado e tem vindo a ser assinalado o Dia Mundial da Mulher, ou o Dia Mundial de Luta Contra a Sida, espera-se que o Dia Mundial de Luta Contra a Homofobia seja reconhecido nacional e internacionalmente no âmbito das lutas de defesa dos direitos humanos e também assim promover ou reforçar um símbolo das lutas LGBT de todo o mundo.
O reconhecimento deste Dia Mundial traria à discussão valores enraizados nas sociedades, mesmo nas mais evoluídas, apelando ao direito universal de escolha da orientação e da identidade sexual, acentuando a necessidade de reformular os direitos dos cidadãos.
A ILGA Portugal propõe este ano uma petição internacional por um dia mundial de luta contra a homofobia — por isso, no título há uma ligação para a ILGA onde poderão ser consultados todos os detalhes sobre a proposta do Dia Mundial Contra a Homofobia. A imagem do lado — com o título "STOP: Homossexualidade NÃO é uma doença!" — foi editada a partir do cartaz oficial do Canadá para assinalar em 2008 o Dia Internacional Contra a Homofobia.

2008/04/15

boas atitudes

Pedro Castro, 31 anos, desenvolveu a ideia de criar uma rede de hotéis vocacionada para o turista homossexual. Ele próprio, como viajante, já estava "cansado das decepções e das dificuldades em encontrar as boas moradas gay", verificando mesmo que muitos hotéis se promoviam como gay-friendly, mas que tal não era "verdadeiramente vivido". A Attitude Hotels, que tem sede em Zurique, nasce dessas questões e da procura de respostas para elas. Para já integra 28 unidades hoteleiras "concebidas, imaginadas e desenvolvidas para satisfazer os turistas gays e lésbicas", mas espera chegar às 100 unidades até ao final do ano. Em Portugal há já há quatro unidades hoteleiras aderentes: duas em Lisboa, que são a residência My Rainbow Rooms e o Palacete Chafariz d'El Rei (que abrirá já em Julho) e mais duas no Algarve, a saber a Casa Marhaba (no Carvoeiro) e a Casa Charneca (próximo de Faro). Pela Europa fora há uma grande variedade de opções por Espanha, França, Itália, Reino Unido e, até, muito mais longe. Como nos Estados Unidos, do outro lado do Atlântico. O nome Attitude Hotels é para fixar, disso parece-nos não haver dúvidas, porque é já tempo de ter mais hotéis com... boas atitudes!

2008/04/05

bom dia lisboa

Já tínhamos sido convidados para o primeiro dos jantares "bloguistas" organizados pelo Pinguim (WhyNotNow) e, agora, também pelo Paulo (Felizes Juntos). Dessa vez não marcámos presença e das próximas-menos-próximas não poderemos adiantar se estaremos, ou não. Mas há um novo jantar — o segundo — de hoje a duas semanas e, nesse, vamos estar presentes é já sabido! Vai ser num sábado, o de 19 de Abril, com encontro a partir das 19 horas, para se começar a jantar uma hora depois. Onde? Em Lisboa, no Restaurante O Caruso, situado na Rua da Artilharia Um, lá para os lados do Jardim das Amoreiras (o link no título ajuda a esclarecer estes e outros detalhes). O convite é aberto a quem queira participar — e por isso é que o tornamos público — e registar tal facto nos blogues de algum dos organizadores (ver ligações no painel lateral). A conta (excluindo dela os aperitivos e os digestivos ou afins, em que cada um pagará os seus) deverá ficar entre os 15 e os 20 Euros por estômago, que deverão ser par'aí uns 50 (cinquenta) — muita gente, certamente!
Por agora, para encher o coração de saudade da bela Lisboa aos que sob o seu luar habitualmente não dormem, vou ainda lembrar a letra de uma bela canção dos Rádio Macau, vinda no seu disco de estreia de há já muitos anos, que transcrevo no verbo original, corrido e quase sem pontuação:

Fiel a um amor antigo acabo sempre por voltar à casa a que gostaria de poder chamar o lar. Entre a euforia do regresso e o cansaço da viagem com um montão de histórias novas encafuadas na bagagem. E uma sensação esquisita que me deixa meio à toa ora cá estou eu de novo então bom dia Lisboa. Já palmilhei meio mundo já andei por todo o lado e quando a angustia me agarra vem-me aos lábios o teu fado. Já acordei cansada e tanto sítio diferente e acordo como se tivesse sempre o Tejo à minha frente e é sempre a mesma saudação que na minha cabeça ecoa com um sorriso persistente então bom dia Lisboa. Ora então olá Lisboa é sempre tão bom voltar quem sabe haverá um dia em que virei p'ra ficar. E acabar por aí numa velha água furtada para tornar realidade um sonho há muito sonhado e numa ruela qualquer entre Alfama e a Madragoa saudar-te pela manhã: então bom dia Lisboa.

2008/03/15

pois então!

Confesso que tenho andado um pouco desanimado com as minhas vindas aqui para escrever, contar coisas. Além de que a disponibilidade continua a não ser muita. São fases, certamente, que o tempo costuma ajudar a ultrapassar :-/
Mas hoje quis uma vez mais marcar a presença com uma espécie de comentário da semana, em que assinalo como grande novidade cá de casa o termos começado por fazer planos de férias que tinham por destino Estocolmo (as viagens baratas e directas, em conjunto com o EuroPride, eram bons incentivos para nós, que talvez alguém ainda queira considerar para si próprio), depois considerámos e reconsiderámos outros destinos (Sesimbra, Canárias, Galiza, Catalunha, Milão, Berlim, Munique, Viena, Paris), mas acabámos por deter-nos aparentemente em definitivo pelo destino que se mostra numa imagem de outros tempos: Marselha. Já na próxima semana começaremos a fazer as marcações, depois de assegurar nos nosso locais de trabalho que as datas das férias são definitivas. As vossas sugestões poderão melhorar ainda os nossos projectos, portanto venham daí.... A data? Ainda falta algum tempo, mas por esta via saberão apenas quando voltarmos :-)
Para data mais próxima vai-se falando num encontro de bloguistas em Lisboa, talvez em finais de Abril, mas nós continuamos a ver a nossa presença em causa devido a compromissos laborais extraordinários e pouco antecipáveis. Quem organiza estas coisas que continue a ter a nossa eventual ausência em conta. :-(
A fechar por hoje, uma outra curiosidade: o meu blogue "homoerótico" a que já antes me referi está quase com 1.000 visitas diárias. Ontem deu-me para ir ver as estatísticas e foi um aumento de cerca de 30% desde Setembro do ano passado (em que vos contei de um máximo de 745 visitas). No fundo são vocês que muito me contam, pois então!... ;-)

2008/02/21

um top 30

Foi sem grande hesitação que acatei o pedido do Special K (ver no título) que me desafiou para apresentar uma lista da música que mais me tocou ao longo da vida. Pensei em fazer uma espécie de Top 10, que logo vi que teria que alargar para 20, mas que no final ficou em 30 e com muito disco relevante de fora. Estou a lembrar-me de alguns, mas vamos analisar a lista que proponho que nos levará de certeza a outras associações:

(Anos 60)
1) 1967: The Velvet Underground & Nico: «The Velvet Underground & Nico», tinha eu 6 anos e nesse tempo quase não me lembro de ter dado atenção à música. Mas este é o ovo de tudo o que me interessaria ao longo das décadas seguintes, em particular o artista Andy Warhol, a modelo-cantora Nico, e os músicos John Cale e Lou Reed;

(Anos 70)
2) 1973: Pink Floyd: «The Dark Side Of The Moon», um ano antes da revolução, é um dos discos mais intemporais e que mais valorizei nesse tempo em que se gravava para cassete dos vinis de outros miúdos, e onde incluiria os bem sonantes Supertramp, o épico Rick Wakeman, os poéticos The Doors, o excêntrico Elton John, ou os incomparaveis Genesis ainda de Peter Gabriel ou, tardiamente, The Who de «Quadrophenia»;
3) 1977: David Bowie: «Low», nos meus 16 anos, rebenta com todas as tradições e torna-se num disco de referência por um músico de referência, numa parceria dourada com Brian Eno, ex-teclista dos Roxy Music, que vem atiçar um gosto por derivados futuros que incluiriam os Japan como principal referência;

(Anos 80)
4) 1980: Young Marble Giants: «Colossal Youth» abre os anos 80, as hostilidades com os companheiros musicais que não saem do passado, e lança laços fortes com os arrojados companheiros que vão chegando, à procura de novas referências, sem passado, com futuro;
5) 1981: Soft Cell: «Non-Stop Erotic Cabaret» acontece quando chego aos 20 anos de idade e é só «Tainted Love» inconfessado, explosivo e activo, deixando uma marca que me leva a acompanhar o trabalho vindouro da dupla e em especial o de Marc Almond;
6) 1982: GNR: «Independança» terá sido o meu «Ar De Rock» porque era deste som urbano e inovador que eu andava à procura, e que me levou a interessar-me por nomes adjacentes como os Heróis do Mar, António Variações, Rádio Macau, Mler Ife Dada, Pop Dell'Arte, Essa Entente, Linha Geral, Xutos & Pontapés;
7) 1982: John Cale: «Music For A New Society» marca nesse ano a relevância de John Cale fora dos Velvet Underground, ficando como um marco na capacidade de renovação e de inovação, influenciando escutas transversais como Talking Heads, Ramones, The Fall, Squeeze e Happy Mondays;
8) 1983: Echo & The Bunnymen: «Porcupine» é apenas um dos muitos excelentes discos do grupo, podendo colocar ao lado nomes como Bauhaus, Virgin Prunes, Gene Loves Jezebel, The Sound, Magazine, Modern English, Cocteau Twins, X-mal Deutschland;
9) 1983: Psychic TV: «Dreams Less Sweet» foi um disco avançado para o seu tempo, uma mistura de experimentalismo puro, de misticismo apócrifo e de revelação, com muitas antecipações do que a música viria a ser nos anos que se seguiriam. Numa outra onda, mas logo ali ao lado, estavam os Crass;
10) 1983: The Durutti Column: «Amigos Em Portugal» é o mais belo disco de música estrangeira feito em Portugal, editado pela Fundação Atlântica que marcaria a sua chancela nos primeiros discos de um punhado de novas propostas portuguesas;
11) 1984: Bronski Beat: «The Age Of Consent» chegou-me à vista pelas mãos de um colega de estudos, dizendo sem pudor que era "um disco de paneleiros" e isso trouxe-me aonde estou hoje (num blogue de paneleiros sem complexos);
12) 1984: Dali's Car: «The Waking Hour» junta duas figuras marcantes na música que eu ouvia na época (Peter Murphy dos Bauhaus e Mike Karn dos Japan), num disco quase esquecido, que nesse tempo era um catalisador constante de cada fim de dia de trabalho;
13) 1984: David Sylvian: «Brilliant Trees» é a estreia do belo vocalista dos já extintos Japan, afirmando uma voz doce numa música envolvente, que por seu lado me levaria a escutar Ryuichi Sakamoto, depois Philip Glass, Michael Nyman, Leonard Cohen e também os Style Council do ex-Jam Paul Weller;
14) 1984: Sétima Legião: «A Um Deus Desconhecido» é a sequela lógica ao single «Glória», ficando como a primeira colheita de muitas que se esperaram e seguiram;
15) 1984: The Smiths :«Hatful Of Hollow» tocou-me muito (se bem que o álbum anterior com que se estrearam não o tenha feito da primeira vez que o ouvi) e ficou um pacto para sempre vindo das guitarras de Johnny Marr, da poética sublime escrita e cantada por Morrissey e da referência constante a Oscar Wilde, apenas distraída por algumas intervenções assinaláveis de grupos como The Felt, Aztec Camera, Housemartins ou Madness;
16) 1985: Robert Wyatt: «Old Rottenhat» é um dos discos mais simbólicos do baterista dos ex-Soft Machine (nome pilhado a William S. Burroughs), que inclui a faixa «East Timor» e vai fazendo referências a Portugal em mais um par de álbuns, sempre não-alinhados e fascinantes;
17) 1985: The Cure: «The Head On The Door» saiu quando eu estava de passagem por Paris e ficou-me essa ligação, assim como a associação admitida em entrevista entre um dos temas do disco e uma marca de vinho do Porto;
18) 1986: Communards: «Communards» é o regresso em duo de Jimmy Sommerville que deixara os Bronski Beat e nos trouxe um álbum cheio de belas canções, entre elas «So Cold The Night» que foi um hino nosso no início da nossa relação a dois;
19) 1986: Vários: «Divergências» é uma belíssima antologia de nova música portuguesa, fruto da editora Ama Romanta, que incluía mais um hino especial da nossa "luta": «La Feria» dos Essa Entente;
20) 1987: Pop Dell'Arte: «Free Pop» foi o primeiro álbum do grupo de João Peste, depois do êxito extraordinário do máxi-single que incluía «Querelle» e «Mai '86», enquanto por aí as bandas mais alternativas continuavam a defender um novo estatuto para a música moderna portuguesa;
21) 1987: Tones On Tail: «Night Music» é um disco de uma época, obscuro e sintético quanto baste, uma obra-prima com a assinatura do ex-Bauhaus Daniel Ash, com aliás também o foi o trabalho primeiro dos Love & Rockets;
22) 1988: Marc Almond: «The Stars We Are» inclui a voz de Nico, numa derradeira gravação antes do acidente que a vitimou mortalmente, mas é também o mais feliz álbum de Marc Almond, muito pop, muito produzido, muito Pierre et Gilles, enquanto Momus anda por perto, The The também, os Frankie Goes To Hoollywood, os Erasure, Depeche Mode e Pet Shop Boys;
23) 1989: Gavin Friday: «Each Man Kills The Thing He Loves» é Oscar Wilde, Jacques Brel e Bob Dylan muito bem revisitados pelo ex-companheiro de Bono e ex-vocalista dos Virgin Prunes de boa memória;

(Anos 90)
24) 1991: Coil: «Love's Secret Domain» entra pelos anos 90 com a sua mensagem de amor alucinado, marcada pela vertigem, pela entrega sem medida, pela música sem paralelo, pelo sonho;
25) 1991: The Ex & Tom Cora: «Scrabbling At The Lock» mostra o grupo punk holandês na companhia de um violoncelista extraordinário, fazendo com que a electricidade das guitarras e a energia da bateria se liguem numa espiral de som que nos prende e agita, mas é também uma porta para variantes criativas como Fred Frith, Heiner Goebbels, Arto Lindsay, até mesmo Caetano Veloso e Tom Zé;
26) 1993: Philip Glass & Allen Ginsberg: «Hydrogen Jukebox» é o fruto de uma colaboração essencial entre o compositor-músico e o escritor-declamador, e é a geração beat a inscrever marcas bem actuais na última década do século XX;
27) 1994: Chumbawamba: «Homophobia» é o disco mais marcante do grupo punk-pop-disco que descobri na minha segunda viagem a Londres, um par de anos antes, sendo provocante, alarmante, combatente e absolutamente cativante;
28) 1999: Brian Eno: «I Dormenti» é uma edição de autor da música para uma instalação de arte, devendo ser tocado em loop, incessantemente, na tradição da melhor musica ambiental (muzak, dizia-se noutros tempos) deste grande compositor e produtor. William Ørbit poderia estar aqui, ou Wendy Carlos, ou The Residents, ou os Negativland, ou Steven Brown;

(Recentes)
29) 2004: X-Wife: «Feeding The Machine» abre a discografia maior desta banda electro-punk do Porto, da qual espero novidades relevantes. Caso contrário volto a ouvir todos os discos de Alan Vega e dos Suicide;
30) 2006: Bruno Coulais: «Stabat Mater» fecha esta selecção de discos e referências discográficas essenciais. É possivelmente a obra maior de um compositor conhecido pela bandas-sonoras que assinou, num registo certamente bem diferente deste trabalho de música contemporânea que me marcou num par de momentos difíceis para cada um de nós e para as nossas mães.

Gostaria de ter referido ainda Laurie Anderson, Bel Canto, The Clash, Serge Gainsbourg, Martin L. Gore, In The Nursery, os Kraftwerk, Linha Geral, Madonna (via Gonçalo), Morrissey a solo, Jorge Palma, Pere Ubu, Pixies, Ramones, Sex Pistols, Sigur Rós, Siniestro Total, Patti Smith, Patrick Wolf e outros mais. Creio que não o fiz, mas o esforço foi grande e mesmo assim terá valido a pena!

2008/01/03

acordo

Sonhei que fui procurar ao dicionário online Priberam o significado de "acordo" e que o encontrei sem dificuldade, exactamente assim:

Foi encontrada 1 entrada e detectada 1 forma.

acordo | s. m.
1ª pess. sing. pres. ind. de acordar

acordo
s. m., ajuste; convenção; conciliação; concordância; conformidade;
Jur., entendimento das partes num contrato.

Depois dou conta que já estou noutro plano do sonho e que sou levado em viagem por outros continentes, parando no Brasil para ler uma crónica do jornalista Ricardo Freire, que diz exactamente assim:

Blogueiro ofilaine

Pessoal, vou precisar sair do ar até o fim do feriado para terminar um trabalho que já deveria ter entregado.
Volto aqui só para postar o texto da Época assim que a revista sair nas bancas.
Enquanto isso, não se acanhem: a cabine fica temporariamente transferida para a sala de embarque, digo, para a caixa de comentários.
Não se esqueçam dos blogs amigos ali do blogroll (que já está desatualizado, eu sei!). Vale a pena visitar e trazer links de posts novos.
A propósito — quando trouxer links, dê um copy/paste e nunca ponha o link entre parênteses ou colado a nenhum sinal de pontuação (ponto, vírgula, tracinho). Para o link virar link precisa estar soltinho.
Bom feriadão procêis tudo!


Sem sair do sonho viro-me para um lado, depois para outro e regresso por fim a Portugal. Mas na volta dou de caras com uma dessas, talvez descuidada, que nem sequer ouso transcrever de fonte tão literária que é...

Depois disto, com má cara acordo. Acordo!?

2007/12/07

à mesa com o grip

É já na próxima semana semana que terá lugar o habitual "jantar de Natal" do Grupo de Reflexão e Intervenção do Porto da ILGA Portugal, assim convocado: "O GRIP vai organizar o jantar de Solstício de Inverno deste ano, no próximo dia 12 de Dezembro (quarta-feira), pelas 20h, em local a anunciar. Estão convidados tod@s @s associad@s, quem está inscrito na nossa mailing informativa, @s amig@s do GRIP, e todas as pessoas que quiserem vir conhecer o grupo. Quem desejar inscrever-se, ou obter mais informações, pode escrever para o nosso endereço (grip.ilga@gmail.com), indicando nome e contacto caso deseje comparecer no jantar. As inscrições estão abertas até dia 11. Esperamos ver-vos por lá!".
O GRIP é um grupo de acção ligado à Associação ILGA Portugal que pretende ser uma voz viva e activa a partir da cidade do Porto para as questões LGBT. O grupo promove encontros, debates, ciclos de cinema, acções de educação sexual nas escolas, parcerias com outras entidades, intervenção política e outras iniciativas que poderão ser acompanhadas através do seu blogue. A participação no jantar de Natal é uma forma de juntar activos e simpatizantes das causas LGBT e de, informalmente, trocar opiniões que façam avançar os interesses comuns.

2007/11/29

coisas de cinema

"Um travesti que perdeu o amor pela vida é confrontado com a alegria de viver de um adolescente com Síndrome de Down", é a forma como se pode resumir a história de «A Outra Margem». Não são temas que me levem ao cinema, mas não consegui resistir à curiosidade após assistir a uma interessante reportagem sobre o filme na TV e a ter sabido da opinião de dois ou três dos amigos daqui. Para mais, por um acaso ontem passei pelos Cinemas Medeia Cidade do Porto e lá perguntei até quando estaria ainda o filme em exibição, pensando vê-lo no próximo fim-de-semana com o Gonçalo. Mas era já o último dia e, apesar de nessa altura estar sem o meu companheiro que se encontrava a trabalhar, não pude deixar de me deslocar à extensão dos cinemas no Teatro do Campo Alegre onde, às 22 horas, assisti ao filme. E ainda bem! Confirmo que Filipe Duarte e Tomás de Almeida na minha opinião bem mereceram o prémio ex-aequo que receberam no Festival de Cinema do Mundo de Montreal, Canadá, para melhor actor. E Luís Filipe Rocha, o realizador que recebeu o Prémio Arco-Íris atribuído este ano pela ILGA Portugal e já antes tinha assinado o também belo «Sinais de Fogo» (filme inspirado no livro de Jorge de Sena), passou a ser também para mim uma das figuras portuguesas mais relevantes neste ano que se aproxima já do fim. Porquê? Porque fez pensar. Porque faz e fará ainda pensar em questões que não são fáceis e que Portugal costuma esquecer. E porque o faz (segundo acredito) numa perspectiva exterior aos temas reflectidos, mas fá-lo com correcção e com uma paixão que não pode ser acusada de exageros. Gostei de Filipe Duarte, como actor e da sua personagem que logo que entra em cena me lembra a "descida à terra" de Mick Jagger no filme «Bent». Ou, também nessa princípio da história, a bem conseguida alternância de imagem e entrosamento de som entre a actuação do travesti na discoteca e o crepitar do fogo da cremação do seu namorado que decorria ao mesmo tempo, noutro local. E as relações que se foram mostrando, como flores que se abrem: com a irmã, o pai, o sobrinho, a noiva abandonada e, até, com os engates de cada momento ou os adiamentos consecutivos na entrega das cinzas do companheiro às suas origens... «The Other Side» é o título em inglês para este filme que merece lugar na história do cinema internacional de temática gay. A propósito: «Paranoid Park» é o novo de Gus Van Sant e estreia hoje por cá. Antes do filme será exibida uma nova curta-metragem de Joaquim Pinto, um realizador que se mostrou pela primeira vez em 1988 com «Uma Pedra no Bolso». A esse voltarei depois, talvez num destes dias...

2007/11/23

na casa dos sigur rós

Deliciem-se com a edição especial do DVD «Heima», dos islandeses Sigur Rós. Ponham de lado as paisagens sonoras carregadas de electricidade e silêncio, esqueçam os efeitos conceptuais transpostos do seu imaginário para o écran, desmontem as personagens misteriosas e elaboradas que acreditamos serem as reais e as que se esconderão por detrás das guitarras eléctricas, da bateria, dos sintetizadores deste quarteto. «Heima» é o filme do regresso a casa após uma dessas representações sonoras e visuais que são os seus concertos e que os levaram para outros países. Este é um documentário ao vivo do seu regresso à Islândia que os viu nascer e crescer, à terra dos seus compatriotas, ao berço da sua sensibilidade e da sua cultura. Os quatro Sigur Rós que aqui encontramos são quatro simples músicos, despojados de artifícios tecnológicos, que tocam simples instrumentos acústicos, e que o fazem de terra em terra, ao longo de 15 localidades, nas cidades, nas aldeias, nas igrejas, nos parques nacionais, em fábricas abandonadas e em qualquer outro lugar onde comparecesse um grupo suficiente de espectadores que os acolhessem e à sua oferta generosa. «Heima» passou no cinema, fora de Portugal, mas por cá parece que apenas estará disponível para uso privado, em DVD (há uma edição simples e outra especial com um livro de imagens de 116 páginas, a não perder). Reúne canções dos seus quatro álbuns, renovadas para assinalar também os seus 10 anos de existência, e dois temas novos. O filme foi realizado por Dean Deblois, que nos facultou esta oportunidade de conhecer de perto os membros da banda, o seu mundo, o seu meio, a sua casa. E para nós, homossexuais, muito especialmente o estranho e fascinante Jón Þór Birgisson (Jónsi), assumidamente gay e namorado de Alex Somers, o principal responsável pela elaborada imagem gráfica do grupo.

2007/11/16

a um passo

Às vezes penso, como poderá Portugal dar o passo que deu a Espanha e estender o casamento civil aos homossexuais, quando aqui não temos nenhuma da visibilidade que há no país vizinho, nomeadamente através de marchas de orgulho com centenas de milhares de participantes... Não existe pressão política, nem aceitação social. Existe talvez consentimento comedido, como é próprio de uma sociedade hipócrita como a nossa. Recentemente disseram-me que existe cá um "observatório das sexualidades" e que, segundo estudos realizados por essa entidade, existiriam 30% de portugueses a favor do casamento entre homossexuais (em Espanha a mudança da lei deu-se com 48%) — serão então os 18% da diferença que nos faltam para a mudança da lei? Ou talvez nos baste a justiça do Tribunal Constitucional, onde pára agora o recurso da Teresa e da Lena e onde, como aconteceu na África do Sul (que como Portugal tem uma Constituição que não permite a discriminação pela orientação sexual, mas que ao contrário de nós já legalizou o casamento para casais do mesmo sexo após um casal lésbico ter insistido em recursos até — mais uma coincidência — ao Tribunal Constitucional), se espera uma última sentença nacional. Não percebo os homossexuais que são contra o casamento. Trata-se apenas de uma questão de direitos iguais no acesso a um contrato civil — não é relevante se vamos casar proporcionalmente mais ou menos que os casais heterossexuais e, de igual modo, se nos vamos divorciar mais ou menos depressa. Ao contrário do que possam pensar aqueles que crêem ser avançados e progressistas no seu pensamento, com ideias sobre um estilo de vida alternativo ao heterossexual (que mais não é do que aquele que se lhes permite ter na margem do colectivo), reaccionária é a oposição ao casamento de homossexuais. Por isso, também de pouco serve dizer "sim, sou a favor, mas não estou interessado em casar" — para atingirmos essa meta a primeira parte da frase é suficiente. Será possível que o nosso Tribunal Constitucional, como na África do Sul, largue a bomba e corte caminho? Estaremos em breve, alguns de nós, a assinar certidões nas conservatórias, a trocar alianças e a continuar as nossas vidas com uma maior legitimidade perante a lei?
"Parece impossível... com este frio e de manga curta!".

2007/10/27

seu

Há muitos anos fiz um amigo que era uns 10 anos mais velho do que eu. A amizade surgiu porque comprávamos discos na mesma loja e havia muitas coincidências na música que nos interessava, quando essa música ainda interessava a pouca gente. Em termos temporais decorriam os anos 80, já lá para o final, e um dos grupos que eu descobri por sua conta foi o que tinha por nome Henry Cow (de tão estranho, o nome foi-me repetido e até traduzido — Vaca Henrique, clarificou ele! — e foi mais uma das descobertas que ainda hoje permanece fonte do meu interesse). Mas com o passar dos anos, apesar da amizade se ir reforçando e alargando também ao meu companheiro, as diferenças foram cavando um fosso cada vez mais largo e intransponível. Se, por um lado, abertamente me perguntou um dia se eu e o Gonçalo éramos namorados (respondi-lhe que sim, e ele passou a tratar-nos como tal), por outro (ao contrário de mim), tinha uma repulsa profunda por tudo quanto fosse música de origem brasileira (Caetano Veloso, Ambitious Lovers, Tom Zé e toda a música Made in Brazil era como se tivesse sido criada por algum demónio). À medida que fomos ficando mais velhos, a diferença de idades foi-se esbatendo, mas o resto não e há bem pouco tempo até nos cruzámos sem nos cumprimentarmos, por sinal à entrada para um concerto.
Não espero, por isso, vir a encontrar o Zé (é o seu primeiro nome, se bem que zés haja muitos) no início de Novembro, quando o brasileiro Seu Jorge se apresentar em concerto na cidade do Porto. Jorge Mário da Silva é um bonito homem de 36 anos de idade, magro e de tez escura. Descobri-o com o disco «Cru», que me atraiu pela capa mas não me levou a dar o passo da compra. Reencontrei-o em «The Life Aquatic Studio Sessions», banda-sonora da aventura oceanográfica que em 2004 Wes Anderson filmou — em português com o título «Um Peixe Fora de Água» — e onde o músico faz o papel de Pelé dos Santos. O disco mostra a peça composta por Seu Jorge para o filme («Team Zissou») e treze versões acústicas traduzidas de clássicos de David Bowie («Rebel Rebel», «Life on Mars?», «Ziggy Stardust», etc). O próprio Bowie elogiou o trabalho dizendo que "had Seu Jorge not recorded my songs acoustically in Portuguese I would never have heard this new level of beauty which he has imbued them with", fazendo do disco um must have absoluto! É deste Seu Jorge que que eu gosto, ou mesmo do Mané Galinha que ele interpretou no filme de Fernando Meirelles «Cidade de Deus». Ele que, nos anos 90, foi um dos sem-abrigo das ruas do Rio de Janeiro, vai agora estar em Portugal para nos deslumbrar em vários concertos, que passarão por Portalegre, Guimarães, Estarreja, Lisboa e Porto. Nesta cidade recebe-o a Casa da Música já a 1 e 7 de Novembro. Nós estaremos por lá, mas será que o Zé estará?...

2007/10/24

prazeres proibidos

Num dia de chuva que marca o fim do meu Verão, recordo Luis Cernuda, poeta espanhol nascido em 1902 nessa incontornável Sevilha, leitor e seguidor de Keats e de Gide, combatente antifascista na Guerra Civil, vanguardista no seu tempo, exilado em Inglaterra e, depois, no México que o levaria por fim deste mundo em 1963. Ficou ligado ao movimento intelectual e literário que incluía Federico García Lorca e se designou Geração de 27. Marcado por uma solidão e um desterro que poucos ousariam combater numa Espanha franquista e puritana, «Los Placeres Prohibidos» — de onde se mostra o poema «Os Marinheiros São as Asas do Amor» — é uma obra adiantada para o seu tempo, com marcas de surrealismo e uma óbvia sexualidade que Cernuda mais procura defender que esconder:

Os marinheiros são as asas do amor,
São os espelhos do amor,
O mar acompanha-os,
E os seus olhos são dourados como o amor
É dourado em seus olhos.

A alegria viva que lhes corre nas veias
É também dourada,
Semelhante à própria pele;
Não os deixes partir porque seu sorriso
É como o sorriso da liberdade,
Luz resplandecente aberta sobre o mar.

Se um marinheiro é um mar,
Dourado mar amoroso cuja presença é um cântico,
Não quero a cidade construída de sonhos cinzentos;
Quero apenas deitar-me ao mar e naufragar,
Barca sem norte,
Corpo à deriva afundar-me em sua luz de oiro.

«Os Prazeres Proibidos» apareceram em Portugal numa edição de 1985, pela Hiena Editora, de onde transcrevo o poema vindo à página 18. Acima, na foto, está o poeta junto ao mar de Castropol, numa memória do Verão de 1935, que pode ser consultada com mais detalhe pelo link do título. Havendo vontade recomendo ainda a leitura de «Birds in The Night» que foi escrito em Londres na mesma casa onde Cernuda habitou depois de nela terem vivido (bem) juntos Rimbaud e Verlaine. A «Pena Capital» de Mário Cesariny (no meu exemplar de 1982, que veio à luz pela edição da Assírio e Alvim) trás uma tradução a páginas 219 a 221.

2007/07/04

my havaianas dragon

Dei-me conta que me faltava um par de Havaianas cá em casa: há bem pouco tempo havia 2 pares a uso, mas nas caixas de sapatos deveria haver pelo menos mais um; o que não se verificou quando as procurei. Umas foram para casa da minha mãe, outras uso-as cá dentro nos dias quentes, em alternância com uns chinelos para os dias frios ou umas alpergatas para os outros dias. Tenho ainda uns chinelos de dedo da Camper, de que gosto muito, mas não era o que eu neste momento tinha em mente e procurava. Eram as Havaianas que me faltavam e a algum lado elas teriam ido parar...
Talvez numa ida à praia, no final do Verão passado, as tenha perdido. Seria fácil perceber porquê, já que até lá eu vou de sandálias (que gosto bem menos de usar) e só à chegada as troco pelas Havaianas. Estranho, não é?... Mas tem uma razão (tome nota): é proibido conduzir descalço ou de chinelos em Portugal! Brasileiro diria «mas havaiana não é chinelo», só que a polícia portuguesa não vai nessa conversa... Tá a vê, não é?!...
Assim fui à procura de mais um par deste perfeitíssimo chinelo brasileiro, que primeiro conquistou o mundo e depois (via Gonçalo, claro!) conquistou-me a mim. São ideais para a praia e para a cidade, para a casa e a rua, para o dia e a noite, para o quarto e a sala, é só deixarmos-nos levar. Escolhi as novas Havaianas Dragon (black), que se vêem acima numa fotografia que acabei de tirar cá em casa. São pretinhas e prateadas. São iguais a todas as outras e diferentes ao mesmo tempo. São sobretudo muito leves, muito confortáveis e muito higiénicas. Vão comigo até Londres, e ficarão no hotel à espera dos meus regressos. Abraçarão os meus pés cansados ao fim de cada dia. Ajudar-me-ão a recuperar o bem-estar e as energias, enquanto me entrego nos braços do meu companheiro. Espero que o meu fofito goste da escolha!

Mais sobre Havaianas
Importado do blogue gayFEEL

2007/06/23

orgulho gay

Tom Robinson compôs «Glad To Be Gay» para a marcha do Gay Pride londrino de 1976. Dois anos depois apareceu finalmente em disco, mas a sua passagem na rádio foi recusada pela BBC Radio 1. Teve várias versões, sendo mais considerada a do LP de 1979 que se intitulou «Cabaret '79». A letra era assim:

The British Police are the best in the world
I don't believe one of these stories I've heard
'Bout them raiding our pubs for no reason at all
Lining the customers up by the wall
Picking out people, knocking them down
Resisting arrest as they're kicked on the ground
Searching their houses and calling them queer
I don't believe that sort of thing happens here
Sing if you're glad to be gay
Sing if you're happy this way, hey (x2)

Pictures of naked young women are fun
In Penthouse and Playboy, page three of The Sun
There's no nudes in Gay News our one magazine
But they still find excuses to call it obscene
Read how disgusting we are in the press
In The Evening News and the Sunday Express
Molesters of children, corruptors of youth
It's there in the paper, it must be the truth
Sing if you're glad to be gay
Sing if you're happy this way, hey (x2)

Have you heard the story about Peter Wells
Who one day was arrested and dragged to the cells
For being in love with a man of eighteen
The vicar found out they'd been having a scene
The magistrate send him for trial by the Crown
He even appealed, but they still send him down
He was only mistreated a couple of years
Cos even in prison they... look after the queers
Sing if you're glad to be gay
Sing if you're happy this way, hey (x2)

So sit back and watch as they close all our clubs
Arrest us for meeting and raid all our pubs
Make sure your boyfriend's at least 21
So only your friends and your brothers get done
Lie to your workmates, lie to your folks
Put down the queens and tell anti-queer jokes
Gay Lib's ridiculous, join their laughter
"The buggers are legal now — what more are they after?"
Sing if you're glad to be gay
Sing if you're happy this way, hey (x2).


Possivelmente foi através deste álbum e especialmente desta canção que eu descobri que a homossexualidade poderia ser um motivo de orgulho, não de vergonha. Eu teria 18 anos quando um amigo heterossexual mo ofereceu. Faz parte da minha história, eu próprio sou um reflexo desse orgulho. Por isso me sinto à vontade para evocar a memória e dedicar toda a minha admiração aos que hoje ainda se revêem nesta canção, bem como a todos os que participam nos Gay Prides ou em qualquer outra manifestação de Orgulho Gay.

Via Tom Robinson a canção original (mp3) ou uma versão vídeo (QT)
A ilustração veio via ILGA Portugal
Importado do blogue gayFEEL