2005/11/27

amizade e amor: a visão pop de indiana

Rezam os livros que amizade e amor têm origem na mesma palavra, "amare", por seu lado com correspondência ao grego "philos". Mas se "amare" deu em amor, foi deste que se chegou a "amicus" na expressão latina. Com isto se pode questionar qual a distinção — ou distinções, porque serão várias — entre amar ou ser amado e ser amigo.
Já dizia Platão que "onde não há reciprocidade, não há amizade". E parece verdade porque se se pode amar ou ser amado, isto é mesmo quando o outro não corresponde ao amor que recebe, já não parece tão pacífico que se possa dizer ser amigo de alguém quando da outra parte não houver alguma correspondência, alguma afirmação positiva e inequívoca de reciprocidade. A definição de amizade, tanto quanto consegui descobrir, é de facto vasta e diversa. E a do amor não menos, porém.
Voltarei, portanto, a esta temática que muito me interessa, concluindo para já com o que sobre este deixou dito um dos maiores da pop art, o artista Robert Indiana, célebre pelas suas obras à volta da palavra LOVE: "o pop é o amor, porque aceita tudo... O pop é deitar a 'bomba'. É o 'sonho americano', optimista, generoso e ingénuo..." É? Será?...

2005/11/24

à espera do buda

O rapaz-Buda está lá há 6 meses, dizem, em meditação profunda — ouvi-o hoje na TV e já fui confirmar aos sites de notícias. E eu nem sequer duvido, já que essas coisas têm sempre uma base de verdade em que até dá para acreditar. Dizem também que não come nem bebe; que simplesmente está para ali, espiritualmente ligado ao além, num estado de transe que nem é lá, nem é cá.
Mas eu, cá, pus-me aqui a fazer as contas, para ver se valeria a pena fazer o mesmo. Concluí que certamente ficaria os 6 meses sem o meu ordenado, que não passaria o Natal em família mas que, se pudesse poupar na renda da casa, na alimentação, no seguro do carro que vou ter que pagar em Dezembro e numa porrada de presentes que a quadra e os aniversários de 6 meses de vida implicam… talvez valesse a pena.
Depois, melhor ainda, quando regressasse já teria o novo Presidente. Com sorte um novo Governo. Se calhasse mesmo bem até teria um novo País, que este também está a precisar de ir meditar para o Nepal...
Por lá o menino de 15 anos continua na sua e o povo atento em seu redor. À espera do Buda?!...

brokeback mountain na internet

Enquanto o filme não chega (e em Portugal só estreia em Fevereiro de 2006), o site de «Brokeback Mountain» acaba de inaugurar conteúdos (link no título deste post). Para quem ainda não sabe, «Brokeback Mountain» é o novo filme de Ang Lee («Crouching Tiger, Hidden Dragon»), que venceu o Festival de Veneza depois de ser rejeitado em Cannes, que é um dos fortes candidatos aos Oscars, e que conta a história da amizade entre dois cowboys — do companheirismo até à intimidade e o amor. O conto de Annie Proulx que está na base do argumento, originalmente publicado na revista The New Yorker em 1997, acabou por resultar no que todos esperamos ser a primeira grande produção cinematográfica tendo por figura central explícita um par romântico masculino — Heath Ledger e Jake Gyllenhaal a caminho do estrelato e, eu arriscaria mesmo, da lenda. No site oficial pode encontrar-se informação sobre o filme, os actores e a equipa técnica; visita aos bastidores; os indispensáveis wallpapers e screensavers, mais a pré-escuta da banda-sonora, que inclui uma canção de Rufus Wainwright. A não perder, em compasso de espera.

2005/11/19

amor causa

A nova campanha publicitária da Renova traz à memória os escândalos criados em torno das imagens polémicas de Oliviero Toscani para a Benetton: o tema escolhido pela empresa do papel-higiénico são as Bem-Aventuranças do Novo Testamento e, com efeito, as imagens foram já proibidas em França.
Eu nunca percebi porque é que a Benetton não podia fazer publicidade-política — parece-me que vender roupa com imagens bonitas e social e politicamente positivas é melhor do que vender roupas com imagens bonitas... só. Claro que compreendo os argumentos que condenam o compromisso comercial na mensagem "moral", mas as últimas décadas têm contribuído para revelar os mais variados esquemas (leia-se "compromissos") nas aparentemente mais isentas instituições e eu, mal por mal, prefiro o cinismo comercial perpetrado às claras ao que fica escondido por debaixo de espessas camadas de virtude... Adiante.
A campanha da Renova, intitulada «Amor Causa», é constituída por imagens belíssimas fotografadas na Rocinha, com habitantes da favela como modelos, que ilustram as Bem-Aventuranças através da sugestão de passos da vida de Jesus Cristo. Esta série de anúncios está associada à angariação de fundos para um projecto de intervenção social na Rocinha — a maior favela do Rio de Janeiro — nomeadamente através da venda de um livro contendo as imagens fotografadas por François Rousseau.
Eu acho a campanha muito bonita, socialmente relevante e moralmente pertinente. Preferiria que não tivesse um logótipo da Renova num canto? sim; mas já ninguém faz nada a troco de coisa nenhuma... a não ser, por exemplo, os jesuítas que realizam trabalho social naquelas paragens e que estão na base deste «Amor Causa» — bem-aventurados sejam.

2005/11/18

grip: jantar de natal

No primeiro sábado de Dezembro, o próximo dia 3, vai ter lugar o jantar de Natal do GRIP.
Aberto a todos os amigos do grupo da ILGA no Porto, e não apenas aos seus associados, terá lugar pelas 20 horas, no Ateneu Comercial, com uma ementa que será variada e cujo preço máximo previsto é de apenas 10,00 Euros por pessoa. Para além dos comes e bebes e de muita alegria no ar, não sabemos que mais haverá. Mas estamos certos que pelo convívio com outros amigos vale a pena a nossa presença.
E é curioso que tudo isto faça recordar outros tempos, os das infâncias dos anos 70, em que quase sem excepção as famílias de cada empresa se reuniam numa festança de Natal, onde se davam brinquedos aos mais novos e todos se deliciavam com ingénuos festins: com o circo num Coliseu, Rivoli ou Júlio Dinis, ou com uma representação dos trabalhadores nas instalações da empresa ou num restaurante, ou mesmo com um simples bailarico ao som dos hits que cada um levava ou propunha onde quer que calhasse.
Tantos anos passados já, vamos lá ver como será este especial de Natal. Vamos estar presentes, participar, conviver. Vamos dar de nós o melhor e reforçar laços. Para que a nossa voz saia cada vez mais forte, mais solidária!
Contacte o GRIP pelo link acima ou ao lado...

2005/11/16

confissões na pista de dança

Um novo álbum de Madonna, cá em casa, é sempre um acontecimento para regozijar, e este não é excepção. Do injustiçado «American Life» para «Confessions On a Dance Floor» a mudança operada tem sido descrita como a de uma reorientação da cabeça para os pés. O álbum é todo para dançar e dançar é o que faremos (sim, Madonna pode dar-se ao luxo dessa arrogância e nós só podemos submeter-nos)... E, no entanto, sob a capa barroca de excesso pop aparentemente superficial, é surpreendente descobrir a generosidade da entrega. Do inicial «Hung Up», passando por «Get Together» e «Isaac», até «Push» (estaria mais próximo da verdade enumerando as 12 faixas), a qualidade da energia é irrepreensível. Eu já comprei o nosso, e posso garantir que fazê-la mais rica faz parte do gozo — vá lá, a pobre criatura tem dois filhos para alimentar.

2005/11/14

o martelo sem mestre

No próximo sábado, 19 de Novembro, a Casa da Música apresenta o Ensemble InterContemporain em concerto, com um programa que inclui uma peça do jovem compositor Bruno Mantovani, mais o famosíssimo «Le Marteau Sans Maître» de Pierre Boulez, que este ano cumpre 50 anos desde a sua estreia. O Ensemble será dirigido por François-Xavier Roth e Hilary Summers cantará os poemas surrealistas de René Char.
Acredito sinceramente que é uma oportunidade rara e um concerto a não perder, e aviso quem quiser bilhete que, se estiver disposto a assistir a uma conferência às 16h30, poderá comprar por 2 euros o que de outra forma lhe custaria 20 — é que a Casa da Música oferece com o bilhete de acesso à conferência sobre a obra um bilhete para o próprio concerto (a entregar durante a dita, pois claro). Vemo-nos por lá.

2005/11/10

matrimónio em espanha

Durante muito tempo fui reticente em relação à ideia do casamento "homossexual", mas a mudança da lei na vizinha Espanha, com tudo o que lhe é implícito e explícito (justiça e igualdade, direitos e deveres, alteração de comportamentos e atitudes, etc), fez-me ver as coisas de outra maneira.
Quando vemos um casal gay ou lésbico, de mãos dadas, em Espanha, vemo-lo como um casal de pessoas livres, de pleno direito, como todos os outros. A questão não se enquadra na problemática das virtudes e defeitos do casamento, mas apenas na da igualdade de todos os cidadãos perante a lei.
Chamem-me piegas, mas enternece-me a imagem destes dois homens a beijar-se, à saída do registo civil, em Espanha.

2005/11/04

poderia ter sido diferente

A 2 de Novembro de 1975, há 30 anos, Pier Paolo Pasolini (na foto, à esquerda) morria em Roma, vítima de violento espancamento que permanece, hoje ainda, um mistério nebuloso.
Estranha coincidência, nesta mesma data inicio o texto presente, recorrendo à figura de Pasolini para ilustrar o novo livro de um amigo, Appio Cláudio.
Appio estreou-se na escrita em 1992, tendo assinado poesia e prosa, histórica e ficcional. Às nossas mãos chegou, agora, «Tudo Poderia Ter Sido Diferente», que a Zaina Editores pôs já no mercado.
É um livro que relata o reencontro nas soalheiras férias por terras andaluzas de Ibraim de Sousa, residente em Portugal, com o seu irmão Salim e Fátima, companheira deste.
O tempo é de recordações, de relatos, de conjecturas e entre os dois irmãos e a rapariga desenvolver-se-ão considerações que nos falam dos países — Portugal e Espanha — e dos afectos.
O texto não vive na sombra de Pasolini mas, se assim o quisermos entender, este poderá ser um bom termo de comparação para um autor nosso que vive na sombra do sol do Ribatejo.
«Tudo Poderia Ter Sido Diferente» é um livro visionário, a merecer leitura atenta, que olha de frente para alguns aspectos importantes da nossa história contemporânea e nos faz crer que ainda vale a pena acreditar...

2005/11/02

bauhaus: ânimos ao alto

Os Bauhaus anunciaram já oficialmente que actuarão no Coliseu do Porto a 17 de Fevereiro próximo, no que poderá ser mesmo o seu único concerto em Portugal.
O célebre quarteto britânico - deliciosamente dark, glam e arty - liderado em partes idênticas por Peter Murphy e Daniel Ash, que se encontra actualmente em digressão pelos States e Canadá, chega à Europa a 28 de Janeiro. Consta que em palco se apresentam apenas com temas antigos, o que pode ser um claro e sensato sinal de respeito pelos fãs do tempo da sua primeira encarnação.
Dito isto, a quem interesse, confesso que mesmo assim não sei ainda se vou ou não vê-los, tantos anos passados desde que os coloquei no meu pequeno altar de ídolos intocáveis. É que, afinal, tenho um certo receio que a imagem se quebre de tanto se lhe mexer... E embora o Tiago, amigo nosso, puxe para a inevitabilidade da presença colectiva, não sei se os ânimos serão suficientes para nos tirar do sereno de casa. E das memórias positivas!