2005/12/08

amizade e amor: viva john lennon!

8 de Dezembro assinala mais um aniversário do desaparecimento de John Lennon, o ex-Beatle que teria agora 65 anos, se fosse ainda vivo. Figura proeminente da cultura musical do século XX, o seu nome ficou para sempre associado ao de Yoko Ono, a dedicada esposa japonesa que muitos "acusaram" de ser a causa da separação dos fab four de Liverpool.
O primeiro casamento de John foi com Cynthia Powell (mãe de Julian Lennon), em 1962. Yoko só entraria na vida de John em 1966, quando se conheceram na sua apresentação artística em Londres, na galeria Indica. O romance iniciar-se-ia em 1968, coincidindo com o divórcio de Cynthia, e o casamento teve lugar em 69 (deste nascendo Sean Lennon, em 1975). Como é sabido, John e Yoko foram talvez o casal mais mediático dos anos 70 e êxitos discográficos como «Woman» são incontornáveis retratos da imensurável paixão que os uniu.
Mas conta-se que um outro amor — para além de Cynthia e Yoko — teria marcado também a sua vida: Brian Epstein, o agente dos Beatles (6 anos mais velho que Lennon) que, segundo especulações, teria romanceado durante uma "escapadela" dos dois a Barcelona, em Abril de 1963. Por essa altura Lennon, casado com Cynthia, teria 22 anos e Brian 28 (este viria a falecer apenas 3 anos depois, em 67, de overdose).
É certo que Lennon sempre negou esse alegado romance, mas diz-se ainda hoje que a sua canção «You've Got to Hide Your Love Away» seria inspirada nas emoções da época: "Here I stand head in hand § Turn my face to the wall § If she´s gone I can't go on § Feelin' two-foot small. § Everywhere people stare § Each and every day § I can see them laugh at me § And I hear them say: § Hey you've got to hide your love away. § How could I even try § I can never win § Hearing them, seeing them § In the state I'm in. § How could she say to me § Love will find a way § Gather round all you clowns § Let me hear you say: § Hey you've got to hide your love away." Se a letra da canção não explica tudo de forma evidente, a narrativa ficcionada explorada no filme «The Hours And Times», de Christopher Münch (link para o filme no título), parece fazer luz sobre a viagem a Barcelona e poderá servir para esclarecer os mais interessados.
A exactidão do que se terá passado na famosa jornada à Catalunha talvez não seja hoje o mais importante. De facto vale a pena recordar hoje, também aqui e ainda a propósito do tema amizade e amor, um dos maiores amadores das últimas décadas: John Lennon!

2005/12/07

felizes bodas fúnebres

Com toda a alegria que nos vai na alma a propósito dos "casamentos homossexuais" em Inglaterra, os projectos para "os" da África do Sul e os avanços "nos" da Bélgica, não podemos esquecer-nos das bodas fúnebres do dia 22 de Dezembro: a estreia de «Corpse Bride» de Tim Burton nas salas de cinema portuguesas. E a vanguarda aqui, embora de outro tipo, é tão entusiasmante como a outra de que temos vindo a falar. O novo filme do génio do gótico pós-moderno, construído a partir de um antigo conto russo, utiliza uma vez mais (depois de «Vincent» e «The Nightmare Before Christmas») a técnica do "stop-motion" — os bonecos que se manipulam milimetricamente para depois serem fotografados e montados em filme num processo à velocidade de caracol. Desta vez, no entanto, a precisão da imagem faz parecer que a animação é gerada por computador e não pela paciência; mas afinal é só o artesanato a saltar para o século XXI, com câmaras digitais a substituir o filme e o Final Cut Pro da Apple a dar uma mãozinha. E o resto, não tenho dúvidas, será poesia.

2005/12/02

super pop dell'arte

João Peste e os seus Pop Dell’Arte merecem os parabéns antecipados, pois terão editado, já a 9 de Janeiro próximo, uma nova antologia que revisita a matéria apresentada sem que, mesmo assim, seja motivo de redundância e desmotivação dos fãs.
Esta nova colecção de pérolas musicais (e poéticas, leia-se bem) olha ao para trás 20 anos completos de carreira e reescreve, como vem sendo hábito, o muito que ainda há-de vir na vida dos Pop Dell'Arte.
«POPlastik 1985-2005» incluirá 20 temas como os clássicos «Querelle», «Sonhos Pop», «My Funny Ana Lana», «Avanti Marinaio», «Poppa Mundi», «Mrs. Tyler», «2002», «So Goodnight» e «Illogik Plastic», mas também incluirá 3 temas inéditos e recentes: «(J'ai Oublié) All My Life», «Stranger Than Summertime» e «No Way Back». O disco terá por capa um pequeno anjo ferido por flechas, lembrando o martírio de S. Sebastião, que é um ícone do imaginário gay.
A antecipar o lançamento do álbum, os super Pop Dell’Arte vão estar em concerto no Lux (Lisboa), a 29 de Dezembro.

2005/11/30

casamento civil em inglaterra

Fruto do reconhecimento legal no Reino Unido do casamento civil indistintamente do sexo dos seus componentes, George Michael anunciou entretanto que registará a sua relação com o companheiro Kenny Goss já no início do próximo ano.
Kenny está na vida de George desde 1996, há quase uma década, numa espécie de noivado que até agora não via um fim. Com a nova lei, George verá os seus direitos alargados e o necessário reconhecimento da sua relação amorosa com Kenny Goss. "Estou seguro de que Kenny e eu vamos acabar por fazer as coisas da forma tradicional", disse a propósito.
O cantor revelou ainda não ser muito romântico, ao contrário do seu companheiro que certamente irá viver intensamente o significado do momento. Para ele, acrescentou, a nova lei tem um lado prático incontestável: "se sou atropelado por um autocarro, ele fica sem nada meu", gracejou.
A nova lei britânica entra em vigor já a 5 de Dezembro e duas semanas depois, a 21, sir Elton John será um pioneiro entre os famosos ao celebrar a sua já marcada união civil com David Furnish, que contará com Kenny e George entre os convidados.
Por cá, nós que nos dizemos sempre à frente do mundo em matéria legal, quando teremos acesso ao casamento civil? Quando deixaremos de viver sob esta ditadura heterossexual?... Acredito cegamente que também cá estará para breve!

lésbicas e crucifixos

Recentemente, já todos saberão, duas raparigas de um liceu de Vila Nova de Gaia foram repreendidas por namorarem à vista de quem as quisesse ver, tal como, sem terem de pensar duas vezes no assunto, o teriam feito namorados heterossexuais. A repreensão é obviamente homofóbica, tanto mais que agora a Constituição Portuguesa proíbe explicitamente a discriminação com base na orientação sexual. O conselho directivo da escola em questão, no entanto, achou por bem revelar aos pais de uma das raparigas (maior de idade e própria encarregada de educação) a homossexualidade da filha e, enquanto algum professor equiparava na sala de aulas a homossexualidade à toxicodependência, determinou que todas as demonstrações de afecto amoroso, homo e heterossexuais, seriam banidas da escola, no que mais não parece ser do que uma preconceituosa e injusta forma de contornar a lei. Infelizmente a sociedade portuguesa corre muito atrás da sua Constituição, e até alguns dos seus mais distintos arautos, como Miguel Sousa Tavares (não resisto a comentá-lo porque me surpreendeu), consideram que demonstração de afecto entre homossexuais é exibicionismo a que, como neste caso, as outras "crianças" de uma escola secundária não têm que estar expostas.
E a remoção dos crucifixos das paredes das escolas? A minha primeira reacção foi pensar: tolerem-se os crucifixos e quaisquer outros símbolos religiosos, tal como gostaria que se tolerassem as diferenças motivadas pela orientação sexual. Mas o problema, está claro, é que faz tanto sentido que a escola pendure os crucifixos nas paredes como, improvavelmente, que colasse posters de casais de lésbicas a beijarem-se. A escola pública não tem que impor padrões de comportamento, quer sejam sexuais ou religiosos, violando a diversidade salvaguardada pela lei, nem proibir que um alun@ leve um crucifixo ao peito enquanto passeia de mão dada com @ namorad@.
(Nota: a imagem, só para alindar, é da serie televisiva norte-americana «The L Word», conforme link no título deste post.)

2005/11/29

amizade e amor: ao fim do dia com whitman

Walt Whitman, que viveu ao longo de mais de sete décadas do século XIX, entre 1819 e 1892, e se tornou no maior escritor norte-americano de sempre, dizia da amizade que "Quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz, § Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem...".
Esta narrativa de Whitman, que põe no mesmo plano a amizade e o amor — no caso do seu amante e querido amigo — parece contrariar e mesmo negar a opinião que o moralista francês Jean de la Bruyère categoricamente deixou sobre o assunto: "O amor e a amizade excluem-se mutuamente".
No mesmo poema, de título «When I Heard at the Close of the Day», Whitman conclui assim: "E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia, § Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me, § Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca, § Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim, § E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito — nessa noite fui feliz."
Esta é a visão que mais corresponde à minha opinião. Sendo verdade, como se explicou na entrada anterior, que o amor pode sobreviver sem a correspondência do outro, e a amizade não, também parece aceitável que se o amor for recíproco, este pode coexistir com a amizade. Essa é a visão do poeta americano, é uma visão que me agrada e que apoio pela minha própria experiência.

2005/11/27

amizade e amor: a visão pop de indiana

Rezam os livros que amizade e amor têm origem na mesma palavra, "amare", por seu lado com correspondência ao grego "philos". Mas se "amare" deu em amor, foi deste que se chegou a "amicus" na expressão latina. Com isto se pode questionar qual a distinção — ou distinções, porque serão várias — entre amar ou ser amado e ser amigo.
Já dizia Platão que "onde não há reciprocidade, não há amizade". E parece verdade porque se se pode amar ou ser amado, isto é mesmo quando o outro não corresponde ao amor que recebe, já não parece tão pacífico que se possa dizer ser amigo de alguém quando da outra parte não houver alguma correspondência, alguma afirmação positiva e inequívoca de reciprocidade. A definição de amizade, tanto quanto consegui descobrir, é de facto vasta e diversa. E a do amor não menos, porém.
Voltarei, portanto, a esta temática que muito me interessa, concluindo para já com o que sobre este deixou dito um dos maiores da pop art, o artista Robert Indiana, célebre pelas suas obras à volta da palavra LOVE: "o pop é o amor, porque aceita tudo... O pop é deitar a 'bomba'. É o 'sonho americano', optimista, generoso e ingénuo..." É? Será?...

2005/11/24

à espera do buda

O rapaz-Buda está lá há 6 meses, dizem, em meditação profunda — ouvi-o hoje na TV e já fui confirmar aos sites de notícias. E eu nem sequer duvido, já que essas coisas têm sempre uma base de verdade em que até dá para acreditar. Dizem também que não come nem bebe; que simplesmente está para ali, espiritualmente ligado ao além, num estado de transe que nem é lá, nem é cá.
Mas eu, cá, pus-me aqui a fazer as contas, para ver se valeria a pena fazer o mesmo. Concluí que certamente ficaria os 6 meses sem o meu ordenado, que não passaria o Natal em família mas que, se pudesse poupar na renda da casa, na alimentação, no seguro do carro que vou ter que pagar em Dezembro e numa porrada de presentes que a quadra e os aniversários de 6 meses de vida implicam… talvez valesse a pena.
Depois, melhor ainda, quando regressasse já teria o novo Presidente. Com sorte um novo Governo. Se calhasse mesmo bem até teria um novo País, que este também está a precisar de ir meditar para o Nepal...
Por lá o menino de 15 anos continua na sua e o povo atento em seu redor. À espera do Buda?!...

brokeback mountain na internet

Enquanto o filme não chega (e em Portugal só estreia em Fevereiro de 2006), o site de «Brokeback Mountain» acaba de inaugurar conteúdos (link no título deste post). Para quem ainda não sabe, «Brokeback Mountain» é o novo filme de Ang Lee («Crouching Tiger, Hidden Dragon»), que venceu o Festival de Veneza depois de ser rejeitado em Cannes, que é um dos fortes candidatos aos Oscars, e que conta a história da amizade entre dois cowboys — do companheirismo até à intimidade e o amor. O conto de Annie Proulx que está na base do argumento, originalmente publicado na revista The New Yorker em 1997, acabou por resultar no que todos esperamos ser a primeira grande produção cinematográfica tendo por figura central explícita um par romântico masculino — Heath Ledger e Jake Gyllenhaal a caminho do estrelato e, eu arriscaria mesmo, da lenda. No site oficial pode encontrar-se informação sobre o filme, os actores e a equipa técnica; visita aos bastidores; os indispensáveis wallpapers e screensavers, mais a pré-escuta da banda-sonora, que inclui uma canção de Rufus Wainwright. A não perder, em compasso de espera.

2005/11/19

amor causa

A nova campanha publicitária da Renova traz à memória os escândalos criados em torno das imagens polémicas de Oliviero Toscani para a Benetton: o tema escolhido pela empresa do papel-higiénico são as Bem-Aventuranças do Novo Testamento e, com efeito, as imagens foram já proibidas em França.
Eu nunca percebi porque é que a Benetton não podia fazer publicidade-política — parece-me que vender roupa com imagens bonitas e social e politicamente positivas é melhor do que vender roupas com imagens bonitas... só. Claro que compreendo os argumentos que condenam o compromisso comercial na mensagem "moral", mas as últimas décadas têm contribuído para revelar os mais variados esquemas (leia-se "compromissos") nas aparentemente mais isentas instituições e eu, mal por mal, prefiro o cinismo comercial perpetrado às claras ao que fica escondido por debaixo de espessas camadas de virtude... Adiante.
A campanha da Renova, intitulada «Amor Causa», é constituída por imagens belíssimas fotografadas na Rocinha, com habitantes da favela como modelos, que ilustram as Bem-Aventuranças através da sugestão de passos da vida de Jesus Cristo. Esta série de anúncios está associada à angariação de fundos para um projecto de intervenção social na Rocinha — a maior favela do Rio de Janeiro — nomeadamente através da venda de um livro contendo as imagens fotografadas por François Rousseau.
Eu acho a campanha muito bonita, socialmente relevante e moralmente pertinente. Preferiria que não tivesse um logótipo da Renova num canto? sim; mas já ninguém faz nada a troco de coisa nenhuma... a não ser, por exemplo, os jesuítas que realizam trabalho social naquelas paragens e que estão na base deste «Amor Causa» — bem-aventurados sejam.