2005/12/21

as primeiras imagens

Já consigo imaginar as bocas abertas em bocejo, as críticas à escolha do elenco e outras tantas objecções e indiferenças, mas confesso que, pela minha parte, o entusiasmo com que vi o primeiro trailer de «The Da Vinci Code» é quase igual ao entusiasmo com que fui procurar o livro pela primeira vez àquela loja grande que os jornalistas gostam muito de publicitar (a resposta, na altura, foi que não tinham o livro nem seria provável que o viessem a importar). Adiante. Também eu torci o nariz ao realizador (Ron Howard) e ao protagonista (Tom Hanks), mas as primeiras imagens do filme fazem-me dar-lhes o benefício da dúvida: o ritmo e a montagem do trailer, se forem indicativos do que foi feito com a longa metragem, são promissores; quanto ao Tom Hanks, dá a impressão que ele próprio sabia que a sua figura não encaixava com a do historiador-detective e, por isso ou por necessidade de reinvenção profissional, parece ter feito um esforço considerável e provavelmente bem sucedido de construção da personagem. Enquanto não chega Maio, fica o link para o trailer no título deste post.

2005/12/17

dvds: o fantasma

“Uma noite os seus olhos encontram o fantasma dos seus sonhos e acorda na obsessão do amor. Enfeitiçado, espia-o. Remexe-lhe no lixo. Segue-o. Invade-lhe a casa. Urina-lhe a cama, marcando o território como um cão. Agora não comanda o jogo mas avança, mesmo sabendo que só pode perder. O cerco fecha-se. E as mãos que queriam acarinhar ficam algemadas, viciadas na rejeição. Só lhe resta a vingança. A máscara do desejo, o fato de borracha negra, transforma-se na sua última morada. Refugia-se no caos, nos restos que o mundo já não quer. Está sozinho. Já não é deste mundo.”
Foi aplaudido e premiado em festivais de cinema além-fronteiras. Amado por uns e odiado por outros. É o filme de João Pedro Rodrigues, estreado há 6 anos, com Ricardo Meneses no principal papel e a música perturbante dos Suicide. Tinha já edições em França, nos Estados Unidos e no Japão. Finalmente «O Fantasma» tem já edição portuguesa em DVD.
Com este, os DVDs cá de casa passam a ser os seguintes (título / autor / género / lançamento / edição):
  • 24 Hour Party People / Michael Winterbottom / musical / 2002 / 2003
  • A Importância de Ser Ernesto / Cliver Parker / romance / 2002 / 2003
  • Antes que Anoiteça / Julian Schnabel / drama / 2000 / 2002
  • Ao Sabor das Ondas / Guy Ritchie / romance / 2002 / 2003
  • Bent / Sean Mathias / drama / 1996 / 2003
  • Cabaret (30th Anniversary Special Edition) / Bob Fosse / musical / 1972 / 2002
  • Cidade de Deus / Fernando Meirelles / drama / 2002 / 2003
  • David Bowie: Best of Bowie / David Bowie / música / 2002 / 2002
  • Dolls / Takeshi Kitano / drama / 2003 / 2003
  • Erasure: Hits! The Videos / Erasure / música / 2003 / 2003
  • Eurythmics: Sweet Dreams / Eurythmics / música / 1983 / 2003
  • Eva (All About Eve) / Joseph L. Mankiewicz / drama / 1950 / 2002
  • Fausto 5.0 / La Fura dels Baus / drama / 2001 / 2005
  • Feliz Natal Mr. Lawrence / Nagisa Oshima / drama / 1983 / 2004
  • Kaija Saariaho: L'Amour de Loin / Kaija Saariaho / ópera / 2005 / 2005
  • Ken Park — Quem És Tu? / Larry Clark / drama / 2002 / 2004
  • Laranja Mecânica / Stanley Kubrick / ficção-científica / 1971 / 2002
  • Lisboa Reloaded / vários / música / 2005 / 2005
  • Madonna: Drowned World Tour / Madonna / música / 2001 / 2001
  • Madonna: Music / Madonna / música / 2000 / 2000
  • Madonna: The Immaculate Collection / Madonna / música / 1991 / 1999
  • Madonna: The Video Collection 93:99 / Madonna / música / 1999 / 1999
  • Marlene Dietrich: An Evening with Marlene Dietrich / Marlene Dietrich / música / 1972 / 2003
  • Morrissey: Hulmerist / Morrissey & The Smiths / música / 1990 / 2004
  • Mulholland Drive / David Lynch / drama / 2002 / 2002
  • My Beautiful Laundrette / Stephen Frears / drama / 1985 / 2001
  • Nossa Senhora dos Matadores / Barbet Schroeder / drama / 2000 / 2004
  • O Estranho Mundo de Jack (Edição Especial) / Tim Burton / animação / 1993 / 1999
  • O Fantasma / João Pedro Rodrigues / drama / 2000 / 2004
  • Os Pássaros / Alfred Hitchcock / thriller / 1963 / 2001
  • Os Sonhadores / Bernardo Bertolucci / romance / 2004 / 2004
  • Pet Shop Boys: Pop Art / Pet Shop Boys / música / 2003 / 2003
  • Pet Shop Boys: Somewhere / Pet Shop Boys / música / 1997 / 2003
  • Phantom of the Paradise / Brian De Palma / musical / 1974 / 2002
  • Samuel Beckett: Beckett on Film / Samuel Beckett / teatro / 2002 / 2003
  • Sex Pistols — O Filme (The Filth and the Fury) / Julien Temple / documentário / 2000 / 2005
  • Sinais de Fogo / Luís Filipe Rocha / drama / 1995 / 2003
  • Smiths: The Complete Picture / The Smiths / música / 1992 / 2003
  • The Cook, the Thief, His Wife and Her Lover / Peter Greenaway / drama / 1990 / 2003
  • The Pillow Book / Peter Greenaway / drama / 1996 / 2003
  • Tudo Sobre a Minha Mãe / Pedro Almodóvar / drama / 1998 / 2001
  • Ubus / Alfred Jarry & Ricardo Pais / teatro / 2005 / 2005
  • Um Coração Selvagem / David Lynch / drama / 1990 / 2003
  • Um Hamlet a Mais / William Shakespeare & Ricardo Pais / teatro / 2004 / 2004
  • Velvet Goldmine / Todd Haynes / musical / 1998 / 2003
  • Violência e Paixão / Luchino Visconti / drama / 1974 / 2002
  • World Shut Your Mouth / vários / música / 2002 / 2002
Em breve haverá mais!...

2005/12/13

13 de dezembro

A 13 de Dezembro de 1570 a Dinamarca reconhece a independência da Suécia e no mesmo dia de 1577 Francis Drake faz-se ao mar numa viagem de volta ao mundo. Em 1789 os Países Baixos austríacos declaram independência como Bélgica e, ainda a 13 de Dezembro, mas de 1808, Madrid rende-se a Napoleão Bonaparte. Em 1843, o romance de Dickens «A Christmas Carol» vende 6000 cópias no seu primeiro dia de publicação, quatro anos depois, no mesmo dia do último mês do ano, Emily Brontë publica «Wuthering Heights». No ano de 1902 nasce Ruhola Hendi, que viria a ser conhecido como Ayatola Khomeini; no ano seguinte os cones de gelado são patenteados por Italo Marcione e Paul Gauguin morre na miséria. Em 1923 nasce Antoni Tàpies, em 1930 Anna Pavlova faz a sua última aparição pública, e em 1944 os kamikaze japoneses despenham-se no navio americano Nashville. No dia 13 de Dezembro de 1967 um golpe de estado na Grécia derruba a monarquia e o Rei Constantino voa para Roma; em Lisboa nasce uma criança mais (foto: Ralph Fiennes em «Wuthering Heights»)...

o amor de longe

«L'Amour de Loin» , o DVD descoberto quase por acaso no escaparate de uma loja de discos, assinalará o nosso dia 13 de Dezembro...
A ver em breve, a dois, este é o registo da estreia em 2000 da primeira e aclamada ópera da compositora finlandesa Kaija Saariaho, baseada no mesmo texto de Amin Maalouf, um libanês que há 30 anos se tornou habitante de Paris e já teve livros traduzidos para 26 línguas.
Da música não haverá certamente muito que dizer porque Kaija é já uma figura de grande prestígio entre os compositores contemporâneos mais inovadores e a sua obra é já nossa conhecida, particularmente a que se inscreve no domínio da música electroacústica, na linha de Pierre Boulez.
Do texto pode dizer-se que é colorido e inspirado na vida de um jovem príncipe que foi um dos maiores trovadores do século XII. Jaufré Rudel (o príncipe-trovador) decidiu abandonar a vida desregrada que levava e dedicar-se à procura do amor da sua vida, um amor diferente dos que conhecera, especial, sublime. Sem o encontrar, vai constantemente compondo canções em seu louvor, num canto de esperança infinda. Os seus companheiros, em coro, rodeiam-no e tentam demonstrar-lhe que tal amor é impossível, que não existe, que não pode ter lugar. Mas Jaufré não perde nunca a esperança e vive do seu sonho de amor imaginado.
É um peregrino regressado das terras cristianizadas de além-mar que, um dia, traz a boa nova, descrevendo uma mulher fantástica que encontrou em Tripoli e que se deixou enamorar pela descrição do príncipe que lhe escrevia canções de amor.
Impulsivamente, o príncipe lança-se ao mar, à descoberta do seu "amor de longe", mas de tanta precipitação e falta de preparo para a viagem, acaba por adoecer no trajecto e chega já moribundo ao seu destino. Desesperado, o fiel peregrino que o acompanha vai ao encontro da mulher amada, a condessa Clémance, avisando-a da chegada do príncipe, que se encontra doente e quase já sem vida, pedindo-lhe que o receba imediatamente na cidadela. É por fim na presença da sua amada que Jaufré retoma aos poucos a consciência. E nos braços um do outro, prometem mutuamente que se amarão para todo o sempre.
Mas Jaufré morre e Clémance revolta-se contra os céus e contra si própria, por se considerar a responsável por tão trágico fim. Retira-se então para um convento e a última cena da ópera revela-a como religiosa, em oração. As palavras não são suficientemente perceptíveis para que possamos entender se na sua prece se dirige a um longínquo deus ou ao seu "amor de longe".
Uma nota extra para o colorido intenso e o forte impacto visual da mis-en-scéne, apesar do seu despojamento e simplicidade...
Muitos parabéns!

2005/12/08

amizade e amor: viva john lennon!

8 de Dezembro assinala mais um aniversário do desaparecimento de John Lennon, o ex-Beatle que teria agora 65 anos, se fosse ainda vivo. Figura proeminente da cultura musical do século XX, o seu nome ficou para sempre associado ao de Yoko Ono, a dedicada esposa japonesa que muitos "acusaram" de ser a causa da separação dos fab four de Liverpool.
O primeiro casamento de John foi com Cynthia Powell (mãe de Julian Lennon), em 1962. Yoko só entraria na vida de John em 1966, quando se conheceram na sua apresentação artística em Londres, na galeria Indica. O romance iniciar-se-ia em 1968, coincidindo com o divórcio de Cynthia, e o casamento teve lugar em 69 (deste nascendo Sean Lennon, em 1975). Como é sabido, John e Yoko foram talvez o casal mais mediático dos anos 70 e êxitos discográficos como «Woman» são incontornáveis retratos da imensurável paixão que os uniu.
Mas conta-se que um outro amor — para além de Cynthia e Yoko — teria marcado também a sua vida: Brian Epstein, o agente dos Beatles (6 anos mais velho que Lennon) que, segundo especulações, teria romanceado durante uma "escapadela" dos dois a Barcelona, em Abril de 1963. Por essa altura Lennon, casado com Cynthia, teria 22 anos e Brian 28 (este viria a falecer apenas 3 anos depois, em 67, de overdose).
É certo que Lennon sempre negou esse alegado romance, mas diz-se ainda hoje que a sua canção «You've Got to Hide Your Love Away» seria inspirada nas emoções da época: "Here I stand head in hand § Turn my face to the wall § If she´s gone I can't go on § Feelin' two-foot small. § Everywhere people stare § Each and every day § I can see them laugh at me § And I hear them say: § Hey you've got to hide your love away. § How could I even try § I can never win § Hearing them, seeing them § In the state I'm in. § How could she say to me § Love will find a way § Gather round all you clowns § Let me hear you say: § Hey you've got to hide your love away." Se a letra da canção não explica tudo de forma evidente, a narrativa ficcionada explorada no filme «The Hours And Times», de Christopher Münch (link para o filme no título), parece fazer luz sobre a viagem a Barcelona e poderá servir para esclarecer os mais interessados.
A exactidão do que se terá passado na famosa jornada à Catalunha talvez não seja hoje o mais importante. De facto vale a pena recordar hoje, também aqui e ainda a propósito do tema amizade e amor, um dos maiores amadores das últimas décadas: John Lennon!

2005/12/07

felizes bodas fúnebres

Com toda a alegria que nos vai na alma a propósito dos "casamentos homossexuais" em Inglaterra, os projectos para "os" da África do Sul e os avanços "nos" da Bélgica, não podemos esquecer-nos das bodas fúnebres do dia 22 de Dezembro: a estreia de «Corpse Bride» de Tim Burton nas salas de cinema portuguesas. E a vanguarda aqui, embora de outro tipo, é tão entusiasmante como a outra de que temos vindo a falar. O novo filme do génio do gótico pós-moderno, construído a partir de um antigo conto russo, utiliza uma vez mais (depois de «Vincent» e «The Nightmare Before Christmas») a técnica do "stop-motion" — os bonecos que se manipulam milimetricamente para depois serem fotografados e montados em filme num processo à velocidade de caracol. Desta vez, no entanto, a precisão da imagem faz parecer que a animação é gerada por computador e não pela paciência; mas afinal é só o artesanato a saltar para o século XXI, com câmaras digitais a substituir o filme e o Final Cut Pro da Apple a dar uma mãozinha. E o resto, não tenho dúvidas, será poesia.

2005/12/02

super pop dell'arte

João Peste e os seus Pop Dell’Arte merecem os parabéns antecipados, pois terão editado, já a 9 de Janeiro próximo, uma nova antologia que revisita a matéria apresentada sem que, mesmo assim, seja motivo de redundância e desmotivação dos fãs.
Esta nova colecção de pérolas musicais (e poéticas, leia-se bem) olha ao para trás 20 anos completos de carreira e reescreve, como vem sendo hábito, o muito que ainda há-de vir na vida dos Pop Dell'Arte.
«POPlastik 1985-2005» incluirá 20 temas como os clássicos «Querelle», «Sonhos Pop», «My Funny Ana Lana», «Avanti Marinaio», «Poppa Mundi», «Mrs. Tyler», «2002», «So Goodnight» e «Illogik Plastic», mas também incluirá 3 temas inéditos e recentes: «(J'ai Oublié) All My Life», «Stranger Than Summertime» e «No Way Back». O disco terá por capa um pequeno anjo ferido por flechas, lembrando o martírio de S. Sebastião, que é um ícone do imaginário gay.
A antecipar o lançamento do álbum, os super Pop Dell’Arte vão estar em concerto no Lux (Lisboa), a 29 de Dezembro.

2005/11/30

casamento civil em inglaterra

Fruto do reconhecimento legal no Reino Unido do casamento civil indistintamente do sexo dos seus componentes, George Michael anunciou entretanto que registará a sua relação com o companheiro Kenny Goss já no início do próximo ano.
Kenny está na vida de George desde 1996, há quase uma década, numa espécie de noivado que até agora não via um fim. Com a nova lei, George verá os seus direitos alargados e o necessário reconhecimento da sua relação amorosa com Kenny Goss. "Estou seguro de que Kenny e eu vamos acabar por fazer as coisas da forma tradicional", disse a propósito.
O cantor revelou ainda não ser muito romântico, ao contrário do seu companheiro que certamente irá viver intensamente o significado do momento. Para ele, acrescentou, a nova lei tem um lado prático incontestável: "se sou atropelado por um autocarro, ele fica sem nada meu", gracejou.
A nova lei britânica entra em vigor já a 5 de Dezembro e duas semanas depois, a 21, sir Elton John será um pioneiro entre os famosos ao celebrar a sua já marcada união civil com David Furnish, que contará com Kenny e George entre os convidados.
Por cá, nós que nos dizemos sempre à frente do mundo em matéria legal, quando teremos acesso ao casamento civil? Quando deixaremos de viver sob esta ditadura heterossexual?... Acredito cegamente que também cá estará para breve!

lésbicas e crucifixos

Recentemente, já todos saberão, duas raparigas de um liceu de Vila Nova de Gaia foram repreendidas por namorarem à vista de quem as quisesse ver, tal como, sem terem de pensar duas vezes no assunto, o teriam feito namorados heterossexuais. A repreensão é obviamente homofóbica, tanto mais que agora a Constituição Portuguesa proíbe explicitamente a discriminação com base na orientação sexual. O conselho directivo da escola em questão, no entanto, achou por bem revelar aos pais de uma das raparigas (maior de idade e própria encarregada de educação) a homossexualidade da filha e, enquanto algum professor equiparava na sala de aulas a homossexualidade à toxicodependência, determinou que todas as demonstrações de afecto amoroso, homo e heterossexuais, seriam banidas da escola, no que mais não parece ser do que uma preconceituosa e injusta forma de contornar a lei. Infelizmente a sociedade portuguesa corre muito atrás da sua Constituição, e até alguns dos seus mais distintos arautos, como Miguel Sousa Tavares (não resisto a comentá-lo porque me surpreendeu), consideram que demonstração de afecto entre homossexuais é exibicionismo a que, como neste caso, as outras "crianças" de uma escola secundária não têm que estar expostas.
E a remoção dos crucifixos das paredes das escolas? A minha primeira reacção foi pensar: tolerem-se os crucifixos e quaisquer outros símbolos religiosos, tal como gostaria que se tolerassem as diferenças motivadas pela orientação sexual. Mas o problema, está claro, é que faz tanto sentido que a escola pendure os crucifixos nas paredes como, improvavelmente, que colasse posters de casais de lésbicas a beijarem-se. A escola pública não tem que impor padrões de comportamento, quer sejam sexuais ou religiosos, violando a diversidade salvaguardada pela lei, nem proibir que um alun@ leve um crucifixo ao peito enquanto passeia de mão dada com @ namorad@.
(Nota: a imagem, só para alindar, é da serie televisiva norte-americana «The L Word», conforme link no título deste post.)

2005/11/29

amizade e amor: ao fim do dia com whitman

Walt Whitman, que viveu ao longo de mais de sete décadas do século XIX, entre 1819 e 1892, e se tornou no maior escritor norte-americano de sempre, dizia da amizade que "Quando pensei que o meu querido amigo, meu amante, já vinha a caminho, então fui feliz, § Então era mais leve o ar que respirava, melhor o que comia, e esse belo dia acabou bem...".
Esta narrativa de Whitman, que põe no mesmo plano a amizade e o amor — no caso do seu amante e querido amigo — parece contrariar e mesmo negar a opinião que o moralista francês Jean de la Bruyère categoricamente deixou sobre o assunto: "O amor e a amizade excluem-se mutuamente".
No mesmo poema, de título «When I Heard at the Close of the Day», Whitman conclui assim: "E nessa noite, quando tudo estava em silêncio, ouvi as águas invadindo lentamente a praia, § Ouvi o murmúrio das ondas e da areia como se quisessem felicitar-me, § Porque aquele a quem mais amo dormia a meu lado sob a mesma manta na noite fresca, § Na quietude daquela lua de outono o seu rosto inclinava-se para mim, § E o seu braço repousava levemente sobre o meu peito — nessa noite fui feliz."
Esta é a visão que mais corresponde à minha opinião. Sendo verdade, como se explicou na entrada anterior, que o amor pode sobreviver sem a correspondência do outro, e a amizade não, também parece aceitável que se o amor for recíproco, este pode coexistir com a amizade. Essa é a visão do poeta americano, é uma visão que me agrada e que apoio pela minha própria experiência.