2006/01/10

elogio da segunda volta

Há muito ruído em torno das iminentes eleições presidenciais: um candidato a fazer campanha com trunfos que não interessam para o lugar, dois outros a apunhalarem-se nas costas, um que de tanto se dirigir às minorias parece oportunista, outro ainda que passa despercebido, e mais dois ou três que nem percebi quem são. Das mais recentes sondagens se conclui que uma grande parte da população anda à procura de um novo primeiro-ministro, mas o cargo é o da Presidência da República! Será que um economista sem poderes executivos e sem dotes diplomáticos é útil em Belém? E um poeta?... Há muita coisa que se podia discutir mas nem se aborda nesta campanha eleitoral. Começa a parecer provável a eleição do ex-primeiro-ministro social democrata sem esforço nem (diria eu) glória — por isso já me decidi, estou determinado a votar da forma que melhor servir para forçar uma segunda volta. Eu preciso de uma campanha com um mínimo de seriedade e esclarecimento. Dir-me-ão os cavaquistas ferrenhos que assim se arrisca a eleição do seu ídolo, mas eu acredito que ou ele é o candidato certo (ou menos errado) e ganha, ou não é. Será?

2006/01/06

dvds: pink narcissus

Já chegou cá a casa, em formato DVD (que virá certamente substituir a nossa velha cassete de VHS, comprada em Londres há já mais de 15 anos, ela própria um objecto de colecção), a nova edição daquele que é considerado como o maior clássico camp de culto de todos os tempos: o filme «Pink Narcissus», do fotógrafo e cineasta James Bidgood.
Remasterizado digitalmente a partir da mais completa cópia que se conhece, esta nova edição é engrandecida com um documentário especialmente interessante: «The Queer Reveries Of James Bidgood», ou seja, uma tentativa de biografar e apresentar ao mundo o artista quase desconhecido que transformou o belo e jovem actor Bobby Kendall num ícone poético da Nova Iorque gay e criativa dos anos setenta.
O original do filme data de 1971, época em que se usavam os formatos Super-8 e 16mm, que eram os preferidos de James Bidgood. Na versão actual, remasterizada, o grão fotográfico característico desses pequenos filmes amadores da época mantém-se em todo o caso visível. Mas esse é um mal menor porque este é sem a menor dúvida um clássico do cinema underground em geral e gay (ou queer) em especial. Ele tem reminiscências da teatralidade excepcional de Lindsay Kemp e do cinema vertiginoso de Kenneth Anger e, por outro lado, terá mesmo sido uma inspiração provável para artistas da actualidade tão importantes quanto Jean-Daniel Cadinot, Pierre et Gilles, Bruce LaBruce ou mesmo João Pedro Rodrigues.
O "Narciso cor-de-rosa" (assim se poderia traduzir para português) explora uma visão kitsch das fantasias de um jovem prostituto, de uma beleza assombrosa. Pode ser encontrado em DVD na BQHL Éditions ou num delicioso livro-objecto da Taschen. O livro já o tínhamos. Com a chegada do DVD, os títulos disponíveis começados pela letra P ficaram então a ser os seguintes (título / autor / género / lançamento / edição):
  • Pet Shop Boys: Pop Art / Pet Shop Boys / música / 2003 / 2003
  • Pet Shop Boys: Somewhere / Pet Shop Boys / música / 1997 / 2003
  • Phantom of the Paradise / Brian De Palma / musical / 1974 / 2002
  • Pink Narcissus / James Bidgood / erótico / 1971 / 2005
Marcamos uma sessão "rosa-choque"?...

2006/01/04

1 milhão

Pelo menos desde 1948, quando Alfred Kinsey publicou o livro «Sexual Behavior In The Human Male» (mais conhecido como "Relatório Kinsey"), que as estatísticas sobre o número de homossexuais se fazem com alguma regularidade e rigor. Estes estudos, seja pelas dificuldades inerentes à obtenção de respostas a inquéritos sobre a sexualidade, seja pela dificuldade de determinar a partir de que ponto um indivíduo pode ser considerado homossexual, não têm sido abrangentes nem conclusivos, mas parecem apontar com alguma constância para um número entre os 5 e os 10% da população. O Governo Britânico, por razões de ordem financeira (e da importância dos impostos se poderá concluir sobre a intenção de rigor), realizou recentemente um desses estudos, e concluiu que cerca de 6% da população seria homossexual. O blogue Renas e Veados já se entreteve a fazer as contas, extrapolando para a população de Portugal a percentagem inglesa, com a qual se obteriam cerca de 630.000 homossexuais lusitanos. O semanário Expresso anuncia 1 milhão, ou como se constata noutro blogue (desta vez no de Miguel Vale de Almeida), mais do que a população existente no Luxemburgo, na Islândia ou no Mónaco e aproximadamente o mesmo do que a população de Timor-Leste. A mim parece-me que o peso do número (seja ele 630.000 ou 1 milhão), que de resto podia já há algum tempo ser adivinhado ou entrevisto, acaba por ser notícia de menor importância do que o facto do Expresso lhe dar destaque de primeira página, em confronto directo com a opinião que cada um dos candidatos à Presidência da República tem sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. De repente, e finalmente, parece que se começa a acordar...

2006/01/02

amizade e amor: dean e o imoralismo de gide

O escritor francês André Gide (1869-1951) foi galardoado em 1947 com o Nobel da Literatura. O seu legado literário valorizou sempre a honestidade intelectual, tendo por vértices o desagrado das duas Grandes Guerras e o advento do anticolonialismo.
Os valores da sua fervorosa religiosidade (como austero e refinado protestante), da sua experiência de vida (em particular o casamento sexualmente não consumado com uma prima, em 1895) e, em especial, de uma sexualidade ainda menos comum (como a hoje bem conhecida relação pederástica que teve em 1916 com Marc Allégret), também marcaram fortemente a sua obra.
«O Imoralista», escrito em 1901, é um desses legados. Nele, Gide narra de forma quase autobiográfica uma história passada no norte de África, quando o arqueólogo Michel se vê atraído por um criado árabe, o belo e jovem Bachir.
Mesmo passados 50 anos sobre a sua primeira publicação, em 1952 o Vaticano colocou «O Imoralista» no índex dos livros proibidos e, curiosamente, dois anos depois ele é adaptado ao teatro e representado na Broadway com o ainda desconhecido James Dean (na foto) no papel do elegante criado africano. A obra sobreviveu à proibição da Igreja e graças também ao jovem actor estreante, alcançou o sucesso maior junto do público e da crítica, recebendo então o prémio de revelação do ano. Elia Kazan, o grande realizador da época, não dormia de olhos fechados, e arrastou Dean para o cinema, onde viria a tornar-se definitivamente famoso. Mas essa história ficará eventualmente para uma outra entrada...
Na história escrita por Gide, o arqueólogo europeu que se apaixonou pelo criado africano viu morrer de tuberculose a sua mulher Marceline e, confrontado com as suas obsessões e tabus, chama a si — apelando a um velho pacto académico — os seus amigos do tempo de estudante. Confronta-os com a sua história, o seu mundo, os seus sentimentos, as suas dúvidas e as suas certezas, sem esperar ouvir uma palavra de aprovação ou censura. Apenas esperando ser ouvido... (Um livro para ler.)

2005/12/31

adeus, 2005

Um balanço possível, feito a dois, que resume o que mais nos marcou no decurso de 2005 (não confundir com outras listagens que se vão encontrando por todo o lado e que se referem quase sem excepção aos lançamentos, estreias e afins apenas do ano que é encerrado). Neste nosso registo das marcas mais positivas, numa retrospectiva pessoal e difícil de resumir, está aquilo que nos "tocou" em 2005, a cada um de nós ou aos dois em conjunto. Que seja assim, portanto:
  • cinema: «Os Edukadores» Hans Weingartner (na imagem e no link do título) / «A Noiva Cadáver» Tim Burton
  • concertos: «Le Marteau Sans Maître» Ensemble InterContemporain (2=)
  • discos: «Amigos em Portugal» Durutti Column / «Confessions On a Dance Floor» Madonna
  • dvds: «O Fantasma» João Pedro Rodrigues / «Dolls» Takeshi Kitano
  • figuras: David Hockney / José Luis Rodríguez Zapatero
  • internet: www.blogger.com / www.havaianas.com.br
  • livros: «António Botto: Real e Imaginário» A. Augusto Sales / «Kafka On the Shore» Haruki Murakami
  • lojas: Habitat-Area / iTunes Music Store
  • momentos bons: as férias no Meco (2=)
Um grande 2006, para todos!...

2005/12/28

amizade e amor: manipulações axiomáticas

De origem portuguesa, Alfredo Costa Monteiro terminou os seus estudos de Belas Artes em Paris, no ano de 1992, com especialização em escultura e multimédia. Nesse ano parte para Barcelona, onde vive e trabalha desde então.
Para além do seu trabalho como artista plástico e professor de línguas, em 1995 começa a envolver-se cada vez mais com a nova música de Barcelona, primeiro com o grupo Surperelvis e, no seguimento, numa carreira mais ou menos a solo dentro dos géneros experimental e improvisado. Toca acordeão, guitarra eléctrica e faz manipulação sonora com gira-discos. A sua música é basicamente de pesquisa, ficando entre os domínios das artes plásticas, poesia do som ou som da poesia e som-visual.
As suas incursões paralelas e frequentes na escrita são igualmente plausíveis e «Axiomáticas» (editado em 2005 pela Fundación 30km/s) é uma obra retrospectiva de poesia concreta (feita de retalhos ou do retalho de textos existentes). Nele verifica-se que Alfredo Costa Monteiro trabalha a escrita de várias e diferentes maneiras. Que se lê de várias formas diferentes o que o autor escreve. Ou reescreve. «Axiomaticas» é o livro que fala por escrito do que Alfredo Costa Monteiro pensa. E sobre a amizade e o amor, que é o tema de mais esta entrada, encontrámos estes interessantes textos, nas formas originais e nas versões finais manipuladas, para uma interpretação à medida de cada um dos leitores:

AMISTAD f. Relación afectiva y desinteresada entre dos o más personas. || Gracia, merced. || pl. Personas con quien se tiene amistad. || fam. Influencias. (ou) f. Relación afectada e interesada entre dos o más personas. || Trampa merecida. || pl. Personas con quien se finge amistad. || fam. Incongruencias.

AMOR m. Intensa inclinación afectiva hacia alguien. Defenido por los griegos como deseo físico o como fuerza cósmica de carácter integrador. Platón lo define como impulso y deseo de lo bello. (ou) m. Intensa inclinación olfactiva hacia alguien. Defenido por los egos como meneo físico o como fuerza mecánica de carácter agotador. Platón lo define como insulso deseo de lo bello.

dvds: eyes wide shut

«Eyes Wide Shut» (título que na intenção original deve significar algo algo próximo de "olhos amplamente fechados" — talvez porque vêem em toda a amplitude o que não deveriam ver nem podem revelar), em Portugal traduziu-se por «De Olhos Bem Fechados» — o que parece corresponder mais fielmente à expressão idiomática inglesa (obrigado, Diana!) ou à interpretação de que toda a história se desenvolve ao longo de um sonho que se confunde com a realidade (obrigado, Zé!)... Seja como for, creio que nenhum tradutor ou catalogador deveria dar-se à liberdade (porque do direito nem se fala) de alterar a intenção do artista, sobretudo quando a intenção consegue sobreviver à tradução e à catalogação. E não haverá dúvidas que o artista, neste caso, é mesmo intocável: Stanley Kubrick.
Este é o resumo da apresentação do DVD: "O audaz filme final de Stanley Kubrick tem muitos significados. É uma envolvente viagem de obsessão sexual. Uma atmosfera quase irreal. Uma história crivada de suspense. E um digno capítulo final para uma brilhante carreira de realizador (Roger Ebert, Chicago Sun-Times). Pelas suas brilhantes e aplaudidas representações, as estrelas Tom Cruise e Nicole Kidman têm aqui, também, um marco inesquecível nas suas carreiras. Cruise é o Dr. William Harford, um médico nova-iorquino que transforma uma fatídica noite de inverno numa busca erótica que ameaça o seu casamento — e que o pode levar, inclusive, a ser relacionado a um misterioso e sinistro assassínio — depois da sua mulher (Kidman) ter admitido uma atracção erótica por outro homem. Enquanto a história vagueia desde a dúvida e receio à descoberta interior e reconciliação, Kubrick orquestra-a com a mestria e detalhe que só ele soube dar à arte de filmar. Cenas elegantemente filmadas, ritmos controlados, riqueza de cores, imagens surpreendentes: traços peliculares que nos deixam de olhos bem abertos ao legado para o futuro que representa a obra de Kubrick."
Com este, os DVDs cá de casa com títulos começados pela inicial E passam a ser os seguintes (título / autor / género / lançamento / edição):
  • Erasure: Hits! The Videos / Erasure / música / 2003 / 2003
  • Eurythmics: Sweet Dreams / Eurythmics / música / 1983 / 2003
  • Eva (All About Eve) / Joseph L. Mankiewicz / drama / 1950 / 2002
  • Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados) / Stanley Kubrick / thriller / 1999 / 2005
Esta semana, nos cinemas, «A Noiva Cadáver» de Tim Burton (ver neste blogue a entrada de 2005/12/07, «felizes bodas fúnebres») e «Odete» de João Pedro Rodrigues são dois filmes em estreia que não deverão ser perdidos sob pretexto algum. Palavra de quem vai vê-los e, certamente, adicioná-los mais tarde à colecção.

2005/12/23

cristãos homossexuais

Uma das coisas que às vezes me aborrece nos meios do activismo e intervenção GLBT, é a confusão que muito amiúde se faz entre Igreja Católica e Catolicismo, que é como quem diz entre alhos e bugalhos. Uma coisa são os discursos polémicos e as posições infelizes que a Igreja Católica Romana toma (normalmente através do Papa) e outra é a prática da religião cristã em si mesma que, embora possa estar imbuída de maior ou menor grau de sinceridade ou pureza, é livre e legítima. É impressionante constatar a rapidez com que as pessoas se põem na posição de juízes e, nesta questão da religião católica, metem tudo no mesmo saco. Eu também tento lembrar-me sempre que não posso ser o primeiro a atirar pedras mas, neste período de Natal, apetece-me atirar esta: sim, é possível ser gay e ter sido baptizado e educado como católico, sim é possível ser gay e continuar a ser cristão, e sim, é até possível ser-se gay e insistir em ser católico. A sexualidade em geral e a homossexualidade em particular colocam questões à prática da religião que, por muito que custe ao Vaticano, estão longe de estar encerradas. E por muito que custe a alguns activistas, há homens e mulheres que para além de homossexuais são católic@s e lutam por fazer aceitar aos outros o seu direito a essa dupla identidade. Eles existem e podem ser contactados via grupos como o valenciano Cristians Homosexuals (ver link no título deste post).

2005/12/21

como estão enganados

No dia 18, antes do especial circense de Herman José, nós cá esperávamos que o «Esquadrão G» nos entrasse pela casa dentro, através do nosso televisor. Para, à sua maneira, adocicar uma vez mais os machos latinos e outros que tais. E até então, os resultados foram esplêndidos, pois os machos ficaram bem melhor e os gays nem sequer ficaram pior. Bem pelo contrário, até, uma vez que a imagem que passavam à sociedade era extremamente simpática e positiva. E assim foi, semana atrás de semana, mas a 18 a espera foi em vão… Hoje, três dias depois, soubemos que os cinco gays que nos habituámos a acompanhar pela SIC, foram afastados apressadamente da grelha de programas porque “o formato não se enquadra na nova filosofia da estação”. As palavras são atribuídas a Francisco Penin por um jornal diário de distribuição gratuita, que assim cita o novo director daquele canal de TV. Penin acrescenta adiante que os cinco rapazes — Jorge Correia de Campos, Pedro Crispim, Óscar Reis, Paulo Piteira e João Ribeiro — poderão reaparecer em 2006, mas para se dedicarem então a “transformar mulheres normais em princesas”. E depois a sociedade queixa-se que os gays são bichas. Pois que se queixe, até porque estão mesmo a pedi-las. Não estão?!…
Mas hoje um outro tema motivou destaques discretos nas TVs portuguesas: o casamento “homossexual” (quero ver quando se referirão aos outros casamentos como “heterossexuais”) de sir Elton John com David Furnish. Uma notícia que a TV não poderia evitar, mas que foi deixada para a ponta final dos telejornais e apresentada com extrema cautela, sem apoio nem crítica. Estilo: já que tem que ser, que seja, mas é para esquecer o mais depressa possível... Como eles estão enganados!