2006/02/21

amizade e amor: palavras mudas

A 5 de Agosto de 1986 o Diário de Notícias incluía no seu suplemento DN Jovem um texto do leitor Raul Moreno, então com 20 anos, estudante universitário de Coimbra. Recortei-o e guardei-o como algo de raro e precioso. Tantos anos passados, o recorte de escassos 8x8 cm permanece comigo, amarelado mas tão belo e intenso quanto antes. Este texto quase anónimo merecia divulgação, mais não fosse a propósito das minhas entradas sobre a amizade e o amor que regularmente vou aqui colocando. Do seu autor nunca nada soube, nada sei. Quanto ao texto de há 20 anos ei-lo, sem mais palavras, para que alguém o imprima e o faça reviver de novo, nem que seja só daqui a mais duas décadas:

Johnny, sabes o que é que faço se não sais dessa mudez? Agarro em todas as cartas que nunca me escreveste e publico-as, mesmo antes de (não) vires a ser famoso. Agarro em todas essas palavras que nunca me dirigiste, e que guardo amarradas por uma fita roxa na gaveta dos amores — onde moram sozinhas, portanto — e exponho-as, num suplemento literário qualquer, à mistura com outros poemas e crónicas de vidas anónimas. Isto tudo a ver se ao menos uma fala de raiva és capaz de me conceder.
Raul

(A foto do topo e o link são de Howard Roffman, um fotógrafo com um trabalho excepcionalmente sóbrio e brilhante.)

2006/02/16

7000 pelo casamento

Chegou hoje, finalmente, o dia da entrega na Assembleia da República da petição para a igualdade no acesso ao casamento civil, iniciada pela ILGA e subscrita por cerca de 7000 pessoas (mais 3000 do que as exigidas). Eu e o Luís, desde já, agradecemos e felicitamos as pessoas que assinaram a folha que fizemos circular e que nos ajudaram a fazer a nossa modesta quota-parte de recolhas. A petição terá que ser agora analisada por comissão própria no prazo de 60 dias e, se tudo correr bem, levada a discussão em plenário num futuro que se pretende breve. Apesar de todos os coadjuvantes (Teresa e Lena; propostas de legislação da Juventude Socialista e do Bloco de Esquerda; etc), parece-me óbvio que o processo não será fácil nem tão rápido como se desejaria. Por isso será necessário, pelos mais variados meios, manter a questão viva e a argumentação forte. O caminho que se apresenta à nossa frente lembra-me, quase que inevitavelmente, o nome da montanha que deu nome ao filme que tem tido responsabilidade, também, no despertar das consciências e na mudança das mentalidades (ou estarei a ser demasiado ingénuo e optimista?). Com uma 'brokeback mountain' para atravessar, portanto, há-que continuar a defender e lutar com ânimo por direitos iguais no acesso ao casamento (na foto: estátua representando a Justiça na Assembleia da República).

2006/02/14

bacalhau no microondas à s. valentim

Ingredientes:
2 postas de bacalhau
2 cebolas
3 dentes de alho
2 folhas de louro
2 colheres de salsa picada
1 pimento
2 batatas grandes
sal, pimenta, colorau e azeite q.b.

Será tudo cozinhado no microondas com grill que recebemos de presente pelo Natal, escolhido por nós e com a marca correspondente às iniciais dos nossos nomes (LG):
Começa-se por colocar no aparelho o bacalhau tapado, onde irá cozer por 2 minutos na potência máxima (900W), virando-se a meio do processo. Depois ficará a repousar durante 3 minutos, pelo menos.
Liga-se logo o forno, para que aqueça, enquanto num tabuleiro se colocam as cebolas em rodelas, os alhos laminados e as folhas de louro, fazendo aquilo a que habitualmente se chama de "cama" (e que nesta data especial soa tão bem). Por cima desta dispõe-se as postas de bacalhau antes cozidas, polvilhando-as com a salsa picada. Entre as postas coloca-se o pimento cortado longitudinalmente e sem atingir a base, com criatividade, para que no fim se pareça com uma flor. Ornamenta-se à volta com as batatas descascadas cortadas em rodelas largas, para que assem com o bacalhau. Tempera-se tudo com sal, pimenta e colorau ao gosto e rega-se com um bom azeite. Vai então ao forno aquecido, por 30 minutos, vigiando-se de vez em quando.
Prepara-se a mesa e o vinho, que deve ser um bom tinto. Havendo tempo, se não se deixar estragar o jantar pode-se aproveitar para saborear a dedicada companhia, com amor e constante imaginação.
Assim que o bacalhau esteja pronto vai de imediato à mesa, para que neste dia húmido e frio seja saboreado bem quente, como convém.
Após o jantar, a TV Cabo, no canal SIC Mulher, transmite mais um episódio da série «Queer Eye For The Straight Guy» (a versão americana, original, do banido «Esquadrão G» que passava na SIC normal). É às 23 horas e hoje não se pode perder para que a coincidência tenha mais significado.
Feliz S. Valentim, meu querido!

2006/02/10

balanescu quartet: plays kraftwerk

Nascido na Roménia em 1950, o violinista Alexander Balanescu mudou-se em 1969 para Israel, fugindo à ditadura de Ceaucescu. Num exílio nómada, acabou por fixar-se em Londres onde foi inicialmente requisitado para integrar o Arditti String Quartet. O seu Balanescu Quartet nasceria em 1987, desenvolvendo parcerias tão díspares como com Michael Nyman, Gavin Bryars, David Byrne, John Lurie, Kate Bush e mesmo com os Pet Shop Boys.
Em 1992 começa a sua ligação à editora Mute Records, que lança o álbum «Possessed», onde o quarteto visita a música electrónica do grupo alemão Kraftwerk e faz com que ela tenha uma leitura "séria", se bem que com o sabor doce da música clássica e toda a irreverência da composição contemporânea. As peças «The Robots», «The Model», «Autobahn», «Computer Love» e «Pocket Calculator» são igualadas por Balanescu às composições de grandes figuras da música erudita como Luciano Berio e Karlheinz Stockhausen, mas com "mais poder, graças à sua simplicidade".
Dentro de uma semana, na sexta-feira dia 17, o quarteto apresenta-se ao vivo no Porto, na Casa da Música (sala 2), pelas 23 horas, num concerto único e inevitável. Os dois violinos, a viola e o violoncelo do grupo liderado por Balanescu interpretará Kraftwerk com esse rigor e seriedade. Mas com a modernidade necessária para fazer desse acto uma obra tão importante e deslumbrante quanto o original. Nós estaremos lá!
No dia seguinte o grupo fará uma outra apresentação no mesmo local mas uma hora mais cedo, com um programa que visa promover o seu último álbum «Maria T» e homenagear a actriz e cantora folk romena Maria Tanase (1913-1963). O concerto será complementado pela intervenção em vídeo de Klaus Obermaier.

2006/02/08

em defesa do casamento

O casamento entre pessoas do mesmo sexo (vulgo 'casamento homossexual' — expressão que considero prestar-se facilmente aos abusos de imaginação das mentes homófobas) continua na ordem do dia. Já sabemos que o pedido para a realização do casamento entre Teresa e Lena foi recusado, como se esperava, e que o recurso sobre a recusa avançou para instâncias superiores. A tentativa do PS e PSD (tão diferentes, tão iguais) de ignorar e descartar o assunto parece cada vez mais votada ao insucesso, instalado como está o debate na sociedade portuguesa, com defensores inesperados e os detractores do costume. Para reforçar o movimento, esperam-se vagas sucessivas de apoio à justíssima causa da mudança da lei do casamento civil: os recursos de Teresa e Lena (e, seria bom, de novos e corajosos casais); a entrega das assinaturas (esperam-se agora bastante mais do que as regulamentadas 4000) com o pedido de discussão na Assembleia da República; o projecto de lei do Bloco de Esquerda e, com sorte, da Juventude Socialista; a pressão exterior do Parlamento Europeu e de cada vez mais países a mudar a sua legislação; etc. Os observadores mais atentos começam a notar que, perante a inevitabilidade da mudança da lei a curto prazo, os partidos do centro conservador poderão avançar com uma proposta de lei que, longe de estender o casamento aos casais do mesmo sexo, se limite a alargar os direitos e deveres das uniões civis, mantendo o casamento como um privilégio de um grupo maioritário e restrito. É importante, por isso, que desde já se defenda o casamento civil para os casais do mesmo sexo, e não uma qualquer versão alternativa 'simplificada' e de segunda ordem. Não esqueçamos que para além de direitos civis iguais para todos, com o 'casamento' e não com a 'união civil', está em causa uma actualização jurídica com implicações profundas na mudança das mentalidades. Por uma vez olhemos para Espanha e não para Inglaterra, é de lá afinal que vêm, se não os bons ventos, pelo menos os bons casamentos (na foto: a mais recente campanha de Oliviero Toscani para a marca Ra-Re).

2006/02/06

d_skin: cd protegido

d_skin® é uma micro-resina que serve para proteger os CDs, DVDs e todos os discos similares dos maus tratos e do desgaste. Basta colocar a d_skin do lado de leitura do disco e prender as pequenas garras à sua volta para que fique a proteger eficientemente e com segurança de situações habituais e indesejadas: marcas e riscos, por exemplo. A protecção permanece no disco enquanto é feita a leitura no equipamento; e mesmo a gravação, em discos graváveis, pode ser efectuada com a protecção colocada. Tal como noutras situações nossas conhecidas, se a d_skin por azar se riscar bastará removê-la e colocar uma nova. Depois é só… continuar.
Que se saiba, a d_skin não é fabricada pela Durex®, como poderia ser suposto... Mas talvez possa também ser adquirida em Portugal. No Reino Unido cada unidade custa desde aproximadamente 0,75€ (em caixas de 100) até 1,50€ (em bolsa de 5 unidades).

2006/02/03

bruno coulais: à mãe dolorosa

Bruno Coulais é um compositor nascido em Paris em 1954, filho de pai francês e de mãe iraquiana.
Especialista em música para cinema, Bruno Coulais também assinou «Microcosmos», «Himalaya», «Les Choristes» e «Le Peuple Migrateur». Mas já fazia música no final dos anos 70 (a banda-sonora da curta-metragem «Nuit Féline» é de 1978) e, no seu longo percurso criativo, também piscou o olho a Cocteau, em 2003, com a música para a versão televisiva de «Les Parents Terribles».
"Procurar o 'sagrado' nas pequenas coisas do quotidiano é a lição que eu recebi do cinema, e é uma ideia que me acompanhou ao longo de toda a escrita deste «Stabat Mater»", disse.
Este título é a abreviação do primeiro verso de um hino católico-romano do século XIII, atribuído a Jacopone de Todi: «Stabat mater dolorosa» ("estava a mãe dolorida"). Coulais inspirou-se nele para, a convite do Festival de Saint-Denis, criar esta obra intensa e de mestiçagem cultural que foi estreada em Junho de 2005, na Basílica de Saint-Denis, em Paris. Tal como no disco que agora nos chega às mãos, os textos cantados por Aïcha Redouane são extraídos de «La Passion de Râbi'a» (poemas sufis de Râbi'a al-Adawiyya, do século VIII).
Para além da cantora berbere, assinale-se ainda um elenco extra de respeito com o jovem mas talentoso violinista Laurent Korcia, a revelação como cantor de Guillaume Depardieu (filho do actor Gérard Depardieu), a voz off de Robert Wyatt (e onde Robert se envolve está sempre um grande trabalho), mas também Marie Kobayashi (meio-soprano), Claire Désert (clavicórdio, piano) e o coro de câmara Mikrokosmos.
Bruno diz-nos ainda: "Neste belo e comovedor texto, eu escolhi dar ênfase à expressão de uma mãe face à morte do seu filho, e não tanto à da lamentação da Virgem face à morte de Cristo."
Acrescenta: "Outra coisa que me vem do cinema, e muito particularmente de «O Evangelho Segundo S. Mateus» de Pasolini, é que o reencontro de universos musicais tão diversos podem conduzir-nos ao 'universal'..."
O disco é muito sedutor, pelo tema, a abordagem, o elenco e toda a envolvência mágica em que a capa (com uma foto do canadiano Larry Towell, da agência Magnum) é a apetitosa cereja que se põe sobre o já delicioso bolo. Mas também porque, inevitavelmente, nos faz pensar nas nossas queridas mães!

2006/02/01

morrissey: o feiticeiro do moz

Morrissey, o ex-vocalista de The Smiths (também conhecido por Moz), vai ter em breve um novo álbum, que se sucede ao excelente «You Are The Quarry», de 2004.
Anunciado para 3 de Abril, «Ringleader Of The Tormentors» foi gravado em Roma e produzido por Tony Visconti, em Agosto do ano passado. Tony Visconti é uma estrela acessória mas incontornável, pois foi ele o mentor de alguns discos históricos de David Bowie, T. Rex ou mesmo The Stranglers. A propósito de «Ringleader Of The Tormentors» disse que "todos os dias trabalhámos a música, para a fazer cada vez melhor. As vocalizações de Morrissey são apaixonadas e confidentes e este é um dos melhores álbuns em que eu trabalhei. Tanto mais que o compositor de bandas-sonoras Ennio Morricone e um coro de crianças italianas estiveram por muito perto". Mesmo assim, a revista americana Billboard, que já teve acesso às gravações, diz tratar-se de um álbum denso e com um som muito orientado para o rock. Em que ficamos?...
Este é o alinhamento: «I Will See You In Far-Off Places», «Dear God Please Help Me», «You Have Killed Me» (que será o primeiro single, a lançar a 27 de Março), «The Youngest Was The Most Loved», «In The Future When All's Well», «The Father Who Must Be Killed», «Life Is A Pigsty», «I'll Never Be Anybody's Hero Now», «On The Streets I Ran», «To Me You Are A Work Of Art», «I Just Want To See The Boy Happy» e finalmente «At Last I Am Born».
Para já só mesmo a excelente capa de «Ringleader Of The Tormentors», que nos deixa sonhar e esperar por um novo álbum mágico que não lhe fique atrás!

orgulhos

Hoje pelas 14h30, o mesmo dia em que assinalamos dois anos desde que metemos pela primeira vez a chave na porta da nossa casa, duas mulheres — a Teresa e a Lena — vão tentar casar-se na 7ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa. Que orgulho!
Nós temos a nossa casa mas vivemos separados, ainda. Mesmo assim, vão dois anos sobre uma decisão que foi preponderante nas nossas vidas. Que as mudou e as continuará a mudar. Para sempre...
Elas, mais arrojadas e avançadas que nós, tentam desbloquear as barreiras legais, sabendo que não o vão conseguir para já. Que vão ter que lutar, uma vez mais, e outra e outra. Mas elas sabem também que não vale a pena perder o sonho, nem a esperança. Ou que a felicidade é um direito, mesmo que tenha que ser conquistado. E sabem que vão poder casar-se também, um dia, e alcançar o mesmo patamar de direitos e obrigações dos casais convencionais. Que vão poder finalmente ser livres nesta sociedade homófoba que ainda nos reprime e impede de atingir direitos cívicos que deveriam ser universais. Uma sociedade que faz de nós escravos revoltados de um esclavagismo heterossexual...
Para tal combater, a Associação ILGA Portugal avança finalmente a 16 de Fevereiro próximo com a entrega ao Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, da petição que também nós próprios e uns quantos amigos assinámos e que promove a revisão do Código Civil, para que pessoas do mesmo sexo possam ter igualmente acesso ao casamento civil. O abaixo-assinado, disponível no site da associação, conta já com alguns deputados entre os seus subscritores, mas vai encontrar oposições pelo caminho, sabendo-se já da indiferença do centro-direita (PSD e PS incluídos) e do futuro Presidente da República, Cavaco Silva...
Ainda por cá, quase a estrear, fala-se muito de «Brokeback Mountain» que não tardará nada a levar-nos mais uma vez ao cinema. É que nós orgulhamo-nos de filmes assim!

2006/01/27

barbara récital pantin 81

De vez em quando reencontro-me com as mulheres da minha vida. As mulheres da minha vida, em canções e filmes, acompanharam-me as alegrias e as tristezas, mas sobretudo acompanharam e alimentaram os meus sonhos, desmedidos, de criança, de rapaz, de criança, de adolescente, de criança, de adulto... de criança. Quando me reencontro com as mulheres da minha vida, reencontro-me com os sonhos da minha vida — fragmentos só já, às vezes; outras apenas fantasmas. Por alguma estranha razão (o sofrimento talvez, vivido ou antecipado), as mulheres da minha vida são as mulheres da vida de muitos outros homens que com elas comungam. Por alguma outra razão, a maior parte desses homens amam outros homens... Quatro mulheres em quatro concertos, em particular, marcaram indelevelmente os meus sonhos de vida: Judy Garland, e depois Liza Minnelli no Carnegie Hall; Marlene Dietrich no New London Theatre e Barbara no recital Pantin. Estes quatro concertos registam a actuação de artistas maiores, em plena maturidade, em momentos irrepetíveis. O recital «À Pantin» de Barbara, que acabo de reouvir, revela uma cantora que já não depende da voz e, também por isso, com uma capacidade de interpretar e comover muito rara; um repertório de uma beleza intocável e um francês cantado com tal poesia que nos lembra porque é que esta língua educou o mundo. Citando Barbara, "On ne touche pas à Pantin!".