2006/02/21

a propósito de (truman) capote

Nascido a 30 de Setembro de 1924, Truman Streckfus Persons estudou em Connecticut, leu guiões, trabalhou na revista The New Yorker e até foi dançarino. Como Truman Capote assinou o seu primeiro romance «Other Voices, Other Rooms», em 1948, que foi um sucesso e o faz decidir pela literatura.
Decorridos 10 anos, «Breakfast at Tiffany's» volta a ser objecto de reconhecimento mas o sucesso maior viria depois ainda, com «In Cold Blood», de 1965, onde dá início a um género que designou de non-fiction novel (algo como "romance documental"), neste caso pela reconstrução detalhada da história de um crime brutal, da personalidade dos jovens homicidas e das suas vítimas.
Em 1976 escreve e interpreta o principal papel do filme «Murder By Death», contracenado com Peter Sellers, David Niven, Peter Falk e outras grandes estrelas do cinema. Publica ainda «Music For Chameleons» (1980) e «Answered Prayers» (1986), entre outras obras.
Envolveu-se em relações sexualmente insatisfeitas e no álcool. Morreu em 1984, a 25 de Agosto.
Esta quinta-feira (23 de Fevereiro) estreia «Capote», um filme nomeado para os Óscares que procura retratar esta figura maior da literatura universal do século XX. O actor Philip Seymour Hoffman faz o que pode para se parecer e representar o verdadeiro Truman, mesmo nos seus trejeitos, mas a representação não é convincente. O filme «Capote» é um olhar biográfico do escritor homossexual, no decurso da investigação para o jornal onde trabalha, de um homicídio numa pequena cidade do Kansas. Apesar de Hoffman ter ganho o Globo de Ouro como melhor actor dramático, e de ter sido nomeado para o Óscar de melhor actor principal pela interpretação da figura de Capote, este filme (vista apenas a apresentação) não atrai, não convence, até desilude.
Mas talvez se deva dar ao filme uma segunda oportunidade. Desde que isso não sirva para fazer da escrita e da figura de Truman Capote algo de menos brilhante.

amizade e amor: palavras mudas

A 5 de Agosto de 1986 o Diário de Notícias incluía no seu suplemento DN Jovem um texto do leitor Raul Moreno, então com 20 anos, estudante universitário de Coimbra. Recortei-o e guardei-o como algo de raro e precioso. Tantos anos passados, o recorte de escassos 8x8 cm permanece comigo, amarelado mas tão belo e intenso quanto antes. Este texto quase anónimo merecia divulgação, mais não fosse a propósito das minhas entradas sobre a amizade e o amor que regularmente vou aqui colocando. Do seu autor nunca nada soube, nada sei. Quanto ao texto de há 20 anos ei-lo, sem mais palavras, para que alguém o imprima e o faça reviver de novo, nem que seja só daqui a mais duas décadas:

Johnny, sabes o que é que faço se não sais dessa mudez? Agarro em todas as cartas que nunca me escreveste e publico-as, mesmo antes de (não) vires a ser famoso. Agarro em todas essas palavras que nunca me dirigiste, e que guardo amarradas por uma fita roxa na gaveta dos amores — onde moram sozinhas, portanto — e exponho-as, num suplemento literário qualquer, à mistura com outros poemas e crónicas de vidas anónimas. Isto tudo a ver se ao menos uma fala de raiva és capaz de me conceder.
Raul

(A foto do topo e o link são de Howard Roffman, um fotógrafo com um trabalho excepcionalmente sóbrio e brilhante.)

2006/02/16

7000 pelo casamento

Chegou hoje, finalmente, o dia da entrega na Assembleia da República da petição para a igualdade no acesso ao casamento civil, iniciada pela ILGA e subscrita por cerca de 7000 pessoas (mais 3000 do que as exigidas). Eu e o Luís, desde já, agradecemos e felicitamos as pessoas que assinaram a folha que fizemos circular e que nos ajudaram a fazer a nossa modesta quota-parte de recolhas. A petição terá que ser agora analisada por comissão própria no prazo de 60 dias e, se tudo correr bem, levada a discussão em plenário num futuro que se pretende breve. Apesar de todos os coadjuvantes (Teresa e Lena; propostas de legislação da Juventude Socialista e do Bloco de Esquerda; etc), parece-me óbvio que o processo não será fácil nem tão rápido como se desejaria. Por isso será necessário, pelos mais variados meios, manter a questão viva e a argumentação forte. O caminho que se apresenta à nossa frente lembra-me, quase que inevitavelmente, o nome da montanha que deu nome ao filme que tem tido responsabilidade, também, no despertar das consciências e na mudança das mentalidades (ou estarei a ser demasiado ingénuo e optimista?). Com uma 'brokeback mountain' para atravessar, portanto, há-que continuar a defender e lutar com ânimo por direitos iguais no acesso ao casamento (na foto: estátua representando a Justiça na Assembleia da República).

2006/02/14

bacalhau no microondas à s. valentim

Ingredientes:
2 postas de bacalhau
2 cebolas
3 dentes de alho
2 folhas de louro
2 colheres de salsa picada
1 pimento
2 batatas grandes
sal, pimenta, colorau e azeite q.b.

Será tudo cozinhado no microondas com grill que recebemos de presente pelo Natal, escolhido por nós e com a marca correspondente às iniciais dos nossos nomes (LG):
Começa-se por colocar no aparelho o bacalhau tapado, onde irá cozer por 2 minutos na potência máxima (900W), virando-se a meio do processo. Depois ficará a repousar durante 3 minutos, pelo menos.
Liga-se logo o forno, para que aqueça, enquanto num tabuleiro se colocam as cebolas em rodelas, os alhos laminados e as folhas de louro, fazendo aquilo a que habitualmente se chama de "cama" (e que nesta data especial soa tão bem). Por cima desta dispõe-se as postas de bacalhau antes cozidas, polvilhando-as com a salsa picada. Entre as postas coloca-se o pimento cortado longitudinalmente e sem atingir a base, com criatividade, para que no fim se pareça com uma flor. Ornamenta-se à volta com as batatas descascadas cortadas em rodelas largas, para que assem com o bacalhau. Tempera-se tudo com sal, pimenta e colorau ao gosto e rega-se com um bom azeite. Vai então ao forno aquecido, por 30 minutos, vigiando-se de vez em quando.
Prepara-se a mesa e o vinho, que deve ser um bom tinto. Havendo tempo, se não se deixar estragar o jantar pode-se aproveitar para saborear a dedicada companhia, com amor e constante imaginação.
Assim que o bacalhau esteja pronto vai de imediato à mesa, para que neste dia húmido e frio seja saboreado bem quente, como convém.
Após o jantar, a TV Cabo, no canal SIC Mulher, transmite mais um episódio da série «Queer Eye For The Straight Guy» (a versão americana, original, do banido «Esquadrão G» que passava na SIC normal). É às 23 horas e hoje não se pode perder para que a coincidência tenha mais significado.
Feliz S. Valentim, meu querido!

2006/02/10

balanescu quartet: plays kraftwerk

Nascido na Roménia em 1950, o violinista Alexander Balanescu mudou-se em 1969 para Israel, fugindo à ditadura de Ceaucescu. Num exílio nómada, acabou por fixar-se em Londres onde foi inicialmente requisitado para integrar o Arditti String Quartet. O seu Balanescu Quartet nasceria em 1987, desenvolvendo parcerias tão díspares como com Michael Nyman, Gavin Bryars, David Byrne, John Lurie, Kate Bush e mesmo com os Pet Shop Boys.
Em 1992 começa a sua ligação à editora Mute Records, que lança o álbum «Possessed», onde o quarteto visita a música electrónica do grupo alemão Kraftwerk e faz com que ela tenha uma leitura "séria", se bem que com o sabor doce da música clássica e toda a irreverência da composição contemporânea. As peças «The Robots», «The Model», «Autobahn», «Computer Love» e «Pocket Calculator» são igualadas por Balanescu às composições de grandes figuras da música erudita como Luciano Berio e Karlheinz Stockhausen, mas com "mais poder, graças à sua simplicidade".
Dentro de uma semana, na sexta-feira dia 17, o quarteto apresenta-se ao vivo no Porto, na Casa da Música (sala 2), pelas 23 horas, num concerto único e inevitável. Os dois violinos, a viola e o violoncelo do grupo liderado por Balanescu interpretará Kraftwerk com esse rigor e seriedade. Mas com a modernidade necessária para fazer desse acto uma obra tão importante e deslumbrante quanto o original. Nós estaremos lá!
No dia seguinte o grupo fará uma outra apresentação no mesmo local mas uma hora mais cedo, com um programa que visa promover o seu último álbum «Maria T» e homenagear a actriz e cantora folk romena Maria Tanase (1913-1963). O concerto será complementado pela intervenção em vídeo de Klaus Obermaier.

2006/02/08

em defesa do casamento

O casamento entre pessoas do mesmo sexo (vulgo 'casamento homossexual' — expressão que considero prestar-se facilmente aos abusos de imaginação das mentes homófobas) continua na ordem do dia. Já sabemos que o pedido para a realização do casamento entre Teresa e Lena foi recusado, como se esperava, e que o recurso sobre a recusa avançou para instâncias superiores. A tentativa do PS e PSD (tão diferentes, tão iguais) de ignorar e descartar o assunto parece cada vez mais votada ao insucesso, instalado como está o debate na sociedade portuguesa, com defensores inesperados e os detractores do costume. Para reforçar o movimento, esperam-se vagas sucessivas de apoio à justíssima causa da mudança da lei do casamento civil: os recursos de Teresa e Lena (e, seria bom, de novos e corajosos casais); a entrega das assinaturas (esperam-se agora bastante mais do que as regulamentadas 4000) com o pedido de discussão na Assembleia da República; o projecto de lei do Bloco de Esquerda e, com sorte, da Juventude Socialista; a pressão exterior do Parlamento Europeu e de cada vez mais países a mudar a sua legislação; etc. Os observadores mais atentos começam a notar que, perante a inevitabilidade da mudança da lei a curto prazo, os partidos do centro conservador poderão avançar com uma proposta de lei que, longe de estender o casamento aos casais do mesmo sexo, se limite a alargar os direitos e deveres das uniões civis, mantendo o casamento como um privilégio de um grupo maioritário e restrito. É importante, por isso, que desde já se defenda o casamento civil para os casais do mesmo sexo, e não uma qualquer versão alternativa 'simplificada' e de segunda ordem. Não esqueçamos que para além de direitos civis iguais para todos, com o 'casamento' e não com a 'união civil', está em causa uma actualização jurídica com implicações profundas na mudança das mentalidades. Por uma vez olhemos para Espanha e não para Inglaterra, é de lá afinal que vêm, se não os bons ventos, pelo menos os bons casamentos (na foto: a mais recente campanha de Oliviero Toscani para a marca Ra-Re).

2006/02/06

d_skin: cd protegido

d_skin® é uma micro-resina que serve para proteger os CDs, DVDs e todos os discos similares dos maus tratos e do desgaste. Basta colocar a d_skin do lado de leitura do disco e prender as pequenas garras à sua volta para que fique a proteger eficientemente e com segurança de situações habituais e indesejadas: marcas e riscos, por exemplo. A protecção permanece no disco enquanto é feita a leitura no equipamento; e mesmo a gravação, em discos graváveis, pode ser efectuada com a protecção colocada. Tal como noutras situações nossas conhecidas, se a d_skin por azar se riscar bastará removê-la e colocar uma nova. Depois é só… continuar.
Que se saiba, a d_skin não é fabricada pela Durex®, como poderia ser suposto... Mas talvez possa também ser adquirida em Portugal. No Reino Unido cada unidade custa desde aproximadamente 0,75€ (em caixas de 100) até 1,50€ (em bolsa de 5 unidades).

2006/02/03

bruno coulais: à mãe dolorosa

Bruno Coulais é um compositor nascido em Paris em 1954, filho de pai francês e de mãe iraquiana.
Especialista em música para cinema, Bruno Coulais também assinou «Microcosmos», «Himalaya», «Les Choristes» e «Le Peuple Migrateur». Mas já fazia música no final dos anos 70 (a banda-sonora da curta-metragem «Nuit Féline» é de 1978) e, no seu longo percurso criativo, também piscou o olho a Cocteau, em 2003, com a música para a versão televisiva de «Les Parents Terribles».
"Procurar o 'sagrado' nas pequenas coisas do quotidiano é a lição que eu recebi do cinema, e é uma ideia que me acompanhou ao longo de toda a escrita deste «Stabat Mater»", disse.
Este título é a abreviação do primeiro verso de um hino católico-romano do século XIII, atribuído a Jacopone de Todi: «Stabat mater dolorosa» ("estava a mãe dolorida"). Coulais inspirou-se nele para, a convite do Festival de Saint-Denis, criar esta obra intensa e de mestiçagem cultural que foi estreada em Junho de 2005, na Basílica de Saint-Denis, em Paris. Tal como no disco que agora nos chega às mãos, os textos cantados por Aïcha Redouane são extraídos de «La Passion de Râbi'a» (poemas sufis de Râbi'a al-Adawiyya, do século VIII).
Para além da cantora berbere, assinale-se ainda um elenco extra de respeito com o jovem mas talentoso violinista Laurent Korcia, a revelação como cantor de Guillaume Depardieu (filho do actor Gérard Depardieu), a voz off de Robert Wyatt (e onde Robert se envolve está sempre um grande trabalho), mas também Marie Kobayashi (meio-soprano), Claire Désert (clavicórdio, piano) e o coro de câmara Mikrokosmos.
Bruno diz-nos ainda: "Neste belo e comovedor texto, eu escolhi dar ênfase à expressão de uma mãe face à morte do seu filho, e não tanto à da lamentação da Virgem face à morte de Cristo."
Acrescenta: "Outra coisa que me vem do cinema, e muito particularmente de «O Evangelho Segundo S. Mateus» de Pasolini, é que o reencontro de universos musicais tão diversos podem conduzir-nos ao 'universal'..."
O disco é muito sedutor, pelo tema, a abordagem, o elenco e toda a envolvência mágica em que a capa (com uma foto do canadiano Larry Towell, da agência Magnum) é a apetitosa cereja que se põe sobre o já delicioso bolo. Mas também porque, inevitavelmente, nos faz pensar nas nossas queridas mães!

2006/02/01

morrissey: o feiticeiro do moz

Morrissey, o ex-vocalista de The Smiths (também conhecido por Moz), vai ter em breve um novo álbum, que se sucede ao excelente «You Are The Quarry», de 2004.
Anunciado para 3 de Abril, «Ringleader Of The Tormentors» foi gravado em Roma e produzido por Tony Visconti, em Agosto do ano passado. Tony Visconti é uma estrela acessória mas incontornável, pois foi ele o mentor de alguns discos históricos de David Bowie, T. Rex ou mesmo The Stranglers. A propósito de «Ringleader Of The Tormentors» disse que "todos os dias trabalhámos a música, para a fazer cada vez melhor. As vocalizações de Morrissey são apaixonadas e confidentes e este é um dos melhores álbuns em que eu trabalhei. Tanto mais que o compositor de bandas-sonoras Ennio Morricone e um coro de crianças italianas estiveram por muito perto". Mesmo assim, a revista americana Billboard, que já teve acesso às gravações, diz tratar-se de um álbum denso e com um som muito orientado para o rock. Em que ficamos?...
Este é o alinhamento: «I Will See You In Far-Off Places», «Dear God Please Help Me», «You Have Killed Me» (que será o primeiro single, a lançar a 27 de Março), «The Youngest Was The Most Loved», «In The Future When All's Well», «The Father Who Must Be Killed», «Life Is A Pigsty», «I'll Never Be Anybody's Hero Now», «On The Streets I Ran», «To Me You Are A Work Of Art», «I Just Want To See The Boy Happy» e finalmente «At Last I Am Born».
Para já só mesmo a excelente capa de «Ringleader Of The Tormentors», que nos deixa sonhar e esperar por um novo álbum mágico que não lhe fique atrás!

orgulhos

Hoje pelas 14h30, o mesmo dia em que assinalamos dois anos desde que metemos pela primeira vez a chave na porta da nossa casa, duas mulheres — a Teresa e a Lena — vão tentar casar-se na 7ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa. Que orgulho!
Nós temos a nossa casa mas vivemos separados, ainda. Mesmo assim, vão dois anos sobre uma decisão que foi preponderante nas nossas vidas. Que as mudou e as continuará a mudar. Para sempre...
Elas, mais arrojadas e avançadas que nós, tentam desbloquear as barreiras legais, sabendo que não o vão conseguir para já. Que vão ter que lutar, uma vez mais, e outra e outra. Mas elas sabem também que não vale a pena perder o sonho, nem a esperança. Ou que a felicidade é um direito, mesmo que tenha que ser conquistado. E sabem que vão poder casar-se também, um dia, e alcançar o mesmo patamar de direitos e obrigações dos casais convencionais. Que vão poder finalmente ser livres nesta sociedade homófoba que ainda nos reprime e impede de atingir direitos cívicos que deveriam ser universais. Uma sociedade que faz de nós escravos revoltados de um esclavagismo heterossexual...
Para tal combater, a Associação ILGA Portugal avança finalmente a 16 de Fevereiro próximo com a entrega ao Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, da petição que também nós próprios e uns quantos amigos assinámos e que promove a revisão do Código Civil, para que pessoas do mesmo sexo possam ter igualmente acesso ao casamento civil. O abaixo-assinado, disponível no site da associação, conta já com alguns deputados entre os seus subscritores, mas vai encontrar oposições pelo caminho, sabendo-se já da indiferença do centro-direita (PSD e PS incluídos) e do futuro Presidente da República, Cavaco Silva...
Ainda por cá, quase a estrear, fala-se muito de «Brokeback Mountain» que não tardará nada a levar-nos mais uma vez ao cinema. É que nós orgulhamo-nos de filmes assim!