2006/03/28

pop dell'arte na casa da música

Em Janeiro saiu a nova antologia dos Pop Dell'Arte a que, a seu tempo, nos referimos já aqui e que entrou agora (ao contrário do que se poderia antecipar com o melhor dos prognósticos), segundo a sua editora, para o 34º lugar da lista dos discos mais vendidos na passada semana em Portugal.
«POPlastik 1985-2005» é o álbum comemorativo de 20 anos da banda, fazendo uma exposição retrospectiva e actual (com 3 temas inéditos) do que tem sido a actividade criativa do grupo que em 1984 surgiu em Lisboa, no bairro de Campo de Ourique, e se apresentou pela primeira vez com relevância no concurso de música moderna do Rock Rendez-Vous (onde viria a conquistar o Prémio de Originalidade). Em 1986, o grupo contribuiu com o tema «Máscara» para a antologia «Divergências» da editora Ama Romanta, ano em que também vem a perder por morte súbita o muito jovem baterista Luís Saraiva. Reerguendo-se do trauma, no ano seguinte saem finalmente dois dos discos mais importantes da sua carreira: primeiro o maxi-single «Querelle» /«Mai '86» (em Fevereiro) e depois o aclamado álbum de estreia «Sonhos Pop» (em Dezembro).
Nas 2 décadas que passaram, o grupo liderado por João Peste (na foto) sofreu outras alterações, paragens quase fatais, mas também viveu reaparições sempre deslumbrantes, que nunca passaram sem reconhecimento e elogios. Os Pop Dell'Arte conquistaram novos públicos, mantiveram fieis os fãs mais antigos, fizeram a diferença em relação aos demais. A sua música sempre foi acessível e diferente, marcando valiosos pontos com a sua musicalidade pop de travo experimental, com as inspiradas letras arty de cunho literário e, ao mesmo tempo, libertário. Numa abordagem de arte total, as estéticas gráfica e de palco sempre foram pensadas e cuidadas, resultando glamorosas, mesmo quando sobressai um laivo decadente, intencional. Marc Almond, Marc Bolan, Sylvester, Lou Reed, Marlene Dietrich, ou Genet, Burroughs, Ginsberg, Warhol, Fassbinder... Quantos mais destes nomes fazem parte do imaginário que nos é a todos comum e os Pop Dell'Arte remontam?!...
Na sexta-feira do dia 21 de Abril, pelas 23 horas, poderemos vê-los ao vivo num raro concerto na cidade do Porto. Será na Casa da Música (sala 2), com a entrada a custar apenas 10 Euros. Acredito que não haverá muitas ausências, entre os que lhes querem bem...

2006/03/20

o psd ao dictafone

O que dita: Marques Mendes, actual presidente do PSD português, no seu discurso durante o encerramento da convenção do PP espanhol, terá ditado:
— A questão do casamento dos homossexuais não é prioritária, seguramente que o PSD terá uma posição contrária, mas não espero que este tema seja introduzido na ordem política.
E o outro: Luís Filipe Menezes, actual presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e PSD também, durante uma entrevista ter-lhe-á sido questionada "a sua posição sobre a união dos homossexuais", ao que ele terá respondido:
— Eu tenho opinião. O que há de pior em Portugal é não ter opinião. No caso dos homossexuais, os direitos, liberdades e garantias individuais devem ser equiparados àqueles que outras pessoas com outro tipo de opções já têm. Para mim há um limite biológico, acho que os direitos cívicos dos homossexuais devem ser substancialmente alargados, mas há uma fasquia onde eu pararia que tem a ver com a da adopção, que eu sou contra.
Uns ditam, outros gostariam de ditar. A imagem é da Smithsonian Institution (EUA) e retrata as primeiras experiências com o dictafone, designação comercial patenteada de um dos primeiros gravadores de mensagens faladas. As declarações foram transcritas do jornal Público, a partir do Diário Digital.

2006/03/17

moda para radicais livres

A Sex foi uma loja dirigida por Malcolm McLaren e Vivienne Westwood, entre 1971 e 1979, no número 430 da Kings Road, em Londres.
O seu primeiro nome foi Let It Rock, vendendo acessórios de moda para rockers e teddy boys. Em 1974 Malcolm desloca-se em negócios a Nova Iorque e vem a conhecer a banda New York Dolls, propondo-se para seu agente. O grupo aceita, mas os resultados não são satisfatórios. Malcolm regressa a Londres, levando consigo novas ideias.
A loja muda imediatamente de nome, acabando com o negócio de moda para rockabillies. Dedica-se então ao comércio de roupas de borracha, de uma vasta variedade de acessórios sadomasoquistas, de revistas pornográficas e de fetiches sexuais. E o seu nome não poderia ser mais eloquente: Sex.
O negócio teve o sucesso suficiente para durar até à chegada do movimento punk, para o qual McLaren e Westwood contribuíram preponderantemente. O grande ícone do movimento (os Sex Pistols) teve origem numa banda que frequentava a loja (The Swankers — basicamente Steve Jones e Paul Cook, mais Glenn Matlock que era empregado da Sex), para a qual foi feita uma audição na própria loja, em Agosto de 1975, que resultou na entrada de Johnny Rotten para vocalista.
Por fim, em 1976 a Sex mudava novamente de nome tornando-se na nova Seditionaries, que procurava corresponder às necessidades da cultura punk emergente. Foi a pioneira e alcançou um sucesso inédito e histórico. Mas o movimento crescia e na Kings Road foram surgindo lojas semelhantes, suas concorrentes. O sonho conjunto de Vivienne e Malcolm assim chegava ao fim e a Seditionaries fechava as portas em 1979. Depois, a primeira seguiu o mundo da moda, tornando-se numa grande e conceituada estilista; e o segundo o mundo da música e... da política (em 2000 chegou-se a falar no seu nome para Mayor de Londres).
Em 1977 eu tinha 16 anos e não vivia em Londres. Abril tinha acontecido apenas há 3 e o Porto não ficava no centro do universo cultural português. Tudo isto demorou a chegar cá, a deslumbrar-me. Cresci, vivi outras experiências, mas sempre considerei o movimento punk como o princípio de muita coisa que se tornou importante e preponderante para mim.
Tantos anos passados, reencontrei um objecto de fascínio, de desejo. Hoje talvez maior ainda do que nos seus tempos de novidade: uma T-shirt criada em 1977 pela Seditionaries, a partir de um desenho do ilustrador gay Tom of Finland. Uma fake actual, simplesmente, mas ainda assim tão deliciosamente bela, provocadora e cobiçada quanto naquela época. E agora é... minha!

2006/03/13

ce soir à paris...

Dizia-se — e talvez se diga ainda — que Paris reunia mais portugueses que qualquer outra cidade no mundo. Mesmo que a nossa Lisboa!... E não será difícil de acreditar, sobretudo tendo em consideração a elevada emigração portuguesa para França nas décadas passadas.
Numa altura em que Portugal tem necessariamente que se decidir a diferentes níveis, Paris pode ser mais uma vez um termo de comparação para nós. Para os nossos políticos e para a nossa intelectualidade. Para os homossexuais e para os portugueses em geral.
Por isso dar parte, aqui, do meu espanto ao descobrir, numa pesquisa em cadeia, a quantidade e variedade insuspeitável de associações que na região da capital francesa congregam homossexuais, simpatizantes e afins. Deixo uma lista resumida (as que não tinham site activo ficaram excluídas) porque tenho a esperança que ela possa ser útil para mais alguém. No título há mais uma ligação, que talvez seja um bom ponto de partida para regressos futuros. Para já, eis o que descobrir:
  • Aquahomo: Association Sportive Gay, Lesbien et Heterofriendly: http://www.aquahomo.com/
  • Association des Gais et Lesbiennes Arméniens: http://www.agla.info/
  • Association des Médecins Gais: http://www.medecins-gays.org/
  • Association Gay Lesbienne Handicap: http://www.aglh.com/
  • Association pour la Reconnaissance des Droits à l’Immigration et au Séjour: http://ardhis.free.fr/
  • Association Sportive Motocycliste de France: http://www.asmf.asso.fr/
  • Associations des Parents et Futurs Parents Gais et Lesbiens: http://www.apgl.asso.fr/
  • Associations du Syndrome de Benjamin: http://www.asbfrance.org/
  • Attitud-Inn Association: http://www.atitud-inn.com/
  • Beit Haverim: Groupe Juif Gay et Lesbien de France: http://www.beit-haverim.com/
  • Bi'Cause: Association des bisexuels: http://bicause.pelnet.com/
  • Centre d’Aide, de Recherche et d’Information sur la Transsexualité et l’Identité de Genre: http://www.caritig.org/
  • Contact Association: http://contact.france.free.fr/
  • Embrayage: Association des Gays et Lesbiennes du Groupe PSA Peugeot Citroën et Leurs Ami(e)s: http://embrayage.org/
  • EnerGay: Association LGBT des IEG: http://www.energay.org/
  • Equivox: Le Chœur Gai et Lesbien de Paris: http://www.france.qrd.org/assocs/equivox/
  • Flag!: Association des Policiers Gays et Lesbiens: http://www.flagasso.com/
  • Front Runner de Paris: http://frparis.free.fr/
  • Gai Moto Club: http://membres.lycos.fr/gmcf/
  • Gaipar: Gay International Circle of Paris: http://www.gaipar-asso.com/
  • Gare! Association: Les Gays et Lesbiennes de la SNCF: http://www.asso-gare.org/
  • Groupe Grimp et Glisse: http://ggg.france.qrd.org/
  • Helem Paris: Association LGTBQI des Libanais & Libano-Friendly: http://paris.helem.net/
  • Homo Sweet Home: http://hsh.free.fr/
  • Homobus: Association Homosexuelle des Transports Parisiens: http://www.homobus.net/
  • Inter-LGBT: http://www.inter-lgbt.org/
  • Juristes Gais e de la RHIF: http://www.juristesgais.org/
  • Le Coq Musclé: Association Sportive: http://www.geocities.com/lecoqmuscle/
  • Les Enrolleres: Club de Roller Gay et Lesbien: http://www.lesenrolleres.org/
  • Les Gais Musette: Association LGTB de Danses à Deux: http://www.gaismusette.com/
  • Les Gays Retraités: http://lesgaisretraites.monsite.wanadoo.fr/
  • Les Telles & Tels: L'Association LGBT du Group France Telecom: http://www.lestelles-tels.org/
  • Long Yang Club Paris: http://www.longyangclub.org/paris/
  • Les Mâles Fêteurs: Association Gay de Loisirs et de Convivialité: http://lmf.free.fr/
  • Mélo'Men: Cœur International Gai de Paris: http://www.melomen.com/
  • Personn’Ailes: Association Gay-Friendly des Personnels d'Air France: http://www.personnailes.asso.fr/
  • Plongée Arc-en-Ciel: http://www.plongeearcenciel.org/
  • Rainbow Symphony Orchestra: http://rso.chez-alice.fr/
  • Rando’s Île de France: http://randosidf.ouvaton.org/
  • Résau d'Assistence aux Victimes d'Agressions et de Discriminations: http://www.ravad.org/
  • SOS Homophobie: http://www.france.qrd.org/assocs/sos/
  • Syndicat des Entreprises Gaies: http://www.sneg.org/
  • Vendredi des Femmes: http://vendredidesfemmes.free.fr/
Em tanta variedade não descobri uma só ligação que apontasse algum grupo activo na comunidade portuguesa de Paris. Mas consegui obter um contacto que talvez mereça ser investigado pelos residentes ou outros interessados, e que é o seguinte: Lusogay (associação lusófona de brasileiros, franceses e portugueses homossexuais). Tem reuniões bimensais (na primeira e terceira terça-feira do mês, pelas 19 horas) no bar La Petite Vertu, situado no número 15 da Rue des Vertus, em Paris IIIe. O telefone tem o nº 0660691545.
Se souberam de mais alguma associação ou de outros pormenores de interesse comuniquem-no mesmo aqui, por favor. (Obrigado!)

2006/03/07

porno: homopunk

Não sei se é porno, ou se é arte. Se é sexo, ou intervenção. Se é punk, ou apenas chique e freak.
São jovens, mas já crescidos. São tão banais como quaisquer outros jovens com quem nos cruzamos na rua, todos os dias. Mas estes consideram-se punks. Homossexuais-punk.
Homopunk.com — que é um site na internet — nas palavras de Donatien Veismann, seu ideólogo, define-se assim: "Acho patética a representação do nu masculino. Ficámos bloqueados nos anos 50, na estatuária grega... Que chatice! Após a revolução punk, os cânones de beleza mudaram. Eu sou maricas, mas toda esta estética gay inspirada pela cultura dos modeladores de corpo, pelos culturistas americanos... Isso não é para mim". Numa análise mais ampla, porque a cultura punk sempre foi de divergência e de ruptura, talvez isto faça algum sentido.
Pelo título pode visitar-se o dito sítio (está lá o link) mas, mesmo tendo a idade legal para aceder a sites pornográficos, há que ter em conta o aviso do autor, aceitando que se quer aceder para visionar material sexualmente explícito, sendo apenas para uso pessoal e unicamente em ambiente privado, etc, etc, etc. Dizem que os modelos têm todos os 18 anos de idade ou mais, e não me parece haver razões para duvidar.
Do lado de lá do clique do rato há umas quantas composições fotográficas com os ditos modelos e um vídeo QuickTime de 1 minuto e 40, que resume bem o que se passa no ambiente reservado de Homopunk. Depois dessa apresentação sumária paga-se para continuar. Por cartão de crédito, diz ainda... Para uma observação mais em conta e controlada, sugere-se a modesta aquisição da revista francesa Têtu (nº 109, deste mês, à venda por aí a cerca de 6 Euros), que traz uma reportagem que bem justifica a compra (das páginas 130 à 137, são 41 fotos homopunk para usufruir). A não perder, pois estes punks de hoje são obstinadamente criativos e inspiradores. E isso sabe muito bem...

2006/03/03

ikea: daddies as a set

Quem me conhece melhor, já o sabia: a loja Area (ex-Habitat) é uma das minhas preferidas!
Apesar disso, apesar do dinheiro que com prazer nela tenho gasto e apesar da frequência das minhas aquisições, não posso deixar de reparar na agressiva piscadela de olho da sua concorrente mais directa em Portugal, a Ikea, e dar-vos a conhecer aqui um belo exemplo da sua política comercial, digo publicitária: em 2002 a marca sueca nascida em 1943 recorreu aos serviços da agência de publicidade holandesa Strawberry Frog e dessa parceria nasceu uma colecção gráfica usada um pouco por todo o lado, em catálogos, anúncios e outdoors, referenciando diversos contextos e comunicando nas diversas línguas do público de cada país.
Acima reproduzimos a versão inglesa do anúncio nosso preferido. "My daddies are also a set." é o slogan para a imagem capturada no interior de uma casa pintada em tom intenso (um vermelho de coração), com dois pais, uma criança e os invulgares móveis da Ikea. "Why be grey?", conclui. E é bom que surjam mentalidades assim entre nós, mesmo que ainda apenas por via da importação.
A Ikea está em Lisboa (Alfragide) desde 2004 e ainda este ano abrirá a sua segunda loja em Portugal, no Porto (Freixieiro). Estaremos lá...

2006/02/26

gisberta

Ninguém merece morrer assim. Não conheci a Gisberta que, certamente, como todos os seres humanos, teria as suas virtudes e os seus defeitos, os seus sonhos e os seus pesadelos (destes últimos talvez mais do que a maior parte de nós seria capaz de suportar), mas revolta-me a violência que a fez morrer, com que a assassinaram. Revolta-me a violência abjecta com que, cada vez mais, por todo o mundo, se assassinam gratuitamente pessoas. A morte da Gisberta — transsexual, seropositiva, toxicodependente, sem-abrigo, prostituta — tem na base, todos o sabemos, questões muito complexas (miséria e exclusão social da vítima e, não duvido, dos agressores; homofobia; transfobia; vulgarização da violência; crise de valores; e não sei quantas outras anormalidades) que não vou tentar analisar. Mas cada vez que um crime de ódio como este acontece, sinto-me também um bocadinho atingido. Não acho que a Gisberta seja mais vítima do que outras vítimas de crimes violentíssimos e intoleráveis, mas toca-me de uma forma especial a sua morte, porque os preconceitos e fobias que poderão ter motivado os rapazes que a mataram não são muito diferentes dos que, embora em ponto muitíssimo mais pequeno, nos agridem também, homossexuais, nalgum momento das nossas vidas. Fica o retrato da Gisberta, para a lembrar, para nos lembrar. Que descanse em paz.

2006/02/24

o amor é uma força da natureza

Foram dois os filmes que vimos já este ano no cinema: «Odete» e «O Segredo de Brokeback Mountain».
«Odete», o novo de João Pedro Rodrigues, era esperado como algo que, no mínimo, deveria ser tão extraordinário quanto o precedente «O Fantasma», que considero um verdadeiro filme de culto. O novo filme conta uma história também extraordinária, absorvente, quiçá sobrenatural, mas no fim fica-se com uma sensação de que algo ficou inatingido. Ou inexplicado, se calhar. Por isso, ou se sai da sala com uma ligeira insatisfação ("cabecinha pensadora") ou se dá ares de que se percebeu tudo e de que o filme era apenas uma comédia, largando-se muitas gargalhadas pelo meio. Os mais "alegres" certamente optarão por essa postura, sobretudo se acharem que se devem rir de tudo que tenha a ver com o que não entendem... «Odete» é um excelente filme, com uma história invulgar, a tocar o sobrenatural, e uma excelente fotografia, cuidados planos, belos actores. Creio que deve ser visto e, talvez, adquirido também mais tarde em formato doméstico.
O mais recente «O Segredo de Brokeback Mountain», de Ang Lee, filme de que tanto se falou antes da estreia devido à sua nomeação múltipla para os Óscares de Hollywood entre outros prémios já conquistados, conta uma história rara de dois cowboys enamorados, mas tal não deveria já surpreender quem o visse. Afinal estava tudo previsto, tudo anunciado, tudo tão perfeito quanto só os americanos sabem (e embora o realizador seja um chinês de Taiwan, é americana a sua cultura de adopção e a autora do livro que deu lugar ao filme, E. Annie Proulx). Mesmo assim, o filme ultrapassou o que dele eu esperava. Mexeu com os meus sentimentos. Pôs-me a lágrima no canto do olho e a diversos espectadores também. E teve também a grande virtude de fazer pensar no número de lados que pode ter um triângulo e nas formas que podem resultar da sua transformação. «Brokeback Mountain» merece todos os Óscares de Hollywood. E, custe o que custar, terá que constar também da nossa videoteca. A imagem escolhida representa bem o subtítulo do cartaz: «O amor é uma força da natureza». Pelo link pode visitar-se o site oficial do filme.

2006/02/21

a propósito de (truman) capote

Nascido a 30 de Setembro de 1924, Truman Streckfus Persons estudou em Connecticut, leu guiões, trabalhou na revista The New Yorker e até foi dançarino. Como Truman Capote assinou o seu primeiro romance «Other Voices, Other Rooms», em 1948, que foi um sucesso e o faz decidir pela literatura.
Decorridos 10 anos, «Breakfast at Tiffany's» volta a ser objecto de reconhecimento mas o sucesso maior viria depois ainda, com «In Cold Blood», de 1965, onde dá início a um género que designou de non-fiction novel (algo como "romance documental"), neste caso pela reconstrução detalhada da história de um crime brutal, da personalidade dos jovens homicidas e das suas vítimas.
Em 1976 escreve e interpreta o principal papel do filme «Murder By Death», contracenado com Peter Sellers, David Niven, Peter Falk e outras grandes estrelas do cinema. Publica ainda «Music For Chameleons» (1980) e «Answered Prayers» (1986), entre outras obras.
Envolveu-se em relações sexualmente insatisfeitas e no álcool. Morreu em 1984, a 25 de Agosto.
Esta quinta-feira (23 de Fevereiro) estreia «Capote», um filme nomeado para os Óscares que procura retratar esta figura maior da literatura universal do século XX. O actor Philip Seymour Hoffman faz o que pode para se parecer e representar o verdadeiro Truman, mesmo nos seus trejeitos, mas a representação não é convincente. O filme «Capote» é um olhar biográfico do escritor homossexual, no decurso da investigação para o jornal onde trabalha, de um homicídio numa pequena cidade do Kansas. Apesar de Hoffman ter ganho o Globo de Ouro como melhor actor dramático, e de ter sido nomeado para o Óscar de melhor actor principal pela interpretação da figura de Capote, este filme (vista apenas a apresentação) não atrai, não convence, até desilude.
Mas talvez se deva dar ao filme uma segunda oportunidade. Desde que isso não sirva para fazer da escrita e da figura de Truman Capote algo de menos brilhante.

amizade e amor: palavras mudas

A 5 de Agosto de 1986 o Diário de Notícias incluía no seu suplemento DN Jovem um texto do leitor Raul Moreno, então com 20 anos, estudante universitário de Coimbra. Recortei-o e guardei-o como algo de raro e precioso. Tantos anos passados, o recorte de escassos 8x8 cm permanece comigo, amarelado mas tão belo e intenso quanto antes. Este texto quase anónimo merecia divulgação, mais não fosse a propósito das minhas entradas sobre a amizade e o amor que regularmente vou aqui colocando. Do seu autor nunca nada soube, nada sei. Quanto ao texto de há 20 anos ei-lo, sem mais palavras, para que alguém o imprima e o faça reviver de novo, nem que seja só daqui a mais duas décadas:

Johnny, sabes o que é que faço se não sais dessa mudez? Agarro em todas as cartas que nunca me escreveste e publico-as, mesmo antes de (não) vires a ser famoso. Agarro em todas essas palavras que nunca me dirigiste, e que guardo amarradas por uma fita roxa na gaveta dos amores — onde moram sozinhas, portanto — e exponho-as, num suplemento literário qualquer, à mistura com outros poemas e crónicas de vidas anónimas. Isto tudo a ver se ao menos uma fala de raiva és capaz de me conceder.
Raul

(A foto do topo e o link são de Howard Roffman, um fotógrafo com um trabalho excepcionalmente sóbrio e brilhante.)