2006/04/30

um grande beijo e mil carinhos

"Um vício da sociedade faz da minha rectidão um vício. (...) Não aceito que apenas me tolerem. Nem que eu ande assim tão ferido, no amor ao amor e à liberdade."
A nossa relação — baseada em juras de amor feitas há 19 anos — é hoje festejada: amor eterno, fidelidade, exclusividade e honestidade foram algumas das premissas que estabelecemos após a nossa descida do paraíso. Os anos foram acontecendo e a nossa relação manteve-se em renovada intensidade e em equilíbrio. Hoje, entre os seis casais que descendem dos nossos pais, nós constituímos o segundo com uma relação mais antiga, mais estável. O mais equilibrado. No entanto, a continuidade da nossa amizade especial, o nosso amor, mais não é do que uma relação tolerada dentro dos cânones da "normalidade" de uma sociedade castradora. Que é capaz de permitir e fomentar mil barbaridades, mas não mais do que apenas tolerar o amor às escondidas entre iguais.
Todo eu sou brilho de orgulho pelos 19 anos de hoje, mas tenho vergonha desta sociedade néscia, que não soube crescer nem fazer cumprir o seu hino à liberdade.
(Para ti, amor querido, um grande beijo e mil carinhos.)

2006/04/29

beckett com atraso

No passado dia 13 de Abril cumpriu-se o centenário do nascimento de Samuel Beckett. Não estou já certo de quando foi que primeiro entrei em contacto com a sua obra, mas deve ter tido alguma coisa que ver com a designação 'teatro do absurdo', com que também se rotulava a dramaturgia de Ionesco. Para mim, na altura, Beckett era um passo em frente depois do Surrealismo. Hoje estou certo que foram quatro ou cinco, dez ou até onze passos em frente. Faço a distinção entre escritores muito muito bons e génios (sendo que dos primeiros há bastante mais do que dos segundos, muito raros), e Beckett — seguramente ninguém lhe regateará a condição — é um génio. Uma obra de Beckett, seja ela dramática ou novelística, é sempre uma perfeita simbiose entre forma e conteúdo, e, ao contrário do que é costume (com os escritores que apenas são muito muito bons), é profundamente original em qualquer desses dois planos — e já nem vale a pena acrescentar-lhe a universalidade que, diga-se em todo o caso, também lá está. Falar de Beckett em português (agradeço-lho profundamente), passa necessariamente por falar de Miguel Esteves Cardoso, divulgador generoso e incansável da obra de Beckett em Portugal e seu tradutor privilegiado: não esqueço a separata estreita d'O Independente contendo «Stirrings Still»; as produções com Graça Lobo na RTP ou a tradução para a Gradiva de «Worstward Ho» (Pioravante Marche). Felizmente para todos, depois de prolongada ausência, a obra de Beckett tem vindo a ser traduzida e editada em Portugal. Mais recentemente saiu o «Novelas e Textos Para Nada» na Assírio & Alvim, e a mim parece-me que ler Beckett, no ano do seu centenário, é uma maneira tão boa como qualquer outra de o celebrar.

2006/04/27

de abril a março

Um amigo de um amigo disse uma vez: "começo a usá-las no início da Primavera e não quero outra coisa até ao Outono". Ele falava das havaianas, as famosas sandálias de praia que, mais ou menos de repente, toda a gente passou a usar em todo o lado. Do país do sol nascente para as favelas e destas para o resto do mundo, os flip-flops (onomatopeia com que a língua inglesa os identifica), como os jeans, são um verdadeiro elemento de democratização e esbatimento das diferenças sociais — toda a gente os usa, sem distinção de classes ou credos. E porque não haveria de ser assim? pode-se fazer tudo com um par de havaianas... excepto, talvez, correr bem. Em «The Feel Of Rubber Between Your Toes» (a sensação da borracha entre os dedos dos pés), Edward Tanner faz a história dos zori (como lhes chamam no Japão), salientando as inúmeras vantagens deste género de calçado: ortopédicas (embora o debate continue aberto); higiénicas; políticas (pela democratização do uso entre classes e géneros); económicas e estéticas (estas últimas só quando o juízo prevalece, porque o cuidado com os pés é regra sine qua non). Não vou esconder que me motiva uma atracção particular pelo pé masculino (preenchidos os devidos requisitos, bem entendido), e que esta época do ano me tem de olhos postos no chão, mas, em última análise, o triunfo das havaianas faz-se pelo conforto e pela simplicidade quase zen. E nós lá em casa, pela parte que nos toca, como o amigo do nosso amigo, usamo-las a toda a hora, meses fora, para só as tirar quando o frio a isso nos obriga. E este ano até as há com a bandeirinha de Portugal, para os mais reticentes.

2006/04/26

um fim-de-semana longo

O fim-de-semana foi longo.
Para além das nossas habituais rotinas, neste fomos de novo ao cinema para ver Harrison Ford a contracenar com o jovem Paul Bettany (o mesmo de «Dogville» e «The Da Vinci Code»), em «Firewall». Um filme que valeu por aquilo que esperávamos dele e que, portanto, não desiludiu e entreteve. Muitos parabéns para o "velho" Harrison, que continua com toda a energia que associamos à figura de um Indiana Jones, como já foi.
Com um dia de trabalho pelo meio (a segunda-feira de 24) foi preciso esperar para nos darmos conta da quase chegada do Verão. Foi essa a sensação com que ficámos ontem (25), ao regressarmos à praia das nossas rotinas de banhos, de Junho a Agosto habitualmente. Já o meio da tarde se aproximava quando nos metemos à estrada, na direcção do sul, de Gaia. E era muito, o trânsito. Mais do que nos recordamos de viagens anteriores, no ano passado, ou mesmo há dois... Gente, muita gente, sobretudo a passear (a pé e de carro) ao longo da costa. Casais gay quase não vimos, mesmo com os bares cheios e poucas mesas disponíveis. Parámos no da "nossa" praia e deixámo-nos deliciar com a paisagem quase esquecida e com uma cerveja (uma Super Bock Abadia, à terceira escolha, para cada um de nós). Na direcção do mar via-se, ali e além, um par, três, quatro ou cinco pessoas em grupo a banhos que ainda não de água, aproveitando simplesmente o calor do sol e da areia. Um pouco mais adiante, já de regresso ao carro, demo-nos conta da presença dos surfistas nas águas do mar. Quase sem ondas, juntavam-se em grupo de muitos, a boiar semi-submersos com o apoio das suas pranchas. Eram como uma imensa ninhada de pequenos patos negros, uma vez que essa era a cor dada pelos seus fatos de surf. Abriram-nos o apetite e regressámos ao Porto, com vontade de fazer um bom jantar.
Acabámos à mesa de um restaurante a comer dois bifes tenros e saborosos.

2006/04/19

japan: shut up

Em 1984 um amigo ofereceu-me como presente do meu 23º aniversário o álbum de estreia a solo de um belo rapaz (3 anos mais velho do que eu, sei-o hoje) chamado David Sylvian. Eu adorei tudo o que «Brilliant Trees» tinha para me oferecer: a voz, a música, as canções, a poesia, a capa e o belo rapaz que me encantou.
Foi só um par de anos depois que ouvi e descobri finalmente os Japan, o grupo em que Sylvian tinha começado: estava de passagem por Vigo e numa visita em trabalho à Radiocadena Española ouvi uma canção estranha com uma guitarra glamorosa, um set baixo-bateria bastante funk, os sintetizadores com um som disco e uma voz que poderia bem ser a de Marc Bolan mas... não, não era. Era a de David Sylvian, disso já não havia dúvida! Interessei-me e quis ver o disco, que entretanto Emilio Alonso tirava já do prato. O single tinha por título «Adolescent Sex» e uma capa tão improvável que me surpreendeu mais ainda: nela, uma mão a entrar na carcela aberta de um jovem, como se para desencarcerar o que mais dentro se escondia; do lado B a imagem era a mesma (ver acima) e o título «Shut Up» (que informalmente significa "pára de falar").
Passaram-se muitos anos e hoje volta-se a falar dos Japan para aclamar um lote de relançamentos em que se destaca o DVD que junta as canções do período mais rock (1978-80) com as do período mais pop (1980-83). «The Very Best Of Japan», já lançado no Reino Unido pela Virgin mas ainda não chegado às lojas portuguesas (que peca por uma péssima capa, em nada familiar à estética dos Japan), inclui os clipes do grupo e o concerto de 1983 que deu lugar ao muito aclamado álbum duplo «Oil On Canvas». Vai agora ser tempo de olhar para «Life In Tokyo», «Quiet Life», «I Second That Emotion», «Gentlemen Take Polaroids, «Swing», «Visions Of China», «Nightporter» e «Oil On Canvas», bem como para as interpretações ao vivo de «Burning Bridges», «Sons Of Pioneers», «Gentlemen Take Polaroids», «Swing», «Cantonese Boy», «Visions Of China», «Canton», «Ghosts», «Still Life In Mobile Homes», «Methods Of Dance», «The Art Of Parties», «Voices Raised In Welcome» e «Hands Held In Prayer».
Por tudo isto será caso para dizer: shut up for a moment, baby!

2006/04/17

dvds: papillon entra na lista...

«Papillon» de Franklin J. Schaffner é "um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos". Relata "a impressionante determinação de um homem em se libertar das grilhetas que o mantém preso por um crime que sempre declarou ser inocente". No filme de Franklin J. Chaffner, de 1973, inspirado no livro que bem conhecemos, "Steve McQueen é Henri Charriére, conhecido como Papillon. Acusado e condenado por homicídio tentou por várias vezes a sua sorte em arriscadas fugas, até finalmente conseguir. Dustin Hoffman é Dega, o seu parceiro de prisão". Citando ainda o texto de apresentação (que mereceria ser revisto) na capa da edição portuguesa de 2002 em DVD (Warner Bros. e LNK), esta obra literária autobiográfica transposta para o cinema é "um hino à coragem, determinação e disciplina e principalmente ao que um espírito verdadeiramente livre e indestrutível pode conseguir face a desafios terríveis." Vale a pena voltar a ver o filme, agora a um super-nice-price, e depois enfiar de novo a cabeça no denso livro que ainda se lê obstinadamente, com prazer.
Com a aquisição de «Papillon» é altura de rever a listagem dos nossos DVDs, uma vez que antes desta houve outras entradas e até uma devolução. A lista actual ficou assim (título / autor / género / lançamento / edição):
  • 24 Hour Party People / Michael Winterbottom / musical / 2002 / 2003
  • A Importância de Ser Ernesto / Cliver Parker / romance / 2002 / 2003
  • Antes que Anoiteça / Julian Schnabel / drama / 2000 / 2002
  • Ao Sabor das Ondas / Guy Ritchie / romance / 2002 / 2003
  • Bent / Sean Mathias / drama / 1996 / 2003
  • Bruscamente no Verão Passado / Joseph I. Mankiewicz / drama / 1960 / 2002
  • Cabaret (30th Anniversary Special Edition) / Bob Fosse / musical / 1972 / 2002
  • Cidade de Deus / Fernando Meirelles / drama / 2002 / 2003
  • David Bowie: Best of Bowie / David Bowie / música / 2002 / 2002
  • Depeche Mode: 101 / Depeche Mode / música / 2005 / 2005
  • Dolls / Takeshi Kitano / drama / 2003 / 2003
  • Erasure: Hits! The Videos / Erasure / música / 2003 / 2003
  • Eurythmics: Sweet Dreams / Eurythmics / música / 1983 / 2003
  • Eva (All About Eve) / Joseph L. Mankiewicz / drama / 1950 / 2002
  • Eyes Wide Shut (De Olhos Bem Fechados) / Stanley Kubrick / thriller / 1999 / 2005
  • Fausto 5.0 / La Fura dels Baus / drama / 2001 / 2005
  • Feliz Natal Mr. Lawrence / Nagisa Oshima / drama / 1983 / 2004
  • Ken Park — Quem És Tu? / Larry Clark / drama / 2002 / 2004
  • Là Où Je Dors / Isabel Barros / dança / 2005 / 2005
  • Laranja Mecânica / Stanley Kubrick / ficção-científica / 1971 / 2002
  • Lisboa Reloaded / vários / música / 2005 / 2005
  • Madonna: Drowned World Tour / Madonna / música / 2001 / 2001
  • Madonna: Music / Madonna / música / 2000 / 2000
  • Madonna: The Immaculate Collection / Madonna / música / 1991 / 1999
  • Madonna: The Video Collection 93:99 / Madonna / música / 1999 / 1999
  • Marlene Dietrich: An Evening with Marlene Dietrich / Marlene Dietrich / música / 1972 / 2003
  • Morrissey: Hulmerist / Morrissey & The Smiths / música / 1990 / 2004
  • Mulholland Drive / David Lynch / drama / 2002 / 2002
  • My Beautiful Laundrette / Stephen Frears / drama / 1985 / 2001
  • No Fly Zone / Né Barros / dança / 2005 / 2005
  • Nossa Senhora dos Matadores / Barbet Schroeder / drama / 2000 / 2004
  • O Estranho Mundo de Jack (Edição Especial) / Tim Burton / animação / 1993 / 1999
  • O Fantasma / João Pedro Rodrigues / drama / 2000 / 2004
  • Os Pássaros / Alfred Hitchcock / thriller / 1963 / 2001
  • Os Sonhadores / Bernardo Bertolucci / romance / 2004 / 2004
  • Papillon / Franklin J. Schaffner / drama / 1973 / 2002
  • Pet Shop Boys: Pop Art / Pet Shop Boys / música / 2003 / 2003
  • Pet Shop Boys: Somewhere / Pet Shop Boys / música / 1997 / 2003
  • Phantom of the Paradise / Brian De Palma / musical / 1974 / 2002
  • Pink Narcissus / James Bidgood / erótico / 1971 / 2005
  • Samuel Beckett: Beckett on Film / Samuel Beckett / teatro / 2002 / 2003
  • Sex Pistols — O Filme (The Filth and the Fury) / Julien Temple / documentário / 2000 / 2005
  • Sinais de Fogo / Luís Filipe Rocha / drama / 1995 / 2003
  • Smiths: The Complete Picture / The Smiths / música / 1992 / 2003
  • The Cook, the Thief, His Wife and Her Lover / Peter Greenaway / drama / 1990 / 2003
  • The Pillow Book / Peter Greenaway / drama / 1996 / 2003
  • Tudo Sobre a Minha Mãe / Pedro Almodóvar / drama / 1998 / 2001
  • Ubus / Alfred Jarry & Ricardo Pais / teatro / 2005 / 2005
  • Um Coração Selvagem / David Lynch / drama / 1990 / 2003
  • Um Hamlet a Mais / William Shakespeare & Ricardo Pais / teatro / 2004 / 2004
  • Vaga / Né Barros / dança / 2005 / 2005
  • Velvet Goldmine / Todd Haynes / musical / 1998 / 2003
  • Violência e Paixão / Luchino Visconti / drama / 1974 / 2002
  • World Shut Your Mouth / vários / música / 2002 / 2002

2006/04/06

andre noble: sugar baby

«Sugar» é um filme que ando a namoriscar...
Foi rodado por John Palmer, tendo por base algumas novelas de Bruce LaBruce. A estreia do filme deu-se no Canadá há já um par de anos, no festival de cinema InsideOut (The Toronto Lesbian and Gay Film and Video Festival) e conta-nos a história de Cliff (Andre Noble), um jovem suburbano ainda na fase de "sair do armário", que no dia em que desce à cidade para comemorar os seus 18 anos se envolve com o ultra-atractivo Butch (o actor Brendan Fehr, que já conhecemos da série da RTP «Roswell»), um viciado em cocaína. O filme — ao que parece com um trabalho de montagem particularmente invulgar e bem ao melhor estilo independente — explora o relacionamento entre os dois rapazes, que vai crescendo entre a sua relativa inocência e a entrega sem limite à amizade, ao amor e ao sexo. Mas no fim da história serão as drogas que se tornarão determinantes no relacionamento entre os dois...
No festival InsideOut, onde se estreou em Maio de 2004, «Sugar» foi galardoado com o Prémio de Melhor Filme Narrativo ou Documental. Foi ainda apresentado com destaque em Junho de 2004 no Frameline (The San Francisco International Lesbian & Gay Film Festival) e em Julho no OutFest (The Los Angeles Gay and Lesbian Film Festival).
Estranhamente, nesse mesmo mês de Julho do ano de 2004, no dia 30 mais concretamente, o mundo perdia Andre Clarence Noble, que havia nascido a 21 de Fevereiro de 1979 na Terra Nova e Labrador (Canadá). Vivia em Toronto desde 2001, onde trabalhava como actor de TV e de cinema, tendo actuado em «Random Passage» (série, 2002), «The Interrogation of Michael Crowe» (filme, 2002), «Twist» (filme, 2003), «Prom Queen: The Marc Hall Story» (filme, 2004), «Sugar» (filme, 2004) e «ReGenesis: Baby Bomb» (série, 2004).
A morte de Andre ocorreu durante um acampamento na sua terra natal e ficou a dever-se à ingestão acidental de aconitina, um alcalóide obtido nas raízes e nas folhas do acónito. «Sugar» foi o seu mais aclamado papel da curta carreira a que se entregou: homossexual e vegetariano, foi através deste filme que se tornou num ícone do cinema gay e independente, sendo por muitos comparado ao actor River Phoenix (1970-1993).
Este meu namorisco pelo DVD de «Sugar» começa a tornar-se
sério... Talvez por isso também!

2006/03/31

george bernard shaw

“This is the true joy in life, being used for a purpose recognized by yourself as a mighty one; being a force of nature instead of a feverish, selfish little clod of ailments and grievances, complaining that the world will not devote itself to making you happy.
I am of the opinion that my life belongs to the whole community and as long as I live, it is my duty, my privilege to do for it what I can. I want to be thoroughly used up when I die, for the harder I work, the more I live. I rejoice in life for its own sake. Life is no brief candle to me. It is a sort of splendid torch which I have got hold of for a moment and I want to make it burn as brightly as possible before handing it on to future generations.”
Bonito não é? A frase é do George Bernard Shaw. Velhinhos bonitos, bons e inteligentes como este já não se fabricam... ou será que ainda os há? Aqui fica a tradução que tentei fazer:
"Esta é a verdadeira alegria na vida, ser usado para um propósito reconhecido por nós próprios como sendo grandioso; ser uma força da natureza em vez de um torrão febril e egoísta feito de padecimentos e lamentos, que se queixa por o mundo não se dedicar a fazê-lo feliz.
Sou da opinião que a minha vida pertence à comunidade como um todo e que, enquanto viver, é meu dever, meu privilégio fazer por ela o que puder. Quero estar completamente gasto quando morrer, porque quanto mais trabalho, mais vivo. Eu regozijo na vida por si mesma. A vida não é vela breve para mim. É uma espécie de facho esplêndido que agarro por um momento e que quero fazer brilhar o mais possível antes de o passar a gerações futuras."

2006/03/28

pop dell'arte na casa da música

Em Janeiro saiu a nova antologia dos Pop Dell'Arte a que, a seu tempo, nos referimos já aqui e que entrou agora (ao contrário do que se poderia antecipar com o melhor dos prognósticos), segundo a sua editora, para o 34º lugar da lista dos discos mais vendidos na passada semana em Portugal.
«POPlastik 1985-2005» é o álbum comemorativo de 20 anos da banda, fazendo uma exposição retrospectiva e actual (com 3 temas inéditos) do que tem sido a actividade criativa do grupo que em 1984 surgiu em Lisboa, no bairro de Campo de Ourique, e se apresentou pela primeira vez com relevância no concurso de música moderna do Rock Rendez-Vous (onde viria a conquistar o Prémio de Originalidade). Em 1986, o grupo contribuiu com o tema «Máscara» para a antologia «Divergências» da editora Ama Romanta, ano em que também vem a perder por morte súbita o muito jovem baterista Luís Saraiva. Reerguendo-se do trauma, no ano seguinte saem finalmente dois dos discos mais importantes da sua carreira: primeiro o maxi-single «Querelle» /«Mai '86» (em Fevereiro) e depois o aclamado álbum de estreia «Sonhos Pop» (em Dezembro).
Nas 2 décadas que passaram, o grupo liderado por João Peste (na foto) sofreu outras alterações, paragens quase fatais, mas também viveu reaparições sempre deslumbrantes, que nunca passaram sem reconhecimento e elogios. Os Pop Dell'Arte conquistaram novos públicos, mantiveram fieis os fãs mais antigos, fizeram a diferença em relação aos demais. A sua música sempre foi acessível e diferente, marcando valiosos pontos com a sua musicalidade pop de travo experimental, com as inspiradas letras arty de cunho literário e, ao mesmo tempo, libertário. Numa abordagem de arte total, as estéticas gráfica e de palco sempre foram pensadas e cuidadas, resultando glamorosas, mesmo quando sobressai um laivo decadente, intencional. Marc Almond, Marc Bolan, Sylvester, Lou Reed, Marlene Dietrich, ou Genet, Burroughs, Ginsberg, Warhol, Fassbinder... Quantos mais destes nomes fazem parte do imaginário que nos é a todos comum e os Pop Dell'Arte remontam?!...
Na sexta-feira do dia 21 de Abril, pelas 23 horas, poderemos vê-los ao vivo num raro concerto na cidade do Porto. Será na Casa da Música (sala 2), com a entrada a custar apenas 10 Euros. Acredito que não haverá muitas ausências, entre os que lhes querem bem...

2006/03/20

o psd ao dictafone

O que dita: Marques Mendes, actual presidente do PSD português, no seu discurso durante o encerramento da convenção do PP espanhol, terá ditado:
— A questão do casamento dos homossexuais não é prioritária, seguramente que o PSD terá uma posição contrária, mas não espero que este tema seja introduzido na ordem política.
E o outro: Luís Filipe Menezes, actual presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e PSD também, durante uma entrevista ter-lhe-á sido questionada "a sua posição sobre a união dos homossexuais", ao que ele terá respondido:
— Eu tenho opinião. O que há de pior em Portugal é não ter opinião. No caso dos homossexuais, os direitos, liberdades e garantias individuais devem ser equiparados àqueles que outras pessoas com outro tipo de opções já têm. Para mim há um limite biológico, acho que os direitos cívicos dos homossexuais devem ser substancialmente alargados, mas há uma fasquia onde eu pararia que tem a ver com a da adopção, que eu sou contra.
Uns ditam, outros gostariam de ditar. A imagem é da Smithsonian Institution (EUA) e retrata as primeiras experiências com o dictafone, designação comercial patenteada de um dos primeiros gravadores de mensagens faladas. As declarações foram transcritas do jornal Público, a partir do Diário Digital.