Nos últimos dias coincidiram diversos acontecimentos que me provocaram o desejo de voltar a fazer fotografia artística.Tudo começou há semana e meia, quando o Gonçalo decidiu levar a revelar o rolo fotográfico iniciado há cerca de 3 anos na sua Pentax reflexa e que só agora chegara ao fim. Aconteceu assim que lá voltámos a entrar numa loja de fotografia para deixar o rolinho de 35 mm a revelar. A conclusão do processo ficou adiada para cerca de 8 dias depois, por tratar-se de um filme a preto e branco, portanto de tratamento mais demorado.
Entretanto, durante essa semana, lembro-me de voltar a procurar na net a revista Junk (junk-mag.com), um site atractivo que o Gonçalo descobriu há já bastante tempo. É deveras interessante explicar que a Junk nasceu numa faculdade como um acto ideológico para confrontar a obsessiva nudez feminina escarrapachada nas revistas de moda. Nos primeiros números da Junk, o contraponto estabeleceu-se pela publicação de artigos e reportagens com fotos de arte de companheiros de classe que no momento aceitaram libertar-se das suas roupas e registá-lo para posteridade. Esta abordagem punha em foco uma rara combinação do intenso sex appeal com a simplicidade nata do jovem vulgar. Por detrás da câmara e da ideia estava Brad Walsh (à esquerda na foto e com um link directo no título) e este era apenas o primeiro passo para ele e para a revista que não pararia de crescer. Brad continuou o seu trabalho fora da faculdade, tornou-se também colaborador da revista Useless (uselessmagazine.com) e animador musical das noites preenchidas pela gente que fotografa.
O sábado do fim-de-semana foi um dia diferente. Primeiro pela visita à nova loja do momento (em Vila Nova de Gaia, está visto que todos sabem qual é). Depois porque o Gonçalo estava nesse dia a trabalhar até tarde e eu fui chamado a corresponder a um apelo relacionado também com a minha actividade profissional. Ao fim da noite, contrariamente a todos os meus prognósticos, vi-me na baixa do Porto sem carro e já sem ligação de Metro, nem boas perspectivas de regresso a casa de autocarro. Confirmou-mo um rapazola de uns vinte e poucos anos, que estava na paragem e a quem me dirigi para pedir informações. Não muito tempo depois, desiludido com os cenários, decido fazer paragem ao segundo táxi que vi passar. Apenas por boa educação ofereço boleia ao jovem, uma vez que fora prestável, educado e me dera conta de se dirigir para a mesma zona da cidade. Abri a porta de trás, ele entrou e eu logo depois. Viajámos calados, lado a lado. No fim da viagem eu paguei e saímos juntos, defronte à porta do meu prédio. Eu acredito que ter-me-ia sido fácil convencê-lo a subir, apesar do avanço da hora. E confesso que o teria feito, se não houvesse esse incontornável compromisso de quase 20 anos que me impede de arriscar a relação com o meu querido Gonçalo. Apertei-lhe a mão, subi, tomei um chá e deitei-me de seguida.
No dia seguinte fui visitar a minha mãe e no regresso levantei as fotos do Gonçalo, que já estavam prontas. Dei-lhes apenas uma espreitadela rápida para verificar se estavam bem. Segui para casa com elas e com o pensamento ainda nos acontecimentos da noite anterior. Quando a oportunidade surgiu detenho-me nelas em deslumbre, face ao inegável talento do Gonçalo também como fotógrafo, fixado na singeleza do preto e branco daquelas imagens.
Com um suave amargo de boca sinto que me apetece muito, de novo, fazer fotografia. Penso na obra de Brad Walsh e que talvez seja ela o exemplo adequado para explicar o que mais me agradaria fazer: fotografia de arte com uma nota de intervenção; fotografia de gente interessante e banal, mesmo que esteja longe dos cânones de beleza em voga; fotografia de emoções, de imprevistos, de momentos, de sentimentos, de seduções, de indivíduos, de pessoas, de amantes; fotografia de nus, de semi-nus, de pessoas sem artifícios, de pessoas com artifícios... Um destes dias, talvez, possa passar de novo à acção. É um projecto que não exclui o Gonçalo e para o qual convidarei os nossos amigos. Caso se concretize...
Para já fica aqui apenas o registo de mais um deslumbre que queremos partilhar. De um fotógrafo confirmado.








