2006/05/23

brad walsh: o deslumbre da fotografia

Nos últimos dias coincidiram diversos acontecimentos que me provocaram o desejo de voltar a fazer fotografia artística.
Tudo começou há semana e meia, quando o Gonçalo decidiu levar a revelar o rolo fotográfico iniciado há cerca de 3 anos na sua Pentax reflexa e que só agora chegara ao fim. Aconteceu assim que lá voltámos a entrar numa loja de fotografia para deixar o rolinho de 35 mm a revelar. A conclusão do processo ficou adiada para cerca de 8 dias depois, por tratar-se de um filme a preto e branco, portanto de tratamento mais demorado.
Entretanto, durante essa semana, lembro-me de voltar a procurar na net a revista Junk (junk-mag.com), um site atractivo que o Gonçalo descobriu há já bastante tempo. É deveras interessante explicar que a Junk nasceu numa faculdade como um acto ideológico para confrontar a obsessiva nudez feminina escarrapachada nas revistas de moda. Nos primeiros números da Junk, o contraponto estabeleceu-se pela publicação de artigos e reportagens com fotos de arte de companheiros de classe que no momento aceitaram libertar-se das suas roupas e registá-lo para posteridade. Esta abordagem punha em foco uma rara combinação do intenso sex appeal com a simplicidade nata do jovem vulgar. Por detrás da câmara e da ideia estava Brad Walsh (à esquerda na foto e com um link directo no título) e este era apenas o primeiro passo para ele e para a revista que não pararia de crescer. Brad continuou o seu trabalho fora da faculdade, tornou-se também colaborador da revista Useless (uselessmagazine.com) e animador musical das noites preenchidas pela gente que fotografa.
O sábado do fim-de-semana foi um dia diferente. Primeiro pela visita à nova loja do momento (em Vila Nova de Gaia, está visto que todos sabem qual é). Depois porque o Gonçalo estava nesse dia a trabalhar até tarde e eu fui chamado a corresponder a um apelo relacionado também com a minha actividade profissional. Ao fim da noite, contrariamente a todos os meus prognósticos, vi-me na baixa do Porto sem carro e já sem ligação de Metro, nem boas perspectivas de regresso a casa de autocarro. Confirmou-mo um rapazola de uns vinte e poucos anos, que estava na paragem e a quem me dirigi para pedir informações. Não muito tempo depois, desiludido com os cenários, decido fazer paragem ao segundo táxi que vi passar. Apenas por boa educação ofereço boleia ao jovem, uma vez que fora prestável, educado e me dera conta de se dirigir para a mesma zona da cidade. Abri a porta de trás, ele entrou e eu logo depois. Viajámos calados, lado a lado. No fim da viagem eu paguei e saímos juntos, defronte à porta do meu prédio. Eu acredito que ter-me-ia sido fácil convencê-lo a subir, apesar do avanço da hora. E confesso que o teria feito, se não houvesse esse incontornável compromisso de quase 20 anos que me impede de arriscar a relação com o meu querido Gonçalo. Apertei-lhe a mão, subi, tomei um chá e deitei-me de seguida.
No dia seguinte fui visitar a minha mãe e no regresso levantei as fotos do Gonçalo, que já estavam prontas. Dei-lhes apenas uma espreitadela rápida para verificar se estavam bem. Segui para casa com elas e com o pensamento ainda nos acontecimentos da noite anterior. Quando a oportunidade surgiu detenho-me nelas em deslumbre, face ao inegável talento do Gonçalo também como fotógrafo, fixado na singeleza do preto e branco daquelas imagens.
Com um suave amargo de boca sinto que me apetece muito, de novo, fazer fotografia. Penso na obra de Brad Walsh e que talvez seja ela o exemplo adequado para explicar o que mais me agradaria fazer: fotografia de arte com uma nota de intervenção; fotografia de gente interessante e banal, mesmo que esteja longe dos cânones de beleza em voga; fotografia de emoções, de imprevistos, de momentos, de sentimentos, de seduções, de indivíduos, de pessoas, de amantes; fotografia de nus, de semi-nus, de pessoas sem artifícios, de pessoas com artifícios... Um destes dias, talvez, possa passar de novo à acção. É um projecto que não exclui o Gonçalo e para o qual convidarei os nossos amigos. Caso se concretize...
Para já fica aqui apenas o registo de mais um deslumbre que queremos partilhar. De um fotógrafo confirmado.

2006/05/19

amizade e amor: uma luz eterna

"Why don' you take me where it's lively and there's plenty of people?", uma fala do filme de 1960 «Saturday Night And Sunday Morning» (como sempre, há um link no título) poderá ter sido uma influência para a criação de «There Is A Light That Never Goes Out», uma das canções mais famosas de The Smiths, incluida no álbum «The Queen Is Dead» em 1986.
Com letra de Steven Morrissey (à esquerda na foto que, de fundo, retrata The New York Dolls) e música de Johnny Marr, a canção faz na primeira pessoa um pedido de auxílio a alguém a quem se quer muito especialmente bem. Sobre esta letra surgiram extrapolações diversas, entre as quais merecem destaque:
1) Que Morrissey a escrevera a pensar em James Dean, um dos seus maiores ídolos de sempre, sendo nesse caso que James seria o condutor do automóvel e Steven o devoto conduzido. Como é sabido, James Dean morreu num acidente de automóvel e, também por isso, a letra ganharia redobrado sentido nesse contexto;
2) Que Morrissey a escrevera a pensar em Johnny Marr, o guitarrista do grupo, que numa das suas deslocações a dois no carro do primeiro se cruzaram "curva-sim, curva-sim" com viaturas pesadas bastante ameaçadoras, como se estivessem destinados a juntos, nessa viagem, encontrar a lux aeterna (a luz que nunca se apagará). Questionados sobre esse facto e uma eventual paixão, Morrissey recusou a teoria e afirmou "there was a love and it was mutual and equal, but it wasn't physical or sexual", ou seja, que o seu amor foi mútuo e equivalente, mas não foi físico nem sexual...
Ainda assim, independentemente das razões que inspiraram a inspirada canção, a letra é uma das mais belas e profundas que se conhecem sobre a amizade romântica, sobre a amizade para a vida. Mesmo parecendo que ela faz o apelo ao suicídio a dois, creio mais que o grande apelo do autor é ao amor eterno, ao ficar para sempre junto de quem se ama, junto até ao último momento. Aqui fica a letra original e a sua tradução, numa apologia à luz que nunca se apagará:

Take me out tonight
Leva-me a sair esta noite
where there's music and there's people
aonde haja música e haja gente
who are young and alive
que seja jovem e viva
driving in your car
conduzido no teu carro
I never never want to go home
eu nunca vou querer ir para casa
because I haven't got one
porque eu já não tenho nenhuma
anymore.
não mais.

Take me out tonight
Leva-me a sair esta noite
because I want to see people and I
porque eu quero ver gente e eu
want to see lights
quero ver luzes
driving in your car
conduzido no teu carro
oh please don't drop me home
oh por favor não me largues em casa
because it's not my home, it's their home
porque não é a minha casa, é a casa deles
and I'm welcome no more.
e eu já não sou bem-vindo.

And if a double-decker bus
E se um autocarro de dois andares
crashes into us
chocar contra nós
to die by your side
morrer ao teu lado
is such a heavenly way to die
é uma maneira tão celestial de morrer
and if a ten-ton truck
e se um camião de dez toneladas
kills the both of us
nos matar a ambos
to die by your side
morrer ao teu lado
well, the pleasure — the privilege is mine.
bom, o prazer — o previlégio é meu.

Take me out tonight
Leva-me a sair esta noite
take me anywhere, I don't care
leva-me a qualquer lado, eu não me importo
I don't care, I don't care
eu não me importo, eu não me importo
and in the darkened underpass
e na passagem escurecida
I thought Oh God, my chance has come at last
eu pensei Oh Deus, a minha vez chegou finalmente
(but then a strange fear gripped me and I just couldn't ask).
(mas então um estranho medo paralisou-me e eu nem sequer pude perguntar).

Take me out tonight
Leva-me a sair esta noite
oh, take me anywhere, I don't care
oh, leva-me a qualquer lado, eu não me importo
I don't care, I don't care
eu não me importo, eu não me importo
driving in your car
conduzido no teu carro
I never never want to go home
eu nunca vou querer ir para casa
because I haven't got one, oh no
porque eu não tenho nenhuma, oh não
I haven't got one.
eu não tenho nenhuma.

And if a double-decker bus
E se um autocarro de dois andares
crashes into us
chocar contra nós
to die by your side
morrer ao teu lado
is such a heavenly way to die
é uma maneira tão celestial de morrer
and if a ten-ton truck
e se um camião de dez toneladas
kills the both of us
nos matar a ambos
to die by your side
morrer ao teu lado
well, the pleasure — the privilege is mine.
bom, o prazer — o previlégio é meu.

Oh, there is a light and it never goes out
Oh, há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
(there is a light and it never goes out...).
(há uma luz e ela nunca se apaga...).

«There Is A Light That Never Goes Out» teve já muitas versões: sabemos das de Braid, Edison Shine, Ghost Mice, Joseph Arthur, The Lucksmiths, The Magic Numbers, My Awesome Compliation, Nada Surf, Neil Finn, The Ocean Blue, Potatomen, Robert Schipul, Royksopp, Schneider TM, The String Quartet, Walleye e até mesmo do próprio Morrissey. Descubram-nas por aí... Além do original, nós possuímos apenas duas outras: as de Mikel Erentxun (do seu álbum «Naufragios», de 1992) e The Divine Comedy (da antologia de homenagem «The Smiths Is Dead», de 1996).
Cada uma das canções e dos discos de The Smiths ouve-se como quem lê pequenas histórias de um livro, de um romance. A que se volta repetidamente, pelo incessante prazer, como sempre se volta aos braços do melhor amigo, e amante!...

2006/05/16

slava mogutin: arte-porno ou porno-arte?

A Pornografia não é um crime! E mesmo que o fosse, teria certamente muitos mais adeptos do que a Arte, já que essa não é geralmente de apelo imediato, é mais subjectiva que objectiva, é mais inatingível. Juntar a pornografia à arte, ou arte à pornografia, é um conceito novo para muitos mas já por demais experimentado, desde há muito. Da Playboy à Playgirl (passando por muitas outras publicações bem mais radicais na arte de apresentar o nu), o erotismo e a pornografia traçam novas divisões que ajudam muitas vezes a distinguir o soft do hard.
Slava Mogutin, modelo, actor porno, escritor, poeta e sobretudo talentoso fotógrafo vem muito a propósito de todas estas considerações. Russo de Moscovo pelo nascimento e norte-americano de Nova Iorque pela escolha, Slava está hoje representado nas melhores revistas de arte e de moda, nas galerias mais arrojadas e mais conceituadas. Soldados, punks, skaters são parte do objecto da sua escolha que se mistura com sexo, muito sexo, muita acção e sinais de revolta, de contestação, de amplo inconformismo.
As fotos de Slava Mogutin são instantes pensados para não fazer concessões. Estão carregadas de dor, de prazer, de inocência, de fatalidade, de entrega, de despojamento. Nas suas imagens há algo de sinistro e de inatingível, que aos poucos vamos entendendo. Há pornografia, muita pornografia. Às vezes só mesmo uma suave sugestão, algum erotismo, mas sempre uma enorme entrega que revela a grandeza do seu amor à arte, do seu amor à linguagem dos sentidos. (No título há um link para o sítio de Slava Mogutin na internet.)

2006/05/10

paredes de coura com morrissey e bauhaus

O Festival de Paredes de Coura de 2006 dá já como confirmadas as actuações de Morrissey e dos Bauhaus.
Na praia fluvial do Tabuão, em Paredes de Coura, não muito longe de Caminha, decorrerá de 14 a 17 de Agosto o bem conhecido e afamado festival, que este ano deu já como seguras as actuações de Morrissey, Bauhaus, Yeah Yeah Yeahs, Fischerspooner, !!! (diz-se chk chk chk), Shout Out Louds e dos White Rose Movement (os Bloc Party são mais um nome a considerar, mas ainda não tinha sido possível até agora obter da organização a confirmação da sua ainda só provável presença). Paredes de Coura terá três palcos para se fazer o festival de 2006: um para actuações de jazz, um segundo para techno e electrónica pró-dança all night long e, claro, o dedicado aos maiores concertos.
Quanto à presença de Morrissey diz-se que para além da apresentação ao vivo do recente «Ringleader Of The Tormentors» ele e os seus músicos têm passado também em revista alguns temas do anterior álbum «You Are The Quarry» (como «First Of The Gang To Die» e «Let Me Kiss You»), entrelaçados com alguns dos maiores êxitos de The Smiths («Girlfriend In A Coma», «How Soon Is Now?» e «Still Ill», entre outros).
Desconhecendo-se ainda o calendário com detalhe (que poderá vir a ser acompanhado através do link que está no título), a eventual coincidência das actuações de Bauhaus e de Morrissey (e sabe-se lá de quem mais possa vir a interessar-nos entre os que venham a ser anunciados), a par da nossa disponibilidade laboral, farão ou não com que se confirme a viagem em Agosto até Paredes de Coura. Mas como a organização prevê desde já que ali compareçam cem mil espectadores, em qualquer dos casos não se notará muito a nossa presença ou ausência. Ou notará?!...

2006/05/08

east timor

O link do título está dirigido ao turismo oficial de Timor-Leste, porque o site governamental (www.gov.east-timor.org) não está acessível no momento desta entrada. Haverá alguma explicação para além da mais eloquente nestes dias de novos e continuados tumultos, desordens e motins em Díli? Apesar das imensas milhas de distância entre nós há, ainda, uma ligação forte e afectiva a esse território, a esse povo, a mais esse símbolo universal da determinação pela libertação, pela liberdade.
Volto a ouvir Robert Wyatt no seu hino a Timor-Leste, feito disco em 1986 com o título «East Timor» e incluído no álbum «Old Rottenhat». São quatro versos imensos que ficam para a eternidade da história dos timorenses. Quatro versos carregados de simbolismos numa canção que o tempo não consome e repetidamente se escuta entre nós:

Timor
East Timor
Who's your fancy friend, Indonesia?
What did Gillespie do to help you?

Talvez a 'amiga' Indonésia ainda não tenha passado definitivamente à história de Timor-Leste; e mesmo que o trompetista negro de jazz, norte-americano, Dizzie Gillespie já tenha morrido em 1993, a última palavra sobre os destinos de Timor e do mundo está hoje nos lábios de um outro homem bem conhecido e bem mais estranho...
E aqui, hoje, nós, nesta Praia Lusitana: what can we do to help you?

2006/05/05

arte equestre

"Como qualquer cavaleira digna das suas esporas lhe poderá dizer, a relação de uma mulher com o seu cavalo transcende as fronteiras do desporto. Frequentemente essa relação envolve uma devoção quase amorosa (vejam-se as paredes do quarto de muitas jovens adolescentes, onde fotografias de puros-sangue árabes roubam espaço aos posters das boysbands), e às vezes até um toque de erotismo (lembram-se de Lady Godiva?). Quando a mulher em questão é Madonna, pode-se contar com uma dinâmica ainda mais complicada. Tudo isto se tornou claro quando a estrela de 47 anos, uma ávida cavaleira, se meteu num estúdio de fotografia com seis garanhões e o fotógrafo Steven Klein. Tinham-se passado sete meses desde o acidente a cavalo que a deixou com múltiplas fracturas, mas o portfolio de 58 páginas que daí resultou e que representa a segunda colaboração do ícone pop com Klein para a W, demonstra que a sua paixão pela espécie continua intocada. Temerária, trajada a couro e na melhor forma da sua vida, a material girl, cuja «Confessions Tour» se inicia em Los Angeles a 21 de Maio, estava pronta para tomar as rédeas."
Com esta pequena introdução (aqui traduzida do original inglês), a revista W publica na sua edição de Junho, com saída para as bancas esta sexta-feira nos EUA, a mais recente colaboração de Madonna (no seu melhor) com um dos maiores e mais fascinantes fotógrafos da actualidade: Steven Klein.

2006/04/30

um grande beijo e mil carinhos

"Um vício da sociedade faz da minha rectidão um vício. (...) Não aceito que apenas me tolerem. Nem que eu ande assim tão ferido, no amor ao amor e à liberdade."
A nossa relação — baseada em juras de amor feitas há 19 anos — é hoje festejada: amor eterno, fidelidade, exclusividade e honestidade foram algumas das premissas que estabelecemos após a nossa descida do paraíso. Os anos foram acontecendo e a nossa relação manteve-se em renovada intensidade e em equilíbrio. Hoje, entre os seis casais que descendem dos nossos pais, nós constituímos o segundo com uma relação mais antiga, mais estável. O mais equilibrado. No entanto, a continuidade da nossa amizade especial, o nosso amor, mais não é do que uma relação tolerada dentro dos cânones da "normalidade" de uma sociedade castradora. Que é capaz de permitir e fomentar mil barbaridades, mas não mais do que apenas tolerar o amor às escondidas entre iguais.
Todo eu sou brilho de orgulho pelos 19 anos de hoje, mas tenho vergonha desta sociedade néscia, que não soube crescer nem fazer cumprir o seu hino à liberdade.
(Para ti, amor querido, um grande beijo e mil carinhos.)

2006/04/29

beckett com atraso

No passado dia 13 de Abril cumpriu-se o centenário do nascimento de Samuel Beckett. Não estou já certo de quando foi que primeiro entrei em contacto com a sua obra, mas deve ter tido alguma coisa que ver com a designação 'teatro do absurdo', com que também se rotulava a dramaturgia de Ionesco. Para mim, na altura, Beckett era um passo em frente depois do Surrealismo. Hoje estou certo que foram quatro ou cinco, dez ou até onze passos em frente. Faço a distinção entre escritores muito muito bons e génios (sendo que dos primeiros há bastante mais do que dos segundos, muito raros), e Beckett — seguramente ninguém lhe regateará a condição — é um génio. Uma obra de Beckett, seja ela dramática ou novelística, é sempre uma perfeita simbiose entre forma e conteúdo, e, ao contrário do que é costume (com os escritores que apenas são muito muito bons), é profundamente original em qualquer desses dois planos — e já nem vale a pena acrescentar-lhe a universalidade que, diga-se em todo o caso, também lá está. Falar de Beckett em português (agradeço-lho profundamente), passa necessariamente por falar de Miguel Esteves Cardoso, divulgador generoso e incansável da obra de Beckett em Portugal e seu tradutor privilegiado: não esqueço a separata estreita d'O Independente contendo «Stirrings Still»; as produções com Graça Lobo na RTP ou a tradução para a Gradiva de «Worstward Ho» (Pioravante Marche). Felizmente para todos, depois de prolongada ausência, a obra de Beckett tem vindo a ser traduzida e editada em Portugal. Mais recentemente saiu o «Novelas e Textos Para Nada» na Assírio & Alvim, e a mim parece-me que ler Beckett, no ano do seu centenário, é uma maneira tão boa como qualquer outra de o celebrar.

2006/04/27

de abril a março

Um amigo de um amigo disse uma vez: "começo a usá-las no início da Primavera e não quero outra coisa até ao Outono". Ele falava das havaianas, as famosas sandálias de praia que, mais ou menos de repente, toda a gente passou a usar em todo o lado. Do país do sol nascente para as favelas e destas para o resto do mundo, os flip-flops (onomatopeia com que a língua inglesa os identifica), como os jeans, são um verdadeiro elemento de democratização e esbatimento das diferenças sociais — toda a gente os usa, sem distinção de classes ou credos. E porque não haveria de ser assim? pode-se fazer tudo com um par de havaianas... excepto, talvez, correr bem. Em «The Feel Of Rubber Between Your Toes» (a sensação da borracha entre os dedos dos pés), Edward Tanner faz a história dos zori (como lhes chamam no Japão), salientando as inúmeras vantagens deste género de calçado: ortopédicas (embora o debate continue aberto); higiénicas; políticas (pela democratização do uso entre classes e géneros); económicas e estéticas (estas últimas só quando o juízo prevalece, porque o cuidado com os pés é regra sine qua non). Não vou esconder que me motiva uma atracção particular pelo pé masculino (preenchidos os devidos requisitos, bem entendido), e que esta época do ano me tem de olhos postos no chão, mas, em última análise, o triunfo das havaianas faz-se pelo conforto e pela simplicidade quase zen. E nós lá em casa, pela parte que nos toca, como o amigo do nosso amigo, usamo-las a toda a hora, meses fora, para só as tirar quando o frio a isso nos obriga. E este ano até as há com a bandeirinha de Portugal, para os mais reticentes.

2006/04/26

um fim-de-semana longo

O fim-de-semana foi longo.
Para além das nossas habituais rotinas, neste fomos de novo ao cinema para ver Harrison Ford a contracenar com o jovem Paul Bettany (o mesmo de «Dogville» e «The Da Vinci Code»), em «Firewall». Um filme que valeu por aquilo que esperávamos dele e que, portanto, não desiludiu e entreteve. Muitos parabéns para o "velho" Harrison, que continua com toda a energia que associamos à figura de um Indiana Jones, como já foi.
Com um dia de trabalho pelo meio (a segunda-feira de 24) foi preciso esperar para nos darmos conta da quase chegada do Verão. Foi essa a sensação com que ficámos ontem (25), ao regressarmos à praia das nossas rotinas de banhos, de Junho a Agosto habitualmente. Já o meio da tarde se aproximava quando nos metemos à estrada, na direcção do sul, de Gaia. E era muito, o trânsito. Mais do que nos recordamos de viagens anteriores, no ano passado, ou mesmo há dois... Gente, muita gente, sobretudo a passear (a pé e de carro) ao longo da costa. Casais gay quase não vimos, mesmo com os bares cheios e poucas mesas disponíveis. Parámos no da "nossa" praia e deixámo-nos deliciar com a paisagem quase esquecida e com uma cerveja (uma Super Bock Abadia, à terceira escolha, para cada um de nós). Na direcção do mar via-se, ali e além, um par, três, quatro ou cinco pessoas em grupo a banhos que ainda não de água, aproveitando simplesmente o calor do sol e da areia. Um pouco mais adiante, já de regresso ao carro, demo-nos conta da presença dos surfistas nas águas do mar. Quase sem ondas, juntavam-se em grupo de muitos, a boiar semi-submersos com o apoio das suas pranchas. Eram como uma imensa ninhada de pequenos patos negros, uma vez que essa era a cor dada pelos seus fatos de surf. Abriram-nos o apetite e regressámos ao Porto, com vontade de fazer um bom jantar.
Acabámos à mesa de um restaurante a comer dois bifes tenros e saborosos.