2006/06/13

in blue

O inglês blue (azul) tem origem no francês bleu. Diz-se que é a cor que fica entre o verde e o violeta, a cor do céu num dia de sol; também pode ser melancolia ou mesmo depressão (em Portugal diz-se mais "estar com os azeites"); informalmente usa-se ainda no contexto de um filme, brincadeira ou história com a intenção de assinalar que há um conteúdo sexual ou pornográfico; em Inglaterra também significa ser-se politicamente conservador (como por cá, seja pela analogia com o "sangue azul" da nobreza ou por se tratar da cor do Partido Popular); em Espanha, já agora, é o nome de um perfume (In Blue, de Armando Basi).
O espanhol In Blue foi a minha última escolha em perfumes. Comprei-o neste fim-de-semana. Como é difícil de encontrar no mercado português, não pude hesitar muito. E é giro que aqueles que andam sempre com o nariz no ar, a tentar identificar fragrâncias, com este sentem-se completamente perdidos.
Depois, com um anúncio destes qual de nós é que conseguiria ainda resistir?...

2006/06/10

o peixe e a lua

Esqueçam Cervantes e o «Dom Quixote», se queremos reencontrar Espanha na poesia (e com o calor e os acontecimentos mais recentes da minha vida eu penso frequentemente nela), reencontramo-la seguramente mais depressa e mais potente em García Lorca. Cumprem-se este ano 70 anos sobre a morte de Federico García Lorca, indiscutivelmente um dos poetas mais geniais e influentes da latinidade ibérica e americana e um dos principais alicerces do imaginário espanhol. A obra deste andaluz é toda opulência visual e excesso metafórico; é feminina mas ardente pelo viril; católica mas em fervor do pagão; é sobre a natureza primordial e os elementos metafísicos; é sobre a mulher e o homem sob o sol que castiga e torna as coisas e a carne maduras e douradas, e é sobre os anjos quando nos visitam e se corrompem ou nos corrompem; é poesia que gera vida porque é poesia que não esconde morte; é peixe e é lua...

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.
(...)

2006/06/08

young boy holding a skull

Pelas notícias expressas no Blogger Status à hora desta entrada, o serviço vai ficar inactivo por diversas vezes ao longo dos próximos dias, para resolver problemas de hardware. Ainda há momentos atrás apontavam a primeira suspensão para cerca das 20h00 de Portugal, mas o horário foi retirado e não anunciaram outro em substituição. Sobre isto, vamos ver como será nos próximos dias... O fim-de-semana já vem aí e mais logo há mesmo um concerto dos X-Wife na Casa da Música, a que gostaríamos de assistir, mas não vamos: misturando punk com electrónica (creio que é daí que vem o termo tão em voga electroclash), desta vez não iremos ver e ouvir esta banda que tem muito de extraordinário. São as nossas opções e ouvi-los-emos em casa ou no carro, quando muito, desta vez... Mas já na noite de domingo estaremos lá para o encontro musical de Ryuichi Sakamoto ao piano e Alva Noto na electrónica. E alguns amigos também... Ontem foi noite de «A Linha da Beleza» na RTP 2 (o 2º dos 3 episódios a que nos referimos já aqui), que soube muito bem mas que o Gonçalito não viu por ter estado de "caminha". (Coitadinho, meu querido, mas ainda bem que hoje estás melhor...) Cá em casa, entre CDs e DVDs que se vão comprando (e que um destes dias também viremos aqui recensear), há um que está em lista de espera e merece redobradas atenções: as «Cello Sonatas» de Dmitri Shostakovich e de Alfred Schnittke, com Alban Gerhardt no violoncelo e Steven Osborne no piano. É uma edição da inglesa Hyperion, com uma capa soberba feita a partir do quadro de Magnus Enckell que se intutula «Young Boy Holding a Skull»... Vá-se lá saber porquê, é também assim que eu me vejo por estes dias!

2006/06/06

ninguém... sabia

Soube do filme «Ninguém Sabe» a 30 de Março, por via de uma crítica no blogue Sound + Vision. Nela, Nuno Galopim dizia tratar-se de "um dos melhores filmes do ano até ao momento" o que, depois de tão longa espera pela estreia no Porto, vim a entender e em parte também a concordar...
Trata-se de (mais) um filme japonês, este baseado num caso verídico de uma invulgar família de mãe e quatro filhos. A história começa com a mudança de casa, a descarga do camião de transporte dos móveis, as pesadas malas que mãe e filho tomam nos braços escadas acima, com a máxima das atenções e todos os cuidados de coisa frágil. Logo depois tem a apresentação de Akira, o rapaz, entre vénias e sorrisos de conveniência, aos vizinhos que são também os senhorios. Na volta, o abrir das malas, uma a uma, cada qual com mais um filho, os dois mais novos, e depois uma rapariga mais crescida (Kyoko) que chega de comboio e entra também às escondidas na casa nova da mãe e dos seus três irmãos (Yuki, Shigeru e Akira). Numa das cenas seguintes é a vez de Keiko, a mãe, os instruir para que se comportem em silêncio e não sejam vistos por mais ninguém.
Todos os dias a mãe sai cedo para o trabalho e volta ao fim do dia, já tarde, com o jantar e algum dinheiro. O apartamento é simples e pequeno, mas mantém-se arrumado pelo filho mais velho. Também por isso o ajuda na aprendizagem das contas, num grosso livro de exercícios de aritmética. Um dia a mãe anuncia que terá que partir por alguns dias e que o será o rapaz mais velho a tomar conta da casa. E dos três irmãos. Deixa-lhe dinheiro para se governar e um inequívoco amor de mãe, ainda que possa parecer que não, que ali só há desprendimento. É verdade que nenhum dos miúdos foi ou vai à escola, embora esteja sempre presente esse desejo como a mais profunda das vontades. Eles são clandestinos naquele apartamento, mas também em termos sociais porque nunca foram perfilhados nem tiveram existência legal. Existiram e existem, apenas! Melhor, vão existindo... Algum tempo depois, a mãe volta a casa com presentes para todos. Mas logo adiante uma nova partida é anunciada e, desta vez, para mais longe e por um período maior que terminará o mais tardar pelo Natal. Promessa de Mãe!
Mas tal não acontece e, apesar dos meigos artifícios do irmão mais velho para fazer crer aos três restantes que a mãe lhes vai mandando lembranças, um dia toda a esperança se extingue sem que o reencontro aconteça. Daí em diante é um retrato de sobrevivência pura e dura que o realizador Hirokazu Koreeda descreve (porque, relembro, a história tem uma base real) e desenvolve, numa linguagem perturbadora que se vai aproximando de um hiper-realismo: primeiro é o fim do dinheiro, do gás, da luz, da água, depois é a senhoria que os procura para cobrar a renda em atraso, por fim é o fim dos segredos e o soltar-se para sobreviver no mundo...
Mas não termina aqui, este realismo que roça o sórdido sem nunca o ser: um dia adiante Yuki, a irmã mais pequena, tem um pequeno acidente doméstico — uma queda — e dele vem a morrer. Confrontado com uma inexistência legal (uma ilegal existência!) Akira, o irmão, pede a ajuda a uma amiga, Saki, para levarem a pequena dentro de uma mala, até ao local onde ela sempre desejou ir e nunca fora: o aeroporto. Tomam o metro e, à vista dos aviões ensurdecedores, abrem um buraco suficientemente grande para caber a mala que contém o corpo sem vida da menina. O primeiro pedaço de terra que atiram para a cobrir soa como se fosse terra a cair sobre um autêntico caixão. Depois regressam, dolorosamente silenciosos e sujos. À cidade e ao caos daquela família atípica... Dias depois, em aparente normalidade, um avião passa por eles a baixa altitude. Voltam as memórias do momento da despedida. As memórias da irmã perdida. As memórias da Mãe, talvez!
Mesmo que não fique entre os meus preferidos de sempre, «Ninguém Sabe» foi um filme que me tocou e que recomendo a curiosos que encontrem interesse perante a descrição que expus. São estes filmes, para mim, os que valem a pena. Mas tenho pena que a Adriana, que tão simpaticamente correspondeu ao meu desafio para o ver nesta última apresentação, ontem ao fim do dia na sala 3 dos cinemas Cidade do Porto, não tenha gostado. Desculpa-me, pois...
Uma nota final: Yûia Yagira (Akira, no filme) ganhou a Palma de Ouro para o melhor actor no Festival de Cinema de Cannes de 2004. E foi o mais jovem premiado de sempre!

2006/05/30

«a linha da beleza» na dois

Depois de nos ter sido negada (há anos atrás e tanto quanto sei) a versão televisiva de «A Linguagem Perdida dos Guindastes» de David Leavitt, chega-nos agora a adaptação de «A Linha da Beleza» de Alan Hollinghurst, que em 2004 venceu o Booker Prize. Hollinghurst já tinha sido finalista do prémio em 1994 com o livro «The Folding Star» que surgiu entre «The Swimming-Pool Library» (1988) e «The Spell» (1998). Alan Hollinghurst é um dos meus escritores favoritos — os seus livros são contidos e elegantes, recuperando um certo classicismo perdido na escrita contemporânea, e os heróis que os habitam, significativamente ou não, consoante a perspectiva adoptada, são homossexuais. Tenho uma particular afeição ao «The Folding Star» que, se tivesse ganho o Booker, poderia já estar editado em Portugal. Mas por agora só nos traduziram o «A Linha da Beleza» que, diga-se com justiça, com uma incrível rapidez em relação à estreia na BBC, a RTP 2 começa a transmitir já esta quarta-feira, dia 31 de Maio, às 22h30. São três episódios a não perder, que acompanham a vida de Nick Guest, um jovem esteta que vive por empréstimo no meio privilegiado dos ricos e poderosos da Inglaterra yuppie dos anos 80, nos quatro anos que decorrem entre duas eleições de Margaret Thatcher.

2006/05/27

última hora: tertúlia sobre o casamento

Muito em cima da hora (a mensagem data do início da madrugada de 25 de Maio, mas nós só a conhecemos já na noite avançada de ontem) recebemos um e-mail de convocatória do GRIP (Grupo de Reflexão e Intervenção do Porto, da ILGA Portugal) para uma tertúlia sobre o tema Casamento Entre Pessoas do Mesmo Sexo, que entendemos merecer destaque e, por isso, passamos de imediato a divulgar:

Deste modo, vimos por este meio convidá-lo/a para uma tertúlia, inserida nas comemorações Festa na Baixa, sobre "Casamentos entre pessoas do mesmo sexo" com a presença do Manuel Morais, Paulo Côrte-Real, Maria José Magalhães e Telmo Fernandes, no próximo dia 27 de Maio, às 17 horas, no Espaço "Era uma Vez no Porto", sito na Rua do Passeio Alegre, nr.º 555, Foz do Douro.
Esperamos contar com a sua presença! Com os melhores cumprimentos,


A rua do Passeio Alegre, no Porto, é paralela ao Rio Douro e o espaço em questão é um café-bar situado na zona da Foz. Pela nossa parte, para além da divulgação apressada e possível, faremos também um esforço para estar presentes (através de um de nós, apenas).
E já agora, caros amigos e amigas, não seria útil para todos nós que o site do GRIP (grip-ilga.web.pt) se mantivesse activo e fosse actualizado com regularidade? E, também, que houvesse um blogue activo e aberto a participações exteriores para que nos mantivesse constantemente a par das iniciativas do GRIP e das opiniões de cada um de nós, de todos os apoiantes e simpatizantes?...

2006/05/25

a próstata de brandon manilow

Embora para alguns não traga nada de novo, a mim parece-me que o blogue de QuirkyMichael merece ser conhecido (há um link no título, como os habitués já o sabem, que remete para o artigo que serviria de base a esta entrada).
Como é sabido também, na proximidade dos 40 anos os homens são confrontados com uma iminência no mínimo perturbante: é chegada a idade em que alguém introduzirá em nós, no nosso ânus, um dedo com que fará a apalpação da próstata. E é sobre esse objecto de preocupação e de prazer que nos vamos deter:
A próstata, nas palavras rigorosas de um médico amigo que tive o cuidado de consultar para rever o assunto, "é uma glândula acessória do aparelho reprodutor masculino. Tem como principal função produzir o líquido prostático o qual é rico em frutose, alimento essencial dos espermatozóides, em fibrina, a qual é responsável pela coagulação do esperma após a ejaculação (factor importantíssimo para adaptação dos espermatozóides ao ph vaginal que é acido, enquanto o do líquido prostático é ligeiramente básico), sais minerais importante para o movimento dos mesmos e água. Este líquido no seu conjunto facilita a movimentação dos espermatozóides, essencial para que se proceda à fecundação". Fica situada na junção da bexiga e da uretra, como o esboço de QuirkyMichael mostra bem e de forma especialmente aprazível.
Numa outra perspectiva, a estimulação da próstata é também uma prática comum para muitos homossexuais, seja por auto-masturbação, por masturbação mútua ou até pela penetração anal. Essa estimulação directa "provoca ejaculação, a qual pode ser acompanhada de orgasmo". Complementa ainda a explicação técnica do meu amigo: "É um dos métodos para se colher esperma fresco para análise bacteriológica ou mesmo para estudo de eventual esterilidade masculina. Em doentes com hipertrofia benigna da próstata ou doentes com adenocarcinoma da próstata, essa manobra é extremamente dolorosa. Daí que uma penetração profunda no ânus seja muitas vezes acompanhada de dor dilacerante, quando não se está suficientemente lubrificado."
Mais, h
oje é sabido mas timidamente aceite que também os heterossexuais devem praticar essa estimulação, a sós ou com a ajuda da sua companheira. O G-spot (ou ponto G) que existe no corpo feminino e que é o centro da estimulação sexual das mulheres tem o seu correspondente na próstata masculina, que não existe na mulher. A manipulação da próstata intensifica o orgasmo masculino e pode ser efectuada por via da introdução de um dedo lubrificado no ânus. Há outros meios de a alcançar mas, para os mais ortodoxos, o limite poderá mesmo ser um objecto como um massajador sexual. Embora seja pouco divulgado, nos primórdios do século XX as esposas usavam por vezes nos maridos utensílios metálicos que tinham por fim massajar a sua próstata durante o acto de penetração vaginal. Também mais tarde, durante a Segunda Grande Guerra, a "congestão pélvica" de militares que estavam sem companheira sexual há meses era tratada com massagens da próstata. E no campo dos exemplos, hoje e ao longo dos tempos há todo o género de casos: homens heterossexuais que pedem a estimulação às suas companheiras durante o coito, homens homossexuais que praticam a estimulação por penetração do companheiro, homens que simplesmente alcançam o orgasmo por estimulação da próstata e sem estimulação do pénis. A concretização descomplexada desta estimulação poderá vir a ser uma revolução sexual no princípio deste século XXI, mas como "não há bela sem senão" ainda segundo a opinião médica que recolhi (e que aproveito para agradecer) "a estimulação sucessiva desta glândula ao longo do tempo pode originar o edenocarcinoma prostático", que é uma espécie de cancro...
A artística composição do "Adónis erecto" criada por QuirkyMichael ilustra a localização da próstata n
o modelo e actor Brandon Manilow (regularmente ao serviço da produtora Bel Ami, a ver em belamionline.com). Daí o sugestivo título desta entrada.
;)

2006/05/23

brad walsh: o deslumbre da fotografia

Nos últimos dias coincidiram diversos acontecimentos que me provocaram o desejo de voltar a fazer fotografia artística.
Tudo começou há semana e meia, quando o Gonçalo decidiu levar a revelar o rolo fotográfico iniciado há cerca de 3 anos na sua Pentax reflexa e que só agora chegara ao fim. Aconteceu assim que lá voltámos a entrar numa loja de fotografia para deixar o rolinho de 35 mm a revelar. A conclusão do processo ficou adiada para cerca de 8 dias depois, por tratar-se de um filme a preto e branco, portanto de tratamento mais demorado.
Entretanto, durante essa semana, lembro-me de voltar a procurar na net a revista Junk (junk-mag.com), um site atractivo que o Gonçalo descobriu há já bastante tempo. É deveras interessante explicar que a Junk nasceu numa faculdade como um acto ideológico para confrontar a obsessiva nudez feminina escarrapachada nas revistas de moda. Nos primeiros números da Junk, o contraponto estabeleceu-se pela publicação de artigos e reportagens com fotos de arte de companheiros de classe que no momento aceitaram libertar-se das suas roupas e registá-lo para posteridade. Esta abordagem punha em foco uma rara combinação do intenso sex appeal com a simplicidade nata do jovem vulgar. Por detrás da câmara e da ideia estava Brad Walsh (à esquerda na foto e com um link directo no título) e este era apenas o primeiro passo para ele e para a revista que não pararia de crescer. Brad continuou o seu trabalho fora da faculdade, tornou-se também colaborador da revista Useless (uselessmagazine.com) e animador musical das noites preenchidas pela gente que fotografa.
O sábado do fim-de-semana foi um dia diferente. Primeiro pela visita à nova loja do momento (em Vila Nova de Gaia, está visto que todos sabem qual é). Depois porque o Gonçalo estava nesse dia a trabalhar até tarde e eu fui chamado a corresponder a um apelo relacionado também com a minha actividade profissional. Ao fim da noite, contrariamente a todos os meus prognósticos, vi-me na baixa do Porto sem carro e já sem ligação de Metro, nem boas perspectivas de regresso a casa de autocarro. Confirmou-mo um rapazola de uns vinte e poucos anos, que estava na paragem e a quem me dirigi para pedir informações. Não muito tempo depois, desiludido com os cenários, decido fazer paragem ao segundo táxi que vi passar. Apenas por boa educação ofereço boleia ao jovem, uma vez que fora prestável, educado e me dera conta de se dirigir para a mesma zona da cidade. Abri a porta de trás, ele entrou e eu logo depois. Viajámos calados, lado a lado. No fim da viagem eu paguei e saímos juntos, defronte à porta do meu prédio. Eu acredito que ter-me-ia sido fácil convencê-lo a subir, apesar do avanço da hora. E confesso que o teria feito, se não houvesse esse incontornável compromisso de quase 20 anos que me impede de arriscar a relação com o meu querido Gonçalo. Apertei-lhe a mão, subi, tomei um chá e deitei-me de seguida.
No dia seguinte fui visitar a minha mãe e no regresso levantei as fotos do Gonçalo, que já estavam prontas. Dei-lhes apenas uma espreitadela rápida para verificar se estavam bem. Segui para casa com elas e com o pensamento ainda nos acontecimentos da noite anterior. Quando a oportunidade surgiu detenho-me nelas em deslumbre, face ao inegável talento do Gonçalo também como fotógrafo, fixado na singeleza do preto e branco daquelas imagens.
Com um suave amargo de boca sinto que me apetece muito, de novo, fazer fotografia. Penso na obra de Brad Walsh e que talvez seja ela o exemplo adequado para explicar o que mais me agradaria fazer: fotografia de arte com uma nota de intervenção; fotografia de gente interessante e banal, mesmo que esteja longe dos cânones de beleza em voga; fotografia de emoções, de imprevistos, de momentos, de sentimentos, de seduções, de indivíduos, de pessoas, de amantes; fotografia de nus, de semi-nus, de pessoas sem artifícios, de pessoas com artifícios... Um destes dias, talvez, possa passar de novo à acção. É um projecto que não exclui o Gonçalo e para o qual convidarei os nossos amigos. Caso se concretize...
Para já fica aqui apenas o registo de mais um deslumbre que queremos partilhar. De um fotógrafo confirmado.

2006/05/19

amizade e amor: uma luz eterna

"Why don' you take me where it's lively and there's plenty of people?", uma fala do filme de 1960 «Saturday Night And Sunday Morning» (como sempre, há um link no título) poderá ter sido uma influência para a criação de «There Is A Light That Never Goes Out», uma das canções mais famosas de The Smiths, incluida no álbum «The Queen Is Dead» em 1986.
Com letra de Steven Morrissey (à esquerda na foto que, de fundo, retrata The New York Dolls) e música de Johnny Marr, a canção faz na primeira pessoa um pedido de auxílio a alguém a quem se quer muito especialmente bem. Sobre esta letra surgiram extrapolações diversas, entre as quais merecem destaque:
1) Que Morrissey a escrevera a pensar em James Dean, um dos seus maiores ídolos de sempre, sendo nesse caso que James seria o condutor do automóvel e Steven o devoto conduzido. Como é sabido, James Dean morreu num acidente de automóvel e, também por isso, a letra ganharia redobrado sentido nesse contexto;
2) Que Morrissey a escrevera a pensar em Johnny Marr, o guitarrista do grupo, que numa das suas deslocações a dois no carro do primeiro se cruzaram "curva-sim, curva-sim" com viaturas pesadas bastante ameaçadoras, como se estivessem destinados a juntos, nessa viagem, encontrar a lux aeterna (a luz que nunca se apagará). Questionados sobre esse facto e uma eventual paixão, Morrissey recusou a teoria e afirmou "there was a love and it was mutual and equal, but it wasn't physical or sexual", ou seja, que o seu amor foi mútuo e equivalente, mas não foi físico nem sexual...
Ainda assim, independentemente das razões que inspiraram a inspirada canção, a letra é uma das mais belas e profundas que se conhecem sobre a amizade romântica, sobre a amizade para a vida. Mesmo parecendo que ela faz o apelo ao suicídio a dois, creio mais que o grande apelo do autor é ao amor eterno, ao ficar para sempre junto de quem se ama, junto até ao último momento. Aqui fica a letra original e a sua tradução, numa apologia à luz que nunca se apagará:

Take me out tonight
Leva-me a sair esta noite
where there's music and there's people
aonde haja música e haja gente
who are young and alive
que seja jovem e viva
driving in your car
conduzido no teu carro
I never never want to go home
eu nunca vou querer ir para casa
because I haven't got one
porque eu já não tenho nenhuma
anymore.
não mais.

Take me out tonight
Leva-me a sair esta noite
because I want to see people and I
porque eu quero ver gente e eu
want to see lights
quero ver luzes
driving in your car
conduzido no teu carro
oh please don't drop me home
oh por favor não me largues em casa
because it's not my home, it's their home
porque não é a minha casa, é a casa deles
and I'm welcome no more.
e eu já não sou bem-vindo.

And if a double-decker bus
E se um autocarro de dois andares
crashes into us
chocar contra nós
to die by your side
morrer ao teu lado
is such a heavenly way to die
é uma maneira tão celestial de morrer
and if a ten-ton truck
e se um camião de dez toneladas
kills the both of us
nos matar a ambos
to die by your side
morrer ao teu lado
well, the pleasure — the privilege is mine.
bom, o prazer — o previlégio é meu.

Take me out tonight
Leva-me a sair esta noite
take me anywhere, I don't care
leva-me a qualquer lado, eu não me importo
I don't care, I don't care
eu não me importo, eu não me importo
and in the darkened underpass
e na passagem escurecida
I thought Oh God, my chance has come at last
eu pensei Oh Deus, a minha vez chegou finalmente
(but then a strange fear gripped me and I just couldn't ask).
(mas então um estranho medo paralisou-me e eu nem sequer pude perguntar).

Take me out tonight
Leva-me a sair esta noite
oh, take me anywhere, I don't care
oh, leva-me a qualquer lado, eu não me importo
I don't care, I don't care
eu não me importo, eu não me importo
driving in your car
conduzido no teu carro
I never never want to go home
eu nunca vou querer ir para casa
because I haven't got one, oh no
porque eu não tenho nenhuma, oh não
I haven't got one.
eu não tenho nenhuma.

And if a double-decker bus
E se um autocarro de dois andares
crashes into us
chocar contra nós
to die by your side
morrer ao teu lado
is such a heavenly way to die
é uma maneira tão celestial de morrer
and if a ten-ton truck
e se um camião de dez toneladas
kills the both of us
nos matar a ambos
to die by your side
morrer ao teu lado
well, the pleasure — the privilege is mine.
bom, o prazer — o previlégio é meu.

Oh, there is a light and it never goes out
Oh, há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
there is a light and it never goes out
há uma luz e ela nunca se apaga
(there is a light and it never goes out...).
(há uma luz e ela nunca se apaga...).

«There Is A Light That Never Goes Out» teve já muitas versões: sabemos das de Braid, Edison Shine, Ghost Mice, Joseph Arthur, The Lucksmiths, The Magic Numbers, My Awesome Compliation, Nada Surf, Neil Finn, The Ocean Blue, Potatomen, Robert Schipul, Royksopp, Schneider TM, The String Quartet, Walleye e até mesmo do próprio Morrissey. Descubram-nas por aí... Além do original, nós possuímos apenas duas outras: as de Mikel Erentxun (do seu álbum «Naufragios», de 1992) e The Divine Comedy (da antologia de homenagem «The Smiths Is Dead», de 1996).
Cada uma das canções e dos discos de The Smiths ouve-se como quem lê pequenas histórias de um livro, de um romance. A que se volta repetidamente, pelo incessante prazer, como sempre se volta aos braços do melhor amigo, e amante!...

2006/05/16

slava mogutin: arte-porno ou porno-arte?

A Pornografia não é um crime! E mesmo que o fosse, teria certamente muitos mais adeptos do que a Arte, já que essa não é geralmente de apelo imediato, é mais subjectiva que objectiva, é mais inatingível. Juntar a pornografia à arte, ou arte à pornografia, é um conceito novo para muitos mas já por demais experimentado, desde há muito. Da Playboy à Playgirl (passando por muitas outras publicações bem mais radicais na arte de apresentar o nu), o erotismo e a pornografia traçam novas divisões que ajudam muitas vezes a distinguir o soft do hard.
Slava Mogutin, modelo, actor porno, escritor, poeta e sobretudo talentoso fotógrafo vem muito a propósito de todas estas considerações. Russo de Moscovo pelo nascimento e norte-americano de Nova Iorque pela escolha, Slava está hoje representado nas melhores revistas de arte e de moda, nas galerias mais arrojadas e mais conceituadas. Soldados, punks, skaters são parte do objecto da sua escolha que se mistura com sexo, muito sexo, muita acção e sinais de revolta, de contestação, de amplo inconformismo.
As fotos de Slava Mogutin são instantes pensados para não fazer concessões. Estão carregadas de dor, de prazer, de inocência, de fatalidade, de entrega, de despojamento. Nas suas imagens há algo de sinistro e de inatingível, que aos poucos vamos entendendo. Há pornografia, muita pornografia. Às vezes só mesmo uma suave sugestão, algum erotismo, mas sempre uma enorme entrega que revela a grandeza do seu amor à arte, do seu amor à linguagem dos sentidos. (No título há um link para o sítio de Slava Mogutin na internet.)