2006/06/29

naughty britten

As canções dos compositores eruditos nem sempre abordam o sentimento romântico nas suas diversas manifestações. Nem tudo é mitologia dos deuses da antiguidade clássica, os textos não são sempre sobre a nostalgia de amores perdidos, a euforia dos amores conquistados, a tristeza pelo que se perdeu, ou a angústia da solidão. Nem tudo é heroísmo e nem sempre introspecção... Há uns anos atrás descobri uma maravilhosa colecção de canções de Benjamin Britten, interpretadas pelo fabuloso Ian Bostridge, num disco intitulado «The Red Cockatoo And Other Songs» (Hyperion), e qual não foi a minha surpresa quando ouvi e li o poema (de W.H. Auden) que a seguir transcrevo. O resto é a imagem que se desenha na mente e, para alguns de nós, na memória:

To lie flat on the back with the knees flexed
And sunshine on the soft receptive belly,
Or face down, the insolent spine relaxed,
No more compelled to cower or to bully,
Is good; and good to see them passing by
Below on the white side-walk in the heat,
The dog, the lady with parcels, and the boy:
There is the casual life outside the heart.
Yes, we are out of sight and earshot here.
Are you aware what weapon you are loading,
To what that teasing talk is quietly leading?
Our pulses count but do not judge the hour.
Who are you with, from whom you turn away,
At whom you dare not look? Do you know why?

2006/06/26

trans

Trans = além de, através, para trás, em troca de ou ao revés.

No final da semana passada fui levado a assistir à apresentação do livro «Os Animais Antigos» de João Habitualmente, seguindo-se no mesmo local — o Teatro do Campo Alegre — um concerto dos Dead Combo. A originalidade e a ironia do discurso do poeta (mais acentuada na oralidade de fora dos livros do que na escrita apressadamente ouvida) justifica a dobrar que o autor seja revisto, relido, especialmente por quem aprecie mulheres mais que a poesia. Ou a poesia mais que as mulheres. Bom, adiante, não interessa!... Diga-se ademais que por detrás do seu diploma em Sociologia (ou será que é em Psicologia?), este João é de facto habitualmente um bom conversador, livre e libertador num discurso flectido e fluente que cativa e agrada. E sem qualquer ironia da nossa parte. Mas enquanto poeta, o João não me cativou ainda, antes me deixou a impressão de que tanto as suas aldeias como todo o seu restante universo justificam novas leituras, outros regressos. Senão veja-se em citação como ele vê «As Raparigas da Aldeia»:

Tenho sonhado às vezes
com as coradas raparigas da aldeia
trazem um leve cheiro à palha
e preenchem-me a necessidade
de mamas abundantes.
Convidam-me
mesmo quando olham para o chão

Tenho a impressão
de que fodem como animais antigos:
na lentidão de enormes carapaças
num fragor de pedras
cravando espinhos ao rebolar

Preferem a luz turva
do fim do dia
retornam ao povoado discretas
na companhia dos bois
e um botão a menos na blusa

Gosto das raparigas da aldeia.
Aos domingos de manhã
varrem o lar e dão lustro às panelas
de tarde andam em ranchos
dão gritinhos, fogem para o mato

Quem me dera pôr-me nelas!

Fizemos uma pausa para que a cena fosse refeita, e depois voltámos a entrar na sala. No estrado do palco entravam os Dead Combo (há no nosso título um link para eles), duo de guitarra e contrabaixo (ou piano, ou kazoo, ou melódica ou uma segunda guitarra), para um concerto. Tó Trips e Pedro V. Gonçalves surpreenderam-me, e não devo ter sido o único a sentir-me assim. Tó (na foto de cartola e tronco nu, no palco também de cartola mas infelizmente mais vestido) fez-me lembrar um verdadeiro rocker ao estilo norte-americano. A sua voz grave e cavernosa apresentava as músicas ao público antes de as começar a tocar, mantendo-se sempre de perfil para a plateia, numa presença forte, marcante e glamorosa. Diria que havia nele qualquer coisa de Prince, qualquer de Jimi Hendrix, de algo inatingível e fascinante. Até a forma como a guitarra era por ele espremida, violada, maltratada, mas com carinho, com amor, com entrega, com paixão. Dela saíam queixumes eléctricos que evocavam memórias de Lisboa, de Buenos Aires, se calhar de Sevilha ou mesmo de Nashville. Numa espécie de transfolk urbano, em diálogos constantes, Pedro (na foto, de óculos) correspondia plenamente aos desafios sonoros através da diversidade dos seus instrumentos. Apesar dos dois discos já editados, não sei se a companhia sonora dos Dead Combo seria a melhor para se ter por casa. Creio bem que não! Mas a sua música deliciar-me-ia uma vez mais, certamente, numa longa viagem a caminho de paisagens interiores. Como as dos poemas de João Habitualmente, que prefiro reler à minha maneira, como nesta minha transfiguração para «Os Rapazes da Aldeia»:

Tenho sonhado às vezes
com os corados rapazes da aldeia
trazem um leve cheiro à palha
e preenchem-me a necessidade
de carne abundante.
Convidam-me
mesmo quando olham para o chão

Tenho a impressão
de que fodem como animais antigos:
na lentidão de enormes carapaças
num fragor de pedras
cravando espinhos ao rebolar [pois, aqui é tudo igual!]

Preferem a luz turva
do fim do dia
retornam ao povoado discretos
na companhia das vacas
e um botão a menos na carcela [como soa bem, não soa?]

Gosto dos rapazes da aldeia.
Aos domingos de manhã
tomam banho e põem o fato
de tarde andam em ranchos
fazem-se machos, com machos no mato

Quem me dera pôr-me neles! [ó ai!]

As editoras, para que constem: os livros de João Habitualmente estão disponíveis na Objecto Cardíaco e os CDs dos Dead Combo na Dead & Company. Obrigado!

2006/06/25

portugal em jogo

Está a começar o jogo Portugal vs. Holanda, mas dou comigo a pensar se não se tratará mais de um jogo dos Portugueses com o Mundo, ou pior, de um jogo de Portugal consigo próprio. E, nessa perspectiva, que resultado nos convém mais, ganhar ou perder? Vencer no desporto inspira-nos a sermos campeões também nos outros domínios, alerta-nos para a necessidade de resolvermos mais eficazmente o que está mal com o nosso país ou, pelo contrário, faz-nos descansar à sombra dos louros, afinal, de um punhado de indivíduos profissionais da sua área? Perder o campeonato é mais um abalo na nossa auto-estima, mas a pancada não contribuirá para que, eventualmente, acabemos por acordar para a realidade da nossa crise de identidade, os problemas da nossa economia e o desequilíbrio da nossa sociedade? É razoável que um parlamento altere a sua ordem de trabalho para assistir ao jogo de um campeonato? Ou que a nossa bandeira se agite só para isto? O descanso e o jogo deveriam ser prémio para o esforço do trabalho e do sucesso — merecemos esse prémio ou trata-se de mais um crédito a prazo?... Eu vou ver o jogo na TV, também, mas para mim não será o de Portugal, será o do Cristiano.

2006/06/21

sobre o gay pride

Poderia ter escolhido uma imagem que ilustrasse os dois milhões de pessoas (os números variam entre 1,8 e 2,5) que desfilaram nas ruas de São Paulo durante o Gay Pride que decorreu no passado dia 17 de Junho, mas prefiro a provocação de mostrar aquilo que as pessoas socialmente correctas dizem que os homossexuais não deveriam fazer durante uma marcha com objectivos políticos como esta. Mas o que caracteriza o Pride (que não é uma manifestação partidária nem uma demonstração sindical) é precisamente o seu misto de activismo político, exercício de visibilidade, desafio provocatório e festa carnavalesca para descomprimir de mais um ano a sofrer no quotidiano os mais variados graus de repressão ou discriminação social — sim, desenganem-se os ingénuos, ela continua a existir. Será que uma intervenção mais contida seria mais eficiente? Será que umas coisas não podem coexistir com as outras? Espanha não tem já o casamento, apesar do excesso que, como em todo o lado, caracterizava o seu Orgullo Gai? E é porque a discriminação, o preconceito e, sobretudo, a hipocrisia continuam a existir em Portugal, que no próximo dia 24 de Junho em Lisboa e no dia 8 de Julho no Porto, as marchas do Orgulho, mesmo em proporção, ficarão muito aquém do que acontece em São Paulo, ou aqui tão mais perto, em Madrid. Gostaria de dizer que vou estar presente na rua, mas para já só sou capaz de garantir a minha presença no Sá da Bandeira, no Porto.

2006/06/18

s. joão (baptista)

«John The Baptist Jones» foi cantado e gravado em 1986 por Momus (Nicholas Currie), no seu álbum «Circus Maximus», que a editora discográfica Él (subsidiária da Cherry Red Records) teve a graça de lançar no mercado.
O poema reapareceu em 1992 em livro da Black Spring Press, numa antologia das suas próprias líricas que Momus designou por «Lusts Of A Moron» e de onde se copiou o respectivo poema, carregado de uma profunda ironia como só Nick Currie sabia e sabe ainda:

I was ahead
I was divine
My success, like shampoo, washed you clean of my mind
How could I know
The lengths you would go?

When you're ahead of Jesus Christ you don't look behind

When I was John the Baptist
When I was John the Baptist
When I was John the Baptist Jones

Ahead of schedule, ahead of the hoard
I had the Moral Majority drunk as a Lord
I ducked adulterers and did it alone
I was head and shoulders over flesh and bone

But when you did the dance of the seven veils
Salome, Salome, there was only the crockery below me

Believe me, reprieve me, can you forgive me?
My sweet Salome, put yourself below me
For just one night, dear
Heavens above Salome, put yourself below me!

... For just one night

Já a imagem, que pode ser vista em muitos livros e em directo no Museu do Louvre, em Paris, retrata S. João Baptista na visão (por volta de 1513-1516) do mestre Leonardo da Vinci.
Mas para quem tencionar ver e viver o S. João agora, já nos dias mais próximos, a melhor escolha está mesmo aqui: de volta já na noite da próxima sexta-feira, 23 de Junho, é o S. João do Porto. Que viva então uma vez mais este nosso S. João, sempre jovem, bonito e atrevido!...

2006/06/13

in blue

O inglês blue (azul) tem origem no francês bleu. Diz-se que é a cor que fica entre o verde e o violeta, a cor do céu num dia de sol; também pode ser melancolia ou mesmo depressão (em Portugal diz-se mais "estar com os azeites"); informalmente usa-se ainda no contexto de um filme, brincadeira ou história com a intenção de assinalar que há um conteúdo sexual ou pornográfico; em Inglaterra também significa ser-se politicamente conservador (como por cá, seja pela analogia com o "sangue azul" da nobreza ou por se tratar da cor do Partido Popular); em Espanha, já agora, é o nome de um perfume (In Blue, de Armando Basi).
O espanhol In Blue foi a minha última escolha em perfumes. Comprei-o neste fim-de-semana. Como é difícil de encontrar no mercado português, não pude hesitar muito. E é giro que aqueles que andam sempre com o nariz no ar, a tentar identificar fragrâncias, com este sentem-se completamente perdidos.
Depois, com um anúncio destes qual de nós é que conseguiria ainda resistir?...

2006/06/10

o peixe e a lua

Esqueçam Cervantes e o «Dom Quixote», se queremos reencontrar Espanha na poesia (e com o calor e os acontecimentos mais recentes da minha vida eu penso frequentemente nela), reencontramo-la seguramente mais depressa e mais potente em García Lorca. Cumprem-se este ano 70 anos sobre a morte de Federico García Lorca, indiscutivelmente um dos poetas mais geniais e influentes da latinidade ibérica e americana e um dos principais alicerces do imaginário espanhol. A obra deste andaluz é toda opulência visual e excesso metafórico; é feminina mas ardente pelo viril; católica mas em fervor do pagão; é sobre a natureza primordial e os elementos metafísicos; é sobre a mulher e o homem sob o sol que castiga e torna as coisas e a carne maduras e douradas, e é sobre os anjos quando nos visitam e se corrompem ou nos corrompem; é poesia que gera vida porque é poesia que não esconde morte; é peixe e é lua...

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.
(...)

2006/06/08

young boy holding a skull

Pelas notícias expressas no Blogger Status à hora desta entrada, o serviço vai ficar inactivo por diversas vezes ao longo dos próximos dias, para resolver problemas de hardware. Ainda há momentos atrás apontavam a primeira suspensão para cerca das 20h00 de Portugal, mas o horário foi retirado e não anunciaram outro em substituição. Sobre isto, vamos ver como será nos próximos dias... O fim-de-semana já vem aí e mais logo há mesmo um concerto dos X-Wife na Casa da Música, a que gostaríamos de assistir, mas não vamos: misturando punk com electrónica (creio que é daí que vem o termo tão em voga electroclash), desta vez não iremos ver e ouvir esta banda que tem muito de extraordinário. São as nossas opções e ouvi-los-emos em casa ou no carro, quando muito, desta vez... Mas já na noite de domingo estaremos lá para o encontro musical de Ryuichi Sakamoto ao piano e Alva Noto na electrónica. E alguns amigos também... Ontem foi noite de «A Linha da Beleza» na RTP 2 (o 2º dos 3 episódios a que nos referimos já aqui), que soube muito bem mas que o Gonçalito não viu por ter estado de "caminha". (Coitadinho, meu querido, mas ainda bem que hoje estás melhor...) Cá em casa, entre CDs e DVDs que se vão comprando (e que um destes dias também viremos aqui recensear), há um que está em lista de espera e merece redobradas atenções: as «Cello Sonatas» de Dmitri Shostakovich e de Alfred Schnittke, com Alban Gerhardt no violoncelo e Steven Osborne no piano. É uma edição da inglesa Hyperion, com uma capa soberba feita a partir do quadro de Magnus Enckell que se intutula «Young Boy Holding a Skull»... Vá-se lá saber porquê, é também assim que eu me vejo por estes dias!

2006/06/06

ninguém... sabia

Soube do filme «Ninguém Sabe» a 30 de Março, por via de uma crítica no blogue Sound + Vision. Nela, Nuno Galopim dizia tratar-se de "um dos melhores filmes do ano até ao momento" o que, depois de tão longa espera pela estreia no Porto, vim a entender e em parte também a concordar...
Trata-se de (mais) um filme japonês, este baseado num caso verídico de uma invulgar família de mãe e quatro filhos. A história começa com a mudança de casa, a descarga do camião de transporte dos móveis, as pesadas malas que mãe e filho tomam nos braços escadas acima, com a máxima das atenções e todos os cuidados de coisa frágil. Logo depois tem a apresentação de Akira, o rapaz, entre vénias e sorrisos de conveniência, aos vizinhos que são também os senhorios. Na volta, o abrir das malas, uma a uma, cada qual com mais um filho, os dois mais novos, e depois uma rapariga mais crescida (Kyoko) que chega de comboio e entra também às escondidas na casa nova da mãe e dos seus três irmãos (Yuki, Shigeru e Akira). Numa das cenas seguintes é a vez de Keiko, a mãe, os instruir para que se comportem em silêncio e não sejam vistos por mais ninguém.
Todos os dias a mãe sai cedo para o trabalho e volta ao fim do dia, já tarde, com o jantar e algum dinheiro. O apartamento é simples e pequeno, mas mantém-se arrumado pelo filho mais velho. Também por isso o ajuda na aprendizagem das contas, num grosso livro de exercícios de aritmética. Um dia a mãe anuncia que terá que partir por alguns dias e que o será o rapaz mais velho a tomar conta da casa. E dos três irmãos. Deixa-lhe dinheiro para se governar e um inequívoco amor de mãe, ainda que possa parecer que não, que ali só há desprendimento. É verdade que nenhum dos miúdos foi ou vai à escola, embora esteja sempre presente esse desejo como a mais profunda das vontades. Eles são clandestinos naquele apartamento, mas também em termos sociais porque nunca foram perfilhados nem tiveram existência legal. Existiram e existem, apenas! Melhor, vão existindo... Algum tempo depois, a mãe volta a casa com presentes para todos. Mas logo adiante uma nova partida é anunciada e, desta vez, para mais longe e por um período maior que terminará o mais tardar pelo Natal. Promessa de Mãe!
Mas tal não acontece e, apesar dos meigos artifícios do irmão mais velho para fazer crer aos três restantes que a mãe lhes vai mandando lembranças, um dia toda a esperança se extingue sem que o reencontro aconteça. Daí em diante é um retrato de sobrevivência pura e dura que o realizador Hirokazu Koreeda descreve (porque, relembro, a história tem uma base real) e desenvolve, numa linguagem perturbadora que se vai aproximando de um hiper-realismo: primeiro é o fim do dinheiro, do gás, da luz, da água, depois é a senhoria que os procura para cobrar a renda em atraso, por fim é o fim dos segredos e o soltar-se para sobreviver no mundo...
Mas não termina aqui, este realismo que roça o sórdido sem nunca o ser: um dia adiante Yuki, a irmã mais pequena, tem um pequeno acidente doméstico — uma queda — e dele vem a morrer. Confrontado com uma inexistência legal (uma ilegal existência!) Akira, o irmão, pede a ajuda a uma amiga, Saki, para levarem a pequena dentro de uma mala, até ao local onde ela sempre desejou ir e nunca fora: o aeroporto. Tomam o metro e, à vista dos aviões ensurdecedores, abrem um buraco suficientemente grande para caber a mala que contém o corpo sem vida da menina. O primeiro pedaço de terra que atiram para a cobrir soa como se fosse terra a cair sobre um autêntico caixão. Depois regressam, dolorosamente silenciosos e sujos. À cidade e ao caos daquela família atípica... Dias depois, em aparente normalidade, um avião passa por eles a baixa altitude. Voltam as memórias do momento da despedida. As memórias da irmã perdida. As memórias da Mãe, talvez!
Mesmo que não fique entre os meus preferidos de sempre, «Ninguém Sabe» foi um filme que me tocou e que recomendo a curiosos que encontrem interesse perante a descrição que expus. São estes filmes, para mim, os que valem a pena. Mas tenho pena que a Adriana, que tão simpaticamente correspondeu ao meu desafio para o ver nesta última apresentação, ontem ao fim do dia na sala 3 dos cinemas Cidade do Porto, não tenha gostado. Desculpa-me, pois...
Uma nota final: Yûia Yagira (Akira, no filme) ganhou a Palma de Ouro para o melhor actor no Festival de Cinema de Cannes de 2004. E foi o mais jovem premiado de sempre!

2006/05/30

«a linha da beleza» na dois

Depois de nos ter sido negada (há anos atrás e tanto quanto sei) a versão televisiva de «A Linguagem Perdida dos Guindastes» de David Leavitt, chega-nos agora a adaptação de «A Linha da Beleza» de Alan Hollinghurst, que em 2004 venceu o Booker Prize. Hollinghurst já tinha sido finalista do prémio em 1994 com o livro «The Folding Star» que surgiu entre «The Swimming-Pool Library» (1988) e «The Spell» (1998). Alan Hollinghurst é um dos meus escritores favoritos — os seus livros são contidos e elegantes, recuperando um certo classicismo perdido na escrita contemporânea, e os heróis que os habitam, significativamente ou não, consoante a perspectiva adoptada, são homossexuais. Tenho uma particular afeição ao «The Folding Star» que, se tivesse ganho o Booker, poderia já estar editado em Portugal. Mas por agora só nos traduziram o «A Linha da Beleza» que, diga-se com justiça, com uma incrível rapidez em relação à estreia na BBC, a RTP 2 começa a transmitir já esta quarta-feira, dia 31 de Maio, às 22h30. São três episódios a não perder, que acompanham a vida de Nick Guest, um jovem esteta que vive por empréstimo no meio privilegiado dos ricos e poderosos da Inglaterra yuppie dos anos 80, nos quatro anos que decorrem entre duas eleições de Margaret Thatcher.