2006/07/10
2006/07/08
soares dos gays
Perdoem-me o trocadilho, certamente haverá quem não ache graça, mas ele veio-me às teclas e não resisti. Já há anos atrás, quando imaginei um movimento portuense de intervenção e defesa dos direitos dos homossexuais, decidi que O Desterrado daria um bom emblema. A torre dos Clérigos foi outra hipótese, mas essa sim resultava um bocado brejeira. Mesmo sem ser emblema de nada, mesmo só como ex-libris arquitectónico do Porto, a coisa é bastante fálica, imagine-se se fosse símbolo de movimento gay! (ainda assim cheguei a fazer o esboço de um cartaz em que uma boca masculina convivia no mesmo rectângulo com a dita — não é preciso fazer um desenho pois não?). Já o Desterrado é mesmo bonito. E é homem e está nu. E é do Porto (do escultor Soares dos Reis, caso não tenham percebido o trocadilho). E é 'desterrado', que para intervenção política é o que mais importa. O emblema do desterrado, quando o imaginei, era cor-de-rosa, como a crença popular acha que é a sensibilidade gay e como o eram, de facto, os triângulos de pano que eram cozidos nos uniformes dos homossexuais que eram mandados para os campos de concentração na Alemanha da segunda guerra mundial. Aqui no Porto e no resto de Portugal, mais avanço menos recuo, continuamos desterrados. E continua a faltar-nos, à maior parte de nós, a coragem para enfrentar de cara levantada a sociedade que nos desterra. Eu não vou poder marcar presença na primeira Marcha do Orgulho do Porto, mas é com uma certa vergonha que confesso que, mesmo podendo, talvez não o fizesse. Fica o meu agradecimento e o elogio a todos os que lá estarão. E à noite, no Sá da Bandeira, encontramo-nos.[Informações sobre o Orgulho Porto no link contido no título deste post.]
2006/07/06
sitges romântica
O modernismo marcou a Catalunha do início do século XX através das artes, onde a arquitectura teve um papel preponderante e Antoni Gaudí um expoente reconhecido em todo o mundo. Mas não é da Casa Milà ou da Sagrada Família ou mesmo do Park Güell — as obras maiores de Gaudí — que venho aqui falar, antes de outras obras, de outras edificações, que não ficam muito longe da capital catalã.Com muito calor à porta e férias no horizonte, o meu destaque de hoje vai todo para a pequena localidade de Sitges, situada a uns 40 quilómetros ao sul de Barcelona (sudoeste, para ser mais rigoroso), onde no Verão de 2001 estivemos instalados alguns dias. Inicialmente, arrastados pela Drowned World Tour da Madonna (o meu companheiro é fã, já todos sabem, e eu vou atrás), escolhemos o Hotel Romàntic (na foto e no link) para ficar. Mas já era tarde demais, o hotel estava já cheio para as datas que nos convinham e acabamos num outro a uns 250 metros da praia, o Hotel Montserrat, agradável também mas bem mais modesto e convencional.
Já o mesmo não se pode dizer de Sitges: nos anos 60 foi o principal pólo da contracultura ao regime ditatorial de Francisco Franco; com a democracia desenvolveu-se e tornou-se num grande centro turístico do Mediterrâneo e, para nosso gozo, uma das maiores atracções gay de todo o mundo. Para quem ainda não conhece, Sitges é sol, praia, gente, gente bonita, muita gente, gastronomia, paisagem, discotecas, afectos, vício para quem o procura. Sitges é romântica e é obrigatória. É para ver e para rever. Para estar e para voltar. Bem acompanhado. Com tempo. Com antecipação.
Sitges é para se viver e recordar!
2006/06/29
naughty britten
As canções dos compositores eruditos nem sempre abordam o sentimento romântico nas suas diversas manifestações. Nem tudo é mitologia dos deuses da antiguidade clássica, os textos não são sempre sobre a nostalgia de amores perdidos, a euforia dos amores conquistados, a tristeza pelo que se perdeu, ou a angústia da solidão. Nem tudo é heroísmo e nem sempre introspecção... Há uns anos atrás descobri uma maravilhosa colecção de canções de Benjamin Britten, interpretadas pelo fabuloso Ian Bostridge, num disco intitulado «The Red Cockatoo And Other Songs» (Hyperion), e qual não foi a minha surpresa quando ouvi e li o poema (de W.H. Auden) que a seguir transcrevo. O resto é a imagem que se desenha na mente e, para alguns de nós, na memória:To lie flat on the back with the knees flexed
And sunshine on the soft receptive belly,
Or face down, the insolent spine relaxed,
No more compelled to cower or to bully,
Is good; and good to see them passing by
Below on the white side-walk in the heat,
The dog, the lady with parcels, and the boy:
There is the casual life outside the heart.
Yes, we are out of sight and earshot here.
Are you aware what weapon you are loading,
To what that teasing talk is quietly leading?
Our pulses count but do not judge the hour.
Who are you with, from whom you turn away,
At whom you dare not look? Do you know why?
2006/06/26
trans
Trans = além de, através, para trás, em troca de ou ao revés.No final da semana passada fui levado a assistir à apresentação do livro «Os Animais Antigos» de João Habitualmente, seguindo-se no mesmo local — o Teatro do Campo Alegre — um concerto dos Dead Combo. A originalidade e a ironia do discurso do poeta (mais acentuada na oralidade de fora dos livros do que na escrita apressadamente ouvida) justifica a dobrar que o autor seja revisto, relido, especialmente por quem aprecie mulheres mais que a poesia. Ou a poesia mais que as mulheres. Bom, adiante, não interessa!... Diga-se ademais que por detrás do seu diploma em Sociologia (ou será que é em Psicologia?), este João é de facto habitualmente um bom conversador, livre e libertador num discurso flectido e fluente que cativa e agrada. E sem qualquer ironia da nossa parte. Mas enquanto poeta, o João não me cativou ainda, antes me deixou a impressão de que tanto as suas aldeias como todo o seu restante universo justificam novas leituras, outros regressos. Senão veja-se em citação como ele vê «As Raparigas da Aldeia»:
Tenho sonhado às vezes
com as coradas raparigas da aldeia
trazem um leve cheiro à palha
e preenchem-me a necessidade
de mamas abundantes.
Convidam-me
mesmo quando olham para o chão
Tenho a impressão
de que fodem como animais antigos:
na lentidão de enormes carapaças
num fragor de pedras
cravando espinhos ao rebolar
Preferem a luz turva
do fim do dia
retornam ao povoado discretas
na companhia dos bois
e um botão a menos na blusa
Gosto das raparigas da aldeia.
Aos domingos de manhã
varrem o lar e dão lustro às panelas
de tarde andam em ranchos
dão gritinhos, fogem para o mato
Quem me dera pôr-me nelas!
Fizemos uma pausa para que a cena fosse refeita, e depois voltámos a entrar na sala. No estrado do palco entravam os Dead Combo (há no nosso título um link para eles), duo de guitarra e contrabaixo (ou piano, ou kazoo, ou melódica ou uma segunda guitarra), para um concerto. Tó Trips e Pedro V. Gonçalves surpreenderam-me, e não devo ter sido o único a sentir-me assim. Tó (na foto de cartola e tronco nu, no palco também de cartola mas infelizmente mais vestido) fez-me lembrar um verdadeiro rocker ao estilo norte-americano. A sua voz grave e cavernosa apresentava as músicas ao público antes de as começar a tocar, mantendo-se sempre de perfil para a plateia, numa presença forte, marcante e glamorosa. Diria que havia nele qualquer coisa de Prince, qualquer de Jimi Hendrix, de algo inatingível e fascinante. Até a forma como a guitarra era por ele espremida, violada, maltratada, mas com carinho, com amor, com entrega, com paixão. Dela saíam queixumes eléctricos que evocavam memórias de Lisboa, de Buenos Aires, se calhar de Sevilha ou mesmo de Nashville. Numa espécie de transfolk urbano, em diálogos constantes, Pedro (na foto, de óculos) correspondia plenamente aos desafios sonoros através da diversidade dos seus instrumentos. Apesar dos dois discos já editados, não sei se a companhia sonora dos Dead Combo seria a melhor para se ter por casa. Creio bem que não! Mas a sua música deliciar-me-ia uma vez mais, certamente, numa longa viagem a caminho de paisagens interiores. Como as dos poemas de João Habitualmente, que prefiro reler à minha maneira, como nesta minha transfiguração para «Os Rapazes da Aldeia»:
Tenho sonhado às vezes
com os corados rapazes da aldeia
trazem um leve cheiro à palha
e preenchem-me a necessidade
de carne abundante.
Convidam-me
mesmo quando olham para o chão
Tenho a impressão
de que fodem como animais antigos:
na lentidão de enormes carapaças
num fragor de pedras
cravando espinhos ao rebolar [pois, aqui é tudo igual!]
Preferem a luz turva
do fim do dia
retornam ao povoado discretos
na companhia das vacas
e um botão a menos na carcela [como soa bem, não soa?]
Gosto dos rapazes da aldeia.
Aos domingos de manhã
tomam banho e põem o fato
de tarde andam em ranchos
fazem-se machos, com machos no mato
Quem me dera pôr-me neles! [ó ai!]
As editoras, para que constem: os livros de João Habitualmente estão disponíveis na Objecto Cardíaco e os CDs dos Dead Combo na Dead & Company. Obrigado!
2006/06/25
portugal em jogo
Está a começar o jogo Portugal vs. Holanda, mas dou comigo a pensar se não se tratará mais de um jogo dos Portugueses com o Mundo, ou pior, de um jogo de Portugal consigo próprio. E, nessa perspectiva, que resultado nos convém mais, ganhar ou perder? Vencer no desporto inspira-nos a sermos campeões também nos outros domínios, alerta-nos para a necessidade de resolvermos mais eficazmente o que está mal com o nosso país ou, pelo contrário, faz-nos descansar à sombra dos louros, afinal, de um punhado de indivíduos profissionais da sua área? Perder o campeonato é mais um abalo na nossa auto-estima, mas a pancada não contribuirá para que, eventualmente, acabemos por acordar para a realidade da nossa crise de identidade, os problemas da nossa economia e o desequilíbrio da nossa sociedade? É razoável que um parlamento altere a sua ordem de trabalho para assistir ao jogo de um campeonato? Ou que a nossa bandeira se agite só para isto? O descanso e o jogo deveriam ser prémio para o esforço do trabalho e do sucesso — merecemos esse prémio ou trata-se de mais um crédito a prazo?... Eu vou ver o jogo na TV, também, mas para mim não será o de Portugal, será o do Cristiano.
2006/06/21
sobre o gay pride
Poderia ter escolhido uma imagem que ilustrasse os dois milhões de pessoas (os números variam entre 1,8 e 2,5) que desfilaram nas ruas de São Paulo durante o Gay Pride que decorreu no passado dia 17 de Junho, mas prefiro a provocação de mostrar aquilo que as pessoas socialmente correctas dizem que os homossexuais não deveriam fazer durante uma marcha com objectivos políticos como esta. Mas o que caracteriza o Pride (que não é uma manifestação partidária nem uma demonstração sindical) é precisamente o seu misto de activismo político, exercício de visibilidade, desafio provocatório e festa carnavalesca para descomprimir de mais um ano a sofrer no quotidiano os mais variados graus de repressão ou discriminação social — sim, desenganem-se os ingénuos, ela continua a existir. Será que uma intervenção mais contida seria mais eficiente? Será que umas coisas não podem coexistir com as outras? Espanha não tem já o casamento, apesar do excesso que, como em todo o lado, caracterizava o seu Orgullo Gai? E é porque a discriminação, o preconceito e, sobretudo, a hipocrisia continuam a existir em Portugal, que no próximo dia 24 de Junho em Lisboa e no dia 8 de Julho no Porto, as marchas do Orgulho, mesmo em proporção, ficarão muito aquém do que acontece em São Paulo, ou aqui tão mais perto, em Madrid. Gostaria de dizer que vou estar presente na rua, mas para já só sou capaz de garantir a minha presença no Sá da Bandeira, no Porto.
2006/06/18
s. joão (baptista)
«John The Baptist Jones» foi cantado e gravado em 1986 por Momus (Nicholas Currie), no seu álbum «Circus Maximus», que a editora discográfica Él (subsidiária da Cherry Red Records) teve a graça de lançar no mercado.O poema reapareceu em 1992 em livro da Black Spring Press, numa antologia das suas próprias líricas que Momus designou por «Lusts Of A Moron» e de onde se copiou o respectivo poema, carregado de uma profunda ironia como só Nick Currie sabia e sabe ainda:
I was ahead
I was divine
My success, like shampoo, washed you clean of my mind
How could I know
The lengths you would go?
When you're ahead of Jesus Christ you don't look behind
When I was John the Baptist
When I was John the Baptist
When I was John the Baptist Jones
Ahead of schedule, ahead of the hoard
I had the Moral Majority drunk as a Lord
I ducked adulterers and did it alone
I was head and shoulders over flesh and bone
But when you did the dance of the seven veils
Salome, Salome, there was only the crockery below me
Believe me, reprieve me, can you forgive me?
My sweet Salome, put yourself below me
For just one night, dear
Heavens above Salome, put yourself below me!
... For just one night
Já a imagem, que pode ser vista em muitos livros e em directo no Museu do Louvre, em Paris, retrata S. João Baptista na visão (por volta de 1513-1516) do mestre Leonardo da Vinci.
Mas para quem tencionar ver e viver o S. João agora, já nos dias mais próximos, a melhor escolha está mesmo aqui: de volta já na noite da próxima sexta-feira, 23 de Junho, é o S. João do Porto. Que viva então uma vez mais este nosso S. João, sempre jovem, bonito e atrevido!...
sobre
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Espiritualidade,
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Sociedade
2006/06/13
in blue
O inglês blue (azul) tem origem no francês bleu. Diz-se que é a cor que fica entre o verde e o violeta, a cor do céu num dia de sol; também pode ser melancolia ou mesmo depressão (em Portugal diz-se mais "estar com os azeites"); informalmente usa-se ainda no contexto de um filme, brincadeira ou história com a intenção de assinalar que há um conteúdo sexual ou pornográfico; em Inglaterra também significa ser-se politicamente conservador (como por cá, seja pela analogia com o "sangue azul" da nobreza ou por se tratar da cor do Partido Popular); em Espanha, já agora, é o nome de um perfume (In Blue, de Armando Basi).O espanhol In Blue foi a minha última escolha em perfumes. Comprei-o neste fim-de-semana. Como é difícil de encontrar no mercado português, não pude hesitar muito. E é giro que aqueles que andam sempre com o nariz no ar, a tentar identificar fragrâncias, com este sentem-se completamente perdidos.
Depois, com um anúncio destes qual de nós é que conseguiria ainda resistir?...
2006/06/10
o peixe e a lua
Esqueçam Cervantes e o «Dom Quixote», se queremos reencontrar Espanha na poesia (e com o calor e os acontecimentos mais recentes da minha vida eu penso frequentemente nela), reencontramo-la seguramente mais depressa e mais potente em García Lorca. Cumprem-se este ano 70 anos sobre a morte de Federico García Lorca, indiscutivelmente um dos poetas mais geniais e influentes da latinidade ibérica e americana e um dos principais alicerces do imaginário espanhol. A obra deste andaluz é toda opulência visual e excesso metafórico; é feminina mas ardente pelo viril; católica mas em fervor do pagão; é sobre a natureza primordial e os elementos metafísicos; é sobre a mulher e o homem sob o sol que castiga e torna as coisas e a carne maduras e douradas, e é sobre os anjos quando nos visitam e se corrompem ou nos corrompem; é poesia que gera vida porque é poesia que não esconde morte; é peixe e é lua...Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.
(...)
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