2006/08/03

boy wonder

A dupla Batman e Robin sempre foi conotada com um certo sex appeal, que se foi renovando e actualizando ao longo dos tempos, desde as primeiras representações em filme nos anos 40.
Nos anos 60 esta dupla de heróis entrou nas casas portuguesas, por via da popular televisão, sendo o que de mais avançado os estúdios de cinema de Hollywood faziam na época em ficção científica. Filtrados pelo absentismo de cor na TV dessa época, Robin e Batman compensavam-nos com a sua magia e deixavam ao imaginário dos mais jovens um mundo multicolorido e fantástico. Se Batmans há muitos, como eventualmente diria hoje Vasco Santana, o Robin de 1966 era uma figura especial para a gente pequena, de um punhado de anitos. O actor Burt Ward representava bem nos seus 21 anos de idade o duplo papel de super-herói subalterno e a figura de Dick Grayson, o pupilo protegido pelo milionário que se dava pelo nome de Bruce Wayne e como Batman (o Cavaleiro das Trevas) combatia o crime perpetrado pelos anti-heróis do United Underworld na cidade imaginária de Gotham City.
Na net, o pequeno herói camp está agora de volta para que se recupere o seu extravagante passado. Assim, finalmente e já com toda a cor se verifica haver um culto que se vai fazendo ainda maior de dia para dia. E que eu vou seguindo, até pela canção do Zappa:

Boy Wonder, I love you
Boy Wonder, I love you
Ooh ooh ooh...

2006/08/02

a glória da nudez

É Verão, chego a casa e, agora que trabalho o dia inteiro de fato e gravata, tenho um prazer especial em descalçar-me e despir a roupa e, por breves instantes, gozar a nudez antes de voltar a vestir-me com peças mais ligeiras. E depois na praia. Que estar ao sol, sobre a areia em frente ao mar, produz uma sensação formidável e acessível, já todos os milhões de pessoas que o fazemos descobrimos. Que fazê-lo em total nudez potencia esse bem-estar talvez nem todos o tenham descoberto, talvez nem todos tenham tido a oportunidade e as condições para o descobrir. O que é que a nudez acrescenta à experiência da praia que um fato de banho (tantas vezes diminuto) possa impedir, excepto talvez o prazer sensual a ela associado e que tão facilmente pode ser gorado com a exposição de corpos nus menos (e muitas vezes muito menos) do que canonicamente belos, perguntariam os mais cépticos? Ao que eu responderia: sim, parte do gozo de estar nu numa praia advém do sentido do erótico a que o corpo está irremediável e felizmente ligado e também da quebra de proibições, decoros e tabus. Mas não só. Também é boa a experiência da vulnerabilidade, da exposição, de uma certa erradicação de estatutos sociais, económicos e culturais que a nudez, até certo ponto, permite ou, pelo menos, simula e facilita. E há a comunhão com a natureza que em vez de nudismo nos faria dizer naturismo (quem já se meteu no mar sem roupa sabe que o fato de banho, pequeno que seja, faz toda a diferença). Tanta coisa para justificar e defender o nudismo ocasional... Tanto significado e simbolismo e expressão nos corpos — a beleza óbvia de uns e a menos do que óbvia de outros... E até a graça de perceber o absurdo da nudez nos actos banais de usufruto da praia, que séculos de cultura impuseram que se realizassem no pudor de um fato de banho.

2006/07/28

28 de julho

A 28 de Julho de 1887 nascia o francês Henri-Robert-Marcel Duchamp, artista multifacetado associado ao dadaismo e ao surrealismo: "anything is art if the artist says it is", disse-o. Ele tinha já 74 anos de idade quando no Porto, nesse mesmo dia e mês, um rapazito insiste em nascer uns minutos antes de chegar o dia seguinte. 1961 é também o ano da estreia de «Breakfast At Tiffany's», filme de Blake Edwards baseado na mesma novela de Truman Capote, bem como de «La Dolce Vita» e do musical «West Side Story»; um ano antes iniciados, The Beatles fazem a sua primeira apresentação pública no Cavern Club enquanto Bob Dylan, The Beach Boys e The Rolling Stones só então começam a rolar; do filósofo Bertrand Russell é publicado o ensaio «Has Man A Future?»; o russo Yuri Gagarin fica para a história universal como o primeiro humano no espaço e os norte-americanos lançam o programa espacial Apollo; na Escócia nasce Jimmy Sommerville, que viria a formar os grupos gay-pop Bronski Beat, The Communards e Banderas, antes de seguir uma carreira a solo.
No ano em que Duchamp morreu, a 2 de Outubro, o menino tinha já 7 aninhos. Hoje tem bastantes mais e está de parabéns. Pensa-se!...

2006/07/23

meninas do rio

«Vidas em Arco-Íris: Depoimentos Sobre a Homossexualidade», de Edith Modesto, merece ser repetidamente citado (desta vez da página 160), porque o imprevisto e a surpresa acontecem a cada momento, sem filtros, como já antes se disse. Assim, por exemplo:

[Quem são os/as transexuais?] Vários entrevistados disseram que "há uma grande confusão, mesmo entre os gays, sobre o que é uma drag queen, um transformista um/a transexual, uma travesti..." Por exemplo:
Tiago — "Há uma grande confusão, mesmo entre os gays, sobre o que é uma drag queen, um transformista, um transexual, um travesti... Tem gays transexuais... são pessoas que nascem com um sexo e mudam de sexo. É o caso mais extremo, o corpo passa a ser de outro sexo. Transexual tem peito de mulher, cortou o pinto fora, ele se transformou numa mulher, o sexo mudou. É mais raro, mas também existem transexuais originalmente mulheres que se transformam em homens. Eu não posso condenar essas pessoas. Eu não sei como é a alma delas. O que elas têm, o que sentem. Por que elas tiveram de fazer isso? Eu tenho uma teoria que li uma vez. O cara falava sobre definições sexuais... Tem o sexo com que você nasce e uma identidade sexual que é a postura que você assume, tem a preferência sexual por quem você sente atração e essas coisas não são necessariamente ligadas. E ele mostra um caso assim: uma mulher, nasceu mulher; ela quis ser homem; ela colocou um pênis artificial; mas ela queria se relacionar com homens. Ela nasceu mulher, mas precisou se transformar em homem pra se relacionar com homem. Então o nascimento dela: sexo feminino. Identidade sexual: masculina. Preferência sexual dela: masculina."

A ilustração usada é de um quadro de Edgar Degas. À Lucy F. — a nossa mais querida Menina do Rio, autora do blogue Iluminuras (no título há uma ligação directa, para que o conheçam) — queremos, de forma redobrada, agradecer a oportunidade de ler este livro recém-editado na colecção [CONTRA.luz] da editora Record, do Rio de Janeiro: +1x, obrigado!

(Lucy: Durante as nossas férias consegui ver o filme «Sugar» e vou acabar por adquiri-lo, muito em breve! Para já ficamos atentos aos seus pormenores sobre a Parada Gay do Rio de Janeiro... Beijos!)

2006/07/21

vidas em arco-íris

Em matéria de guias (homo) sexuais o «A to Z of Gay Sex» de Terry Sanderson (The Other Way Press, London, 1994), o «Kamasutra Gay: um Guia Para Heterossexuais, Curiosos & Simpatizantes» de Flávio Furtado (Garrido Editores, Alpiarça, 2002) e o «Håndbok i Homsing» de Børge Skråmestø (Gyldendal Fakta, Oslo, 2004) eram até há bem pouco tempo, ora por uma ora por outra razão, os nossos livros de referência e de consulta. Também não vai muito tempo que descobrimos na Larousse um muito interessante «Dictionaire Des Cultures Gays Et Lesbiennes» de Didier Eribon, mas que entretanto foi retirado do catálogo da editora francesa, sem que esta tenha para já qualquer plano de reedição.
Por um relativo acaso — fruto de uma amizade recente e especial — veio parar-nos às mãos, mais recentemente, uma nova obra que se deverá juntar às já referidas: «Vidas em Arco-Íris: Depoimentos Sobre a Homossexualidade», de Edith Modesto (Record, Rio de Janeiro, 2006). Professora universitária, mãe de um homossexual e também ela activista, Edith levou a cabo um minucioso estudo das homossexualidades masculinas e femininas através de dezenas de entrevistas com homens e mulheres de diferentes idades, geografias, escolaridades, ocupações, raças e posicionamentos perante a vida. As entrevistas foram publicadas tal como se recolheram e aqui se exemplifica (da página 159):

[Você fez uma diferença entre homossexual e gay. Poderia explicar melhor?]
André — "Acho que homossexual é um termo técnico pra tua orientação sexual, pra como você experimenta o teu desejo... Você vive... Você realiza na verdade o teu desejo... Eu sempre costumo usar essa diferenciação... Acho que gay é mais um estilo de vida do que uma orientação sexual, então acho que tem muito homossexual que vive uma vida que não é gay necessariamente..."

Este livro é um álbum de retratos feitos de palavras, é diverso e isento, evita julgar, procura diversificar, atrai e fascina, revela e surpreende. Foi a minha leitura de férias e recomendo sem reservas o seu lançamento em Portugal, às editoras, às distribuidoras, às livrarias. Sugiro o que parece óbvio: editem-no, distribuam-no ou simplesmente importem-no... É que este livro merece grande visibilidade entre nós! Fica ainda uma referência excepcional entre nós na comercialização de obras de temática gay: em Lisboa, a livraria A Esquina Cor de Rosa (há um link no título). Visitem-na e descubram os muitos tesouros editoriais e a excepcional simpatia que lá irão encontrar.

2006/07/08

soares dos gays

Perdoem-me o trocadilho, certamente haverá quem não ache graça, mas ele veio-me às teclas e não resisti. Já há anos atrás, quando imaginei um movimento portuense de intervenção e defesa dos direitos dos homossexuais, decidi que O Desterrado daria um bom emblema. A torre dos Clérigos foi outra hipótese, mas essa sim resultava um bocado brejeira. Mesmo sem ser emblema de nada, mesmo só como ex-libris arquitectónico do Porto, a coisa é bastante fálica, imagine-se se fosse símbolo de movimento gay! (ainda assim cheguei a fazer o esboço de um cartaz em que uma boca masculina convivia no mesmo rectângulo com a dita — não é preciso fazer um desenho pois não?). Já o Desterrado é mesmo bonito. E é homem e está nu. E é do Porto (do escultor Soares dos Reis, caso não tenham percebido o trocadilho). E é 'desterrado', que para intervenção política é o que mais importa. O emblema do desterrado, quando o imaginei, era cor-de-rosa, como a crença popular acha que é a sensibilidade gay e como o eram, de facto, os triângulos de pano que eram cozidos nos uniformes dos homossexuais que eram mandados para os campos de concentração na Alemanha da segunda guerra mundial. Aqui no Porto e no resto de Portugal, mais avanço menos recuo, continuamos desterrados. E continua a faltar-nos, à maior parte de nós, a coragem para enfrentar de cara levantada a sociedade que nos desterra. Eu não vou poder marcar presença na primeira Marcha do Orgulho do Porto, mas é com uma certa vergonha que confesso que, mesmo podendo, talvez não o fizesse. Fica o meu agradecimento e o elogio a todos os que lá estarão. E à noite, no Sá da Bandeira, encontramo-nos.

[Informações sobre o Orgulho Porto no link contido no título deste post.]

2006/07/06

sitges romântica

O modernismo marcou a Catalunha do início do século XX através das artes, onde a arquitectura teve um papel preponderante e Antoni Gaudí um expoente reconhecido em todo o mundo. Mas não é da Casa Milà ou da Sagrada Família ou mesmo do Park Güell — as obras maiores de Gaudí — que venho aqui falar, antes de outras obras, de outras edificações, que não ficam muito longe da capital catalã.
Com muito calor à porta e férias no horizonte, o meu destaque de hoje vai todo para a pequena localidade de Sitges, situada a uns 40 quilómetros ao sul de Barcelona (sudoeste, para ser mais rigoroso), onde no Verão de 2001 estivemos instalados alguns dias. Inicialmente, arrastados pela Drowned World Tour da Madonna (o meu companheiro é fã, já todos sabem, e eu vou atrás), escolhemos o Hotel Romàntic (na foto e no link) para ficar. Mas já era tarde demais, o hotel estava já cheio para as datas que nos convinham e acabamos num outro a uns 250 metros da praia, o Hotel Montserrat, agradável também mas bem mais modesto e convencional.
Já o mesmo não se pode dizer de Sitges: nos anos 60 foi o principal pólo da contracultura ao regime ditatorial de Francisco Franco; com a democracia desenvolveu-se e tornou-se num grande centro turístico do Mediterrâneo e, para nosso gozo, uma das maiores atracções gay de todo o mundo. Para quem ainda não conhece, Sitges é sol, praia, gente, gente bonita, muita gente, gastronomia, paisagem, discotecas, afectos, vício para quem o procura. Sitges é romântica e é obrigatória. É para ver e para rever. Para estar e para voltar. Bem acompanhado. Com tempo. Com antecipação.
Sitges é para se viver e recordar!

2006/06/29

naughty britten

As canções dos compositores eruditos nem sempre abordam o sentimento romântico nas suas diversas manifestações. Nem tudo é mitologia dos deuses da antiguidade clássica, os textos não são sempre sobre a nostalgia de amores perdidos, a euforia dos amores conquistados, a tristeza pelo que se perdeu, ou a angústia da solidão. Nem tudo é heroísmo e nem sempre introspecção... Há uns anos atrás descobri uma maravilhosa colecção de canções de Benjamin Britten, interpretadas pelo fabuloso Ian Bostridge, num disco intitulado «The Red Cockatoo And Other Songs» (Hyperion), e qual não foi a minha surpresa quando ouvi e li o poema (de W.H. Auden) que a seguir transcrevo. O resto é a imagem que se desenha na mente e, para alguns de nós, na memória:

To lie flat on the back with the knees flexed
And sunshine on the soft receptive belly,
Or face down, the insolent spine relaxed,
No more compelled to cower or to bully,
Is good; and good to see them passing by
Below on the white side-walk in the heat,
The dog, the lady with parcels, and the boy:
There is the casual life outside the heart.
Yes, we are out of sight and earshot here.
Are you aware what weapon you are loading,
To what that teasing talk is quietly leading?
Our pulses count but do not judge the hour.
Who are you with, from whom you turn away,
At whom you dare not look? Do you know why?

2006/06/26

trans

Trans = além de, através, para trás, em troca de ou ao revés.

No final da semana passada fui levado a assistir à apresentação do livro «Os Animais Antigos» de João Habitualmente, seguindo-se no mesmo local — o Teatro do Campo Alegre — um concerto dos Dead Combo. A originalidade e a ironia do discurso do poeta (mais acentuada na oralidade de fora dos livros do que na escrita apressadamente ouvida) justifica a dobrar que o autor seja revisto, relido, especialmente por quem aprecie mulheres mais que a poesia. Ou a poesia mais que as mulheres. Bom, adiante, não interessa!... Diga-se ademais que por detrás do seu diploma em Sociologia (ou será que é em Psicologia?), este João é de facto habitualmente um bom conversador, livre e libertador num discurso flectido e fluente que cativa e agrada. E sem qualquer ironia da nossa parte. Mas enquanto poeta, o João não me cativou ainda, antes me deixou a impressão de que tanto as suas aldeias como todo o seu restante universo justificam novas leituras, outros regressos. Senão veja-se em citação como ele vê «As Raparigas da Aldeia»:

Tenho sonhado às vezes
com as coradas raparigas da aldeia
trazem um leve cheiro à palha
e preenchem-me a necessidade
de mamas abundantes.
Convidam-me
mesmo quando olham para o chão

Tenho a impressão
de que fodem como animais antigos:
na lentidão de enormes carapaças
num fragor de pedras
cravando espinhos ao rebolar

Preferem a luz turva
do fim do dia
retornam ao povoado discretas
na companhia dos bois
e um botão a menos na blusa

Gosto das raparigas da aldeia.
Aos domingos de manhã
varrem o lar e dão lustro às panelas
de tarde andam em ranchos
dão gritinhos, fogem para o mato

Quem me dera pôr-me nelas!

Fizemos uma pausa para que a cena fosse refeita, e depois voltámos a entrar na sala. No estrado do palco entravam os Dead Combo (há no nosso título um link para eles), duo de guitarra e contrabaixo (ou piano, ou kazoo, ou melódica ou uma segunda guitarra), para um concerto. Tó Trips e Pedro V. Gonçalves surpreenderam-me, e não devo ter sido o único a sentir-me assim. Tó (na foto de cartola e tronco nu, no palco também de cartola mas infelizmente mais vestido) fez-me lembrar um verdadeiro rocker ao estilo norte-americano. A sua voz grave e cavernosa apresentava as músicas ao público antes de as começar a tocar, mantendo-se sempre de perfil para a plateia, numa presença forte, marcante e glamorosa. Diria que havia nele qualquer coisa de Prince, qualquer de Jimi Hendrix, de algo inatingível e fascinante. Até a forma como a guitarra era por ele espremida, violada, maltratada, mas com carinho, com amor, com entrega, com paixão. Dela saíam queixumes eléctricos que evocavam memórias de Lisboa, de Buenos Aires, se calhar de Sevilha ou mesmo de Nashville. Numa espécie de transfolk urbano, em diálogos constantes, Pedro (na foto, de óculos) correspondia plenamente aos desafios sonoros através da diversidade dos seus instrumentos. Apesar dos dois discos já editados, não sei se a companhia sonora dos Dead Combo seria a melhor para se ter por casa. Creio bem que não! Mas a sua música deliciar-me-ia uma vez mais, certamente, numa longa viagem a caminho de paisagens interiores. Como as dos poemas de João Habitualmente, que prefiro reler à minha maneira, como nesta minha transfiguração para «Os Rapazes da Aldeia»:

Tenho sonhado às vezes
com os corados rapazes da aldeia
trazem um leve cheiro à palha
e preenchem-me a necessidade
de carne abundante.
Convidam-me
mesmo quando olham para o chão

Tenho a impressão
de que fodem como animais antigos:
na lentidão de enormes carapaças
num fragor de pedras
cravando espinhos ao rebolar [pois, aqui é tudo igual!]

Preferem a luz turva
do fim do dia
retornam ao povoado discretos
na companhia das vacas
e um botão a menos na carcela [como soa bem, não soa?]

Gosto dos rapazes da aldeia.
Aos domingos de manhã
tomam banho e põem o fato
de tarde andam em ranchos
fazem-se machos, com machos no mato

Quem me dera pôr-me neles! [ó ai!]

As editoras, para que constem: os livros de João Habitualmente estão disponíveis na Objecto Cardíaco e os CDs dos Dead Combo na Dead & Company. Obrigado!