2006/08/18

no cavalo marinho

De 10 a 17 de Julho estivemos ausentes, para férias: foi a nossa anunciada Semana de Férias! Pelo segundo ano consecutivo o nosso destino voltou a ser a Casa do Cavalo Marinho, que queremos recomendar a todos que nos são mais próximos.
A Casa do Cavalo Marinho é uma moradia particular de dois pisos, situada na península de Setúbal a poucos minutos da pitoresca vila de Sesimbra e, noutra direcção, da famosa Praia do Meco, conhecida pelo seu extenso areal e pela prática livre e legal do naturismo. Da casa à praia são pouco mais que uns 10 minutos de automóvel (indispensável para as deslocações) e, uma vez chegados, são mais 10 minutos sobre a areia a partir do parque de estacionamento. O ambiente é silencioso, pouco populoso, descontraído e estimulante. Sem vento. O mar é geralmente calmo e as águas tépidas, muito aprazíveis. Na volta vai-se fazendo programa para a noite, que se pode passar por casa, em Sesimbra ou ainda, não muito longe, em Lisboa ou Setúbal (este ano fomos todos numa noite ao Mr. Gay, na Costa da Caparica). A região do Parque Natural da Arrábida, onde se situa a Casa do Cavalo Marinho, é toda ela interessante para promenades, com destaque para as belezas naturais em toda a costa e em particular do Portinho da Arrábida e da sua procurada praia, ou então no Cabo Espichel para o deslumbrante Santuário da Nossa Senhora da Pedra Mua que merece uma visita atenta aos detalhes.
No Cavalo Marinho, a casa tem dois quartos duplos destinados aos hóspedes (o azul, onde sempre ficámos, e o rosa), que são servidos por uma casa de banho comum mas privativa. Nos quartos existe televisão e ar condicionado e um deles tem varanda com vista sobre o jardim e piscina. O ambiente é aberto e amigável, independentemente da orientação sexual de cada um. O Carlos, o Pedro, o Nuno e todos os anfitriões que por lá vão passando e connosco convivendo são especialmente simpáticos, e por isso queremos também deixar claro o nosso agradecimento. A casa é ainda habitada pelas spaniels Laika, Susana e Sissi, que por vezes recebem a visita do amigo boxer Francisco... Bom, o melhor é visitar o site para mais detalhes, até porque ele acabou de ser renovado, e depois estabelecer contacto. Só é pena mesmo que o Carlos ainda não tenha inscrito a casa no guia gay Spartacus. Melhor para nós, assim, afinal!

2006/08/11

cão e homem nu

Neste blogue, desde sempre, decidiu-se não incluir nunca imagens que pudessem chocar quem o visitasse. Que pudessem chocar os nossos amigos, homossexuais e heterossexuais, que convidámos para aqui também nos visitar e deixar-nos os seus comentários, mesmo que fossem anónimos. Nada mais simples, afinal, quer-me parecer!... Mas estamos quase a meio de Agosto e mais do que nunca a cidade está só. Só não é bem só, mas nota-se muito uma diferença. Mesmo na nossa rotina diária de visita a uns quantos blogues de amigos e de desconhecidos, se notam ausências, falta de entradas novas, justificadas geralmente pelas férias, de Agosto... Por uma e por outras razões, estou só, estamos sós. É uma ausência prolongada, mas que agora se nota mais. Os amigos não estão, poucos ficaram, poucos se dizem presentes. Não está o Pedro; não está o Rui; nem o Carlos; nem o Filipe; ou o Tiago; a Sónia; nem a Teresa; menos ainda o Luís; ou o Zé, ou a Diana, ou o Fernando, ou o Alberto, ou o outro Alberto com o Leonel; também a Lucy está ausente; e o Daniel, mais ou menos; o B. também, mas isso é sabido; o Paulo; o outro Paulo; a Manela; a Adriana; mesmo o Alfredo e o Francisco, que noutros anos são tão certos precisamente em Agosto; o Zé, meu primo; e o Marcos, como sempre; adormecidos o Berto e a sua Bella; as Luísas e uma do Céu Maria; o João também; tantos, indo em frente... Por isso, porque nenhum deles ou delas tem sido presente (tirando um caso ou outro mais diferente), apetecia-me chegar aqui e escarrapachar uma daquelas fotos de pirilau para cima, bem levantado ao vento, como bandeira de um verbo insonoro, inaudito. Mas não, não o faço. Desta vez não o faço, ainda. Antes ofereço-vos um rabo tocado pelo que dizem ser o melhor amigo do homem. O que eu duvido... Mas sirvam-se e tenham um bom fim-de-semana, com muito sexo como deve ser!

2006/08/08

comunicações de pelúcia

O mundo das telecomunicações mudou muito no nosso país, nas últimas décadas: quando eu era pequeno e ainda tomava a primeira consciência do mundo, ficava muito orgulhoso de ter na minha cidade, a segunda a nível nacional, uma entidade que se chamava Telefones de Lisboa e Porto e que havia crescido desde a sua fundação para servir Portugal. Hoje sou cliente da empresa que veio a suceder aos TLP, mas esse orgulho de partilha, essa cumplicidade, dissipou-se por completo nos últimos anos. A sensação que me fica é que eu sou meramente o número 226xxxxxx da rede telefónica nacional e que o chamar-me Luís ou qualquer outro nome é-lhe completamente indiferente — quero eu dizer que a pessoa não conta, só talvez o potencial de lucro que o cliente pode gerar... Como se diria noutros tempos, pareço ser carne para canhão sendo que a carne é o meu dinheiro e o canhão são os cofres da empresa: é que 1) hoje não faz sentido para mim (e julgo que para muito pouca gente fará) que se tenha de pagar uma assinatura da linha telefónica (o hardware externo, por assim dizer), quando o mercado das comunicações está todo revisto e pensado em função dos consumos de cada um; depois, 2) no acesso à internet (pré-pago, por ser a opção mais em conta), também não faz sentido que seja cobrada a utilização em blocos de 10 minutos, pois isso só faz com que se utilize a net quando é imperativamente necessário ou por períodos mais longos...
Pois, a verdade é que não nos podemos mudar: não deixam, estamos tecnicamente limitados, aprisionados a um único prestador de serviços num mercado que deveria ser aberto e não monopolista!... No meu caso, telefone, internet e televisão/net por cabo são fornecidos pelo mesmo grupo de empresas. Reclamei, reclamámos, por diversas vezes e meios mas, como sempre, desta última também responderam com uma evasiva, que não corresponde à questão levantada nem nos satisfaz e por este andar também nunca corresponderá!... Alternativas? Se ficarmos pela casa que temos poderemos ter que esperar mais umas décadas pela evolução forçada do mercado, dos interesses de quem está no mercado; se nos mudarmos para uma outra casa (o que está em consideração, uma vez que a casa actual é arrendada e isso dá-nos mobilidade), talvez possamos de vez falar mais alto e bater mesmo com a porta.
Não me esqueci de identificar as operadoras de comunicações em causa, mas é tão óbvio que nem lhes ofereço esse privilégio. Quando muito, como na imagem, mostro o reverso da medalha e dou a conhecer os comparativos da operadora que escolheríamos!... A foto é de uma peça do escultor californiano Wes Modes (a visitar em thespoon.com) que tem por título Fuzzy Phone.

2006/08/03

boy wonder

A dupla Batman e Robin sempre foi conotada com um certo sex appeal, que se foi renovando e actualizando ao longo dos tempos, desde as primeiras representações em filme nos anos 40.
Nos anos 60 esta dupla de heróis entrou nas casas portuguesas, por via da popular televisão, sendo o que de mais avançado os estúdios de cinema de Hollywood faziam na época em ficção científica. Filtrados pelo absentismo de cor na TV dessa época, Robin e Batman compensavam-nos com a sua magia e deixavam ao imaginário dos mais jovens um mundo multicolorido e fantástico. Se Batmans há muitos, como eventualmente diria hoje Vasco Santana, o Robin de 1966 era uma figura especial para a gente pequena, de um punhado de anitos. O actor Burt Ward representava bem nos seus 21 anos de idade o duplo papel de super-herói subalterno e a figura de Dick Grayson, o pupilo protegido pelo milionário que se dava pelo nome de Bruce Wayne e como Batman (o Cavaleiro das Trevas) combatia o crime perpetrado pelos anti-heróis do United Underworld na cidade imaginária de Gotham City.
Na net, o pequeno herói camp está agora de volta para que se recupere o seu extravagante passado. Assim, finalmente e já com toda a cor se verifica haver um culto que se vai fazendo ainda maior de dia para dia. E que eu vou seguindo, até pela canção do Zappa:

Boy Wonder, I love you
Boy Wonder, I love you
Ooh ooh ooh...

2006/08/02

a glória da nudez

É Verão, chego a casa e, agora que trabalho o dia inteiro de fato e gravata, tenho um prazer especial em descalçar-me e despir a roupa e, por breves instantes, gozar a nudez antes de voltar a vestir-me com peças mais ligeiras. E depois na praia. Que estar ao sol, sobre a areia em frente ao mar, produz uma sensação formidável e acessível, já todos os milhões de pessoas que o fazemos descobrimos. Que fazê-lo em total nudez potencia esse bem-estar talvez nem todos o tenham descoberto, talvez nem todos tenham tido a oportunidade e as condições para o descobrir. O que é que a nudez acrescenta à experiência da praia que um fato de banho (tantas vezes diminuto) possa impedir, excepto talvez o prazer sensual a ela associado e que tão facilmente pode ser gorado com a exposição de corpos nus menos (e muitas vezes muito menos) do que canonicamente belos, perguntariam os mais cépticos? Ao que eu responderia: sim, parte do gozo de estar nu numa praia advém do sentido do erótico a que o corpo está irremediável e felizmente ligado e também da quebra de proibições, decoros e tabus. Mas não só. Também é boa a experiência da vulnerabilidade, da exposição, de uma certa erradicação de estatutos sociais, económicos e culturais que a nudez, até certo ponto, permite ou, pelo menos, simula e facilita. E há a comunhão com a natureza que em vez de nudismo nos faria dizer naturismo (quem já se meteu no mar sem roupa sabe que o fato de banho, pequeno que seja, faz toda a diferença). Tanta coisa para justificar e defender o nudismo ocasional... Tanto significado e simbolismo e expressão nos corpos — a beleza óbvia de uns e a menos do que óbvia de outros... E até a graça de perceber o absurdo da nudez nos actos banais de usufruto da praia, que séculos de cultura impuseram que se realizassem no pudor de um fato de banho.

2006/07/28

28 de julho

A 28 de Julho de 1887 nascia o francês Henri-Robert-Marcel Duchamp, artista multifacetado associado ao dadaismo e ao surrealismo: "anything is art if the artist says it is", disse-o. Ele tinha já 74 anos de idade quando no Porto, nesse mesmo dia e mês, um rapazito insiste em nascer uns minutos antes de chegar o dia seguinte. 1961 é também o ano da estreia de «Breakfast At Tiffany's», filme de Blake Edwards baseado na mesma novela de Truman Capote, bem como de «La Dolce Vita» e do musical «West Side Story»; um ano antes iniciados, The Beatles fazem a sua primeira apresentação pública no Cavern Club enquanto Bob Dylan, The Beach Boys e The Rolling Stones só então começam a rolar; do filósofo Bertrand Russell é publicado o ensaio «Has Man A Future?»; o russo Yuri Gagarin fica para a história universal como o primeiro humano no espaço e os norte-americanos lançam o programa espacial Apollo; na Escócia nasce Jimmy Sommerville, que viria a formar os grupos gay-pop Bronski Beat, The Communards e Banderas, antes de seguir uma carreira a solo.
No ano em que Duchamp morreu, a 2 de Outubro, o menino tinha já 7 aninhos. Hoje tem bastantes mais e está de parabéns. Pensa-se!...

2006/07/23

meninas do rio

«Vidas em Arco-Íris: Depoimentos Sobre a Homossexualidade», de Edith Modesto, merece ser repetidamente citado (desta vez da página 160), porque o imprevisto e a surpresa acontecem a cada momento, sem filtros, como já antes se disse. Assim, por exemplo:

[Quem são os/as transexuais?] Vários entrevistados disseram que "há uma grande confusão, mesmo entre os gays, sobre o que é uma drag queen, um transformista um/a transexual, uma travesti..." Por exemplo:
Tiago — "Há uma grande confusão, mesmo entre os gays, sobre o que é uma drag queen, um transformista, um transexual, um travesti... Tem gays transexuais... são pessoas que nascem com um sexo e mudam de sexo. É o caso mais extremo, o corpo passa a ser de outro sexo. Transexual tem peito de mulher, cortou o pinto fora, ele se transformou numa mulher, o sexo mudou. É mais raro, mas também existem transexuais originalmente mulheres que se transformam em homens. Eu não posso condenar essas pessoas. Eu não sei como é a alma delas. O que elas têm, o que sentem. Por que elas tiveram de fazer isso? Eu tenho uma teoria que li uma vez. O cara falava sobre definições sexuais... Tem o sexo com que você nasce e uma identidade sexual que é a postura que você assume, tem a preferência sexual por quem você sente atração e essas coisas não são necessariamente ligadas. E ele mostra um caso assim: uma mulher, nasceu mulher; ela quis ser homem; ela colocou um pênis artificial; mas ela queria se relacionar com homens. Ela nasceu mulher, mas precisou se transformar em homem pra se relacionar com homem. Então o nascimento dela: sexo feminino. Identidade sexual: masculina. Preferência sexual dela: masculina."

A ilustração usada é de um quadro de Edgar Degas. À Lucy F. — a nossa mais querida Menina do Rio, autora do blogue Iluminuras (no título há uma ligação directa, para que o conheçam) — queremos, de forma redobrada, agradecer a oportunidade de ler este livro recém-editado na colecção [CONTRA.luz] da editora Record, do Rio de Janeiro: +1x, obrigado!

(Lucy: Durante as nossas férias consegui ver o filme «Sugar» e vou acabar por adquiri-lo, muito em breve! Para já ficamos atentos aos seus pormenores sobre a Parada Gay do Rio de Janeiro... Beijos!)

2006/07/21

vidas em arco-íris

Em matéria de guias (homo) sexuais o «A to Z of Gay Sex» de Terry Sanderson (The Other Way Press, London, 1994), o «Kamasutra Gay: um Guia Para Heterossexuais, Curiosos & Simpatizantes» de Flávio Furtado (Garrido Editores, Alpiarça, 2002) e o «Håndbok i Homsing» de Børge Skråmestø (Gyldendal Fakta, Oslo, 2004) eram até há bem pouco tempo, ora por uma ora por outra razão, os nossos livros de referência e de consulta. Também não vai muito tempo que descobrimos na Larousse um muito interessante «Dictionaire Des Cultures Gays Et Lesbiennes» de Didier Eribon, mas que entretanto foi retirado do catálogo da editora francesa, sem que esta tenha para já qualquer plano de reedição.
Por um relativo acaso — fruto de uma amizade recente e especial — veio parar-nos às mãos, mais recentemente, uma nova obra que se deverá juntar às já referidas: «Vidas em Arco-Íris: Depoimentos Sobre a Homossexualidade», de Edith Modesto (Record, Rio de Janeiro, 2006). Professora universitária, mãe de um homossexual e também ela activista, Edith levou a cabo um minucioso estudo das homossexualidades masculinas e femininas através de dezenas de entrevistas com homens e mulheres de diferentes idades, geografias, escolaridades, ocupações, raças e posicionamentos perante a vida. As entrevistas foram publicadas tal como se recolheram e aqui se exemplifica (da página 159):

[Você fez uma diferença entre homossexual e gay. Poderia explicar melhor?]
André — "Acho que homossexual é um termo técnico pra tua orientação sexual, pra como você experimenta o teu desejo... Você vive... Você realiza na verdade o teu desejo... Eu sempre costumo usar essa diferenciação... Acho que gay é mais um estilo de vida do que uma orientação sexual, então acho que tem muito homossexual que vive uma vida que não é gay necessariamente..."

Este livro é um álbum de retratos feitos de palavras, é diverso e isento, evita julgar, procura diversificar, atrai e fascina, revela e surpreende. Foi a minha leitura de férias e recomendo sem reservas o seu lançamento em Portugal, às editoras, às distribuidoras, às livrarias. Sugiro o que parece óbvio: editem-no, distribuam-no ou simplesmente importem-no... É que este livro merece grande visibilidade entre nós! Fica ainda uma referência excepcional entre nós na comercialização de obras de temática gay: em Lisboa, a livraria A Esquina Cor de Rosa (há um link no título). Visitem-na e descubram os muitos tesouros editoriais e a excepcional simpatia que lá irão encontrar.

2006/07/08

soares dos gays

Perdoem-me o trocadilho, certamente haverá quem não ache graça, mas ele veio-me às teclas e não resisti. Já há anos atrás, quando imaginei um movimento portuense de intervenção e defesa dos direitos dos homossexuais, decidi que O Desterrado daria um bom emblema. A torre dos Clérigos foi outra hipótese, mas essa sim resultava um bocado brejeira. Mesmo sem ser emblema de nada, mesmo só como ex-libris arquitectónico do Porto, a coisa é bastante fálica, imagine-se se fosse símbolo de movimento gay! (ainda assim cheguei a fazer o esboço de um cartaz em que uma boca masculina convivia no mesmo rectângulo com a dita — não é preciso fazer um desenho pois não?). Já o Desterrado é mesmo bonito. E é homem e está nu. E é do Porto (do escultor Soares dos Reis, caso não tenham percebido o trocadilho). E é 'desterrado', que para intervenção política é o que mais importa. O emblema do desterrado, quando o imaginei, era cor-de-rosa, como a crença popular acha que é a sensibilidade gay e como o eram, de facto, os triângulos de pano que eram cozidos nos uniformes dos homossexuais que eram mandados para os campos de concentração na Alemanha da segunda guerra mundial. Aqui no Porto e no resto de Portugal, mais avanço menos recuo, continuamos desterrados. E continua a faltar-nos, à maior parte de nós, a coragem para enfrentar de cara levantada a sociedade que nos desterra. Eu não vou poder marcar presença na primeira Marcha do Orgulho do Porto, mas é com uma certa vergonha que confesso que, mesmo podendo, talvez não o fizesse. Fica o meu agradecimento e o elogio a todos os que lá estarão. E à noite, no Sá da Bandeira, encontramo-nos.

[Informações sobre o Orgulho Porto no link contido no título deste post.]