Volta a falar-se de Mário Cesariny de Vasconcelos, muito a propósito da exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos» dedicada ao artista-poeta do surrealismo português, que no passado dia 20 abriu no Circulo de Bellas Artes de Madrid. Autor de uma extensa bibliografia, a editora Assírio & Alvim descreve este escritor como um "autor de uma poesia excepcional — eventualmente demasiado consciente para ser considerada verdadeiramente surrealista — que apresenta afinidades com a de Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, António Maria Lisboa e a dos surrealistas franceses Breton e Artaud". Apesar de o artista e poeta ainda estar a tempo de alterar alguns dos dados que constituem a sua biografia, não é demais afirmar que "a poesia de Mário Cesariny e, através dele, do surrealismo como atitude intelectual, influenciou toda uma geração de novos poetas, tal como aconteceu com o Modernismo do Orpheu". São as palavras claras do editor que tem vindo a publicar a totalidade da sua obra literária, que supera já a dezena de títulos. Entre eles, «O Virgem Negra – Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiras Por M.C.V.», publicado em 1989, do qual escolhemos um excerto das páginas 69 e 70:O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.
O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia.
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.
O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengãoEm não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da Kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço da heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela do lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.
Formado o quadrado
Era qundo o Aleyster Crowel aparecia.
“Iô Pan! Iô Pã!”, dizia,
E era felatio para todos
E pão de ló molhado em malvasia.
(…)
Para saber mais de Cesariny, de Pessoa e dos seus heterónimos, ou mesmo da geração de Orpheu há que adquirir as obras e deixar-se levar E descobrir. E maravilhar-se. O título completo da obra é «O VIRGEM NEGRA – FERNANDO PESSOA explicado às criancinhas naturais & estrangeiras por M.C.V. Who Knows Enought About It seguido de LOUVOR E DESRATIZAÇÃO DE ÁLVARO DE CAMPOS pelo MESMO no mesmo lugar. Com 2 Cartas de RAUL LEAL (HENOCH) ao Heterónimo; e a Gravura da universidade. Escrito & Compilado de Jun. 1987 a Set. 1988».








