2006/09/25

cesariny e o virgem negra

Volta a falar-se de Mário Cesariny de Vasconcelos, muito a propósito da exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos» dedicada ao artista-poeta do surrealismo português, que no passado dia 20 abriu no Circulo de Bellas Artes de Madrid. Autor de uma extensa bibliografia, a editora Assírio & Alvim descreve este escritor como um "autor de uma poesia excepcional — eventualmente demasiado consciente para ser considerada verdadeiramente surrealista — que apresenta afinidades com a de Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, António Maria Lisboa e a dos surrealistas franceses Breton e Artaud". Apesar de o artista e poeta ainda estar a tempo de alterar alguns dos dados que constituem a sua biografia, não é demais afirmar que "a poesia de Mário Cesariny e, através dele, do surrealismo como atitude intelectual, influenciou toda uma geração de novos poetas, tal como aconteceu com o Modernismo do Orpheu". São as palavras claras do editor que tem vindo a publicar a totalidade da sua obra literária, que supera já a dezena de títulos. Entre eles, «O Virgem Negra – Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiras Por M.C.V.», publicado em 1989, do qual escolhemos um excerto das páginas 69 e 70:

O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia.
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengãoEm não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da Kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço da heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela do lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era qundo o Aleyster Crowel aparecia.
“Iô Pan! Iô Pã!”, dizia,
E era felatio para todos
E pão de ló molhado em malvasia.

(…)

Para saber mais de Cesariny, de Pessoa e dos seus heterónimos, ou mesmo da geração de Orpheu há que adquirir as obras e deixar-se levar E descobrir. E maravilhar-se. O título completo da obra é «O VIRGEM NEGRA – FERNANDO PESSOA explicado às criancinhas naturais & estrangeiras por M.C.V. Who Knows Enought About It seguido de LOUVOR E DESRATIZAÇÃO DE ÁLVARO DE CAMPOS pelo MESMO no mesmo lugar. Com 2 Cartas de RAUL LEAL (HENOCH) ao Heterónimo; e a Gravura da universidade. Escrito & Compilado de Jun. 1987 a Set. 1988».

o navio de mário cesariny

Até 19 de Novembro estará patente em Espanha, no Círculo de Bellas Artes de Madrid, a exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos», comissariada por João Pinharanda e assim designada a partir de uma das suas obras poéticas. Mário Cesariny é uma das figuras maiores do surrealismo português (talvez mesmo a maior), tendo convivido em Paris com André Breton, e o seu trabalho plástico chega a ser menos conhecido entre nós do que a sua obra literária, vasta e de uma grandeza ainda apenas parcialmente revelada e descoberta. Mas se a poesia tem um papel maior, toda a sua obra foi e continua ainda a ser fruto de uma experimentação descomplexada, como seria natural num astro da cultura portuguesa do século XX. Na sua abordagem pictórica, o artista recorre frequentemente às técnicas de colagem, mas de uma forma mais criativa, variada e inesperada, sendo o reflexo do seu entrosamento entre a (sua) arte e a (sua) vida. Exibida em Madrid para apreciadores e curiosos, «Mário Cesariny: Navío de Espejos» congrega obras dos anos 40 à actualidade — desenho, pintura, colagem, objectos e técnicas mistas — e fomenta o reconhecimento da produção plástica do artista que nunca teve receio de chocar, nem de se assumir como ele mesmo. Entre nós, ainda neste princípio do século XXI, Mário Cesariny de Vasconcelos é talvez a figura actual de uma grandeza tanta como a que atribuímos ao também poeta-pintor Almada Negreiros. Bem-hajam! Esta exposição levará à tela, ainda, a 28 deste mês o documentário «Autografia», do realizador Miguel Gonçalves Mendes. A conferir aqui e agora!

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2006/09/23

sereia coreana: a arte de dongwook lee

A imagem ao lado tem por título «Mermeid». O seu autor é um artista sul-coreano chamado Dongwook Lee. O original pode ser visto hoje mesmo em Seul na galeria de arte Arario ou em Londres, não este mas outros trabalhos de Lee e de mais alguns novos artistas, numa colectiva da galeria Union, com a designação de «Give Me Shelter». «Mermaid» é um trabalho de técnica mista com as dimensões de 10x3x3 cm. Como é habitual no trabalho de Dongwook Lee, esta é uma escultura em miniatura, mas não só... Aqui está alguma informação suplementar, que tento sintetizar: a exposição apresentada pela galeria Union corresponde a trabalhos inéditos dos novos artistas coreanos Hyunjhin Baik, Suejin Chung, Osang Gwon, Dongwook Lee e Hyungkoo Lee, que pela primeira vez obtêm visibilidade internacional. Dongwook Lee é tido como um escultor que usa técnicas mistas e trabalha imagens sobre a condição humana e sobre os seus dogmas. Os trabalhos que apresenta são geralmente miniaturas de figuras humanas, em combinações tensas e extremas de horror e beleza. O lado pop da expressão plástica é muito evidente, mas as linguagens usadas são próprias e autónomas. Esta nova geração de artistas inclui Hyungkoo Lee (nascido em 1969), Suejin Chung (1969), Hyunjhin Baik (1972), Osang Gwon (1974) e este Dongwook Lee (1976). Todos eles vivem e trabalham em Seul, na Coreia do Sul.

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2006/09/22

maopost: imagens da revolução maoísta

Cartazes de propaganda política chinesa é o que se propõe divulgar o grupo Maopost. Criado por dois entusiásticos coleccionadores, Pierre Lavigne e Pierre Budestschu, o grupo tem um site com o mesmo nome, que foi recentemente ampliado para oferecer aos visitantes a possibilidade de aquisição de pinturas a óleo personalizadas ao melhor estilo revolucionário da China de Mao Tse-Tung. Pierre-Loïc Lavigne vive na China desde 1998 e é um coleccionador compulsivo dos cartazes revolucionários da época. O seu principal parceiro, Pierre Budestschu, vive e trabalha em Paris como desenhador gráfico e é ele também um coleccionador de posters do tema. Com este duo trabalham Hong Xue-Yan e Bruce Hurnes, ambos como tradutores. A imagem que se mostra dos dois jovens militares é de 1955 e na legenda promove uma vida longa à amizade entre os povos e forças armadas da China e da União Soviética (ou "zhongsu liang guo renmin he jundui de youyi wan sui", no original). Com a revolução cultural chinesa, o povo unido nunca mais seria vencido... Mas detalhes aqui, para tirar dúvidas.

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2006/09/21

o lado plástico de william burroughs

«The Unseen Art of William S. Burroughs» foi a designação com que a galeria de arte londrina Riflemaker fez uma mostra dos trabalhos plásticos do escritor vanguardista norte-americano William S. Burroughs, nascido em 1914 e falecido em 1997. Com a novela «Naked Lunch», de 1959 (que em 1991 veio a ser filme também), Burroughs tornou-se conhecido para além do círculo restrito da chamada Beat Generation, que incluía escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. A sua faceta como artista plástico é pouco divulgada e aqui está uma possibilidade rara de ver ainda um pouco do que a Riflemaker revelou. «Queer» é outra das mais conhecidas novelas com a assinatura de William Seward Burroughs, que recomendamos para leitura.

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2006/09/20

as lagoas azuis dos açores

Temos uma amiga que é dos Açores e de quem há um ano recebemos em nossa casa um belo postal enviado de Santa Maria das Flores. Nele tinha uma deslumbrante fotografia da Lagoa Rasa e, no verso, ela simplesmente escrevera "Guess who!". Claro que não foi difícil de adivinhar quem se nos dirigia de lá, de uma pequena ilha entre a Europa e as Américas... Um ano depois, já neste Verão portanto, chegou-nos outro postal enviado a partir de Angra do Heroísmo. A imagem era bem mais provocadora e ousada, tendo um par de touros de lide da Ilha Terceira com os bichos a esfregar entre si os chifres, como se fosse uma entrega carinhosa num namoro de machos: "a prova de que esta é uma terra muito permissiva", dizia-nos. Como que não bastasse a graça da remetente, desafiava-nos ainda: "que tal começarem a pensar nas próximas férias?!" E assim, na altura ainda mal regressados de uma estadia na praia em Sesimbra, os Açores entraram para os destinos possíveis de uma férias em 2007 (até já sabemos que em S. Miguel existe uma casa que acolhe hóspedes de todas as opções sexuais, que é a Casa da Lanterna). Mas as nossas hipóteses actuais para as vacances do próximo ano são vastas e díspares: Paris, Londres, Madrid, Corunha, Sesimbra e, afinal de contas, também os Açores. Com lagoas tão intensamente azuis, já nem os pequenos sustos como a passagem do furacão Gordon, que agora vai longe, nos desmotivarão de um voo futuro até ao arquipélago que está no meio do Atlântico. Beijinhos, queridas...

o cantor mexicano de pierre et gilles

Do fundo dos baús para a ribalta do Théâtre du Châtelet, em Paris, voltou à cena a opereta «Le Chanteur de Mexico». Até aqui não há nada de especial a assinalar, não fosse o cartaz (que cartaz!) ter sido concebido pela dupla de artistas Pierre et Gilles. A cenografia é de Emilio Sagi e a direcção musical de Fayçal Karoui, com Ismael Jordi, Mathieu Abelli, Rossy de Palma, Clotilde Courau, Jean Benguigui e Franck Leguérinel na interpretação deste trabalho da autoria de Francis Lopez (que morreu em 1995, mas assinou canções para famosos como Josephine Baker e Maurice Chevalier). Ao Ballet et Chœur du Théâtre du Châtelet juntam-se de 20 de Setembro a 1 de Outubro a Orquestra Filarmónica da Radio France e de 31 de Outubro a 1 de Julho a Orquestra Nacional da Île-de-France. Em ambos os casos o Châtelet será um dos locais mais procurados pela população gay de Paris, que encontrará na figura deste cantor romântico um bom pretexto para satisfazer a sua necessidade de arte kitsch contemporânea. E quando por cá, senhor Filipe La Féria, teremos «O Cantor do México»? Estão aqui os principais detalhes.

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2006/09/19

a arte em código de scott blake

Pode dizer-se que Scott Blake, artista norte-americano nascido na Florida, faz arte em código. De facto trata-se de uma técnica em que ele manipula códigos de barras para compor as suas obras, a maior parte das vezes em grande formato. Os seus trabalhos incluem retratos de famosos como Jesus, Andy Warhol, Madonna, Elvis Presley, Marilyn Monroe, Mao Tse-Tung, Bill Gates e dele próprio. Sobre o seu próprio retrato (este já de 2001), Blake afirma: "I wrote FUCK on my forehead for several reasons. One is because I created this portrait in 15 seconds using a bar code postscript which the same process takes my bar code halftone program 4 days to complete. I was also inspired by Abbie Hoffman, who used to write that illegal word on his forehead to detere any unwanted press photographers. This self-portrait is about being in the business of designer pixels." As obras com códigos de barras de Scott Blake incluem flipbooks, T-shirts, canecas, tatoos e certamente virá depois tudo o que mais o bom espírito capitalista permitir criar. Mas são impressionantemente surpreendentes, como se podem ver aqui!

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2006/09/18

marcel duchamp numa sonata dadaísta

«8x8: A Chess Sonata» junta num mesmo filme de época Marcel Duchamp, Man Ray (ambos nesta foto, em Paris), Jean Arp, Jacqueline Matisse, Yves Tanguy, Julien Levy, Richard Huelsenbeck, Alexander Calder, Ceal Bryson, Eugene Pellegrini, Williem de Vogel, W. Sandberg, Dorothea Ernst, Max Ernst, Jean Cocteau, Paul Bowles e Achmed ben el Yaccoubi. Nesta sonata dadaísta são oito as intervenções experimentais que vão juntando os artistas dadaístas (poetas, pintores, compositores, fotógrafos, realizadores) em interacção num filme histórico e criativo com a duração de 70 minutos (687MB), à volta de um tabuleiro de xadrez. O longo e pesado documento disponibilizado pela Grey Lodge pode ser descarregado aqui.

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2006/09/15

luc no céu com diamantes

Não vou explicar o porquê de l'avion rose, mas decidi fazer deste espaço uma forma de dissertar sobre arte. Sobre artes: a minha e a dos outros, na voz e na forma que mais me apetecer. Virei assim em breve dar conta de três trabalhos plásticos meus (todos recentes e um ainda em fase de conclusão) e de um novo projecto em torno de um jovem músico francês que recentemente descobri na internet: Luc. Neste momento ainda estou na fase dos contactos iniciais mas eu espero que a colaboração avance, pois vejo nesta oportunidade o meu momento de homenagear Andy Warhol e Joe Dalessandro, duas grandes referências para mim, e de concretizar o meu desejo de fazer este género de trabalho com um músico que me parece destemido e sem preconceitos. Sobre ele há mais detalhes aqui e do resto se dará conta quando significativo, neste novo espaço.

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