2006/10/04

a pop art de takashi murakami

Há algo de infantil e de provocativo na arte de Takashi Murakami. E quase sempre surgem a par, talvez para nos confundir, num acto de louvável inteligência que saltita entre o melhor da tradição japonesa e o mais criativo da arte ocidental. Nascido em Tóquio, em 1962, este é um dos mais importantes artistas da actualidade. O seu trabalho não se define em poucas palavras e abarca a produção de objectos comerciais e de moda, a escultura e a pintura, circulando pelos mais importantes museus do Japão, Europa e América. Na sua obra há influências da manga japonesa, de Jeff Koons, Roy Lichtenstein ou Jackson Pollock. Foi comparado imensas vezes a Andy Warhol, o que bem poderá justificar-se pelas características muito pop do que cria. Até a escultura de 1998 que se mostra ao lado (com 254x117x91 cm) se intitula «My Lonesome Cowboy» no que parece uma homenagem manifesta ao filme «Lonesome Cowboys». O próprio espaço em que vive e trabalha com os seus colaboradores se chama Hiropon Factory (onde se instalou com a Kaikai Kiki Co., a visitar), como na Factory prateada que Warhol criou para si e para os seus. Só que se Warhol pegou nas estrelas e as vulgarizou, Murakami pega no vulgar e promove-o a estrela. Os tempos são outros e este homem novo na arte não esconde o seu interesse bem actual pelas técnicas de gestão de Bill Gates. Não vá a arte morrer de velha!

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2006/10/03

regresso à futuro de matti suuronen

O arquitecto finlandês Matti Suuronen desenhou em 1968 uma casa semelhante a um disco voador, com o objectivo de ser usada como cabine de esqui ou habitação de férias. Os anos 60 foram marcados pela poderosa intervenção da ciência na vida universal (a Lua seria conquistada por Armstrong em 1969) e muito do design reflectia com optimismo essa situação. Era o advento da idade espacial, o futuro trazido ao presente, o sonho de uma vida simplificada pelas novas máquinas e de tempos livres cada vez menos adiados. A casa desenhada por Suuronen tinha 3 metros de altura por 8 de diâmetro e acomodava até 8 pessoas no seu interior. O nome de baptismo era bem claro na intenção visionária: Futuro. Esta nova forma de habitação pré-fabricada foi concebida em plástico reforçado (poliéster e fibra de vidro), que era um material inovador, muito barato e bastante leve. Facto que acrescentava ainda o benefício da mobilidade, já que a Futuro havia sido concebida com a intenção de ser deslocalizada (este é um termo de uso corrente de que eu não gosto, e só o uso por provocação) por helicóptero. A crise do petróleo em 1973 veio, porém, agravar os custos de produção (uma vez que o plástico é um derivado desse) e o total de casas construídas ficou-se apenas pelas 96, das quais uma metade na Finlândia, o país de origem. No entanto a Futuro teve descendência nos Estados Unidos pela mão do inventor (também filósofo e designer) R. Buckminster Fuller: a sua Dymaxion House pode ser vista no Henry Ford Museum & Greenfield Village e também aqui.

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a emergência da pop de patrick wolf

Patrick Wolf é um daqueles meninos bonitos que conquistam logo pela imagem. Ou parece ser, a julgar por mim e pelo que vai por aí ao olhar para os seus 23 anitos de um nascimento irlandês. Compositor, violinista e cantor das suas próprias canções, aos 11 anos Pat começou a experimentar instrumentos e equipamentos menos vulgares para uma criatura com meras aspirações pop: órgãos de brinquedo e um theremim feito em casa são dois bons exemplos. Muito antes de começar a gravar os seus primeiros discos em solitário fez parte (com 14 anos apenas) do projecto Minty e (aos 16) formou o duo Maison Crimineaux que acabou por ser a catapulta da carreira a solo, que começaria finalmente em 2003. Nós só soubemos de Patrick um ano depois, quando saiu o álbum «Lycanthropy». Eu corri a procurá-lo (onde o deveria encontrar mais certamente) mas ninguém ainda ouvira falar deste menino e músico de pouco mais de 20 anos. Nem mesmo pelo facto de o álbum estar na posição nº 39 dos discos do ano do jornal britânico New Musical Express. Que voltasse a procurar, disseram-me, e assim fiz... Foi preciso esperar mais um ano para que «Wind In The Wires» saísse e uns quantos portugueses, desses mais importantes, acordassem e tecessem desmesurados elogios ao segundo disco de Patrick. Papinha feita, as lojas de discos encheram-se de CDs de Patrick Wolf.
Mais um ano passou e há, agora, um novo álbum anunciado (prevê-se que chegue ao mercado apenas em Fevereiro de 2007), que deverá ter por título «The Magic Position». Diz-se que a 23 deste mês, «Wind In The Wires» estará nas lojas e, daí, todos nós voltaremos a sofrer de uma quanta licantropia. Com a emergência de bem acolher uma estrela pop agora já confirmada e reconhecida.

2006/09/28

quadros da vida de salvador dalí

Quantos de nós saberiam que o logótipo da tão popular marca espanhola Chupa Chups foi desenhado em 1969 pelo pintor surrealista Salvador Dalí?... Mas é verdade, a verdade pura e uma daquelas que nos faz crer que afinal ainda não sabíamos tudo sobre o grande pintor catalão. Ele viveu entre 1904 e 1989 e teve por baptismo o nome de Salvador Felip Jacint Dalí Domènech. Foi contemporâneo, colaborador e amigo de Federico García Lorca, Luis Buñuel, Joan Miró, Pablo Picasso, André Breton, Man Ray, Walt Disney e outros que na pressa se esquecem de referir. Na sua actividade passou por Paris e por Nova Iorque. Agora regressa à grande metrópole da costa oeste do Atlântico com «The Secret Life of Salvador Dalí», uma mostra que reúne os 128 desenhos originais que ilustraram a sua autobiografia assim intitulada. A cidade da Pop Art recebe Dalí no Instituto Cervantes a partir de 4 de Outubro, onde a exposição permanecerá até Janeiro do próximo ano, segundo a notícia que se pode ler aqui. Apesar da divulgação destas obras estar focada apenas num único trabalho, o livro «La Vida Secreta de Salvador Dalí» no título original, por mais esta forma se fomenta o reencontro com um dos maiores e mais controversos artistas do século XX que nas últimas décadas foi (não sem remédio) quase votado ao esquecimento pelas inteligências actuais.

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2006/09/26

sobre o david do hockney falso

Faz esta semana um par de meses que quatro queridos Amigos me ofereceram um estojo de pintura acrílica. Sabiam do meu gosto pelas artes e talvez por essa razão foram mais longe do que eu iria e decidiram desafiar-me. O estojo compreendia uma pequena tela, um cavalete, uns quantos pincéis, as tintas e, enfim, as coisas demais que se usam nestas circunstâncias. Fiquei radiante e, então ainda em férias, depressa meti mãos ao trabalho. Escolhi uma foto da minha própria autoria e, numa homenagem ao pintor David Hockney, incorporei o retrato pintado da minha sobrinha Rita no quadro «Mount Fuji And Flowers», que o artista pintara em 1972. Agora terminada a obra confesso que me vi uma e outra vez insatisfeito com o que fazia. Quase mesmo considerei inconclusiva a peça final. Mas mais não era do que insegurança de principiante, julgo eu, e o meu trabalho acabou por ser entregue à pequena Rita, de 6 anos, no domingo passado. Ainda no decurso da concretização deste trabalho adquiri duas outras telas um pouco maiores e elaborei mais dois retratos: comecei pelo do meu sobrinho Henrique (que acabou por ser o 1º a ser terminado, mas ainda falta entregar) e depois pelo do meu afilhado Luís (o 3º a começar, mas o 2º a acabar, que será entregue ainda mais para a frente). Neste momento desenvolvo novos estudos e estou ainda sem a tela para pintar. Mas já para a semana darei certamente início à concretização do novo trabalho: será a maior tela de todas até ao momento e nela farei o meu retrato de LUC, como referi na primeira entrada deste blogue. A imagem que se reproduz acima mais não é do que a de um autêntico quadro falso (uma recriação da Heritage House Galleries), como se pode ver aqui.

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2006/09/25

cesariny e o virgem negra

Volta a falar-se de Mário Cesariny de Vasconcelos, muito a propósito da exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos» dedicada ao artista-poeta do surrealismo português, que no passado dia 20 abriu no Circulo de Bellas Artes de Madrid. Autor de uma extensa bibliografia, a editora Assírio & Alvim descreve este escritor como um "autor de uma poesia excepcional — eventualmente demasiado consciente para ser considerada verdadeiramente surrealista — que apresenta afinidades com a de Álvaro de Campos, Mário de Sá-Carneiro, António Maria Lisboa e a dos surrealistas franceses Breton e Artaud". Apesar de o artista e poeta ainda estar a tempo de alterar alguns dos dados que constituem a sua biografia, não é demais afirmar que "a poesia de Mário Cesariny e, através dele, do surrealismo como atitude intelectual, influenciou toda uma geração de novos poetas, tal como aconteceu com o Modernismo do Orpheu". São as palavras claras do editor que tem vindo a publicar a totalidade da sua obra literária, que supera já a dezena de títulos. Entre eles, «O Virgem Negra – Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Naturais & Estrangeiras Por M.C.V.», publicado em 1989, do qual escolhemos um excerto das páginas 69 e 70:

O Álvaro gosta muito de levar no cu
O Alberto nem por isso
O Ricardo dá-lhe mais para ir
O Fernando emociona-se e não consegue acabar.

O Campos
Em podendo fazia-o mais de uma vez por dia.
Ficavam-lhe os olhos brancos
E não falava, mordia. O Alberto
É mais por causa da fotografia
Das árvores altas nos montes perto
Quando passam rapazes
O que nem sempre sucedia.

O Fernando o seu maior desejo desde adulto
(Mas já na tenra idade lhe provia)
Era ver os hètèros a foder uns com os outros
Pela seguinte ordem e teoria:
O Ricardo no chão, debaixo de todos (era molengãoEm não se tratando de anacreônticas) introduzia-
-Se no Alberto até à base
E com algum incómodo o Alberto erguia
Nos pulsos a ordem da Kabalia
Tentando passá-la ao Álvaro
Que enroscado no Search mordia mordia
E a mais não dava atenção.
O Search tentava
Apanhar o membro do Bernardo
Que crescia sem parança direcção espaço
E era o que mais avultava na dança
Das pernas do maço da heteronomia
A que aliás o Search era um pouco emprestado
Como de ajuda externa (de janela do lado)
Àquela endemonia
Hoje em dia moderna e caso arrumado.

Formado o quadrado
Era qundo o Aleyster Crowel aparecia.
“Iô Pan! Iô Pã!”, dizia,
E era felatio para todos
E pão de ló molhado em malvasia.

(…)

Para saber mais de Cesariny, de Pessoa e dos seus heterónimos, ou mesmo da geração de Orpheu há que adquirir as obras e deixar-se levar E descobrir. E maravilhar-se. O título completo da obra é «O VIRGEM NEGRA – FERNANDO PESSOA explicado às criancinhas naturais & estrangeiras por M.C.V. Who Knows Enought About It seguido de LOUVOR E DESRATIZAÇÃO DE ÁLVARO DE CAMPOS pelo MESMO no mesmo lugar. Com 2 Cartas de RAUL LEAL (HENOCH) ao Heterónimo; e a Gravura da universidade. Escrito & Compilado de Jun. 1987 a Set. 1988».

o navio de mário cesariny

Até 19 de Novembro estará patente em Espanha, no Círculo de Bellas Artes de Madrid, a exposição «Mário Cesariny: Navío de Espejos», comissariada por João Pinharanda e assim designada a partir de uma das suas obras poéticas. Mário Cesariny é uma das figuras maiores do surrealismo português (talvez mesmo a maior), tendo convivido em Paris com André Breton, e o seu trabalho plástico chega a ser menos conhecido entre nós do que a sua obra literária, vasta e de uma grandeza ainda apenas parcialmente revelada e descoberta. Mas se a poesia tem um papel maior, toda a sua obra foi e continua ainda a ser fruto de uma experimentação descomplexada, como seria natural num astro da cultura portuguesa do século XX. Na sua abordagem pictórica, o artista recorre frequentemente às técnicas de colagem, mas de uma forma mais criativa, variada e inesperada, sendo o reflexo do seu entrosamento entre a (sua) arte e a (sua) vida. Exibida em Madrid para apreciadores e curiosos, «Mário Cesariny: Navío de Espejos» congrega obras dos anos 40 à actualidade — desenho, pintura, colagem, objectos e técnicas mistas — e fomenta o reconhecimento da produção plástica do artista que nunca teve receio de chocar, nem de se assumir como ele mesmo. Entre nós, ainda neste princípio do século XXI, Mário Cesariny de Vasconcelos é talvez a figura actual de uma grandeza tanta como a que atribuímos ao também poeta-pintor Almada Negreiros. Bem-hajam! Esta exposição levará à tela, ainda, a 28 deste mês o documentário «Autografia», do realizador Miguel Gonçalves Mendes. A conferir aqui e agora!

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2006/09/23

sereia coreana: a arte de dongwook lee

A imagem ao lado tem por título «Mermeid». O seu autor é um artista sul-coreano chamado Dongwook Lee. O original pode ser visto hoje mesmo em Seul na galeria de arte Arario ou em Londres, não este mas outros trabalhos de Lee e de mais alguns novos artistas, numa colectiva da galeria Union, com a designação de «Give Me Shelter». «Mermaid» é um trabalho de técnica mista com as dimensões de 10x3x3 cm. Como é habitual no trabalho de Dongwook Lee, esta é uma escultura em miniatura, mas não só... Aqui está alguma informação suplementar, que tento sintetizar: a exposição apresentada pela galeria Union corresponde a trabalhos inéditos dos novos artistas coreanos Hyunjhin Baik, Suejin Chung, Osang Gwon, Dongwook Lee e Hyungkoo Lee, que pela primeira vez obtêm visibilidade internacional. Dongwook Lee é tido como um escultor que usa técnicas mistas e trabalha imagens sobre a condição humana e sobre os seus dogmas. Os trabalhos que apresenta são geralmente miniaturas de figuras humanas, em combinações tensas e extremas de horror e beleza. O lado pop da expressão plástica é muito evidente, mas as linguagens usadas são próprias e autónomas. Esta nova geração de artistas inclui Hyungkoo Lee (nascido em 1969), Suejin Chung (1969), Hyunjhin Baik (1972), Osang Gwon (1974) e este Dongwook Lee (1976). Todos eles vivem e trabalham em Seul, na Coreia do Sul.

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2006/09/22

maopost: imagens da revolução maoísta

Cartazes de propaganda política chinesa é o que se propõe divulgar o grupo Maopost. Criado por dois entusiásticos coleccionadores, Pierre Lavigne e Pierre Budestschu, o grupo tem um site com o mesmo nome, que foi recentemente ampliado para oferecer aos visitantes a possibilidade de aquisição de pinturas a óleo personalizadas ao melhor estilo revolucionário da China de Mao Tse-Tung. Pierre-Loïc Lavigne vive na China desde 1998 e é um coleccionador compulsivo dos cartazes revolucionários da época. O seu principal parceiro, Pierre Budestschu, vive e trabalha em Paris como desenhador gráfico e é ele também um coleccionador de posters do tema. Com este duo trabalham Hong Xue-Yan e Bruce Hurnes, ambos como tradutores. A imagem que se mostra dos dois jovens militares é de 1955 e na legenda promove uma vida longa à amizade entre os povos e forças armadas da China e da União Soviética (ou "zhongsu liang guo renmin he jundui de youyi wan sui", no original). Com a revolução cultural chinesa, o povo unido nunca mais seria vencido... Mas detalhes aqui, para tirar dúvidas.

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2006/09/21

o lado plástico de william burroughs

«The Unseen Art of William S. Burroughs» foi a designação com que a galeria de arte londrina Riflemaker fez uma mostra dos trabalhos plásticos do escritor vanguardista norte-americano William S. Burroughs, nascido em 1914 e falecido em 1997. Com a novela «Naked Lunch», de 1959 (que em 1991 veio a ser filme também), Burroughs tornou-se conhecido para além do círculo restrito da chamada Beat Generation, que incluía escritores como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. A sua faceta como artista plástico é pouco divulgada e aqui está uma possibilidade rara de ver ainda um pouco do que a Riflemaker revelou. «Queer» é outra das mais conhecidas novelas com a assinatura de William Seward Burroughs, que recomendamos para leitura.

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