2006/10/11

jamie reid volta a atacar

Londres vai aquecer em 2007 com a exposição Panic Attack! Art in The Punk Years que assinalará os 30 anos do movimento punk na capital britânica. Será na Barbican Art Gallery, entre 1 de Junho e 31 de Agosto, que todos os devotos renderão mais uma homenagem aos Sex Pistols e a muitas outras bandas musicais, mas também aos activistas culturais e a artistas como o incontornável Jamie Reid. A data de 1977 corresponde ao lançamento do polémico single «God Save The Queen», que seria parte do não menos famoso álbum «Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols». Ora é aqui precisamente que entra Jamie Reid, o situacionista que foi o criador de quase toda a mais famosa pictografia dos Sex Pistols e do movimento punk que lhes sucedeu. Foi ele que colocou o alfinete de bebé sobre os lábios da rainha Isabel II, foi ele que trouxe para as ruas o esvaziamento político dos símbolos nazis, foi ele que uma década mais tarde criou a capa do emblemático single «No Clause 28» de Boy George. Em 2007 Jamie Reid terá 60 anos, o dobro da sua idade de então. E nos 30 anos que passaram o punk não morreu, nem a estética que o define. Bem pelo contrário, internacionalizou-se, renovou-se e redefiniu-se. Panic Attack! reflectirá sobre sobre toda essa variedade. Para mais detalhes e actualizações consulte-se a programação aqui.

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las rosquillas de almodóvar

Demorou algum tempo até que o último filme de Almodóvar fizesse sentido para mim. Mau sinal. Ou talvez não, talvez Almodóvar continue a ser um excelente realizador e eu seja, agora ou desde sempre, um mau espectador. Enquanto via o filme ia analisando a sua construção, o desempenho das actrizes, o esforço do realizador para manipular a imagem hollywoodesca da Penélope Cruz... Mau Sinal. Na minha cabeça um bom filme vê-se com os sentidos e as emoções, as análises formais só vêm depois, de regresso a casa. Achei o filme mau? Claro que não. É bem provável que o bem-amado realizador nunca tenha feito nem venha alguma vez a fazer um mau filme, mas nestes três últimos mastiga-se muito. E a propósito de digestão, repararam-me naquelas rosquillas? A mim fizeram-me água na boca e quando a Carmen Maura disse que queria eu pensei "e eu também!". Quando saí da sala pus-me a pensar se haveria por ali perto algum botequim que vendesse bolinho semelhante. Mas claro que não havia. Depois, já conformado, é que comecei a perceber o filme e como é bonito ver que as pessoas dependem umas das outras e, nos filmes do Almodóvar pelo menos, se ajudam umas às outras. E o Luís vinha emocionado. Bom Sinal.

2006/10/10

arte porno de daniel j. skråmestø

Em 1973, num dia de Outubro, nasceu Daniel J. Skråmestø. Entre 1992 e 96 estudou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e trabalhou alguns anos na Noruega como designer gráfico. Hoje vive na capital portuguesa onde desempenha ainda essa profissão, a par da sua actividade como artista plástico e escritor (pode consultar-se aqui o blogue onde vai expondo a sua nova escrita). Todo o trabalho artístico de Daniel é desenvolvido sobre fotografias porno recolhidas na internet, inicialmente trabalhadas em baixa resolução com o Photoshop. Os passos seguintes são a composição, iluminação e coloração, todos dados por processos digitais. Uma vez concluída esta fase, o artista imprime o seu trabalho inacabado sobre papel ou tela, que passará a adaptar manualmente usando material convencional de pintura. Usando ainda o envernizamento com pincel ou spray, a obra é acabada com o aspecto de pintura a óleo. Assim produz múltiplos falsos, que são depois numerados e assinados antes de entrarem no circuito comercial. "O aspecto porno das imagens é importante. Eu gosto da ideia de transformar algo considerado sujo em algo artístico", diz-nos Daniel. Os seus trabalhos são conhecidos internacionalmente e foram já exibidos nos Estados Unidos, Noruega e Portugal. Parabéns!... ;-)

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2006/10/09

as apropriações de glenn brown

Glenn Brown (nascido em 1966 no Reino Unido) é um "salteador" da arte que encontra por aí e lhe vai agradando. E é um "salteador" esperto, porque mascara os seus "furtos" com roupagens que os tornam distintos dos originais, num traço ziguezagueado ou pouco-mais-ou-menos assim, sinuoso, firme porém, certo do seu destino. Pois é, Glenn lê a arte dos seus mestres (Salvador Dalí é um dos maiores, veja-se ainda aqui) e transforma-a ao seu gosto e estilo, em pintura e escultura. Na verdade, as obras originais e as criadas por este artista confundem-se à distância mas, vistas ao perto são sem a menor dúvida intensamente distintas. Apesar disso, já aconteceu ser acusado de plágio, pelo fotógrafo Tony Roberts, e o diferendo legal teve mesmo que ser resolvido por acordo posterior à abertura do processo judicial. Em que ficamos, tendo em conta que os direitos de autor são coisa séria, mas nem todos os autores o são (ou às vezes são demais)? Veja-se, compare-se, pesquise-se, discuta-se, elogie-se, difame-se, aprecie-se, aplauda-se, esconda-se, esqueça-se... Glenn Brown já passou por tudo isso no seu reino natal, mas também na Alemanha, nos States e na Austrália. Eu não me importava nada de ter um quadro dele ou, pelo menos, de ver um em Portugal!

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2006/10/07

amir nikravan e hiper-realismo

Creio que a origem de Amir Nikravan é iraniana. Que estranho, para começar! À esquerda está um quadro seu, um óleo sobre papel, sem título, recente ainda, deste ano de 2006. É grande, no seu metro de largura por cerca de 60 cm de altura. Como o autor, também o quadro é estranho e tem uma força tremenda. É uma força que se repete e encontra em outras obras do pintor. Eu descobri-o aqui, mas poderemos encontrá-lo em outros locais, haja vontade de o conhecer. Este mundo de imagens do artista islâmico apenas existe fora do Islão mas, mesmo assim, é universal. São momentos que tanto podem ser registados em Teerão, como em Moscovo, Pequim ou Washington. São momentos da vida de gente como nós. Momentos que nós já experimentamos ou estivemos tão perto deles que por pouco teríamos dado conta. São imagens dum hiper-realismo não contido. Libertário, verdadeiro, eventualmente chocante. É sexo puro, são sexos, são múltiplos por simples acção dos espelhos, às vezes. Estão em casa, na rua, nos urinóis onde se cruzam, se examinam, se trocam... Observam-se fixamente ou se recusam, fugindo à evidência. Perturbado, ou excitado?

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2006/10/06

cópias originais de peter doig

Um dos grandes problemas dos pintores de hoje é a barreira que (n)os impede de sair para a rua e pintar uma figura, uma paisagem. Na vida agitada da cidade, no caos de máquinas e gente, a solução passa muitas vezes pela aplicação de uma mecânica compensatória. Assim é que artistas como o escocês Peter Doig (nascido em 1959) se socorrem de imagens capturadas em livros, revistas, jornais, filmes ou mesmo nas fotografias que eles próprios fazem. Doig nasceu no Edimburgo, acompanhou a família para Trindade e Tobago, depois para o Canadá e Londres, onde viria a estudar arte e iniciar uma carreira de sucesso. A maior parte do trabalho de Doig é dedicado à paisagem ou a cenas da sua infância canadense. O seu retrato não é realista no sentido de reproduzir o modelo, mas antes uma interpretação artística pessoal e momentânea (ao lado, «Heart of Old San Juan», 1999). Outra das suas abordagens é obter uma imagem e modificá-la através de sucessivas fotocópias, para que a imagem final seja já muito diferente da original. Na cópia final a óleo, o pintor demonstra a preferência pela intensidade de cor característico dos períodos impressionista e pós-impressionista. Em 2002 regressou a Trindade e Tobago, onde se estabeleceu com a sua família. No ano seguinte iniciou uma colaboração com o artista local Che Lovelace, que pode ser seguida aqui, no blogue do StudioFilmClub.

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2006/10/04

a pop art de takashi murakami

Há algo de infantil e de provocativo na arte de Takashi Murakami. E quase sempre surgem a par, talvez para nos confundir, num acto de louvável inteligência que saltita entre o melhor da tradição japonesa e o mais criativo da arte ocidental. Nascido em Tóquio, em 1962, este é um dos mais importantes artistas da actualidade. O seu trabalho não se define em poucas palavras e abarca a produção de objectos comerciais e de moda, a escultura e a pintura, circulando pelos mais importantes museus do Japão, Europa e América. Na sua obra há influências da manga japonesa, de Jeff Koons, Roy Lichtenstein ou Jackson Pollock. Foi comparado imensas vezes a Andy Warhol, o que bem poderá justificar-se pelas características muito pop do que cria. Até a escultura de 1998 que se mostra ao lado (com 254x117x91 cm) se intitula «My Lonesome Cowboy» no que parece uma homenagem manifesta ao filme «Lonesome Cowboys». O próprio espaço em que vive e trabalha com os seus colaboradores se chama Hiropon Factory (onde se instalou com a Kaikai Kiki Co., a visitar), como na Factory prateada que Warhol criou para si e para os seus. Só que se Warhol pegou nas estrelas e as vulgarizou, Murakami pega no vulgar e promove-o a estrela. Os tempos são outros e este homem novo na arte não esconde o seu interesse bem actual pelas técnicas de gestão de Bill Gates. Não vá a arte morrer de velha!

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2006/10/03

regresso à futuro de matti suuronen

O arquitecto finlandês Matti Suuronen desenhou em 1968 uma casa semelhante a um disco voador, com o objectivo de ser usada como cabine de esqui ou habitação de férias. Os anos 60 foram marcados pela poderosa intervenção da ciência na vida universal (a Lua seria conquistada por Armstrong em 1969) e muito do design reflectia com optimismo essa situação. Era o advento da idade espacial, o futuro trazido ao presente, o sonho de uma vida simplificada pelas novas máquinas e de tempos livres cada vez menos adiados. A casa desenhada por Suuronen tinha 3 metros de altura por 8 de diâmetro e acomodava até 8 pessoas no seu interior. O nome de baptismo era bem claro na intenção visionária: Futuro. Esta nova forma de habitação pré-fabricada foi concebida em plástico reforçado (poliéster e fibra de vidro), que era um material inovador, muito barato e bastante leve. Facto que acrescentava ainda o benefício da mobilidade, já que a Futuro havia sido concebida com a intenção de ser deslocalizada (este é um termo de uso corrente de que eu não gosto, e só o uso por provocação) por helicóptero. A crise do petróleo em 1973 veio, porém, agravar os custos de produção (uma vez que o plástico é um derivado desse) e o total de casas construídas ficou-se apenas pelas 96, das quais uma metade na Finlândia, o país de origem. No entanto a Futuro teve descendência nos Estados Unidos pela mão do inventor (também filósofo e designer) R. Buckminster Fuller: a sua Dymaxion House pode ser vista no Henry Ford Museum & Greenfield Village e também aqui.

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a emergência da pop de patrick wolf

Patrick Wolf é um daqueles meninos bonitos que conquistam logo pela imagem. Ou parece ser, a julgar por mim e pelo que vai por aí ao olhar para os seus 23 anitos de um nascimento irlandês. Compositor, violinista e cantor das suas próprias canções, aos 11 anos Pat começou a experimentar instrumentos e equipamentos menos vulgares para uma criatura com meras aspirações pop: órgãos de brinquedo e um theremim feito em casa são dois bons exemplos. Muito antes de começar a gravar os seus primeiros discos em solitário fez parte (com 14 anos apenas) do projecto Minty e (aos 16) formou o duo Maison Crimineaux que acabou por ser a catapulta da carreira a solo, que começaria finalmente em 2003. Nós só soubemos de Patrick um ano depois, quando saiu o álbum «Lycanthropy». Eu corri a procurá-lo (onde o deveria encontrar mais certamente) mas ninguém ainda ouvira falar deste menino e músico de pouco mais de 20 anos. Nem mesmo pelo facto de o álbum estar na posição nº 39 dos discos do ano do jornal britânico New Musical Express. Que voltasse a procurar, disseram-me, e assim fiz... Foi preciso esperar mais um ano para que «Wind In The Wires» saísse e uns quantos portugueses, desses mais importantes, acordassem e tecessem desmesurados elogios ao segundo disco de Patrick. Papinha feita, as lojas de discos encheram-se de CDs de Patrick Wolf.
Mais um ano passou e há, agora, um novo álbum anunciado (prevê-se que chegue ao mercado apenas em Fevereiro de 2007), que deverá ter por título «The Magic Position». Diz-se que a 23 deste mês, «Wind In The Wires» estará nas lojas e, daí, todos nós voltaremos a sofrer de uma quanta licantropia. Com a emergência de bem acolher uma estrela pop agora já confirmada e reconhecida.