2006/10/15

paisagens e retratos de david hockney

De 15 de Setembro a 28 de Outubro, a galeria londrina Annely Juda Fine Art expõe 25 novos trabalhos de David Hockney, «A Year in Yorkshire», pintados ao longo do último ano e que representam o ciclo das estações em East Yorkshire, o condado de origem do artista. A exibição inclui duas telas com cerca de 2x4 metros, ambas divididas em seis partes, carregadas de intensidade tonal, de traço imediato e fluído, colorido rico e textural, como no melhor trabalho do artista. O britânico David Hockney nasceu em 1937 em Bradford e estudou no Royal College of Art entre 1959 e 1962. A sua primeira exposição a solo foi em 1963 e a mais recente que teve lugar em Londres, na mesma galeria, aconteceu já em 1977. É um dos maiores artistas da Pop Art e talvez mesmo o maior artista vivo. Após 12 de Outubro também o National Portrait Gallery mostrará na capital britânica, até 21 de Janeiro, uma nova mostra de retrato de David Hockney, intitulada simplesmente «Portrait», como consta aqui. Mostrar-se-ão 150 trabalhos de todas as épocas, incluindo alguns criados para este acontecimento, tratando-se de um género dos mais apreciados na sua obra e que incluirá auto-retratos, retratos de família, de amigos e de amantes.

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2006/10/13

o subconsciente para lucian freud

Nasceu em Berlim em 1922. Face ao advento do nacional-socialismo, em 1933 a família de Lucian Freud deixou a Alemanha e instalou-se em Londres. Os seus primeiros quadros tiveram um toque de Surrealismo. Eram retratos de plantas, de amigos, de familiares, de colegas, de amantes. Dizia: "The subject matter is autobiographical, it's all to do with hope and memory and sensuality and involvement." Entende que a nudez, tal como nos irracionais, deixa ver a animalidade que há nos seus modelos. Por isso os corpos que mostra são também expressões do subconsciente, do indivíduo, do instinto e do desejo. Um caso sério também fora da pintura: casou com diversas mulheres e disse-se (no Sunday Telegraph a 1 de Setembro de 2002) que teve já mais de 40 filhos ilegítimos. Apesar de ser um dos mais importantes artistas na Inglaterra actual, as suas obras foram muito pouco expostas ao longo das décadas. Só em 1996 a Abbot Hall Art Gallery (na remota Kendal) conseguiu reunir um total de 40 obras que expuseram toda a carreira. A Tate Britain proporcionou uma retrospectiva mais alargada, conforme se poder saber aqui, em 2002. Talvez nem fosse necessário dizer que Lucian é neto de Sigmund, o Freud que inventou a psicanálise. Como se isso pudesse ainda surpreender alguém.

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2006/10/12

os bons tempos de mel roberts

Uma boa fotografia faz-se porque há um bom fotógrafo por detrás da máquina, seja ela qual for ― digo eu. Mesmo que o modelo seja um simples amigo, um indomável culturista ou um consumido prostituto. Foram principalmente esses que se colocaram à frente das duas Rolleiflex usadas nos anos 60 e 70 por Mel Roberts, com as quais fez mais de 50.000 imagens de uns 200 modelos, alguns também amantes: "I tried to make it as enjoyable as I could", dizia-o a propósito dos rapazes imortalizados pelas suas câmaras. Os modelos (homossexuais ou não) geralmente acompanhavam-no numa viagem de 2 ou 3 dias pelo Yosemite National Park ou pela comunidade de Idyllwild, onde conheciam e conviviam com os seus amigos. Os retratos reflectem isso: rapazes junto à piscina (a imagem ao lado pode ser adquirida aqui) ou expostos livremente ao sol da Califórnia: "we might look back wistfully at this period of openness and experimentation, before AIDS, before sunscreen". Esses eram os tempos em que "quando se conhecia alguém e com ele se passava uns bons momentos, as calças desciam com a maior das facilidades. Bastava só que nos apetecesse" ― explica ainda. Será que hoje, com os seus 82 anos, Mel Roberts continua a fazer... fotografia?

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2006/10/11

jamie reid volta a atacar

Londres vai aquecer em 2007 com a exposição Panic Attack! Art in The Punk Years que assinalará os 30 anos do movimento punk na capital britânica. Será na Barbican Art Gallery, entre 1 de Junho e 31 de Agosto, que todos os devotos renderão mais uma homenagem aos Sex Pistols e a muitas outras bandas musicais, mas também aos activistas culturais e a artistas como o incontornável Jamie Reid. A data de 1977 corresponde ao lançamento do polémico single «God Save The Queen», que seria parte do não menos famoso álbum «Never Mind The Bollocks, Here's The Sex Pistols». Ora é aqui precisamente que entra Jamie Reid, o situacionista que foi o criador de quase toda a mais famosa pictografia dos Sex Pistols e do movimento punk que lhes sucedeu. Foi ele que colocou o alfinete de bebé sobre os lábios da rainha Isabel II, foi ele que trouxe para as ruas o esvaziamento político dos símbolos nazis, foi ele que uma década mais tarde criou a capa do emblemático single «No Clause 28» de Boy George. Em 2007 Jamie Reid terá 60 anos, o dobro da sua idade de então. E nos 30 anos que passaram o punk não morreu, nem a estética que o define. Bem pelo contrário, internacionalizou-se, renovou-se e redefiniu-se. Panic Attack! reflectirá sobre sobre toda essa variedade. Para mais detalhes e actualizações consulte-se a programação aqui.

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las rosquillas de almodóvar

Demorou algum tempo até que o último filme de Almodóvar fizesse sentido para mim. Mau sinal. Ou talvez não, talvez Almodóvar continue a ser um excelente realizador e eu seja, agora ou desde sempre, um mau espectador. Enquanto via o filme ia analisando a sua construção, o desempenho das actrizes, o esforço do realizador para manipular a imagem hollywoodesca da Penélope Cruz... Mau Sinal. Na minha cabeça um bom filme vê-se com os sentidos e as emoções, as análises formais só vêm depois, de regresso a casa. Achei o filme mau? Claro que não. É bem provável que o bem-amado realizador nunca tenha feito nem venha alguma vez a fazer um mau filme, mas nestes três últimos mastiga-se muito. E a propósito de digestão, repararam-me naquelas rosquillas? A mim fizeram-me água na boca e quando a Carmen Maura disse que queria eu pensei "e eu também!". Quando saí da sala pus-me a pensar se haveria por ali perto algum botequim que vendesse bolinho semelhante. Mas claro que não havia. Depois, já conformado, é que comecei a perceber o filme e como é bonito ver que as pessoas dependem umas das outras e, nos filmes do Almodóvar pelo menos, se ajudam umas às outras. E o Luís vinha emocionado. Bom Sinal.

2006/10/10

arte porno de daniel j. skråmestø

Em 1973, num dia de Outubro, nasceu Daniel J. Skråmestø. Entre 1992 e 96 estudou na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e trabalhou alguns anos na Noruega como designer gráfico. Hoje vive na capital portuguesa onde desempenha ainda essa profissão, a par da sua actividade como artista plástico e escritor (pode consultar-se aqui o blogue onde vai expondo a sua nova escrita). Todo o trabalho artístico de Daniel é desenvolvido sobre fotografias porno recolhidas na internet, inicialmente trabalhadas em baixa resolução com o Photoshop. Os passos seguintes são a composição, iluminação e coloração, todos dados por processos digitais. Uma vez concluída esta fase, o artista imprime o seu trabalho inacabado sobre papel ou tela, que passará a adaptar manualmente usando material convencional de pintura. Usando ainda o envernizamento com pincel ou spray, a obra é acabada com o aspecto de pintura a óleo. Assim produz múltiplos falsos, que são depois numerados e assinados antes de entrarem no circuito comercial. "O aspecto porno das imagens é importante. Eu gosto da ideia de transformar algo considerado sujo em algo artístico", diz-nos Daniel. Os seus trabalhos são conhecidos internacionalmente e foram já exibidos nos Estados Unidos, Noruega e Portugal. Parabéns!... ;-)

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2006/10/09

as apropriações de glenn brown

Glenn Brown (nascido em 1966 no Reino Unido) é um "salteador" da arte que encontra por aí e lhe vai agradando. E é um "salteador" esperto, porque mascara os seus "furtos" com roupagens que os tornam distintos dos originais, num traço ziguezagueado ou pouco-mais-ou-menos assim, sinuoso, firme porém, certo do seu destino. Pois é, Glenn lê a arte dos seus mestres (Salvador Dalí é um dos maiores, veja-se ainda aqui) e transforma-a ao seu gosto e estilo, em pintura e escultura. Na verdade, as obras originais e as criadas por este artista confundem-se à distância mas, vistas ao perto são sem a menor dúvida intensamente distintas. Apesar disso, já aconteceu ser acusado de plágio, pelo fotógrafo Tony Roberts, e o diferendo legal teve mesmo que ser resolvido por acordo posterior à abertura do processo judicial. Em que ficamos, tendo em conta que os direitos de autor são coisa séria, mas nem todos os autores o são (ou às vezes são demais)? Veja-se, compare-se, pesquise-se, discuta-se, elogie-se, difame-se, aprecie-se, aplauda-se, esconda-se, esqueça-se... Glenn Brown já passou por tudo isso no seu reino natal, mas também na Alemanha, nos States e na Austrália. Eu não me importava nada de ter um quadro dele ou, pelo menos, de ver um em Portugal!

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2006/10/07

amir nikravan e hiper-realismo

Creio que a origem de Amir Nikravan é iraniana. Que estranho, para começar! À esquerda está um quadro seu, um óleo sobre papel, sem título, recente ainda, deste ano de 2006. É grande, no seu metro de largura por cerca de 60 cm de altura. Como o autor, também o quadro é estranho e tem uma força tremenda. É uma força que se repete e encontra em outras obras do pintor. Eu descobri-o aqui, mas poderemos encontrá-lo em outros locais, haja vontade de o conhecer. Este mundo de imagens do artista islâmico apenas existe fora do Islão mas, mesmo assim, é universal. São momentos que tanto podem ser registados em Teerão, como em Moscovo, Pequim ou Washington. São momentos da vida de gente como nós. Momentos que nós já experimentamos ou estivemos tão perto deles que por pouco teríamos dado conta. São imagens dum hiper-realismo não contido. Libertário, verdadeiro, eventualmente chocante. É sexo puro, são sexos, são múltiplos por simples acção dos espelhos, às vezes. Estão em casa, na rua, nos urinóis onde se cruzam, se examinam, se trocam... Observam-se fixamente ou se recusam, fugindo à evidência. Perturbado, ou excitado?

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2006/10/06

cópias originais de peter doig

Um dos grandes problemas dos pintores de hoje é a barreira que (n)os impede de sair para a rua e pintar uma figura, uma paisagem. Na vida agitada da cidade, no caos de máquinas e gente, a solução passa muitas vezes pela aplicação de uma mecânica compensatória. Assim é que artistas como o escocês Peter Doig (nascido em 1959) se socorrem de imagens capturadas em livros, revistas, jornais, filmes ou mesmo nas fotografias que eles próprios fazem. Doig nasceu no Edimburgo, acompanhou a família para Trindade e Tobago, depois para o Canadá e Londres, onde viria a estudar arte e iniciar uma carreira de sucesso. A maior parte do trabalho de Doig é dedicado à paisagem ou a cenas da sua infância canadense. O seu retrato não é realista no sentido de reproduzir o modelo, mas antes uma interpretação artística pessoal e momentânea (ao lado, «Heart of Old San Juan», 1999). Outra das suas abordagens é obter uma imagem e modificá-la através de sucessivas fotocópias, para que a imagem final seja já muito diferente da original. Na cópia final a óleo, o pintor demonstra a preferência pela intensidade de cor característico dos períodos impressionista e pós-impressionista. Em 2002 regressou a Trindade e Tobago, onde se estabeleceu com a sua família. No ano seguinte iniciou uma colaboração com o artista local Che Lovelace, que pode ser seguida aqui, no blogue do StudioFilmClub.

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