2006/10/21

a palavra em zhang huan

A arte de vanguarda também se faz na China e Zhang Huan (1965) é disso um grande exemplo. Começou a mostrar-se em Pequim, integrando o grupo de criadores pós-Tianamen que se designava por Beijing East Village. Quem o conhece afirma que a sua acção é perturbadora e fascinante. E que a nudez é quase permanente, como se tal não existisse, como se fosse tão natural quanto respirar: "Nudity is absolutely necessary in my performance", disse-o na entrevista para uma revista de arte. Irremediavelmente ligado à tradição budista, isso reflecte-se no trabalho conceptual que exerce essencialmente sob a forma de performance, instalação, fotografia, escultura e pintura: "Only in its nakedness can the body be truly felt and its relationship with the spirit be identified through its direct contact with the object", acrescentou. Sobre a sua obsessão pelo corpo, diz ainda: "When I was young, my mother often told me 'you have to study hard so when you grow up you have a bright future'. But I never liked to read books. I tried many different ways to keep myself awake I would bite my hands, stab my flesh with a pen"... Divide-se no presente entre Xangai e Nova Iorque, onde a galeria Max Lang está a exibir até ao próximo dia 28 uma selecção das suas obras no período de 1995 a 2006. Há mais detalhes aqui.

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2006/10/20

antónio olaio, um artista com vista

António Olaio (1963) licenciou-se pela Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1987 e rapidamente emergiu enquanto performer e artista plástico. Fazia parte, já na primeira metade dos anos 80, da nova geração de artistas que na cidade se faziam ver através de galerias como a Roma e Pavia e o Espaço Lusitano. Integrava nas Belas Artes o Grupo Missionário e depressa engrenou na máquina pós-moderna que a cidade alimentava por essa altura. Dividia-se entre o Porto e Coimbra, pintando e projectando o corpo e voz no grupo pop Repórter Estrábico. A obra de António Olaio foi-se definindo e consolidando com os anos, alargando à vídeo-arte e a projectos multidisciplinares, como resulta da sua associação ao guitarrista João Taborda. «Room With a View» (160x90 cm, 2003) é o título grafado a óleo sobre o óleo da própria tela que aqui se mostra, o que é estranho e típico no pintor. Tanto o actor de «Red River» (John Wayne) como o artista que criou o ready-made «Fontaine» (Marcel Duchamp) são constantes na sua obra. É um dos coordenadores da revista Homeless Mona Lisa, que deve ser explorada aqui. Escreveu «Ser Um Indivíduo Chez Marcel Duchamp» e «Singing My Art Away» que, a par com «António Olaio: o Artista é Um Ready-Made Auxiliado» de João Lima Pinharada, se tornam essenciais para rever toda a lógica da canção onde se diz: "Blood red is my favourite colour".

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...mãos à obra

Há 1 ano escrevi: "Hoje, quinta-feira 20 de Outubro de 2005, demos início ao nosso adiado blog. Não que outras experiências equivalentes não tenham sido produzidas, mas esta talvez seja (não creio que em definitivo) uma forma de estarmos constantemente em linha, entre nós e os nossos comentadores... Para já só estamos a fazer registo e experiências. Se alguém nos descobrir aqui, não ligue aos conteúdos. O tempo dar-nos-á tempo para irmos acrescentando, modificando, melhorando. E com frequência, certamente! Para o Gonçalo, um beijo imenso."
Um ano depois, aproveito para dizer que esta experiência valeu a pena, que se multiplicou e que tem propiciado o enriquecimento de conhecimentos e o alargamento de amizades. Porque é costume também nestes casos recorrer-se à estatística aqui temos, pela mera curiosidade, uns quantos números que respeitam aos 365 dias de gayfield (alguns dos valores foram extrapolados das medições obtidas após 6 de Outubro pela Google Analytics):
- 107 entradas publicadas;
- 10.980 visitas anuais;
- 05:39 minutos de duração média na consulta da página mais visitada;
- 3,41 dias de espera média entre novas entradas (postagens).
Há mais parâmetros que gostaria de avaliar, mas não o faço pela sua complexidade e falta de interesse público. Porém gostaria de deixar a promessa do nosso empenho neste blogue por mais um ano e de agradecer em nome dos dois todas as participações que fomos recebendo ao longo destes 12 meses. Com a simplicidade do momento, de nós para todos que nos vão acompanhando, um abraço imenso e... mãos à obra!

2006/10/19

o poder do ipod shuffle

O mais pequeno leitor digital de música que existe, o novo iPod Shuffle, já está à venda por todo o lado e continua a despertar o meu fascínio... Caracterizado por um preço acessível e uma qualidade sonora acima de qualquer discussão, o novo modelo com acabamentos em alumínio anodizado segue as tendências actuais da Apple para toda a sua linha iPod e iMac. Não se pense que este modelo é apenas a revisão do que já era comercializado com o mesmo nome (muito bonito também). O novo iPod Shuffle foi completamente redesenhado transformando-se num (ainda mais) minúsculo instrumento de prazer, capaz de conceder 12 horas continuadas de leitura com um só carregamento de energia. Com 1GB de capacidade, este pequeno engenho permite gravar até 240 músicas, para escutar em loop continuo ou baralhado. Sendo minúsculo, pode ser preso à lapela de um blusão, ao cinto ou simplesmente colocado no bolso pequeno dos jeans. Conjugado com o software iTunes, este aparelho permitirá uma série de funções complementares muito atractivas e fáceis, que importa explorar.
Isto é o que eu penso, mas gostaria que daqui surgisse um mini-debate já que tenciono comprá-lo no próximo sábado para o oferecer ao Gonçalo. Era para ser uma surpresa (como será quando ler isto), mas prefiro que ele tenha a opção de me instruir sobre outras preferências ou alternativas. E eu fico atento...

o naturalismo boémio de patrick angus

Que haverá na pintura de Patrick Angus (1953-1992) que possa ter levado o argumentista Robert Patrick a referi-lo como "o Toulouse-Lautrec de Times Square"? Em primeiro lugar não existirão dúvidas quanto ao que foi em vida o seu ambiente de acção, o de Times Square, elegante e movimentado bairro de Manhattan, Nova Iorque, que nos seus dias terá tido muito em comum com a boémia parisiense de Montmartre que Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) frequentou no seu tempo; em segundo, na obra de ambos os pintores se retrata esse mundo reprimido das liberdades absolutas, dessas do corpo e do pensamento, vividas com espectacularidade em antros obscuros como (nos anos 90 do século XIX) o cabaret Moulin Rouge ou (nos anos 80 do século XX) em bares, discotecas e casas de prostituição de Manhattan. Em termos plásticos, diz-se que a obra de Patrick Angus se pode situar entre as de David Hockney e David Park, o que se entende melhor se nos dermos ao trabalho de as confrontar. O traço de Angus é geralmente contido, as cores são carregadas, o motivo permanece distante, a intensidade do momento toca-nos. Como se pode ver aqui, quase sempre retrata, a uma distância prudente, os homens que lhe são próximos e os seus encontros regulares com anónimos que se entregam a uma sexualidade naturalista, aberta e sem limites.

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2006/10/18

edouard dermit, o enfant terrible

A imagem é de «Butterfly», a serigrafia original de Edouard Dermit, assinada à mão e numerada 29/100, com aprox. 50x65 cm, que adquirimos para a nossa casa em Outubro de 2004. Dermit nasceu a 18 de Janeiro de 1925 em Gallignano, Itália, e apesar de ser bastante mais novo do que Jean Cocteau (que nasceu em 1889) foi o seu último companheiro e, por conveniência testamentária, também seu filho adoptivo. Participou em diversos filmes do artista francês: «L'Aigle À Deux Têtes», «Orphée», «Les Enfants Terribles», «La Villa Santo-Sospir» e «Le Testament d'Orphée». Cocteau morreu em 1963 mas no ano seguinte Dermit ainda fez «Thomas le Imposteur», realizado por Georges Franju a partir do conto de Cocteau. Em 1965 conclui em Fréjus os frescos que havia iniciado com o seu companheiro, na Chapel Notre-Dame de Jérusalem (também conhecida por Chapelle Cocteau - que pode ser visitada aqui). Tornou-se antiquário e o maior experto sobre a vida e obra de Jean Cocteau, tendo dirigido a reabilitação da sua casa-museu em Milly-la-Forêt. Edouard Dermit faleceria em Paris, a 15 de Maio de 1995. Tal como no epitáfio do seu amante, que diz "Eu permaneço entre vós", também Edouard permanece entre nós: mesmo à entrada da nossa casa!

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2006/10/17

desconstrução à robert davies

A fotografia de Robert Davies, um inglês nascido em Birmingham, em 1964, pode ser considerada uma arte menor? Que tem ela de especial? Até que ponto pode mesmo ser considerada arte? Estas e outras questões poderiam ser racionalmente exploradas por quem vê na arte algo que está muito para além de um "simples" acto tecnológico aplicado a uma mero momento de futebol! Davies formou-se em 1993 no Royal College of Art, não é um simples habilidoso. Interessa-se pela percepção do quotidiano, pelo detalhe. Nas suas fotos prevalece o abstracto, apesar de ser da realidade que parte e a que nos leva em última análise. Até os seus primeiros retratos da figura humana mais não eram do que uma estranha visualização topográfica das formas do corpo. Todo o trabalho de Bob anda à volta de um conceito de desconstrutivismo, como é o caso ainda dos seus jogadores de futebol (a imagem ao lado é a do jogador brasileiro Carlos Alberto e pode ser adquirida aqui). São imagens feitas a partir de filmes dos grandes jogos, de momentos escolhidos e fotografados e transformados em novas imagens esborratadas e pixeladas (que apontam para um retorno ao pontilhismo de Georges Seurat), onde apenas se preserva o essencial da forma, a saturação da cor... O mais belo da imagem no seu próprio entendimento.

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2006/10/16

sinais dos space invaders

A primeira invasão dos Space Invaders ocorreu em 1978, como se descobrirá adiante. Mas os Space Invaders da geração actual estão no nosso planeta já desde os anos 90, ao contrário do que muitos bons terrestres poderão pensar. Chegaram e instalaram-se de forma insuspeita em mais de 30 cidades em 5 continentes, contando com a colaboração anónima e quase sempre clandestina de um artista francês. Fixaram-se em Paris, em Londres, Amesterdão, Berlim, Los Angeles e até Nova Iorque. De Portugal não se aproximaram mais do que à distância da espanhola Barcelona (na imagem). Os invasores deixam a sua marca onde passam. Uma ou mais vezes. São geralmente placas feitas de pequenos ladrilhos cerâmicos, como se fossem a ampliação do monstro extraterrestre retirado do vídeo-jogo do mesmo nome (o tal que já cá anda desde 1978 e foi trazido por Toshihiro Nishikado, como se pode ver e até jogar aqui). Agora estão fixados em prédios e em monumentos. Nas pontes e nas ruas. Foi em Paris que estiveram pela primeira vez, mas recentemente atingiram 52 sinalizações só em Viena. Estranhos, mas ornamentais, estes invasores do espaço urbano tornam-se amigos da paisagem e dos não menos estranhos terrestres que a preenchem. Pode parecer que não, mas vieram para ficar.

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2006/10/15

paisagens e retratos de david hockney

De 15 de Setembro a 28 de Outubro, a galeria londrina Annely Juda Fine Art expõe 25 novos trabalhos de David Hockney, «A Year in Yorkshire», pintados ao longo do último ano e que representam o ciclo das estações em East Yorkshire, o condado de origem do artista. A exibição inclui duas telas com cerca de 2x4 metros, ambas divididas em seis partes, carregadas de intensidade tonal, de traço imediato e fluído, colorido rico e textural, como no melhor trabalho do artista. O britânico David Hockney nasceu em 1937 em Bradford e estudou no Royal College of Art entre 1959 e 1962. A sua primeira exposição a solo foi em 1963 e a mais recente que teve lugar em Londres, na mesma galeria, aconteceu já em 1977. É um dos maiores artistas da Pop Art e talvez mesmo o maior artista vivo. Após 12 de Outubro também o National Portrait Gallery mostrará na capital britânica, até 21 de Janeiro, uma nova mostra de retrato de David Hockney, intitulada simplesmente «Portrait», como consta aqui. Mostrar-se-ão 150 trabalhos de todas as épocas, incluindo alguns criados para este acontecimento, tratando-se de um género dos mais apreciados na sua obra e que incluirá auto-retratos, retratos de família, de amigos e de amantes.

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2006/10/13

o subconsciente para lucian freud

Nasceu em Berlim em 1922. Face ao advento do nacional-socialismo, em 1933 a família de Lucian Freud deixou a Alemanha e instalou-se em Londres. Os seus primeiros quadros tiveram um toque de Surrealismo. Eram retratos de plantas, de amigos, de familiares, de colegas, de amantes. Dizia: "The subject matter is autobiographical, it's all to do with hope and memory and sensuality and involvement." Entende que a nudez, tal como nos irracionais, deixa ver a animalidade que há nos seus modelos. Por isso os corpos que mostra são também expressões do subconsciente, do indivíduo, do instinto e do desejo. Um caso sério também fora da pintura: casou com diversas mulheres e disse-se (no Sunday Telegraph a 1 de Setembro de 2002) que teve já mais de 40 filhos ilegítimos. Apesar de ser um dos mais importantes artistas na Inglaterra actual, as suas obras foram muito pouco expostas ao longo das décadas. Só em 1996 a Abbot Hall Art Gallery (na remota Kendal) conseguiu reunir um total de 40 obras que expuseram toda a carreira. A Tate Britain proporcionou uma retrospectiva mais alargada, conforme se poder saber aqui, em 2002. Talvez nem fosse necessário dizer que Lucian é neto de Sigmund, o Freud que inventou a psicanálise. Como se isso pudesse ainda surpreender alguém.

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