2006/10/31

o voo rosa de pablo picasso

Qualquer um com a mínima noção de arte já ouviu falar dos períodos azul e rosa na pintura de Picasso. Mas já não será tão fácil, para bastantes, explicar o que afinal representam cada um desses períodos. Neste momento, pela afinidade não inocente com o nome deste blogue, apenas me interessa rever o Período Rosa. Ele corresponde aos anos que ficam entre 1905 e 1907, nos quais o pintor espanhol Pablo Picasso (amigo grande de Cocteau, também ele) se entregou a uma pintura mais quente. Eram os saltimbancos, o circo e o colorido quente de laranja e rosa, que se contrapunha à sensibilidade fria do precedente Período Azul (1901-1904). Diz-se ainda que o Período Rosa é devido ao enamoramento de Pablo pela actriz Fernande Olivier, que ter-lhe-á aquecido a alma durante a sua residência na capital francesa. «Garçon à la Pipe» (na foto) é o quadro mais valioso dessa época. É verdade que nele há também muito azul, mas é algo profundamente quente que transborda na direcção de quem o vê. Ao voo rosa de Pablo Picasso seguiu-se um período pouco conhecido, influenciado por África. Foi por aí que ele chegou ao Cubismo. Poucos saberiam: o FBI considerou-o perigoso e subversivo (ver aqui). E a história vai-se escrevendo.

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2006/10/30

uma casa que também é (álvaro) siza vieira

A Casa Tóló, de Álvaro Leite Siza Vieira, é um dos exemplos mais surpreendentes da nossa nova arquitectura. Situa-se em Ribeira de Pena, na zona montanhosa de Vila Real (Portugal) e é um autêntico arranha-céus construído sobre o declive da colina. Creio que a poderia descrever como uma sucessão de cubos combinados, em que cada cubo corresponde a uma divisão da casa, e que se vão sucedendo lado a lado, uns acima e outros abaixo, relacionando-se harmoniosamente e sendo ligados entre si por uma escadaria que (quase) nunca acaba. É lindo de se ver, pelo menos em fotografia, mas não é casa para qualquer um. Eu imagino o cansaço que será andar para cima e para baixo todo o dia, mesmo para alguém que tenha energias... Não se disse, mas é bom que seja sublinhado que o arquitecto que a desenhou é filho de Siza Vieira, essoutro tão conhecido e respeitado em todo o lado. Lê-se algures, a propósito da intenção do arquitecto, que havia que construir com um orçamento reduzido e, portanto, se evitou escavar a encosta e assim edificou sobre o terreno com a inclinação de 33 graus. O resultado é no mínimo surpreendente. E está à venda no momento deste artigo, como se pode ver aqui. Se tem pernas e dinheiro, compre porque junto com a casa leva uma obra de arte sem igual.

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2006/10/29

michael kirwan, intenso e in-convencional

Michael Kirwan nasceu em Nova Iorque em 1953, onde frequentou a escola experimental para rapazes da Congregation of Christian Brothers. Gostava de desenhar usando uma simples esferográfica sobre sacos de mercearia. A perversão e irreverência dão lugar a problemas que põe frequentemente o jovem Michael de castigo. Apaixona-se e casa, sendo pai 6 meses depois, trabalhando de 1973 a 79 como empregado comercial. Acusado de irresponsabilidade e homossexualidade continuada o seu casamento desfaz-se. Em 1980 assume-se como gay e procura novo emprego. Consegue-o num balneário da East Village, o bairro de Manhattan a rebentar de arte e cultura. A revista Stroke é a primeira a publicar alguns dos seus desenhos, em 1986. Sem outro trabalho, de Nova Iorque segue para Miami ao encontro dum amigo dono do famoso restaurante Strand, que arderia em 1990. Volta a procurar trabalho e consegue-o através de encomendas de ilustrações para revistas como a Freshmen, Gent, Inches, Playguy, Sugah, Torso e outras. É um dos mais famosos artistas eróticos da actualidade e vive hoje em Los Angeles. Diz que o erotismo é a forma mais popular de arte e retrata dessa forma a sexualidade, numa variedade ampla de figuras e formas, idades, etnias e capacidades (ler aqui), com uma expressão intensa, detalhada e colorida, em clara oposição com o mundo convencional.

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2006/10/27

amor pour moi

É tão bom receber um presente inesperado, tanto mais quando ele vem de quem mais amamos e é tão bem escolhido. Falo do meu companheiro e do novo perfume da Cacharel, Amor Pour Homme, que dele recebi no passado dia 25. Este novo Amor é o primeiro perfume masculino da marca, desde há 7 anos. Ele é também o equivalente masculino ao já famoso Amor Amor de 2003. Enquanto no feminino o frasco era intensamente vermelho, no masculino é intensamente azul. De alguma forma mantêm-se os códigos sexuais, mas reescritos de forma enérgica e actual. Não há muito mais que eu queira dizer, pois toda a informação que poderia acrescentar só tornaria menos intenso o momento que se pretende aqui recordar, o gesto, a presença. Com um belo modelo, o cartaz da Cacharel apela ao Amor de forma simples e feliz. É isso que eu quero para mim e para nós e, se era essa a intenção, Ele acertou plenamente. Obrigado, querido, por todos os presentinhos e pelo teu amor!

antony gormley reinventa a escultura

Há uma centena de esculturas humanas dispersas à borda da água, ao longo dos 3 quilómetros da praia de Crosby, em Liverpool. São todas iguais, feitas num ferro fundido ao tamanho real, e representam em pacífica nudez o seu próprio autor: o escultor britânico Antony Gormley, nascido em 1950. A obra foi intitulada «Another Place» e, mais do que um simples conjunto de escultura, é na verdadeira acepção uma instalação de arte. Estão lá desde Julho de 2005 e recentemente questionou-se se aí deveriam continuar ou não, por motivos de segurança, já que quase houve um acidente com três nadadoras curiosas e arrojadas, que se dirigiram à estátua mais afastada da praia. O certo é que as esculturas foram visitadas por meio milhão de pessoas e tornaram-se num símbolo actual para a terra de onde saíram os Beatles e que em 2008 espera ser Capital Europeia da Cultura (ver cartaz aqui). O seu destino seria Nova Iorque, mas um grupo de admiradores terá conseguido reunir os 3 milhões de euros necessários para ficar tudo na mesma. Antony Gormley não gosta de falar de si próprio, ou da sua arte, mas é dele a afirmação "I think of sculpture as something coming up from under the earth, becoming as we all are earth above ground, but retaining a feeling of having been hidden and then revealed". A arte sobrevive ao tempo, mas é sempre tempo de ser criativo e de a reinventar.

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2006/10/26

donde está alfreda benge

Alfreda Benge é a mulher de Robert Wyatt, fundador nos anos 60 e 70 dos grupos The Wilde Flowers (homenagem a Oscar Wilde), Soft Machine (livro de William S. Burroughs) e Matching Mole (trocadilho com machine molle, de soft machine). Alfie (o diminutivo carinhoso) foi assistente do realizador Nicolas Roeg, que fez «The Man Who Fell to Earth», com David Bowie como o belo extraterrestre (por muita coincidência, ou talvez não tanta, William Burroughs e Nicolas Roeg usaram recorrentemente técnicas designadas por cut-up, ou seja uma forma de recorte e colagem aleatória numa produção artística, para suscitar efeitos imprevistos e repetitivos). Benge namorou Warren Beatty e com ele conheceu Robert, que ficou relegado a uma cadeira de rodas em 1973, por ter caído dum 3º andar. Ambos foram a sua maior ajuda nesses tempos, mas o galã do cinema acabou por seguir o seu caminho deixando Alfie e Bob juntos para sempre (aqui há mais detalhe). Companheira de um homem fisicamente diminuído mas intelectualmente brilhante, a sua arte foi tomando forma e visibilidade, ganhando espaço nas capas dos discos de Robert e amigos. Diz-se que «Dondestan» retrata a passagem do casal pela Nazaré e, em detalhe, vê-se mesmo o jornal comunista Avante! sobre a mesa.

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2006/10/25

sempre (20 anos)

Na página de um fanzine cultural dos anos 80, reencontro um fragmento de texto atribuído a Jean Genet: Amaste-o demais, e o amor excessivo repugna. Um amor demasiado grande transtorna os órgãos e todas as profundezas, e o que sobe à superfície causa náuseas. As vossas faces são címbalos, que nunca chocam, mas que deslizam em silêncio um pela superfície do outro. Genet escreveu «Querelle de Brest» em 1947 e este texto deve ter origem aí. Em 1982 Reiner Werner Fassbinder realiza a correspondente versão cinematográfica que, tal como o livro original, se torna num símbolo da cultura gay. Entre as duas datas nascemos nós, um em Lisboa e o outro no Porto. Os nossos caminhos cruzam-se em 1986 e a partir daí começámos a sair juntos. É nesse ano, também, que a editora discográfica Ama Romanta se estreia e coloca em circulação o duplo álbum «Divergências». Uma arrojada antologia discográfica com muitas preciosidades musicais, recentemente transferidas para o CD «Sempre». Em ambos se encontra a canção «La Feria», dos Essa Entente (na foto, da época):

Passo o tempo à espera que venhas,
durante a noite sou um louco sem ti.
Num lençol pequeno demais para um,
lençol branco?! Noites sem fim...

À noite espero que te faça esquecer,
o tempo perdido que passaste com elas.
A noite chega, uma lágrima seca,
História de amor?! Qual a tua razão?

Passo o tempo à espera que chegues,
num lençol grande demais para os dois.
À noite espero que te faça esquecer,
lençol branco?! Noites sem fim!

Porquê a razão de nunca sermos dois,
nem que a tarde faça esquecer alguém.
Porquê lembrar o meu corpo em repouso?
Só lembro um beijo nos meus lábios, rapaz...

(Volta rapaz, agora que já sabes as voltas
que eu te armei no lençol, e quanto era
falso...
...acaba com isso!!!)

Como se ligam o «Querelle» de Genet e Fassbinder, com o «La Feria» dos Essa Entente, e nós próprios? Entre os dois primeiros há a particularidade de La Feria ser o nome do bordel de Brest onde o marinheiro George Querelle mais gosta de "navegar". Entre o «La Feria» do álbum e nós há várias particularidades, mas a mais curiosa é que um dia tínhamos connosco o disco numa visita nocturna à discoteca Busto's, a mais queer da época no Porto. Nada foi planeado, mas acabámos por encher-nos de coragem e pedir à DJ para passar o «La Feria». Explicámos o contexto, ela ouviu, gostou e passou. Tanto assim que lhe deixámos o disco, para que o ouvisse melhor. E foi ficando pois sempre que voltávamos a vistosa DJ punha a canção para nós... Sempre! Esta história tem quase 20 anos, pois esse é o tempo que hoje perfaz desde que nos conhecemos.

2006/10/24

a figura de patrick procktor

Há um disco de Elton John que tem na capa uma imagem muito bonita: «Blue Moves» (aqui pode ser vista, pois não é a que está ao lado). O seu autor foi Patrick Procktor, artista britânico que nasceu em 1936. Na verdade, ele nasceu em Dublin: era o filho mais novo do contabilista de uma companhia petrolífera, mas aos 4 anos, com a morte do pai, mudou-se para Londres. Na sua passagem pela Highgate School foi aluno do pintor paisagista Kyffin Williams. Mas teve que abandonar a escola, para procurar trabalho e ajudar a família. Ingressou depois na Royal Navy onde viria a aprender Russo. Foi intérprete do British Council e a pintura surgiu como mera ocupação dos tempos livres. As suas influências terão sido a arte figurativa e artistas como William Coldstream ou Keith Vaughan. Em 1958 concorreu à Slade School of Fine Art e foi admitido. Em 1962 torna-se artista profissional e no ano seguinte expõe em Londres (The Redfern Gallery), conquistando a admiração de artistas ligados à música e artes do espectáculo. Tornou-se conviva de homens de arte como Derek Jarman, Francis Bacon e Cecil Beaton. O seu amor por Gervase Griffiths tornou inequívoca a sua homossexualidade, mas em 1973 casaria com Kristen Benson. Foi eleito membro da Royal Academy em 1996, morrendo com 67 anos de idade em 2003.

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as ovelhas de jean-luc cornec

The Silence Of The Lambs?... Não, pois nem se tratam de cordeiros, mas de ovelhas, neste caso. E estas são mesmo muito diferentes das outras, a que nos habituámos. Não são de carne e osso, nem se dão por diminutivos como se fossem saídas de um conto infantil ou mesmo de uma história de ficção científica. Existem, podem ser vistas, tocadas até e, creio bem, ouvidas também. Se são funcionais ou não, é o que menos importa. São arte e estão à vista de todos que invistam no Museum für Kommunikation (o Museu das Comunicações, em Frankfurt, Alemanha, a constatar aqui). Foram feitas com fio eléctrico e outro equipamento telefónico. O seu nome não é simples, pelo menos para um simples lusitano como eu: Telefonschafe; mas, feitas as consultas, creio confiadamente que se traduz por "Ovelha-Telefone". Elas têm um autor: o artista plástico bretão Jean-Luc Cornec. Arrisco também que é bem possível que o século XXI venha a ser considerado o das comunicações. Mas o certo é que cada vez menos poderemos encontrar aquele ambiente pastoril que caracterizou a Europa em muitas décadas do século XX. Não estará longe o dia em que só ouviremos estas ou outras ovelhas semelhantes a balir. Bastará que o mundo continue a sua marcha actual e alguém ligue o número certo!

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2006/10/23

diálogos de amadeo de souza-cardoso

A partir de 15 de Novembro poder-se-á ver a nova exposição de Amadeo de Souza-Cardoso que vai exibir obras de 1907-1918 (quase todo o seu período de actividade) relacionadas com as cumplicidades artísticas do seu tempo. Serão cerca de 260 obras, podendo tornar-se num acontecimento de referência para os apreciadores de Amadeo. «Diálogos de Vanguarda» estará em Lisboa até 14 de Janeiro no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. O pintor português nasceu em Amarante, em 1887 (aqui há uma ligação à cidade). Em Lisboa frequentou a Academia de Belas Artes antes de em 1906 irromper em Paris, onde tomaria contacto com as novas vanguardas europeias. Regressou em 1913 e foi o percursor da arte moderna, fazendo exposições pouco convencionais no Porto e em Lisboa, ainda que bem menos estranhas na Europa e Estados Unidos. Estava em Barcelona com Antoni Gaudí quando, em 1914, foi surpreendido pelo rebentar da I Grande Guerra. Regressa e em 1916 expõe no Porto um total de 114 obras intituladas «Abstraccionismo», que depois seguem para Lisboa, provocando escândalos atrás de escândalos. Morreu em 1918 e apenas 7 anos depois Paris rende-lhe uma calorosa homenagem. Em Portugal é criado o Prêmio Souza-Cardoso em 1935, para distinguir pintores modernistas.

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