2006/11/03

les demi dieux: a fotografia dos deuses

Nos tempos antigos das mitologias grega e romana, os semideuses eram os filhos dos deuses que tinham companheiros mortais. Viviam entre os humanos, onde se destacavam pelo seu invulgar vigor. Hércules é um dos mais famosos desse tempo. Já nas décadas de 50 e 60 do século XX, era com o nome de Les Demi Dieux que um estúdio norte-americano de fotografia erótica labutava na procura de uma estética original e alternativa à que então se fazia nos meios mais próximos. Os primeiros modelos foram encontrados em Richard Bennett, Jerry Albanese, Vince Perri e Orest Dasz. A busca de originalidade fez com que as fotos assinadas com o nome do estúdio (na verdade era um fotógrafo só) não fossem de simples nacos de carne expostos a algum holofote de cinema. Na verdade foram até os miúdos de rua (ao lado «Brooklyn Street Corner», foto do início dos anos 60) que ofereceram alguns dos melhores momentos de beleza e sedução. Ao bom estilo da melhor fotografia europeia (e francesa, especialmente), as que revemos (aqui, por exemplo) são imagens com charme, suavidade, harmonia. Havia até um desejo evidente estampado na face dos modelos, que do lado de cá se captava e devolvia. Os semideuses do século XX mereciam bem os companheiros mortais.

Importado do blogue l'avion rose

2006/11/02

anjos e demónios de attila richard lukacs

Nasceu em 1962, no Canadá, Attila Richard Lukacs. Tinha 23 anos quando obteve com distinção o seu diploma pelo Emily Carr Institute of Art and Design, de Vancouver. No ano seguinte viajou para a Alemanha, trabalhando no Künstlerhaus Bethanien Berlin. Foi em 1996 que decidiu seguir um novo rumo e se transferiu com telas e bagagem para Nova Iorque. Nessa altura era já conhecido pelos seus retratos de skinheads e recrutas nus ou em poses homo-eróticas. Eram retratos do fim da adolescência, dos rituais de passagem. Nos seus quadros encontravam-se todos os fetiches que fariam o melhor em cada género: as fardas vistosas, as roupas desportivas, os jeans apertados, os Doc Martens, os polos Fred Perry... Uma ou outra vez, as suas obras foram consideradas pornográficas. Há nelas também referências à pintura clássica ocidental (a Caravaggio, por exemplo) e oriental (à da Índia e do Irão, em especial). Há um par de anos foi lançado o documentário de David Vaisbord, «Drawing Out The Demons» (ver aqui), que documenta a vida e obra deste artista. Vive presentemente entre Nova Iorque, Vancouver e o Havai. Também pinta árvores, além dos seus pequenos bandos de anjos e de demónios.

Importado do blogue l'avion rose

2006/10/31

o voo rosa de pablo picasso

Qualquer um com a mínima noção de arte já ouviu falar dos períodos azul e rosa na pintura de Picasso. Mas já não será tão fácil, para bastantes, explicar o que afinal representam cada um desses períodos. Neste momento, pela afinidade não inocente com o nome deste blogue, apenas me interessa rever o Período Rosa. Ele corresponde aos anos que ficam entre 1905 e 1907, nos quais o pintor espanhol Pablo Picasso (amigo grande de Cocteau, também ele) se entregou a uma pintura mais quente. Eram os saltimbancos, o circo e o colorido quente de laranja e rosa, que se contrapunha à sensibilidade fria do precedente Período Azul (1901-1904). Diz-se ainda que o Período Rosa é devido ao enamoramento de Pablo pela actriz Fernande Olivier, que ter-lhe-á aquecido a alma durante a sua residência na capital francesa. «Garçon à la Pipe» (na foto) é o quadro mais valioso dessa época. É verdade que nele há também muito azul, mas é algo profundamente quente que transborda na direcção de quem o vê. Ao voo rosa de Pablo Picasso seguiu-se um período pouco conhecido, influenciado por África. Foi por aí que ele chegou ao Cubismo. Poucos saberiam: o FBI considerou-o perigoso e subversivo (ver aqui). E a história vai-se escrevendo.

Importado do blogue l'avion rose

2006/10/30

uma casa que também é (álvaro) siza vieira

A Casa Tóló, de Álvaro Leite Siza Vieira, é um dos exemplos mais surpreendentes da nossa nova arquitectura. Situa-se em Ribeira de Pena, na zona montanhosa de Vila Real (Portugal) e é um autêntico arranha-céus construído sobre o declive da colina. Creio que a poderia descrever como uma sucessão de cubos combinados, em que cada cubo corresponde a uma divisão da casa, e que se vão sucedendo lado a lado, uns acima e outros abaixo, relacionando-se harmoniosamente e sendo ligados entre si por uma escadaria que (quase) nunca acaba. É lindo de se ver, pelo menos em fotografia, mas não é casa para qualquer um. Eu imagino o cansaço que será andar para cima e para baixo todo o dia, mesmo para alguém que tenha energias... Não se disse, mas é bom que seja sublinhado que o arquitecto que a desenhou é filho de Siza Vieira, essoutro tão conhecido e respeitado em todo o lado. Lê-se algures, a propósito da intenção do arquitecto, que havia que construir com um orçamento reduzido e, portanto, se evitou escavar a encosta e assim edificou sobre o terreno com a inclinação de 33 graus. O resultado é no mínimo surpreendente. E está à venda no momento deste artigo, como se pode ver aqui. Se tem pernas e dinheiro, compre porque junto com a casa leva uma obra de arte sem igual.

Importado do blogue l'avion rose

2006/10/29

michael kirwan, intenso e in-convencional

Michael Kirwan nasceu em Nova Iorque em 1953, onde frequentou a escola experimental para rapazes da Congregation of Christian Brothers. Gostava de desenhar usando uma simples esferográfica sobre sacos de mercearia. A perversão e irreverência dão lugar a problemas que põe frequentemente o jovem Michael de castigo. Apaixona-se e casa, sendo pai 6 meses depois, trabalhando de 1973 a 79 como empregado comercial. Acusado de irresponsabilidade e homossexualidade continuada o seu casamento desfaz-se. Em 1980 assume-se como gay e procura novo emprego. Consegue-o num balneário da East Village, o bairro de Manhattan a rebentar de arte e cultura. A revista Stroke é a primeira a publicar alguns dos seus desenhos, em 1986. Sem outro trabalho, de Nova Iorque segue para Miami ao encontro dum amigo dono do famoso restaurante Strand, que arderia em 1990. Volta a procurar trabalho e consegue-o através de encomendas de ilustrações para revistas como a Freshmen, Gent, Inches, Playguy, Sugah, Torso e outras. É um dos mais famosos artistas eróticos da actualidade e vive hoje em Los Angeles. Diz que o erotismo é a forma mais popular de arte e retrata dessa forma a sexualidade, numa variedade ampla de figuras e formas, idades, etnias e capacidades (ler aqui), com uma expressão intensa, detalhada e colorida, em clara oposição com o mundo convencional.

Importado do blogue l'avion rose

2006/10/27

amor pour moi

É tão bom receber um presente inesperado, tanto mais quando ele vem de quem mais amamos e é tão bem escolhido. Falo do meu companheiro e do novo perfume da Cacharel, Amor Pour Homme, que dele recebi no passado dia 25. Este novo Amor é o primeiro perfume masculino da marca, desde há 7 anos. Ele é também o equivalente masculino ao já famoso Amor Amor de 2003. Enquanto no feminino o frasco era intensamente vermelho, no masculino é intensamente azul. De alguma forma mantêm-se os códigos sexuais, mas reescritos de forma enérgica e actual. Não há muito mais que eu queira dizer, pois toda a informação que poderia acrescentar só tornaria menos intenso o momento que se pretende aqui recordar, o gesto, a presença. Com um belo modelo, o cartaz da Cacharel apela ao Amor de forma simples e feliz. É isso que eu quero para mim e para nós e, se era essa a intenção, Ele acertou plenamente. Obrigado, querido, por todos os presentinhos e pelo teu amor!

antony gormley reinventa a escultura

Há uma centena de esculturas humanas dispersas à borda da água, ao longo dos 3 quilómetros da praia de Crosby, em Liverpool. São todas iguais, feitas num ferro fundido ao tamanho real, e representam em pacífica nudez o seu próprio autor: o escultor britânico Antony Gormley, nascido em 1950. A obra foi intitulada «Another Place» e, mais do que um simples conjunto de escultura, é na verdadeira acepção uma instalação de arte. Estão lá desde Julho de 2005 e recentemente questionou-se se aí deveriam continuar ou não, por motivos de segurança, já que quase houve um acidente com três nadadoras curiosas e arrojadas, que se dirigiram à estátua mais afastada da praia. O certo é que as esculturas foram visitadas por meio milhão de pessoas e tornaram-se num símbolo actual para a terra de onde saíram os Beatles e que em 2008 espera ser Capital Europeia da Cultura (ver cartaz aqui). O seu destino seria Nova Iorque, mas um grupo de admiradores terá conseguido reunir os 3 milhões de euros necessários para ficar tudo na mesma. Antony Gormley não gosta de falar de si próprio, ou da sua arte, mas é dele a afirmação "I think of sculpture as something coming up from under the earth, becoming as we all are earth above ground, but retaining a feeling of having been hidden and then revealed". A arte sobrevive ao tempo, mas é sempre tempo de ser criativo e de a reinventar.

Importado do blogue l'avion rose

2006/10/26

donde está alfreda benge

Alfreda Benge é a mulher de Robert Wyatt, fundador nos anos 60 e 70 dos grupos The Wilde Flowers (homenagem a Oscar Wilde), Soft Machine (livro de William S. Burroughs) e Matching Mole (trocadilho com machine molle, de soft machine). Alfie (o diminutivo carinhoso) foi assistente do realizador Nicolas Roeg, que fez «The Man Who Fell to Earth», com David Bowie como o belo extraterrestre (por muita coincidência, ou talvez não tanta, William Burroughs e Nicolas Roeg usaram recorrentemente técnicas designadas por cut-up, ou seja uma forma de recorte e colagem aleatória numa produção artística, para suscitar efeitos imprevistos e repetitivos). Benge namorou Warren Beatty e com ele conheceu Robert, que ficou relegado a uma cadeira de rodas em 1973, por ter caído dum 3º andar. Ambos foram a sua maior ajuda nesses tempos, mas o galã do cinema acabou por seguir o seu caminho deixando Alfie e Bob juntos para sempre (aqui há mais detalhe). Companheira de um homem fisicamente diminuído mas intelectualmente brilhante, a sua arte foi tomando forma e visibilidade, ganhando espaço nas capas dos discos de Robert e amigos. Diz-se que «Dondestan» retrata a passagem do casal pela Nazaré e, em detalhe, vê-se mesmo o jornal comunista Avante! sobre a mesa.

Importado do blogue l'avion rose

2006/10/25

sempre (20 anos)

Na página de um fanzine cultural dos anos 80, reencontro um fragmento de texto atribuído a Jean Genet: Amaste-o demais, e o amor excessivo repugna. Um amor demasiado grande transtorna os órgãos e todas as profundezas, e o que sobe à superfície causa náuseas. As vossas faces são címbalos, que nunca chocam, mas que deslizam em silêncio um pela superfície do outro. Genet escreveu «Querelle de Brest» em 1947 e este texto deve ter origem aí. Em 1982 Reiner Werner Fassbinder realiza a correspondente versão cinematográfica que, tal como o livro original, se torna num símbolo da cultura gay. Entre as duas datas nascemos nós, um em Lisboa e o outro no Porto. Os nossos caminhos cruzam-se em 1986 e a partir daí começámos a sair juntos. É nesse ano, também, que a editora discográfica Ama Romanta se estreia e coloca em circulação o duplo álbum «Divergências». Uma arrojada antologia discográfica com muitas preciosidades musicais, recentemente transferidas para o CD «Sempre». Em ambos se encontra a canção «La Feria», dos Essa Entente (na foto, da época):

Passo o tempo à espera que venhas,
durante a noite sou um louco sem ti.
Num lençol pequeno demais para um,
lençol branco?! Noites sem fim...

À noite espero que te faça esquecer,
o tempo perdido que passaste com elas.
A noite chega, uma lágrima seca,
História de amor?! Qual a tua razão?

Passo o tempo à espera que chegues,
num lençol grande demais para os dois.
À noite espero que te faça esquecer,
lençol branco?! Noites sem fim!

Porquê a razão de nunca sermos dois,
nem que a tarde faça esquecer alguém.
Porquê lembrar o meu corpo em repouso?
Só lembro um beijo nos meus lábios, rapaz...

(Volta rapaz, agora que já sabes as voltas
que eu te armei no lençol, e quanto era
falso...
...acaba com isso!!!)

Como se ligam o «Querelle» de Genet e Fassbinder, com o «La Feria» dos Essa Entente, e nós próprios? Entre os dois primeiros há a particularidade de La Feria ser o nome do bordel de Brest onde o marinheiro George Querelle mais gosta de "navegar". Entre o «La Feria» do álbum e nós há várias particularidades, mas a mais curiosa é que um dia tínhamos connosco o disco numa visita nocturna à discoteca Busto's, a mais queer da época no Porto. Nada foi planeado, mas acabámos por encher-nos de coragem e pedir à DJ para passar o «La Feria». Explicámos o contexto, ela ouviu, gostou e passou. Tanto assim que lhe deixámos o disco, para que o ouvisse melhor. E foi ficando pois sempre que voltávamos a vistosa DJ punha a canção para nós... Sempre! Esta história tem quase 20 anos, pois esse é o tempo que hoje perfaz desde que nos conhecemos.

2006/10/24

a figura de patrick procktor

Há um disco de Elton John que tem na capa uma imagem muito bonita: «Blue Moves» (aqui pode ser vista, pois não é a que está ao lado). O seu autor foi Patrick Procktor, artista britânico que nasceu em 1936. Na verdade, ele nasceu em Dublin: era o filho mais novo do contabilista de uma companhia petrolífera, mas aos 4 anos, com a morte do pai, mudou-se para Londres. Na sua passagem pela Highgate School foi aluno do pintor paisagista Kyffin Williams. Mas teve que abandonar a escola, para procurar trabalho e ajudar a família. Ingressou depois na Royal Navy onde viria a aprender Russo. Foi intérprete do British Council e a pintura surgiu como mera ocupação dos tempos livres. As suas influências terão sido a arte figurativa e artistas como William Coldstream ou Keith Vaughan. Em 1958 concorreu à Slade School of Fine Art e foi admitido. Em 1962 torna-se artista profissional e no ano seguinte expõe em Londres (The Redfern Gallery), conquistando a admiração de artistas ligados à música e artes do espectáculo. Tornou-se conviva de homens de arte como Derek Jarman, Francis Bacon e Cecil Beaton. O seu amor por Gervase Griffiths tornou inequívoca a sua homossexualidade, mas em 1973 casaria com Kristen Benson. Foi eleito membro da Royal Academy em 1996, morrendo com 67 anos de idade em 2003.

Importado do blogue l'avion rose