2006/12/11

alison jackson: o principezinho vai nu

Nasceu em 1960. Alison Jackson, a fotógrafa inglesa conhecida pelos seus falsos instantâneos detalhadamente elaborados. Não a conhecem? São famosas as suas fotografias da rainha Elisabeth II, do primeiro-ministro Tony Blair, do principezinho William, da super-princesa Diana (de boa memória), ou do presidente George W. Bush (o mesmo não se dirá). Começou como escultora e foi mesmo premiada como tal pelo Chelsea College of Art. Só depois se virou para os banhos de prata (refiro-me aos banhos da fotografia) ingressando no também londrino Royal College of Art. A sua popularidade atingiu um pico em 1999 com a exposição de "retratos de família" da princesa Diana e Dodi Al-Fayed. A fotógrafa usou para tal sócias das personalidades visadas, compondo imagens convincentes mas altamente improváveis, como era já seu costume. A artista, de origem aristocrática, vive actualmente numa sumptuosa mansão de uma das ruas mais faustosas do bairro de Chelsea. Faz TV desde 2001 (primeiro para a BBC e agora para o Channel 4) e tem um livro editado em 2004 pela Penguin. Encontram-no aqui e, mesmo que não chegue a tempo deste Natal, a compra vale sempre a pena. Até porque, afinal, o principezinho vai nu.

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2006/12/08

na barbearia de marc da cunha lopes

Há uma década atrás comprei uma máquina de cortar cabelo, para que o passasse a cortar em casa. Só muito recentemente é que consegui convencer o meu companheiro a fazê-lo também. Nestes dez anos que passaram poupei dinheiro que deu para pagar a máquina e, se o amealhasse, teria dado também para umas pequenas férias e, agora que somos dois a fazê-lo, a poupança duplicou. Mas esse nem é sequer o lado melhor da opção. Cortar o cabelo, um ao outro, tornou-se num fétiche sexual que faz com que as nossas cabeças andem sempre bem aparadas. Também Marc da Cunha Lopes encontrou nos cortes de cabelo um tema apelativo para as suas belas fotografias. Criativo como fotógrafo de arte, moda e publicidade, trabalhou para nomes famosos como a Sony Playstation, a Pink TV, ou as revistas Wich, Anthem e PrefMag (que pode ser apreciada aqui). Cunha Lopes é inequivocamente um artista de origem lusófona que vive em França, como se pode ver pelo contacto do seu site. Sobre ele esperamos no futuro poder acrescentar algo mais. Por cá teremos novo corte de cabelo neste fim-de-semana e, para além das actividades habituais, talvez aproveitemos a inspiração para também fazer fotografia.

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a sagração

Tenho um interesse especial pela música contemporânea que, como acontece com as artes plásticas, parece despertar em muita gente a mais viva desconfiança. E porque carga de água haveria eu de me interessar por um Alban Berg (que, diga-se de passagem é já um clássico) quando o Verdi me passa ao lado? Há gente maliciosa que acredita que é por pretensão mas, tal como a água benta, digo em minha defesa que dela tomo muito pouco. Fascina-me a dissonância, talvez, um certo espírito de defesa da diferença e a ambiguidade implícita na dicotomia clássico/contemporâneo. Por uma qualquer razão que desconheço, as pessoas parecem aceitar melhor, apesar de tudo, a contemporaneidade na arte (plástica) do que na música, mas as razões para isso, das neurológicas às culturais, são demasiado complexas para aqui e para mim. Há duas peças fundadoras em particular que me apaixonaram e introduziram no mundo da música moderna: o «Pierrot Lunaire» de Schoenberg (que a Sociedade Porto 2001 não deixou que eu visse o Pierre Boulez a dirigir) e a «Sagração da Primavera» de Stravinsky. Esta última, obra prima incontestada da música do século XX, que enfureceu o público na sua estreia, vai ser apresentada em concerto na Casa da Música pela Orquestra Nacional do Porto, no dia 16 às 21h00, em conjunto com obras de Richard Strauss e Sofia Gubaidulina. Recomendo (passo a pretensão) vivamente a compra de um bilhete, e se a música não for motivação suficiente, há ainda a razão filantrópica de última hora, porque a Casa da Música resolveu oferecer o concerto à Abraço.

2006/12/07

flipbooks ao estilo de scott blake

Scott Blake nasceu em 1976 em Tampa, na Florida, vivendo actualmente em Omaha, no Nebraska. Ao aproximar-se a chegada do ano 2000 anunciava-se por todo o lado a iminência de um ímpar problema informático, um Apocalipse digno das melhores novelas de ficção científica. Na jovialidade e criatividade dos seus 24 anos, ele lembrou-se de recorrer ao programa Photoshop e começar a conceber uma imagem nunca imaginada de Jesus. O Cristo da salvação era assim convocado à problemática da passagem do milénio, compondo o retrato apenas com vulgares códigos de barras produzidos no seu próprio computador. O bug está hoje mais que ultrapassado e esquecido, mas a obra deste artista inovador continua a ser produzida e lembrada. Por todo o mundo o seu trabalho tem merecido admiração, sendo exibido em galerias de arte, vendido em lojas ou por via postal e disponibilizado na internet. Entre as suas mais recentes criações está um flipbook sobre o 11 de Setembro. E um kit para produzir em computador livros com pequenas sequências animadas (flipbooks) ao gosto de cada um: encontram-no aqui, à disposição de todos, propiciando aos mais habilidosos e criativos um interessante presente de Natal, ou uma experiência invulgar.

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stonewall over the rainbow

«Over The Rainbow» está intimamente ligada à discoteca Stonewall (na foto), de Nova Iorque. A sua clientela era maioritariamente gay e underground. Estávamos em 1969 em Greenwich Village e, lá dentro, na noite que antecedeu a madrugada de 28 de Junho, «Somewhere Over The Rainbow» ouvia-se pela voz da diva Judy Garland. Todo esse tipo de figuras que povoa o celulóide de Andy Warhol e Paul Morrissey dançava, bebia, beijava e convivia. Uma rusga policial entrou pelo estabelecimento dentro, fechou as saídas e deteve homens e mulheres identificados como homossexuais, bissexuais ou transexuais. Um quarto de hora depois a polícia anunciava que deixaria sair quem tivesse consigo identificação pessoal. Detidos ainda ficaram, no entanto, não só os que não puderam identificar-se como também todos os transexuais. Apesar disso, os clientes revoltaram-se contra a autoridade e alguns conseguiram mesmo escapar-se para o exterior. Ao longo da madrugada, a polícia foi libertando alguns dos detidos, que depois se juntavam à crescente multidão que se juntava no exterior. A situação acabou por explodir e fazer de Stonewall a primeira batalha política pela igualdade nos direitos entre todos, indistintamente do género sexual. LGTB é a sigla que nos dias de hoje abarca os géneros não heterossexuais que lutam pela igualdade e universalidade dos direitos civis. Stonewall sobrevive na memória histórica do século XX, «Somewhere Over The Rainbow» continua a ser o seu hino e, talvez por isso mesmo, o artista Gilbert Baker fez no ano seguinte, com esse mesmo arco-íris, a bandeira que foi usada pela primeira vez no Gay Pride de San Francisco e sob a qual hoje todos desfilamos quando ousamos reivindicar os nossos direitos.

2006/12/06

lonsam, artista erótico japonês

A arte erótica deve ser encarada como o resultado da conjunção harmoniosa de um par de valores: o erotismo e a arte. Quer um, quer outra, apelam de diferentes maneiras a cada um dos observadores: para uns a arte tem que obedecer a determinados padrões, mas para outros não; para uns o erotismo deve circunscrever-se a determinados limites, outros preferem que os limites sejam infringidos e alargados. Descobri-o aqui e o seu trabalho pareceu-me suficientemente interessante para que fosse divulgado, mesmo quando quase nada se sabe do seu autor. Como muitos outros artistas, felizmente, LonSam é um desses criadores obscuros que nos arrebatam de alguma maneira. O seu trabalho reflecte as fantasias (homo) sexuais de um japonês entregue à cultura do seu país. Foram poucas mais que 30 as imagens de LonSam que descobrimos mas por elas podemos ver que é um artista preocupado com um ideal de perfeição e com o detalhe. O resultado são essas belas ilustrações muito explícitas e provocantes, elaboradas sobre fotografias da sua própria autoria, que em pleno exaltam um erotismo menos convencional. Também por isso esperamos mais, num destes dias.

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2006/12/05

os narcisos de duane michals

O Narciso da parábola do poeta poderia ser o modelo desta bela foto de Duane Michals... O fotógrafo nasceu em 1932 numa família operária da Pensilvânia. A arte começa a dominar os seus interesses aos 14 anos, altura em que frequenta um seminário de aguarela no Instituto Carnegie, em Pittsburgh. Meia dúzia de anos depois decide investir a sua bolsa de estudo numa carreira virada para as belas-artes e em especial para o surrealismo de Magritte, Chirico e Balthus. O design gráfico seria o passo seguinte e a partir de 1956 frequenta a Parsons School of Design, em Nova Iorque, mas só por um ano. Sai para seguir carreira em artes gráficas e publicidade e, por essa via, é levado a uma visita de 3 semanas à União Soviética, em consequência da qual sente uma atracção especial pela experiência fotográfica. Autodidacta e criativo absoluto, nas suas viagens faz invulgares retratos das pessoas com quem se envolve. Nunca visto como um verdadeiro fotógrafo pelos seus modelos é talvez por isso, também, que as suas fotos revelam simplicidade e verdade. Sem nunca ter montado um estúdio, Duane Michals vive da fotografia desde 1969. Na sua obra predominam as sequências fotográficas que contam alguma história, onde acrescenta por vezes um pequeno texto que integra o conjunto. O seu livro «Salute, Walt Whitman», a que se refere aqui, é uma obra a descobrir.

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2006/12/04

francis bacon e a repulsa do belo

Há um par de anos ouvi de um amigo algo que não esperava: que a pintura de Francis Bacon faz jus ao seu nome, porque mais parece a retratação de pedaços de carne num talho. Francis Bacon (1909-1992) foi um dos mais inovadores artistas plásticos britânicos da segunda metade do século XX. Nasceu na irlandesa Dublin de Joyce e Wilde, e também ele se dedicou em muito a analisar e interpretar temas polémicos como a sexualidade, a religião, a transgressão do sagrado. A sua primeira exposição aconteceu em 1945, mas nessa época era só de paz que se queria falar. Corpos mutilados, cores carregadas e intensas, traços arrastados, esmagados, caracterizavam a sua obra e tal não era oportuno no momento. Então, como hoje, aqueles quadros provocavam repulsa. Mas a obra deste artista merece sem dúvida ser reencontrada e repensada. Quando tudo à nossa volta perde o sentido no seu mais elevado expoente de beleza tradicional, estes quadros deixam-nos olhar de novo para a pintura. Fazem-nos regressar a uma distância prudente. Dialogar em silêncio, reencontrar-nos com o além e inatingível, como comuns mortais. A imagem é do tríptico «Three Studies For a Crucifixion», que se encontra aqui.

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2006/11/27

mário cesariny, 83 anos depois

Ontem, aos 83 anos de idade, Mário Cesariny de Vasconcelos deixou-nos. Com ele partiu uma das maiores figuras da cultura portuguesa do século XX. Foi poeta, pintor, surrealista e tudo... Às 14 horas de hoje teve lugar o seu funeral, em Lisboa. Ele era um dos raros que nunca queria elogios, nem agradecimentos. Na nossa casa permanece em memória e em livros...

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2006/11/24

Mãe 4 (memorial com mark rothko)

Menos de 24 horas depois de a minha mãe chegar ao local que seria o da sua casa e onde teria todos os cuidados permanentes que a sua doença exigia e nós não poderíamos dar-lhe em pessoa, Ela partiu connosco ao seu lado. Incapaz de resistir, de permanecer, esperou pelo nosso regresso, mas logo depois deixou-se ir como quem já tinha um destino há muito planeado... Neste momento, Rothko poderia ser o meu guia para ajudar a entender e ultrapassar as avalanches de emoções que desde então me dominam. Sem grandes introduções ou explicações proponho uma visita espiritual à Rothko Chapel, dedicada ao artista Mark Rothko. Sobre a minha querida mãe, há mais detalhes aqui. Que Ela descanse na paz dos anjos!...