
Tenho em mãos o número mais recente da revista espanhola Zero, que recebemos mensalmente por subscrição desde há quase um ano. Na página 18, a abrir a secção «Cartas//», uma de David Terrones, sob o título «Camino Santo» chama a minha atenção. Conta ele que decidiu planear umas pequenas férias com o seu companheiro e, para cumprir um antigo desejo de ambos, decidiram fazer o famosíssimo Caminho de Santiago. Diz-nos que os primeiros dias da viagem foram divertidos, até ao momento em que atingiram o que chamaram "España profunda". "Una noche, hartos de oír ronquidos por todas partes y de comer menús de peregrino" decidiram separar-se do grupo e procurar um hotel. Queriam dormir como um casal, numa cama de casal, "pero ya se sabe: malas caras y excusas por todos lados". Adiante, após algumas novas tentativas infrutíferas e olhares homófobos pelo caminho, chegaram a Leão. Dirigiram-se a um hotel (que identificam na carta), onde um deles havia previamente feito a marcação de um quarto com cama de casal. Mas à chegada, o gerente olhou-os de cima a baixo e disse haver um problema "(sabíamos que el problema éramos nosotros)" e deu-lhes como solução um quarto duplo. Foi neste ponto que eu reflecti sobre uma experiência semelhante que nós tivemos há quase uma meia dúzia de anos, em pleno Douro vinhateiro. Também nós decidimos fazer umas pequenas férias, não numa marcha ao túmulo de um santo, mas antes ao berço do nosso vinho maior. Recomendaram-nos um hotel rural, telefonei, fiz uma marcação para quarto com cama de casal, nunca disse quem me acompanharia (ninguém o faz, porquê haveria eu de o fazer?) e, à chegada: "desculpem mas há um problema, porque estamos em obras e não temos quartos com cama de casal disponíveis, só se ficarem num quarto duplo, pois com duas camas, etc, etc". A figura do tipo, do recepcionista? Um gajo mais novo que nós, filho da dona da casa, armado em esperto numa terra de cegos (essa conclusão veio da observação do cavalheiro, nos dias seguintes). Só que aqui o cego era ele, mais ninguém. A mãe, dona do hotel, desfez-se em simpatias connosco, nomeadamente durante os jantares que fazíamos no restaurante, e insistiu muito para que recomendássemos a casa aos nossos amigos. Perante a simpatia dela não pudemos dizer que não, mas devido à inaceitável atitude do filho (e futuro dono, certamente), claro que não o poderíamos fazer. O hotel não o vou identificar pelo nome, mas posso provar que lá estivemos e, por isso, posso até apresentar uma queixa ou reclamação que vai sempre a tempo de provocar estragos. Não o quero fazer, no entanto. Isto basta. A imagem, para quem o conheça, é suficiente.
Malas flores...