2006/12/21

maravilhas capitais para a new 7 wonders

Vamos eleger as Novas 7 Maravilhas do mundo, revendo as escolhidas na Antiguidade: as pirâmides de Gizé, os jardins suspensos da Babilónia, a estátua de Zeus em Olímpia, o templo de Ártemis em Éfeso, o mausoléu de Halicarnasso, o colosso de Rodes e o farol de Alexandria. A primeira referência a esta escolha é feita num poema bimilenário de Antípatro de Sídon. No 3º milénio, a New 7 Wonders propõe-nos 21 maravilhas capitais: a acrópole de Atenas, na Grécia (1), Alhambra, em Espanha (2), as ruínas de Angkor, no Camboja (3), a basílica de Santa Sofia, na Turquia (4), o castelo de Neuschwanstein, na Alemanha (5), a pirâmide de Chichén Itzá, no México (6), o coliseu de Roma, em Itália, (7), o Cristo Redentor, no Brasil (8), a estátua da Liberdade, nos EUA (9), as estátuas da Ilha de Páscoa, no Chile (10), a Grande Muralha, na China (11), o Kremlin e a Praça Vermelha, na Rússia (12), Machu Picchu, no Peru (13), a Ópera de Sidney, na Austrália (14), Petra, na Jordânia (15), as pirâmides de Gizé, no Egipto (16), Stonehenge, no Reino Unido (17), o Taj Mahal, na Índia (18), o templo de Kiyomizu, no Japão (19), Tombouctou, no Mali (20) e a Torre Eiffel, em França (21). Vote-se aqui e depois veja-se a proclamação em Lisboa. "As maravilhas da Antiguidade pertencem ao passado e, à excepção das pirâmides do Egipto, nenhuma delas continua a existir", justificam. Eu votaria na Torre Eiffel!

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2006/12/20

a originalidade em ruth gwily

A israelita Ruth Gwily (Telavive, 1974) merece ser conhecida entre nós. Estudou na academia de arte e design Bezalel (Jerusalém) e, concluída a sua formação, trabalhou como ilustradora para diversos jornais e revistas. O seu estilo gráfico é simples e suave, rico em detalhe e imaginação, muito teatral nas suas próprias palavras, e é assim mesmo que ela se relaciona também com o mundo da banda desenhada e com o da pintura (a aguarela), onde podemos descobrir alguns dos seus mais brilhantes trabalhos (ao lado reproduz-se «Criminal Kids Practise Creative Writing, as Therapy», obra de 2006). É fascinante ainda a sua escolha da cor, desses tons esbatidos ou envelhecidos, muito bem integrados no desenho. Diz gostar do trabalho de Henry Darger, David Hockney, Frida Khalo e de outros artistas. Sobre a Arte, ou o futuro da arte, Ruth cita o designer David Carson, director gráfico da revista Ray Gun, e diz "everything has been done before, you are the only original thing you can offer to this world". No blogue Foggy Grizzly (aqui) pode ler-se uma entrevista com o seu depoimento.

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2006/12/19

tu.

A Personalidade do Ano para a revista Time és Tu, ponto final. Tu, sim, Tu mesmo que agora nos lês neste blogue e mais uns quantos milhões de pessoas! A revista Time entende que todos nós, que fazemos da internet uma máquina viva de troca de informação, somos a Personalidade do Ano de 2006. Figuras como os presidentes da China, da Coreia do Norte e do Irão ficaram excluídas da escolha final (a não ser que eles próprios sejam também habituais utilizadores desta sociedade de informação). O prémio da Time existe desde 1927 e no ano passado foi atribuído a três personalidades que ajudaram grandiosamente no combate às doenças que afligem os povos do Terceiro Mundo: Bono, Bill Gates e a sua esposa Melinda. Mas agora, para a revista Time, as personalidades são anónimos como Tu e eu, e nós, que fazemos com que a democracia global funcione, algo a que eles chamam "new digital democracy": é tempo de criar um novo entendimento global, não de político para político, não de personalidade para personalidade, mas de cidadão para cidadão, de pessoa para pessoa - dizem. E nós estamos de acordo!

da paixão e de antonin artaud

«La Passion de Jeanne d'Arc» é um filme mudo realizado em 1928 por Carl Theodor Dreyer, que originalmente esteve para ser sonorizado. Num dos principais papéis, o de Jean Massieu, está o actor francês Antonin Artaud (na foto), mais conhecido como escritor. A obra de Artaud (1896-1948) é ampla em género compreendendo ainda, para além da escrita e da representação, o desenho. A sua vida singular foi marcada pela crítica estética e metafísica, pela deambulação e pela doença: em 1937 ele foi confundido com um louco, internado e transferido de manicómio em manicómio durante 9 anos. No hospital psiquiátrico de Rodez, onde permaneceu os últimos 3 anos de clausura, estabeleceu uma relação epistolar com o seu médico, que fez com que este reconhecesse o valor do doente-poeta. Estas cartas serviram para ancorar a sua consciência, moribunda pelos efeitos dos electrochoques - "que ninguém ignore os meus gritos de dor e que eles sejam ouvidos" - enquanto o conceito bilateral do Teatro da Crueldade germinava com «Le Théâtre et Son Double», uma das peças fundamentais da dramaturgia europeia do século XX. Artaud voltaria a contemplar a luz de Paris em 1946, dois anos antes da sua morte. É aí que realiza a emissão de rádio «Pour En Finir Avec Le Jugement de Dieu», que pode ser ouvida aqui.

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2006/12/18

os ovos de manuel casimiro

Pintor sobretudo, mas também escultor, fotógrafo e cineasta, o português e portuense Manuel Casimiro nasceu em 1941, mas vive em França desde 1976. Os ovos são um elemento distinto e identificativo na sua obra: geralmente um círculo ovalado que se sobrepõe a uma imagem de base funcionando como elemento temático principal da obra. Essa, a obra, geralmente pintura de técnica mista, costuma ter duas componentes bastante distintas que se fundem pela arte do seu gesto: uma base clássica e universal (no exemplo ao lado, o «Projecto Bandeira Nacional», é a bandeira de Portugal) e um elemento sobreposto (os elementares ovos a que me referi). Pode-se descobrir um outro exemplo do seu belo trabalho aqui («Édipo Explicando o Enigma, Intervenção em Uma Imagem de Ingres»). Como se vê, somos assim levados porventura a uma leitura impensada e autónoma da imagem de fundo, dos espaços, das narrativas de base, que se transformaram pela sua pintura intervencionada em algo subvertido, dissonante, independente e actual. A primeira retrospectiva da obra de Manuel Casimiro foi apresentada em Serralves há apenas 10 anos, em 1996. Presentemente o artista vive e trabalha em Nice.

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2006/12/16

malas flores

Tenho em mãos o número mais recente da revista espanhola Zero, que recebemos mensalmente por subscrição desde há quase um ano. Na página 18, a abrir a secção «Cartas//», uma de David Terrones, sob o título «Camino Santo» chama a minha atenção. Conta ele que decidiu planear umas pequenas férias com o seu companheiro e, para cumprir um antigo desejo de ambos, decidiram fazer o famosíssimo Caminho de Santiago. Diz-nos que os primeiros dias da viagem foram divertidos, até ao momento em que atingiram o que chamaram "España profunda". "Una noche, hartos de oír ronquidos por todas partes y de comer menús de peregrino" decidiram separar-se do grupo e procurar um hotel. Queriam dormir como um casal, numa cama de casal, "pero ya se sabe: malas caras y excusas por todos lados". Adiante, após algumas novas tentativas infrutíferas e olhares homófobos pelo caminho, chegaram a Leão. Dirigiram-se a um hotel (que identificam na carta), onde um deles havia previamente feito a marcação de um quarto com cama de casal. Mas à chegada, o gerente olhou-os de cima a baixo e disse haver um problema "(sabíamos que el problema éramos nosotros)" e deu-lhes como solução um quarto duplo. Foi neste ponto que eu reflecti sobre uma experiência semelhante que nós tivemos há quase uma meia dúzia de anos, em pleno Douro vinhateiro. Também nós decidimos fazer umas pequenas férias, não numa marcha ao túmulo de um santo, mas antes ao berço do nosso vinho maior. Recomendaram-nos um hotel rural, telefonei, fiz uma marcação para quarto com cama de casal, nunca disse quem me acompanharia (ninguém o faz, porquê haveria eu de o fazer?) e, à chegada: "desculpem mas há um problema, porque estamos em obras e não temos quartos com cama de casal disponíveis, só se ficarem num quarto duplo, pois com duas camas, etc, etc". A figura do tipo, do recepcionista? Um gajo mais novo que nós, filho da dona da casa, armado em esperto numa terra de cegos (essa conclusão veio da observação do cavalheiro, nos dias seguintes). Só que aqui o cego era ele, mais ninguém. A mãe, dona do hotel, desfez-se em simpatias connosco, nomeadamente durante os jantares que fazíamos no restaurante, e insistiu muito para que recomendássemos a casa aos nossos amigos. Perante a simpatia dela não pudemos dizer que não, mas devido à inaceitável atitude do filho (e futuro dono, certamente), claro que não o poderíamos fazer. O hotel não o vou identificar pelo nome, mas posso provar que lá estivemos e, por isso, posso até apresentar uma queixa ou reclamação que vai sempre a tempo de provocar estragos. Não o quero fazer, no entanto. Isto basta. A imagem, para quem o conheça, é suficiente. Malas flores...

2006/12/15

la netrebko

Um dia, estava eu descontraído a ver televisão, quando me detive no canal 2 da RTP para ver a transmissão de um concerto Prom. O maestro Gianandrea Noseda dirigia a orquestra filarmónica da BBC com um empenho e expressividade que me prenderam ao ecrã. Depois de finalizada uma peça de Dvorák, entra em palco uma jovem soprano que de imediato iluminou a cena: com uma beleza física que tinha correspondência na voz, e uma graça e confiança que talvez só a juventude permita, Anna Netrebko, numa série de três árias de Dvorák, Puccini e Bellini, conquistou-me incondicionalmente. Não tenho os conhecimentos de música necessários para avaliar a voz de Netrebko por comparação à das suas rivais (e suspeito que rivalidade é coisa que não falta neste meio), mas não lhe detecto mácula e duvido que o seu carisma tenha igual. Neste Natal a Netrebko lançou um novo disco na Deutsche Grammophon, para a qual grava em exclusivo. É o «Russian Album» dedicado ao repertório russo, onde não só acrescenta à doçura da sua voz a doçura da língua materna, como nos revela algumas das mais belas páginas da música russa, desta vez acompanhada pela orquestra do teatro Mariinsky, dirigida pela mão de Valery Gergiev — O maestro do momento. Esqueçam a Sofie Von Otter: se a ária de Tchaikovsky que abre o «Russian Album» e a canção de Rachmaninov que logo se lhe segue não os convencer de que encontraram a banda sonora para o vosso Natal, então não sei mesmo que mais vos diga.

joe phillips à procura do mr. right

Joe Phillips nasceu em Atlanta nos anos 60. Em miúdo recebeu um bloco de papel e marcadores que o levaram à arte: "that started my life long obsession with art". Vagueou com a família de cidade em cidade, até ao momento em que ingressou numa escola de artes criativas. A arte passou a ser então o seu alimento, o seu gesto e o seu sopro: "it was a veritable episode of «Fame»", esclarece. Eram os intensos anos 80 e nas suas vestes incomuns Joe mais parecia um músico da new wave. Com o irmão Lex descobriu a BD, e os super-heróis Flash e Lanterna Verde. Procura trabalho nesse mercado e consegue-o, chegando à famosa DC Comics. Para agradar a um público alargado, a sua criatividade tornava-se mais convencional. 15 anos depois cria o Gaijin Studio, em Atlanta, no qual esteve apenas 3 anos. Instala-se em casa e faz tudo para rentabilizar os seus projectos. Muda-se para S. Francisco, com o namorado e, após o fim dessa relação, para San Diego. Aí cria um negócio com orientação gay: o «JoeBoy Dress-me Magnets» e os calendários «Boys Will Be Boys» são dois exemplos do seu sucesso, que se mantém no presente. Mas apesar dos seus belos rapazes, ainda lhe falta descobrir o seu Mr. Right. Talvez aqui um dia se saiba :-)

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2006/12/14

underground art de paul middlewick

A arte underground de Paul Middlewick a que me refiro é literalmente arte dos subterrâneos, porque se encontra relacionada com o Metro de Londres (ou London Underground, na designação original). Foi em 1933 que Harry Beck criou o mapa do Metro que viria a tornar-se num ícone do design gráfico. Esse mapa foi actualizado ao longo dos anos, devido ao crescimento da rede londrina de metropolitano, mas ainda hoje mantém o seu traço original e com ele continua a servir os viajantes dos quatro cantos do mundo que utilizam a rede ferroviária urbana da capital britânica. Foi apenas há 17 anos atrás (praticamente ontem, tendo em conta que os mapas existem há já mais de 70) que o artista Paul Middlewick descobriu, ao programar uma viagem no Metro, que de um conjunto de linhas, estações e junções se obtinha o imprevisto desenho de um elefante. Como um desvendador de enigmas foi descobrindo ao longo dos anos mais e mais animais. Daí surgiu o projecto Animal On The Underground, que pode ser conhecido aqui. A imagem que escolhi para ilustrar esta entrada é de um veado, não de uma rena de S. Nicolau, apesar de o poder parecer. Quem possa que a procure no mapa do underground de Londres, que deve estar num frenesim, por esta época do ano.

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2006/12/13

a morte segundo jacques-louis david

Em 1793 o pintor Jacques-Louis David (1748-1825, nasceu em Paris e morreu em Bruxelas) assinava o quadro «La Mort de Marat» (ou «Marat Assassiné»), que hoje se encontra na capital belga, exposto no Museu de Arte Moderna dos Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica. O retratado é Jean-Paul Marat, um jornalista revolucionário francês assassinado na sua própria casa por Charlotte Corday, uma jovem monárquica. Este óleo sobre tela de 165x128 cm é um dos meus eleitos entre toda a pintura universal. Nele é muito perturbante a forma nobre mas desprotegida como a vítima se volta na direcção do observador (homicida, pintor, espectador). Há uma morte quente, ainda, que se depreende da postura descontraída, dos objectos suspensos, da pena numa mão e do bilhete escrito na outra. E o verde do fundo que vai sendo tomado pelo negro profundo que cresce à sua volta. Há também o sangue que escorre, a faca ensanguentada, abandonada, e a mensagem do pintor sobre o naco de madeira: "À MARAT / DAVID / L'AN-DEUX". Os detalhes sobre o quadro estão aqui. Da Morte sabe-se menos, muito menos, e está-se sempre a aprender.

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