2007/01/08

os punks de roberta bayley

Roberta Bayley fotografou os punks que nos anos 70 emergiam em Nova Iorque. Fez fotografia para capas de discos (dos Ramones e Richard Hell, por exemplo), mas também para páginas de fanzines e de revistas. Esbarrei com o trabalho dela onde menos o poderia imaginar - a Playgirl - e com uma foto assaz rara e surpreendente: a de Sid Vicious descendo as calças e mostrando toda a sua virilidade (que não é muita e à qual a autora do texto prefere chamar-lhe junk, mas isso são só detalhes). Apesar de ser contemporânea de Robert Mapplethorpe, outro famoso artista que fotografou Patti Smith, os Television, Philip Glass e em larga escala a nova cultura musical emergente em Nova Iorque, Bayley dedicou-se mais a esvaziar as suas fotos de individualismos (centrando-se no todo do movimento - o punk) enquanto Mapplethorpe apontou as câmaras ao indivíduo (mesmo quando se pode integrá-lo nalgum movimento - o gay ou o pop). Roberta nasceu em Pasadena, frequentando a universidade de San Francisco entre 1968 e 71. Adoptou Nova Iorque para residir e aí efectuou a sua primeira exposição individual em 1993. «The Downtown Show» (aqui) é um bom local para descobrir um pouco mais sobre Roberta e os movimentos que a envolveram.

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2007/01/06

de cruzeiro seixas e cesariny

Cruzeiro Seixas é uma das figuras maiores da pintura portuguesa do nosso tempo. Nasceu em 1920, na Amadora, e cresceu com o expressionismo e o neo-realismo. Foi "amigo de peito" de Mário Cesariny (são os dois, na foto). "Tirei apenas o 5º ano de desenho da Escola António Arroio, mas com os professores nunca aprendi nada. Nunca gostei de aprender, a não ser comigo mesmo" - disse-o. E continuou: "Conheci o Mário Cesariny na escola António Arroio. Era um rapazinho lindo. Engatei-o! Nem tínhamos bem conhecimento do que era a homossexualidade. Nessa altura era tida como uma doença. A mim interessava-me fazer amor, não vício, isso nunca fiz. Namorados? Eu e o Mário?... Não, era coisa de garotos, que passou!... (...) Líamos muito o Régio. O Casais Monteiro menos, o António Botto depois. Estrangeiros, claro, havia o Oscar Wilde da «Balada do Cárcere de Reading»..." (mais aqui). É com Cesariny, Carlos Calvet, António Maria Lisboa e Mário-Henrique Leiria que que a partir de 1948 desenvolve actividade surrealista, assinando desenho e pintura, mas também objectos e poesia. A sua obra mostra-nos figuras híbridas, planos que valorizam a perspectiva e a profundidade de campo, contrastes luminosos, nuances de cor, surrealismo de uma espécie fantástica que deriva das propostas de Breton e Di Chirico.

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2007/01/04

à espera de mais histórias...

Há três versos encerrados na página 77 do novo livro de Daniel J. quase me parecem um haiku japonês (ou hai-cai), no qual o poeta canta as variações da natureza e a sua influência na própria alma. As «Pequenas Histórias de Amor e Sexo» que Daniel nos conta são narrativas de experiências apaixonantes, na primeira pessoa. Histórias de amor e de sexo. Das sete, «O Perversor» (págs. 30 a 71) é a minha preferida. Mas há mais, todas elas muito simples e muito belas, com alguns desenhos do autor à mistura. A edição é dele próprio, o escritor-designer, mas por isso também muito cuidada. Está disponível na net (veja-se através do link neste título). Se o anterior «Olhos de Cão» (Dom Quixote) era um livro com a energia de um começo, «Pequenas Histórias de Amor e Sexo» é o livro que esperávamos de Daniel J. o na sua escrita. Um bom agoiro para quem sempre mais espera...

Há dias em que me basto, em que me tenho a mim.
Nada dói, nada falha, nada falta.
Os dias bons não são assim.

adalberto libera: beleza mediterrânica

Para quem gosta de casas invulgares, a Casa Malaparte situada na Punta Massullo da ilha italiana de Capri é uma boa escolha: aumentem a imagem e vejam-na, na majestade dos seus 69 anos de idade. Foi concebida por volta de 1937 pelo arquitecto Adalberto Libera (1903-1963). O seu dono original, Curzio Malaparte, foi um jornalista e escritor que documentou as mudanças políticas e culturais da Itália dos anos 1930-50, inicialmente estando com Mussolini e, depois, com os Aliados. A imensa casa que encomendou a Adalbero Libera continua lá e pode ser localizada com ajuda de navegadores geográficos como o Google Maps: é ver em 40°32′44″N e 14°15′37″E. Há nela uma larga escadaria de um vermelho quente, que é marcante. Eleva-se na falésia como se se tratasse de um obelisco deitado. Após a morte do seu proprietário, a villa foi abandonada e negligenciada, sofrendo estragos significativos. Jean-Luc Godard mostra-a num filme em 1963, mas o primeiro restauro aconteceu apenas no final dos anos 80. Hoje é um belo imóvel onde se mantém muito do mobiliário original (ver mais aqui). Quem me dera olhá-la de fora e de longe que fosse, com uma companhia romântica, a partir de um pequeno iate.

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2007/01/02

babel: uma história em quatro mundos

Marrocos, México, Estados Unidos da América e Japão estão interligados em consequência de um incidente com origem no país africano: dois jovens pastores marroquinos atingem a tiro um casal norte-americano em férias, com uma arma automática que havia sido oferecida por um caçador japonês que tem uma filha surda-muda problemática, enquanto os dois filhos do casal estão a cargo de uma auxiliar doméstica mexicana que precisa de resolver e ultrapassar a ausência dos patrões para poder assistir no México ao casamento do seu filho. «Babel» foi distinguido em 2006 com o prémio de encenação do Festival de Cinema de Cannes e vai ser seguramente uma aposta forte nos Óscares de 2007. Realizou-o Alejandre González Iñárritu, o mexicano que esteve também por detrás dos filmes «Amor Cão» e «21 Gramas», em todos os casos com os argumentos assinados por Guillermo Arriaga. Neste, agora em exibição entre nós, Brad Pitt (na foto) e Cate Blanchett estão muito bem nos principais papéis, mais até do que eu próprio esperava. O filme merece ser visto e ouvido (já que também a sua banda-sonora é de grande excelência), sobretudo por quem gosta de ambientes exóticos e de pensar, muito e vertiginosamente, o mais possível. Eu acho que é uma daquelas obras que nos seduz de imediato e ao longo de todo o filme (o que é muito bom), mas que também deixa matéria para continuar a divagar sobre aquilo que nos ficou retido na memória. E não é que, afinal, parece mesmo haver um primeiro, um segundo, um terceiro e até um quarto mundo, diria eu?!...

2006/12/31

adeus, 2006

Mais um ano e mais um balanço. O possível, de novo feito a dois e do que, como no ano passado, mais nos sensibilizou e marcou ao longo dos dias, das semanas, dos meses, das oportunidades: a cada um de nós em particular ou, quando a convergência o determinou, aos dois em conjunto que é sempre bem melhor. Esta volta a ser uma lista de escolhas discutíveis, mesmo até porque foi a que hoje especificamente nos apeteceu aprovar e divulgar neste gayfield. Não nos preocupou estar in ou estar out dos gostos massificados, nem é nossa intenção demonstrar seja o que for (habituados a estar "out" num país em que o que conta é estar "in" — e em ambos os casos as aspas estão com profundo propósito —, escolhemos o que nos deu mais prazer, mesmo que os outros achem a escolha démodée ou inadequada. Com um propósito bem diferente, inverso e invertido, que nos reencontremos já aqui ou onde nos der mais jeito:
  • cinema: «O Segredo de Brokeback Mountain» Ang Lee (2=)
  • concertos: «Music For 18 Musicians + Daniel Variations» Steve Reich and Musicians & Synergy Vocals (2=)
  • discos: «Stabat Mater» Bruno Coulais / «Winterreise» Franz Schubert (Peter Pears / Benjamin Britten)
  • dvds: «Pink Narcissus» James Bidgood / «Liza With a Z» Liza Minnelli & Bob Fosse
  • figuras: Mãe / Luís
  • internet: lavionrose.blogspot.com / www.thecoolhunter.net
  • livros: «Butt Book» Butt magazine / «Close Range» Annie Proulx
  • lojas: Por Vocação / ECI
  • momentos bons: o novo emprego Dele / o meu novo emprego
  • projectos: casa nova, vida nova / casa nova
Um grande 2007, para todos!...

sexualidade precoce em anthony goicolea

O artista plástico nova-iorquino de descendência cubana Anthony Goicolea nasceu em 1971. A fotografia, desenho, vídeo e instalação são os géneros principais em que se exprime artisticamente este homossexual que se formou pela Universidade da Geórgia. Androgenia e (homo) sexualidade precoce são constantes nos seus trabalhos que podem ser vistos regularmente nas galerias Postmasters (Nova Iorque) e Aurel Scheibler (Berlim). A alemã BMW atribuiu-lhe em 2005 o seu prémio de fotografia, o que mostra que a arte de Goicolea não está assim tão longe da dita normalidade. O seu trabalho desafia os padrões morais por introduzir um erotismo questionável, mas o seu grau de elaboração (que passa pela astuta escolha dos modelos, do vestuário, caracterização e pós-produção informática) obriga a uma apreciação positiva: muitos dos seus retratos são de si próprio, muito jovem em aparência apesar dos seus 35 anos de idade. A artista Cindy Sherman (ver aqui), com quem chegou a fazer várias exposições conjuntas, foi influenciada pelo trabalho de Goicolea, especialmente ao nível do uso extensivo de ferramentas de tratamento de imagem, do auto-retrato e da narrativa de temática sexual. Mas essa será talvez motivo para uma entrada em 2007. Um bom ano!

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2006/12/29

barahona possollo pós-expressionista

O pintor e desenhador Barahona Possollo é português e nasceu em Lisboa no ano de 1967. Foi licenciado pela Faculdade de Belas Artes dessa cidade, com a classificação de 18 valores, e entre 86 e 89 também frequentou o curso de arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Em 1988 participou pela primeira vez numa colectiva e em 1992 fez a sua primeira individual. Em 1995 leccionou como assistente convidado nas Belas Artes e colaborou pela primeira vez com os Correios de Portugal na produção de originais para a emissão de selos. Essa colaboração prolongou-se através dos anos, destacando-se a série de estampilhas comemorativa dos 500 anos da descoberta do caminho marítimo para a Índia. Aqui soubemos que a sua arte, onde se nota alguma influência expressionista, está a ser mostrada no Museu Nacional de História Natural (antigo edifício da Faculdade de Ciências, na Rua da Escola Politécnica nº 58, Lisboa) e "só perde quem não pode mesmo fazer outra coisa senão perder". Ao lado está o óleo sobre tela que tem por título «D. Sebastião». É de 1992 e mede 140x140 cm.

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2006/12/28

hergé, tintim por tintim

Poucos sabem quem foi Georges Rémi (1907-1983), mas já Hergé (correspondente a RG, as iniciais de "Rémi, Georges") não estará longe de associação imediata ao nome de Tintim, o jovem aventureiro que nos roubou muitas horas de sono com as suas reportagens pelos quatro cantos do mundo. Georges nasceu na Bélgica, mas foi do seu irmão Paul que veio a inspiração para a figura de Tintim, que seria vista pela primeira vez em 1929. Apesar de as aventuras de Tintim se terem popularizado com edições dos seus livros em mais de 40 línguas, Hergé esteve por detrás da criação de outras histórias em quadradinhos com figuras como Quike, Flupke, Jo, Zette e Jocko. Foi elogiado como um Walt Disney europeu e influenciou os mais importantes ilustradores, notadamente nas figuras de Asterix, Lucky Luke, ou Blake e Mortimer. Aos 50 anos de Tintim até Andy Warhol, na Nova Iorque de 1979, lhe realiza uma série de retratos-homenagem. Em 2007 vão completar-se os 100 anos sobre o nascimento do artista e o Centro Pompidou, em Paris, presta-lhe uma nova homenagem que vai até 19 de Fevereiro (ver aqui). Considerado sem discussão como um dos maiores artistas do século XX, o exterior do belo edifício desenhado pelos arquitectos Renzo Piano e Richard Rogers é agora adornado com uma tela gigante de 40 metros que convida a viajar no foguetão das fantasias de RG.

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2006/12/23