
Esta bela imagem é do ilustrador James Jean, que podem conhecer melhor pelo link no título. Mas é sobre o referendo de ontem que aproveito para escrever um pouco. "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" foi a questão que uma vez mais me levou a pronunciar-me. O que não foi nada fácil. Primeiro por me refugiar numa indecisão que de forma alguma conseguia ultrapassar. Depois porque a chuva diluviana do final da tarde quase exigia que nos demitíssemos do dever. Dizem que a esperança é a última a morrer e como cresci com a democracia, lá fui eu mais esta vez dar mostras de defensor e de praticante. Entrei na sala que já bem conhecia e só então soube o que fazer com aquele papel. Se concordo com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, eu diria que não talvez, que a penalização deveria existir mas ser sábia e ponderada em função das razões, da repetição, da banalização, e que deveria beneficiar a sociedade em vez de colocar os sentenciados na prisão; se pode ser realizada por opção da mulher, já eu discordo absolutamente porque uma gravidez é o resultado de dois progenitores e só em situações extremas como a de uma violação é que uma interrupção voluntária da gravidez deveria poder ser tomada unilateralmente, por opção da mulher ou do homem consoante qual deles tenha sido o violador ou o violado (pois!); se, por fim, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado, nesse caso concerteza que sim mas — se temos tanta falta de verbas e equipamentos para os cuidados mais essenciais de saúde e não só — de onde virá o dinheiro necessário para tal?... Eu fiquei com estas dúvidas e isso foi suficiente para não subscrever só pela intuição algo que é demasiado definitivo para o que está em causa. Além de que me preocupa bastante a possibilidade de, nestas circunstâncias, num futuro ainda próximo se tornar possível a qualquer mulher rejeitar antes das 10 semanas qualquer possibilidade a um bebé com olhos, ou cabelos, ou qualquer outra particularidade que os médicos antecipem e seja menos do seu agrado. Será aí que isto nos leva também?... Poderá ser isto uma inocente repetição da história?... Deixem-me a vossa opinião contando que no meu silêncio excepcional eu ficarei a seguir os vossos generosos comentários. Por outro lado, se antes me falarem de podermos ser todos cidadãos a 100%, de podermos ter todos direitos e deveres equiparados, força que aí não me restam dúvidas pois não vejo os direitos de ninguém a serem postos em causa. A espera vai já longa, muito, e essa sim será a grande questão que o Governo e a Assembleia da República, ou os Portugueses, terão que equacionar quanto antes. Nesta legislatura e não na próxima porque a espera vai muito longa e de esperanças adiadas já basta!