2007/03/19

a poesia é uma arma

Quando na poesia se fala da vida militar, também ela pode ser uma arma:

G3: É o teu desejo de mim que te faz ver-me diferente dos outros, / pois eu visto também de verde e empunho a arma da mesma maneira cruel. / Não gosto de piadas de caserna, com o cheiro forte dos pés dos camaradas a enjoarem-me o espírito. / Procurei os teus olhos, vi-os verdes de azuis que são pelo amarelo da cerveja. / Escondi um sorriso com a espuma. / Na porta, olhaste-me tão longamente que me senti nu. / A metralhadora repousa nos meus joelhos. Falo frio desarmado. / A boina mal me esconde a testa de louco. / A farda sabe que mente. / Que não sou soldado. / Que sou? Para que perguntas? / Chamam o nosso pelotão; também me perguntam se eu vou. / E então eu não haveria de ir, contigo?

«Marinheiros - Peixeiras - O Mesmo Cheiro», de Rui Reininho, 1983, em «Sifilis Versus Bilitis» (& etc).

Segunda à noite, descansando sobre uma cama de ferro, circundado por paredes mal caiadas e recrutas verdes. Armários perfilados, vozes à solta, gillettes ferrugentas, champôs, odor a urina e suor. / É a minha segunda semana militar, o segundo dia de um novo período de esforços, acrobacias, fardas enlameadas, instruções, botas engraxadas, olhares discretos, formaturas, revistas, ... / Continuo sem entender como fui incorporado, tantos meses decorridos sobre a inspecção: as minhas reacções viris perante esbeltos e excitantes corpos masculinos insistem, quase sistematicamente, em denunciar-me! Mas correu tudo regularmente - agora também -, crendo bem ser já capaz de controlar esses impulsos. / Agora, nada mais me resta do que aproveitar o desfilar inocente de perfis desnudados, circunspectamente apreciando o encanto das suas formas, dos seus tesouros, reconditamente imaginando encontros proibidos de prazer.

«Encontros Proíbidos de Prazer», de Luís Adonísio, 1987, em «O Canto do Rouxinol» (edição de autor).

Para comemorar o Dia Mundial da Poesia, a 21 de Março, o documentário «Autografia» será exibido pelas 22 horas no Teatro do Campo Alegre, no Porto, com leitura de poemas do grande Mário Cesariny. Um dia antes, mas bastante mais cedo (pelas complicadas 18 horas) vai ser dita poesia sob a direcção de Rui Reininho no átrio da Reitoria da Universidade do Porto. Estas coisas não se deveriam perder...

Textos de Rui Reininho e Luís Adonísio
Imagem de Robert Nettarp! via Gayya Kusysu
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2007/03/16

nam june paik

Coreano nascido em 1932 em Seul, Nam June Paik fugiu à guerra com a família e foi parar a Nova Iorque em 1964, depois de passar por Hong Kong e pelo Japão. Foi o pioneiro da vídeo-arte e figura preponderante no movimento Fluxus, um dos mais importantes na arte do século XX. Compositores como Stockhausen e Cage, músicos como Laurie Anderson e Yoko Ono, ou artistas plásticos como Joseph Beuys e Salvador Dalí sempre estiveram por perto. Ao lado é «TV Rodin», uma deliciosa homenagem ao escultor francês...

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educação para a alegria

É a fraqueza do homem que o torna sociável; são as nossas mi­sérias comuns que levam os nossos corações a interessar-se pela humanidade: não lhe deveríamos nada, se não fôssemos homens. Todos os afectos são indícios de insuficiência: se cada um de nós não tivesse necessidade dos outros, nunca pensaria em unir-se a eles. Assim, da nossa própria enfermidade, nasce a nossa frágil fe­licidade. Um ser verdadeiramente feliz é um ser solitário; só Deus goza de uma felicidade absoluta; mas qual de nós faz uma ideia do que isso seja? Se algum ser imperfeito se pudesse bastar a si mes­mo, de que desfrutaria ele, na nossa opinião? Estaria só, seria mi­serável. Não posso acreditar que aquele que não precisa de nada possa amar alguma coisa: não acredito que aquele que não ama na­da se possa sentir feliz.

Texto de Jean-Jacques Rousseau via Citador
Imagem de Caspar David Friedrich via Wikipédia
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2007/03/15

mariette lydis

Pensa-se que viveu e trabalhou em Paris entre 1930 e 1955. Mariette Lydis (também conhecida pelo nome de Suzanne Ballivet) foi ilustradora de obras de autores malditos mas consagrados, como o poeta francês Pierre Louÿs. O tema é quase sempre a iniciação sexual. A solo, em duo, trio ou com múltiplos parceiros. Foi uma das raras mulheres a fazer ilustração erótica na primeira metade do século XX...

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2007/03/14

lindsay lozon

Lindsay Lozon é fotógrafo comercial há 25 anos. A moda, a música, o teatro e a política têm sido o alvo da sua objectiva. Mas não só, e ainda bem: são-no também os rapazes meio despidos que ele apresenta em álbuns com os títulos de «The Boys» e «Boys Uncovered» (a Bruno Gmünder, sua editora, está uma vez mais de parabéns)...

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2007/03/13

kelly grider

Este «Abraço Alado Nº 1» do fotógrafo Kelly Grider já me cativou há uns quantos anos. É uma bela foto de 1994, de um norte-americano do Alabama que tinha então 31 anos e que hoje vive dividido entre Nova Iorque e San Francisco. Paisagens, figura e cor são os seus temas. Mitologia, sexualidade e sensualidade estão lá, numa sensibilidade e detalhe que faz pensar no barroco...

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2007/03/12

jack balas, onde as artes se cruzam

Gosto deste quadro de Jack Balas e também de muitos mais. No Illinois fez a sua formação em arquitectura e design, passando por um estágio na Áustria em 1976 antes de voltar à sua terra no coração dos Estados Unidos, onde foi acabar a formação universitária. Hoje pinta, fotografa, escreve e faz escultura, mas é da pintura que eu mais gosto. Há nela uma forte modernidade que eu aprecio e que a torna ainda mais especial para mim do que as artes que parecem apenas vir por derivação... Jack mistura na sua obra várias técnicas, expressões artísticas, métodos de criação, que vale a pena examinar, tentar entender, relacionar... De Washington recebeu em 1995 o apoio do National Endowment for the Arts norte-americano. É em San Francisco que está representado na colecção de arte de Kent Logan, exposta a público no MoMA (Museum of Modern Art). Nova Iorque dedicou-lhe uma retrospectiva no número 120 de The Paris Review, concedendo-lhe o enigmático mas lúcido título «Today I Drove Along The Rio Grande». A aguarela que se mostra é de 2005 e intitula-se simplesmente «The True Cross». Uma escolha por mim próprio questionável, porque tantas outras haveria como possíveis — uns concordarão comigo, mas outros talvez não!

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2007/03/11

ion

IoN ou I(omega)N, que interessa? Os seus desenhos são sempre intensos e provocantes, um misto de Tom of Finland e finais do século XXI tal como lhe é possível imaginar, acredito. Há cabedal, cintos, bonés, pénis voadores, preservativos usados, máquinas de guerra fálicas, esperma perdido por todo o lado, em abundância. Para qualquer uma das suas figuras a expressão "chegou a minha vez" seria sempre voz de ânsia e de prazer. Está lá tudo isso, num traço pouco polido que roça o ingénuo, mas que é feliz e nos diverte ou dá prazer!...

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2007/03/10

herb ritts

Se cá já todos temos em casa pelo menos uma foto tirada por Herb Ritts (1952-2002), fotógrafo norte-americano de moda e realizador de pequenos clips que trabalhou com Madonna, Chris Isaak ou Jack Nicholson por exemplo. Fez fotografia para as mais famosas revistas de moda, também. Morreu com sida, em Los Angeles, vítima de pneumonia. Sem saber qual escolher, pela foto (do Herb), pelo modelo (o David) e pelo fato (de Ziggy) fica «David Bowie», fotografia de 1990...

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2007/03/09

gyula benczúr

O húngaro Gyula Benczúr (1844-1920) também merece uma referência em l'avion rose. Foi pintor e pedagogo, com muita da actividade a ter lugar na Baviera (Alemanha). Pintou reis e aristocratas, mas a nobreza e o realismo tocante deste «Narciso» de 1881 é superior a qualquer outra essência. A cidade de Budapeste tem uma rua com o seu nome...

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