Conversas recentes e, que mais não fosse, os pensamentos que me ocupam a cabeça, levam-me a questionar incessantemente as minhas qualidades e a destapar os meus defeitos. Com o passar dos anos a confiança nas virtudes vai dando lugar a uma mais realista aceitação das falhas e à consciência de que, apesar de tudo, sou menos, muito menos do que pensava ser. E penso nos meus amigos, nas pessoas, enfim, que eu amo — porque de amor faço também a amizade — e em como sou ausente. E há algumas semanas atrás encontrei um poema de José Tolentino Mendonça que tive logo a vontade de dar aos meus amigos, mas que, porque sou menos que perfeito, só agora mostro. Aqui vai então «A Estrada Branca», com fotografia de Joel Meyerowitz, como um poema de amor para os meus amigos, para o meu amigo:Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate








