2007/04/09

poema de amigo

Conversas recentes e, que mais não fosse, os pensamentos que me ocupam a cabeça, levam-me a questionar incessantemente as minhas qualidades e a destapar os meus defeitos. Com o passar dos anos a confiança nas virtudes vai dando lugar a uma mais realista aceitação das falhas e à consciência de que, apesar de tudo, sou menos, muito menos do que pensava ser. E penso nos meus amigos, nas pessoas, enfim, que eu amo — porque de amor faço também a amizade — e em como sou ausente. E há algumas semanas atrás encontrei um poema de José Tolentino Mendonça que tive logo a vontade de dar aos meus amigos, mas que, porque sou menos que perfeito, só agora mostro. Aqui vai então «A Estrada Branca», com fotografia de Joel Meyerowitz, como um poema de amor para os meus amigos, para o meu amigo:

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

2007/04/06

a cama está vazia

É noite longa e a cama ainda está vazia. Sobre ela só papéis, uma caneta, o telefone já frio e o silêncio. Um silêncio de paz, mas sem ninguém. Se alguém repousasse sobre esta cama, hoje e todas as noites, serias tu, nenhum outro. Mas sou eu só, apenas, e o silêncio que sobre ela se deitam. Talvez amanhã, ou um outro dia, surja de novo essa alegria, esse sorriso e esse calor que andam longe daqui, por agora. Talvez amanhã, ou noutro dia, eu te tenha outra e outra vez por companhia, para amansar esta revolta de solidão, de silêncio, de quase amor em vão. É noite longa, aos poucos cada vez mais, e nem mesmo tu vais ouvir estes ais, estes queixumes lentos e longos e negros das minhas noites, dos meus dias, dos meus meses e anos. Comigo só, hoje a cama está vazia.

Imagem via Le Mâle Absolu
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elisabeth ohlson wallin

A pequena Elisabeth Ohlson Wallin (1961) desejava ser agricultora ou arqueologista, mas foi como fotógrafa que começou a trabalhar em 1980, para um jornal regional da Suécia. Em 88 deu asas à sua veia artística e ficou conhecida por capturar eficientemente a essência dos seus modelos. Fotografou personalidades raras, minorias sexuais, rebeldes com ou sem causa, mas foi notada sobretudo com a série de 12 fotos «Ecce Homo» que retratavam a vida de Jesus Cristo num contexto actual (ao lado vê-se Jesus a morrer de sida no braços de Maria). Trazer Cristo de volta à vida é o sonho de um bom Cristão, e Elisabeth Ohlson (à sua maneira) conseguiu-o também...

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2007/04/05

zhao yannian

A China é um universo de surpresas e Zhao Yannian (1924) uma das suas maiores estrelas. Este artista foi seguidor ideológico de Lu Xun, o pai da revolução chinesa, e influenciado por artistas europeus como Käthe Kollwitz e Frans Masereel. As suas xilografias são obras de intervenção, documentando ou criticando momentos sociais e políticos marcantes no seu país. «Pesadelo Nº 2» faz parte da sua reflexão sobre a Revolução Cultural...

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2007/04/04

youssef nabil, quase perdido no deserto

Fotógrafo de origem egípcia, nascido em 1972, Youssef Nabil deixou-se perder pelo deserto mas também levar pela magnitude do cinema, pelo dramatismo sentimental hollywoodesco, pela elegância que se pode encontrar no diverso mundo das paixões. Ainda miúdo sentia-se atraído pelas velhas fotografias a preto e branco que os modernistas se apressavam a colorir. Por isso, as suas primeiras fotos eram feitas por esse método e o velho e clássico tema da nudez era o assunto. Só que os seus haréns estavam cheios de viris homens, dos seus amigos, dos seus amantes. Quase perdido no deserto, Nabil concretizou a transformação da gente ainda marcada por uma vida difícil, em belos modelos que poderiam ter sido estrelas de Hollywood. Em 1993 tornou-se assistente, em Nova Iorque, de David LaChapelle, depois praticou ao lado de Mario Testino, que acompanhou por Paris em 1997. Conquistou o troféu Seydou Keita na Bienal de Fotografia Africana de Bamako, em 2003, e diversos outros prémios. As suas obras foram exibidas por todo o lado: em França, Holanda, Estados Unidos, Espanha, México, África do Sul, Egipto, Emirados Árabes Unidos, etc. Depois de uma residência estável na Cidade Luz, o fotógrafo mudou-se para Nova Iorque.

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2007/04/03

xerxex

Parece que XerXeX terá começado a pintar há bem pouco tempo e apenas por prazer pessoal. Mas a existência das obras acabou por pedir alguma visibilidade e a colecção «Iberica» saiu para a rua, mostrando uma energia intensa, claramente pornográfica, bela e criativa, com movida... A imagem ao lado, sem título, é um bom exemplo do que faz, mas «Circulo de Pasion» é talvez a minha aguarela preferida. Descubram-na!...

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2007/04/02

wolfgang tillmans

Alemanha, 1968, nasce Wolfgang Tillmans, futuro fotógrafo de arte e de moda. Viveu em Hamburgo antes de estudar e viver em Inglaterra. É conhecido por uma obra simplicista e espontânea. Aparentemente, como se os seus momentos preparados fossem simples e felizes instantâneos de jovens, de músicos (Arto Lindsay, Moby e Damon Albarn dos Blur, p.e.), de noctívagos, de gays, de desprotegidos... Alguns nus arrojados com masturbação à mistura não o impediram de conquistar o Turner Prize de 2000. Gosto de gajos, assim!...

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2007/03/30

virtual boxon

Imaginem fotografias tiradas num bordel de há 100 anos. Onde tudo é possível, onde tudo é estranho, onde tudo é quase cómico. São retratos anónimos da última década do século XIX, do início da Belle Époque recolhidos e exibidos pelo site Virtual Boxon. Bons retratos, porém, no esplendor do sépia natural e da imaginação dos intervenientes. De homens e de mulheres. De elas com eles e de elas com elas, ainda que na foto de exemplo não seja bem o caso, até porque ficou por determinar com clareza se é ela que quer ser ele, ou se ele é que quer ser ela...

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2007/03/29

ukrainito

Com formação artística académica e um nome inspirado no pintor espanhol Jusepe de Ribera (também conhecido por El Españoleto ou Lo Spagnoletto), Ukrainito é um artista plástico ucraniano. Ao lado de Ermanito, o seu companheiro desde há 2 anos, constrói um templo de amor e de arte a que deram o nome de The BK Family. Fotografia, desenho e arte digital são as técnicas usadas. Num país em democratização e aos 30 anos de idade, este jovem espera paciente pelos dias prometidos...

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you talkin'to me?

No filme «Taxi Driver», realizado por Martin Scorsese em 1976, a personagem representada pelo actor Robert DeNiro diz uma frase que ficaria para a história do cinema: enfrentando o espelho com uma arma na mão, Travis Bickle enfrenta-se também a si próprio e insinua sem temor "You talkin' to me? You talkin' to me? Then who the hell else are you talkin' to? You talkin' to me? Well I'm the only one here". A cultura popular (ou pop, como se diz nos anglo-saxónicos) não ignora esta frase tão marcante e carregada de simbolismos, de leituras. E é esta uma das que tantas vezes nos deveria trazer à realidade, num mundo em que sonhamos de olhos abertos. Não poucas vezes perguntámo-nos aonde nos dirigimos, adonde levamos a nossa vida. Essa, sim essa, que é bem mais limitada do que geralmente queremos admitir. Ouvia ontem num documentário da TV que "todos nascemos, crescemos e morremos" e essa é a verdade, pelo menos no nascer e no morrer. Porque o crescimento pode ser maior ou menor, mais curto ou mais longo, ou quase nem existir. Existindo, poderá sê-lo de muitas maneiras. E no fundo assim se entende que crescer é viver, como viver é crescer. Ou estagnar, ficar inerte, entre o cá e o lá, entre o ontem e o amanhã, entre o princípio e o fim... Pergunto-me por vezes, quando vejo o espelho, se eu sei quem tenho por diante. Se o devo aceitar ou se o devo provocar... O certo é que do lado de lá do vidro não está ninguém, só eu daqui... E por mais que eu espere companhia, por mais que eu dê de mim a essoutro, nada mais tenho observado do que uma imagem desfocada da companhia que tanto anseio. Como diria novamente DeNiro, "well I'm the only one here"...

Texto de Paul Schrader via Wikipedia
Imagem de Martin Scorsese via Wikipedia
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