2007/04/13

mais rough trade

Geralmente, trade e rough trade são entendidos como sinónimos. As expressões são assim usadas há muito pela cultura britânica para designar o acordo resultante da atracção vertiginosa de um homem homossexual por um prostituto que se diz interessado no dinheiro e não no sexo, que às vezes se diz heterossexual e que tem um comportamento dominante ou até violento. A loja de discos Rough Trade surgiu em Londres em 1976. Dois anos depois brotou dela a editora Rough Trade Records, berço de bandas como The Smiths, Aztec Camera, The Fall, Cabaret Voltaire e Young Marble Giants, que assinariam alguma da melhor produção musical britânica dos anos 80. Tantos anos depois, depois de tantas experiências e transformações, coexistindo com independência entre si as lojas (uma em Portobello, a outra em Covent Garden), a editora e a distribuidora, a Rough Trade anuncia para Junho a intenção de abrir o seu mais recente espaço de venda em Londres, que ficará situado num estabelecimento de 500 m2 algures na zona de Brick Lane. Que tipo de rough trade será este, não se sabe ainda. Mas para mim será incontornável uma visita ao mais recente templo de quem tanto fez pela música pop independente nas últimas três décadas e me deu o prazer de descobrir músicos e discos que marcaram a minha vida.

Lojas (e respectivas estações de Metro): Talbot Road (Ladbroke Grove ou Notting Hill Gate), Neal's Yard (Covent Garden) e a confirmar no Verão em Brick Lane (Aldgate East).

slava mogutin, o russo de nova iorque

Slava Mogutin (1974) é russo e siberiano de Kemerovo. Na adolescência foi para Moscovo, onde começou uma carreira como jornalista. Ainda apenas com 21 anos era já elogiado por uns e condenado por outros devido aos seus textos libertários que defendiam os homossexuais. Ele foi o primeiro jornalista abertamente gay na imprensa russa, sendo acusado de diversos crimes de "ofensa deliberada às normas morais geralmente aceites", de "provocação e divisão social, nacional e religiosa" e de "propaganda da violência, patologia psíquica e perversão sexual" (chega???). O seu nome corria nos tribunais e no ar pairava a ameaça de uma pena de prisão quase certa, que poderia durar 7 anos. Com a ajuda da Amnistia Internacional e da PEN American fugiu para Nova Iorque, onde se exilou. Aí é hoje considerado como um artista ao nível dos famosos Nan Goldin, Wolfgang Tillmans ou Terry Richardson. Soldados, punks, skaters são parte do objecto da sua escolha que se mistura com sexo, muito sexo, muita acção e sinais de revolta, de contestação, de amplo inconformismo. As fotos de Slava Mogutin são instantes pensados para não fazer concessões. Estão carregadas de dor, de prazer, de inocência, de fatalidade, de entrega, de despojamento. Nas suas imagens há algo de sinistro e de inatingível, que aos poucos vamos entendendo. Há pornografia, e não pouca. Às vezes só mesmo uma suave sugestão, algum erotismo, mas sempre uma enorme entrega que revela a grandeza do seu amor à arte, do seu amor à linguagem dos sentidos. Slava está hoje representado nas galerias mais arrojadas e mais conceituadas e nas melhores revistas de arte e de moda como a i-D, Butt, Visionaire, Honcho, BlackBook, Playgirl e a Stern. Foi capa da revista portuguesa Umbigo (veja-se aqui). Tem 7 livros publicados em russo e traduções para 6 línguas. Em 2005 criou uma parceria artistica com o seu companheiro Brian Kenny: o colectivo Superm.

Importado do blogue l'avion rose

2007/04/12

françoise nielly

Ainda não se passou uma semana sobre a Páscoa e parece que ela vai já bem longe. Hoje é assim, o tempo passa demasiado depressa e não só não temos - muitas vezes - tempo para nós próprios como - ainda pior - não o temos para os outros. Ou para todos os outros a quem gostaríamos de dar parte do nosso tempo. As figuras pintadas por Françoise Nielly são coloridas como as amêndoas da Páscoa. Fazem-me regressar a momentos bons. E eu gosto disso!...

Importado do blogue l'avion rose

2007/04/10

contigo ou sem ti

Sou feliz quando estou contigo. Acontece assim desde aquele dia que não esqueci e a que tantas vezes regressamos. Gosto de ti, como és e como tens sido ao longo do tempo. Gosto do teu carinho, do teu calor, do teu cheiro, da tua pele e dos teus beijos que tantas vezes me deixaram sem respiração. Gosto da forma como me encontras, como nos encontramos, de ser recebido entre os teus braços, entregue ao teu abraço. Mas quando não te vejo quase enlouqueço, fico sem norte, perco as estribeiras. Deverias saber como é difícil ultrapassar o silêncio, sobretudo quando se vive rodeado de ninguém. Quando ficámos sós porque os outros se esqueceram de nós ou simplesmente porque queremos ficar na solidão dos nossos pensamentos, das nossas recordações. É este o mundo com que me deparo nos dias de hoje, e tu deverias sabê-lo. Talvez te apercebesses que quase ninguém ainda precisa de mim, que todos os elos parecem ser frágeis, efémeros, condicionados. Mas eu reconheço que preciso de ti, muito, que preciso do teu amor, sempre, na saúde e na doença blá-blá... Preciso do teu braço, da tua boca, do teu aconchego, do teu corpo, da tua sabedoria e da tua sensibilidade. Preciso de ti, ente único e querido, com as tuas virtudes, com os teus defeitos, com a tua capacidade excepcional de me aceitar nos meus defeitos e de reconhecer em mim virtudes que mais ninguém conhece. Sem ti sinto-me esvaziado, demasiado só, vazio. Contigo sou feliz!

Contigo ou Sem Ti («With or Without You») é o título de uma canção dos U2 incluída no álbum «The Joshua Tree», de 1987 (Island Records).

Imagem via Emisiones Nocturnas
Importado do blogue gayFEEL

2007/04/09

joel meyerowitz

«Fallen Man» é de 1967, mas eu já passei também por isto, num outro dia... Comigo foi uma quebra súbita de tensão e parecia que o chão subia vertiginosamente em direcção à minha cabeça; durou 10 segundos e logo depois tudo estava bem. Hoje descobri aqui o seu autor: Joel Meyerowitz (nascido em 1938), fotógrafo de vertigens, de quedas, de fracturas e de escombros, mas também do inverso, do reencontro, da reconstrução. Vale por tudo isso!...

Importado do blogue l'avion rose

poema de amigo

Conversas recentes e, que mais não fosse, os pensamentos que me ocupam a cabeça, levam-me a questionar incessantemente as minhas qualidades e a destapar os meus defeitos. Com o passar dos anos a confiança nas virtudes vai dando lugar a uma mais realista aceitação das falhas e à consciência de que, apesar de tudo, sou menos, muito menos do que pensava ser. E penso nos meus amigos, nas pessoas, enfim, que eu amo — porque de amor faço também a amizade — e em como sou ausente. E há algumas semanas atrás encontrei um poema de José Tolentino Mendonça que tive logo a vontade de dar aos meus amigos, mas que, porque sou menos que perfeito, só agora mostro. Aqui vai então «A Estrada Branca», com fotografia de Joel Meyerowitz, como um poema de amor para os meus amigos, para o meu amigo:

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

2007/04/06

a cama está vazia

É noite longa e a cama ainda está vazia. Sobre ela só papéis, uma caneta, o telefone já frio e o silêncio. Um silêncio de paz, mas sem ninguém. Se alguém repousasse sobre esta cama, hoje e todas as noites, serias tu, nenhum outro. Mas sou eu só, apenas, e o silêncio que sobre ela se deitam. Talvez amanhã, ou um outro dia, surja de novo essa alegria, esse sorriso e esse calor que andam longe daqui, por agora. Talvez amanhã, ou noutro dia, eu te tenha outra e outra vez por companhia, para amansar esta revolta de solidão, de silêncio, de quase amor em vão. É noite longa, aos poucos cada vez mais, e nem mesmo tu vais ouvir estes ais, estes queixumes lentos e longos e negros das minhas noites, dos meus dias, dos meus meses e anos. Comigo só, hoje a cama está vazia.

Imagem via Le Mâle Absolu
Importado do blogue gayFEEL

elisabeth ohlson wallin

A pequena Elisabeth Ohlson Wallin (1961) desejava ser agricultora ou arqueologista, mas foi como fotógrafa que começou a trabalhar em 1980, para um jornal regional da Suécia. Em 88 deu asas à sua veia artística e ficou conhecida por capturar eficientemente a essência dos seus modelos. Fotografou personalidades raras, minorias sexuais, rebeldes com ou sem causa, mas foi notada sobretudo com a série de 12 fotos «Ecce Homo» que retratavam a vida de Jesus Cristo num contexto actual (ao lado vê-se Jesus a morrer de sida no braços de Maria). Trazer Cristo de volta à vida é o sonho de um bom Cristão, e Elisabeth Ohlson (à sua maneira) conseguiu-o também...

Importado do blogue l'avion rose

2007/04/05

zhao yannian

A China é um universo de surpresas e Zhao Yannian (1924) uma das suas maiores estrelas. Este artista foi seguidor ideológico de Lu Xun, o pai da revolução chinesa, e influenciado por artistas europeus como Käthe Kollwitz e Frans Masereel. As suas xilografias são obras de intervenção, documentando ou criticando momentos sociais e políticos marcantes no seu país. «Pesadelo Nº 2» faz parte da sua reflexão sobre a Revolução Cultural...

Importado do blogue l'avion rose

2007/04/04

youssef nabil, quase perdido no deserto

Fotógrafo de origem egípcia, nascido em 1972, Youssef Nabil deixou-se perder pelo deserto mas também levar pela magnitude do cinema, pelo dramatismo sentimental hollywoodesco, pela elegância que se pode encontrar no diverso mundo das paixões. Ainda miúdo sentia-se atraído pelas velhas fotografias a preto e branco que os modernistas se apressavam a colorir. Por isso, as suas primeiras fotos eram feitas por esse método e o velho e clássico tema da nudez era o assunto. Só que os seus haréns estavam cheios de viris homens, dos seus amigos, dos seus amantes. Quase perdido no deserto, Nabil concretizou a transformação da gente ainda marcada por uma vida difícil, em belos modelos que poderiam ter sido estrelas de Hollywood. Em 1993 tornou-se assistente, em Nova Iorque, de David LaChapelle, depois praticou ao lado de Mario Testino, que acompanhou por Paris em 1997. Conquistou o troféu Seydou Keita na Bienal de Fotografia Africana de Bamako, em 2003, e diversos outros prémios. As suas obras foram exibidas por todo o lado: em França, Holanda, Estados Unidos, Espanha, México, África do Sul, Egipto, Emirados Árabes Unidos, etc. Depois de uma residência estável na Cidade Luz, o fotógrafo mudou-se para Nova Iorque.

Importado do blogue l'avion rose