2007/08/31

notas de viagem III: rock garden

Estive no restaurante Rock Garden da primeira vez que fui a Londres, na segunda metade dos anos 80, e lá voltei por volta de 1993. Era impossível para mim, com esses dois bons momentos na memória, não regressar de novo para o revelar ao meu companheiro nesta terceira viagem (a primeira juntos neste destino). O Rock Garden (que se presta à confusão com jardim de pedra mas que, na verdade, é mais um jardim do rock) é um restaurante com 30 anos de existência que assenta sobre o seu próprio bar-discoteca (o The Gardening Club) por onde passaram imensas bandas pouco conhecidas que em curtos anos se tornaram cintilantes nomes do pop-rock: The Smiths, Talking Heads, The Stranglers, U2 ou The Police. Na verdade, o edifício ocupa também o primeiro andar do prédio e o exterior sob as arcadas onde, dia e noite, está uma esplanada para os que preferem almoçar, lanchar ou jantar mais em contacto com o ar fresco e o movimento constante. Discreto por fora e intenso por dentro, fica defronte ao célebre mercado de Covent Garden, bem no centro de Londres e da agitada vida nocturna.
Só que nessa noite de Julho (a segunda desta nossa viagem, se bem me recordo) ambos estávamos perturbados com uma sinusite. Era eu que mostrava mais sinais de mal-estar. Por isso pedi uma mesa no interior, mas junto à janela por causa das vistas. Para jantar, a escolha foi simples e comum aos dois: "fish and chips", um dos mais típicos pratos britânicos, e vinho da casa. A comida estava óptima, mas nessa noite muitos planos ficaram certamente por concretizar. Regressámos cedo e só no dia seguinte procurámos uma farmácia, onde nos receitaram um remédio quase milagroso que nos salvou a noite que viria...
Hoje, visto já a alguma distância, parece-me claro que o Rock Garden poderá ser ainda um restaurante a revisitar, caso surja a oportunidade. É caro, mas não mais do que se pode esperar numa das cidades mais caras do mundo e, por isso também, uma boa dica para quem possa aproveitar esta sugestão.

2007/08/30

gostava de ser quem sou

A Amália tinha um disco (que eu um dia também tive) que tem por título «Gostava de Ser Quem Era» e isso estava-me na cabeça ainda agora e por isso fui ainda agora à procura do origem do que me estava na cabeça e foi um espanto que encontrei não só a referência a esse disco de encanto (dessa Senhora com quem estive uma vez em Paris) mas também uma outra forma de canto que por ser tão belo não pude ignorar nem deixar de citar assim com todas a vírgulas e pontos e sentimentos e urgências de mostrar e revelar:

"Gostava de ter nascido fora de Lisboa. Gostava de ser Alentejano, ou Algarvio. Gostava de ter uma terra, gostava de morar nela. Gostava de viver no campo, ou de saber viver no campo. Gostava de apreciar paisagens. Gostava de apreciar as pessoas. Gostava de saber lidar com elas. Gostava de saber lidar comigo. Gostava de ser artista, fotógrafo, pintor, ou algo assim. Gostava de ser criativo, ou dinâmico. Gostava de saber pensar. Gostava de dizer aquilo que penso. Gostava de saber comunicar. Gostava de ser livre. Gostava de saber o que digo quando falo, ou o que penso quando escrevo. Gostava de gostar de mim, ou de ti. Gostava de ter amigos. Gostava de ser amigo. Gostava de não saber ler, de não saber pensar, de não saber falar. Gostava de me reinventar. Gostava de não me contradizer. Gostava de ser quem sou, ou quem nunca fui. Gostava de saber quem és, ou porque me lês. Gostava que não me lesses, ou que não me visses. Gostava que voltasses. Mas gostava, sobretudo, de não te sentir a falta..."

Bem longe de Lisboa e mais ainda de Paris por aqui me fico em vénia dupla de admiração e de encanto.

O texto que cito acima é da autoria de Blindness e está no Diário da Minha Cegueira
Já a imagem era para ser a da serigrafia do Leonel Moura, mas como não a encontrei veio esta via La Danza Del Folletto
Importado do blogue gayFEEL

2007/08/17

ainda das profundezas

Reapareço das profundezas. Quando posso. Entre mudanças, férias, regresso ao trabalho, compras para a casa, limpezas, arrumações, trapalhadas legais e outras mais, muitas mais. E, de repente, a presença do amigo que durante mais de três anos nunca correspondeu aos convites para ficar na casa antiga (o apartamento que deixámos) e que entretanto decide aparecer. Mesmo sendo advertido que o momento não seria o melhor. Nem mesmo para ele. Assim foram passando quase oito dias. Difíceis para nós e para o nosso (muito querido) amigo. Ficou na sala, no sofá, pois teve a sorte de a nossa cama ter sido montada um ou dois dias antes dele ter chegado. A outra cama ainda só chegará na próxima semana, e essa teria sido a solução ideal. No fim, ficámos com pena de não o ter recebido melhor. Sem tempo para ele nem tempo para nós, mesmo sem tempo para vós. O amigo partiu ontem, anunciou-o logo de manhã muito cedo. Rápido como nos anunciou a chegada, anunciou a partida. Nós aprendemos uma lição, uma grande lição: a de que, às vezes, é preferível dizer "agora não!"... Lentamente, entretanto, tentamos concluir o que deveria estar feito. Eu próprio reapareço das profundezas para tentar concluir o tanto que ainda há por fazer. Talvez domingo tire uma espécie de folga, que me poderia levar pela primeira vez à praia neste ano. Ou talvez algum amigo queira aparecer, mas para nos ajudar...

Imagem via Bajo el Signo de Libra
Importado do blogue gayFEEL

ícaro doria: bandeiras ao vento

Ícaro Doria é um brasileiro de 25 anos que tem produzido obra gráfica e de opinião para a revista portuguesa Grande Reportagem. Com Andrea Vallenti, Luís Silva Dias, Duarte Pinheiro de Melo e João Roque, ele concebeu uma campanha baseada em dados recolhidos nos relatório da Amnistia Internacional e da Organização das Nações Unidas. A equipa olhou para as estatísticas da União Europeia e de mais sete países: Angola, Brasil, Burkina Faso, China, Colômbia, Somália e os Estados Unidos da América (na imagem). As opiniões sobre a guerra no Iraque, a violência contra as mulheres africanas, as desigualdades sociais no Brasil, o tráfico de drogas na Colômbia, a sida e a malária em Angola, ou o consumo e produção de petróleo na Europa foram alguns dos temas abordados. Onde termina a arte dos artistas e começa a reportagem dos repórteres, é muitas vezes difícil de perceber e, neste caso, mais ainda. Mesmo assim, há aqui uma clara intenção de criatividade e de intervenção social, política e económica. E é caso para admirar, ou não é?!...

Importado do blogue l'avion rose

2007/08/13

33 imagens sem grandes palavras


































32 imagens de Londres e uma da chegada ao Porto. Sem legendas e só para satisfazer promessas adiadas... (Importado do blogue gayFEEL)

2007/08/08

de londres para o porto: alexander taylor

Há um mês estivemos em Londres. Antes e depois tivemos que lidar com uma desejada e inesperada mudança de casa. Não se espantem, portanto, que na nossa ausência o espírito do LAR sempre tenha estado presente. Num desses dias de Londres, à passagem pelo West End, entrámos no Liberty. Lá dentro ficámos encantados sobretudo com um cabide para roupa que na indecisão deixámos para trás, mas que jamais esquecemos. Esse acessório de mobiliário é do designer Alexander Taylor (1975), estabelecido por conta própria em 2002 e que tem vindo a ser distinguido e premiado internacionalmente. Ele tem já, até, uma peça na colecção do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Mas também o objecto da nossa admiração é especial e tão simples quanto a função a que se destina: «Antlers» inspira-se nas galhadas dos cervídeos, é feito em arame de aço de 8mm revestido a plástico branco (existe ainda em vermelho, azul, preto, amarelo ou em edição limitada cromada) e mede 55 cm de largura por 53 de altura e 18 de fundo. Fixa-se à parede por parafusos. Deverá sair de Londres nos próximos dias e passar a fazer parte da nossa colecção privada permanente. Vejam-no já aqui.

Importado do blogue l'avion rose

2007/07/30

notas de viagem II: marc almond

Há uma entrada atrás o Gonçalo referia que as coincidências formam cadeias de sentido e, sublinhando a lógica reparo como aconteceu a nossa presença no concerto dos 50 anos de Marc Almond, em Londres, no Sheperds Bush Empire.
Sairíamos do Porto a 6 de Julho e voltaríamos a 11. Por coincidência, a 9 o Marc daria um concerto e nós estaríamos lá. Fã antigo do cantor dos Soft Cell, seria impossível evitá-lo. Os contactos foram feitos e os bilhetes adquiridos. A sala do Shepherds Bush Empire, onde em tempos a BBC gravava os seus programas de teatro, é famosa pelo ambiente acolhedor e pela boa acústica. Dirigimo-nos ao local cerca de uma hora antes, quando as filas começavam ainda a ser formadas. Pela primeira vez nesta viagem uma chuva ligeira, mesmo muito leve, cobriu as ruas de Londres. Antes de entrarmos já tinha parado. Por essa altura a quantidade de gente que esperava pela abertura das portas era surpreendente, mas a ordem mantinha-se e todos aguardavam em duas filas enquanto se trocavam olás e abraços entre amigos que talvez não se vissem há imenso tempo. Chegando a nossa vez de entrar, fomos orientados para o 1º balcão, onde conseguimos ocupar duas das cadeiras centrais na segunda fila. A luz era suave e quente, a música ambiente cumpria a função de nos ambientar. Durante uma meia hora ia-se vendo quem chegava, como a sala se enchia, quem ocupava as cadeiras à esquerda e à direita da boca de cena, reservadas aos convidados. Pareceu-nos reconhecer entre eles algumas presenças previsíveis: Pierre et Gilles à nossa direita, que se fartaram de aplaudir e trocar acenos e beijos com Marc; Matthew Stradling, à nossa esquerda, aparentemente acompanhado por uma amigo, e logo a seguir os Coil de Peter Christopherson e John Balance, mais um par de outros elementos das tribos descendentes dos Throbbing Gristle e dos Psychic TV...
À hora, Marc entrou em cena com a sua banda. Os aplausos imediatos deixaram-no seguro da sua noite especial. Ofereceu-nos a sua criativa versão de «Jackie» de Jacques Brel, a histórica «Caroline Says» de Lou Reed, ou o muito seu «I Have Lived» de Charles Aznavour, bem como muitas mais versões, como seria de esperar, entre outros tantos originais. Mas foi «Tainted Love» que fez agitar toda a sala e «Say Hello, Wave Goodbye» que confirmou a disposição dos presentes para ficar ali a cantar com Marc pela noite fora.
«Happy Birthday» também foi alegremente cantado por todos nós e Marc não conseguiu esconder a sua profunda emoção. Escreveram os cronistas que lá estiveram que o concerto durou 150 minutos, num único take. O que bem mostra a forma de Marc Almond, apesar dos 50 anos.
Foi um dos concertos da minha vida, não tenho dúvidas!

2007/07/23

do trabalho e da mudança

Não levem a mal o meu silêncio por estes lados.
Sabem certamente que é devido a um retorno ao trabalho (entenda-se a uma quantidade infinda de tarefas adiadas que me esperavam em cima da secretária) e à necessidade imperiosa de usar o pouco tempo que me sobra para tratar de mim (as refeições e não só, como será evidente). E da mudança para a nova casa, pois, pois!...
Se só com isto eu via o meu tempo livre aprisionado, imaginem agora como não será nos próximos 8 dias, já que hoje soube que há interessados no apartamento que quero deixar e que pretendem ocupá-lo a partir do final do mês (huauuu!). Por tudo isto, eu tenho falhado aqui, mas não por desrespeito a quem me tem acompanhado.
Por isso fiz por aproveitar esta pausa para vos deixar um escrito com a promessa de que voltarei o mais brevemente possível. Voltarei para corresponder aos vossos diversos desafios, que me têm deixado enternecido, e para vos contar com tempo as coisas que faltam contar (no GAYFIELD) do fabuloso concerto do Marc Almond e de outras coisas das férias em Londres, ou tudo o mais a que também o l'avion rose vos tem habituado.
Os 8 dias que faltam para acabar Julho tendem para ser caóticos. Mas talvez a minha vertigem pela perfeição nos leve a soluções adequadas ou, quiçá, razoáveis. É certo que não tenho qualquer solução para esticar o tempo, nem tempo para esticar as palavras. Mas também é seguro que vos irei seguindo no meu temporário silêncio, seja nas pausas do trabalho ou nas do trabalho de andar com a casa às costas. Pensem nisso!

Imagem via AstraZéneca
Importado do blogue gayFEEL

2007/07/16

notas de viagem I: la passion de simone

Numa sucessão mais ou menos desconexa de momentos geram-se às vezes coincidências, que formam pequenas cadeias de sentido, que dão forma às nossas vidas. Eis uma delas: No Inverno de há dois anos, como presente de aniversário, o Luís ofereceu-me o DVD «L'Amour de Loin», uma ópera de Kaija Saariaho cujo libreto alude de alguma forma à história da nossa relação. Na Primavera deste ano, com umas férias nas Canárias já quase marcadas, visitei o dermatologista para um exame de sinais que resultou numa pequena intervenção cirúrgica, na diminuição do orçamento disponível e na contra-indicação do excesso de exposição ao sol. Alterámos então o nosso destino para Londres, o lugar de uma antiga promessa, que agora, no ano dos nossos 20 anos, fazia todo o sentido enfim cumprir. Foi então, quando procurava espectáculos em cartaz na capital inglesa, que descobri «La Passion de Simone» [Weil], uma oratória para solista, coro, electrónica e orquestra, que, como o «L'Amour de Loin» do DVD que o Luís me tinha dado, era composta, encenada, escrita e cantada, respectivamente por Kaija Saariaho, Peter Sellars, Amin Maalouf e Dawn Upshaw. Poderia fazer o elogio da obra, de uma enorme sensibilidade, mas que não teve crítica unânime, ou explicar porque me escapa a lógica dos argumentos com que se criticou a confluência de sentido entre texto, música e encenação; ou ainda sublinhar o privilégio de ter ouvido Dawn Upshaw, recuperada de quimioterapia para cancro da mama, no papel que Saariaho escreveu para ela e que só agora, depois de substituída para a estreia em Viena, pôde cantar. Mas não, fico-me pelo fechar do círculo, do DVD para o espectáculo em Londres, no ano dos nossos 20 anos, com tanta coisa a acontecer.

[A foto acima é da produção de Viena.]

2007/07/05

reininho promove porto pride

Que me perdoe o Rui, mas achei óptimo que ele tenha vindo apoiar o Porto Pride 2007. Afinal, o Rui Reininho é uma figura mítica e carismática da cidade e do país. Por isso é tão importante a visibilidade do seu apoio e eu aqui o destaco (ver abaixo na ligação ao YouTube).
O Porto Pride 2007 tem lugar no Teatro Sá da Bandeira, a 07/07/07, a partir das 22 horas. À tarde, pelas 15h30, tem início a 2ª Marcha do Orgulho LGBT no Porto, que sai da Praça da República em direcção à Praça de D. João I. Por razões diferentes ou por uma mesma razão, são acontecimentos em que a presença possível é determinante para o sucesso das iniciativas. A visibilidade sempre foi marcante nestes actos e ser-se solidário com eles é ser-se solidário connosco, sempre que tal nos seja possível.
O Rui merece sem dúvida um abraço bem forte de todos nós. Simbolicamente aqui lho deixo, com pena de não o ver como figura de cartaz nas actuações do belo Sá da Bandeira.

Ver Rui Reininho na Wikipédia e intervenção no YouTube
Importado do blogue gayFEEL