2007/10/24

prazeres proibidos

Num dia de chuva que marca o fim do meu Verão, recordo Luis Cernuda, poeta espanhol nascido em 1902 nessa incontornável Sevilha, leitor e seguidor de Keats e de Gide, combatente antifascista na Guerra Civil, vanguardista no seu tempo, exilado em Inglaterra e, depois, no México que o levaria por fim deste mundo em 1963. Ficou ligado ao movimento intelectual e literário que incluía Federico García Lorca e se designou Geração de 27. Marcado por uma solidão e um desterro que poucos ousariam combater numa Espanha franquista e puritana, «Los Placeres Prohibidos» — de onde se mostra o poema «Os Marinheiros São as Asas do Amor» — é uma obra adiantada para o seu tempo, com marcas de surrealismo e uma óbvia sexualidade que Cernuda mais procura defender que esconder:

Os marinheiros são as asas do amor,
São os espelhos do amor,
O mar acompanha-os,
E os seus olhos são dourados como o amor
É dourado em seus olhos.

A alegria viva que lhes corre nas veias
É também dourada,
Semelhante à própria pele;
Não os deixes partir porque seu sorriso
É como o sorriso da liberdade,
Luz resplandecente aberta sobre o mar.

Se um marinheiro é um mar,
Dourado mar amoroso cuja presença é um cântico,
Não quero a cidade construída de sonhos cinzentos;
Quero apenas deitar-me ao mar e naufragar,
Barca sem norte,
Corpo à deriva afundar-me em sua luz de oiro.

«Os Prazeres Proibidos» apareceram em Portugal numa edição de 1985, pela Hiena Editora, de onde transcrevo o poema vindo à página 18. Acima, na foto, está o poeta junto ao mar de Castropol, numa memória do Verão de 1935, que pode ser consultada com mais detalhe pelo link do título. Havendo vontade recomendo ainda a leitura de «Birds in The Night» que foi escrito em Londres na mesma casa onde Cernuda habitou depois de nela terem vivido (bem) juntos Rimbaud e Verlaine. A «Pena Capital» de Mário Cesariny (no meu exemplar de 1982, que veio à luz pela edição da Assírio e Alvim) trás uma tradução a páginas 219 a 221.

2007/10/20

kaput

Após silêncio prolongado, aqui e além, como quem se perde entre o sítio presente e o nada, grito alto que vou deixar cair os braços, parar para quase tudo, aqui, ali e acolá. Regresso ao berço, ao GAYFIELD onde me viram primeiro. É para onde volto, é para onde hoje reencaminho quem ainda se vai mantendo próximo de mim. É para onde vos peço a atenção e é onde espero concentrar estes meus esforços dispersos. Por isso já não se prendam a mim no l'avion rose, nem mesmo aqui. Mais do que em qualquer outro sítio, eu estarei lá, estarei sim, ao lado do meu companheiro com quem agora partilho um LAR. Será lá, onde sempre estive, que de futuro vos esperarei. Vos esperaremos. Aqui, fico simplesmente kaput...
Apenas deixo ainda um grande obrigado, para todos vós!

Imagem via GayFeed
Importado do blogue gayFEEL

aos dois, a dois

Faz hoje dois anos que iniciámos o GAYFIELD. E os nossos 2 anos no Blogger são um pouco como os 25 da Madonna na Warner — a precisar de mudança. Por isso, como ela, também nós temos grandes e excitantes novidades para anunciar (embora no nosso caso, infelizmente, não haja nenhum contrato de dezenas de milhões de dólares envolvido na mudança). É que chegou o momento de concentrar esforços e, assim, juntar o que se encontrava disperso: o l'avion rose e o gayFEEL fundem-se a partir de hoje com o GAYFIELD, passando o conteúdo editorial dos três a estar integrado num só. A partir de agora podem contar aqui com as entradas do Luís sobre o mundo das artes plásticas, tal e como iam aparecendo no l'avion rose (queerness incluída); com as introspecções a que vos (e me) tinha habituado no gayFEEL, e mais o conteúdo familiar com que ambos vos vimos servindo, muito queridos leitores (vocês sabem, todos, quem são), aqui no GAYFIELD. Agora que vivemos finalmente juntos, esperamos ser assim mais frequentes, mais constantes... Ou melhor, diga-se em abono da verdade, espera assim o Luís que eu seja mais frequente, mais constante... Ou mais melhor ainda, esperamos assim que vocês continuem a ser frequentes e constantes. Ao fim destes dois anos a vossa presença e a vossa participação são o melhor deste blogue — obrigado!

luc dans le ciel

É com «Luc Dans le Ciel», um acrílico sobre tela de 54x73 cm assinado por Luís F. em 2007, que anuncio a suspensão (talvez mesmo o fim) de l'avion rose.
A partir deste momento, as minhas propostas de arte, sempre feitas numa perspectiva gay e às vezes queer, regressam ao GAYFIELD, o blogue onde começaram. Há uma razão dupla para isso: por um lado porque tenho actualmente menos disponibilidade para manter a regularidade a que vos habituei e, por outro, porque me parece preferível — agora que vivo sob o mesmo tecto que o meu companheiro – reunirmos num mesmo espaço virtual o essencial das nossas participações... Manterei ainda em paralelo, no entanto, um único blogue público menos conhecido de vós. Nele tenho vindo a apresentar colecções de 10 imagens retiradas de outros blogues, fornecendo o respectivo link para a origem: sob o conceito de arty feed for adult gay people poderão acompanhar-me no GayFeed, se bem que, nestas coisas, se possa entender ou não como forma de arte o que lá vai estando...
Mas quando comecei l'avion rose disse-vos que aqui falaria também da minha arte e não só da dos outros. Como nunca o cheguei a fazer (creio) termino pois com uma amostra do resultado do meu investimento artístico: um retrato que fiz de Luc, o jovem músico que me inspirou por algum tempo (talvez já o conheçam daqui). Abraços a todos e até já!

Importado do blogue l'avion rose

2007/10/19

o livro secreto de benjamim

«Em Nome do Desejo», «Má Educação» e «Os Cadernos Secretos de Sébastian» abordam — todos — a mesma problemática: a amizade extrema entre companheiros adolescentes que redunda em amor e explode em incontido desejo. O primeiro escreveu-o o brasileiro João Silvério Trevisan em 1983 (e eu tive a sorte de o ler já em 1990); o segundo foi filme do espanhol Pedro Almodóvar (que em 2004 todos nós possivelmente vimos e apreciámos); o terceiro é o primeiro livro publicado do português André Benjamim, encontrando-se à venda desde há quase um ano. Eu comprei-o e acabei de o ler há bem pouco tempo. É sobre ele que me venho manifestar, para aconselhar a leitura a quem o tema possa interessar.
André (nascido em 1981) é o autor e também uma das personagens. E Sébastian é a outra voz que se faz ouvir no romance. São duas histórias paralelas, que em certos momentos se encontram e noutros se separam: as memórias que André recolhe de apontamentos escritos na sua passagem pelo internato, os diários que Sébastian escreveu a partir dos seus 13 anos.
"Este romance é em grande parte uma reflexão sobre o modo como nos relacionamos uns com os outros, e com nós mesmos; sobre o modo como nos enganamos a nós próprios e aos outros... O que muitas vezes é quase natural, no sentido em que as trocas que estabelecemos uns com os outros estão sempre sujeitas ao equivoco... Há uma impossibilidade de comunicar, porque aquilo que para nós tem um significado, no Outro pode ter um significado completamente díspar... Gosto dos romances que são como laboratórios sociais, onde se testam hipóteses sobre como seria, ou como será, o relacionamento entre os seres humanos, se certas variáveis estiverem presentes..." disse-o o André a propósito do seu livro «Os Cadernos Secretos de Sébastian», que poder ser encontrado nas livrarias ou encomendado através da Editorial 100.

Imagem do filme «Má Educação», de Pedro Almodóvar
Importado do blogue gayFEEL

2007/10/08

sobre as práticas de consumo

Desde o início deste mês estamos a participar num estudo sociológico sobre práticas de consumo. A investigação é da autoria de Isabel Cruz, aluna de doutoramento em Sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), que está a desenvolver a sua investigação na área da Sociologia do Consumo. Com este estudo pretende-se "analisar e compreender a influência da trajectória de vida nas práticas de consumo". Para que esse objectivo seja atingido, a investigadora fará um conjunto de entrevistas às famílias seleccionadas (serão três a quatro entrevistas, com duração não superior a 2 horas por cada) com o objectivo de reconstruir as vivências que fazem a história de cada uma. Os agregados a estudar são de diferentes tipos (incluindo as chamadas famílias gay, mas também as famílias nucleares modernas e tradicionais, as famílias monoparentais, as famílias recompostas, entre outras), todos residentes na área metropolitana do Porto (já que o estudo incide apenas sobre esta região). No decurso das entrevistas com a investigadora serão abordados o passado familiar, o percurso escolar, os amigos, o trabalho e a ocupação dos tempos livres. Para ajudar a entender e comparar a tipologia dos consumos, cada família terá de quantificar diariamente as suas despesas-tipo, ao longo de 12 mapas mensais organizados para este estudo.
A investigadora Isabel Cruz pediu-nos ainda a colaboração para ajudar a localizar algumas famílias, já que ainda lhe faltam as seguintes tipologias:
  • 1 família homossexual masculina (com orçamento e despesas comuns) com nível de instrução inferior ao 9º Ano de Escolaridade;
  • 1 idem, mas com nível de instrução entre o 9º e o 12º Ano de Escolaridade;
  • 1 família homossexual feminina (com orçamento e despesas comuns) com nível de instrução inferior ao 9º Ano de Escolaridade;
  • 1 idem, mas com nível de instrução entre o 9º e o 12º Ano de Escolaridade;
  • 1 família heterossexual sem filhos, em que a mulher não trabalha por opção e com nível de instrução entre o 9º e o 12º Ano de Escolaridade
  • 1 idem, mas com nível de instrução superior ao 12º Ano de Escolaridade.
Se estiver disponível para colaborar na investigação, a autora agradece que a contacte pelo e-mail imsilvacruz@gmail.com. Haverá alguém mais que possa participar?

[A imagem foi obtida no blogue RuboART, que pode ser visto pelo link do título.]

2007/09/29

a sexualidade, os números e nós

Um dos mais belos livros que eu li em toda a minha vida é da autoria de Isaac Asimov (1920-1992), um bioquímico russo que se fixou nos Estados Unidos e se tornou muito conhecido pela sua obra literária e científica. «Nove Amanhãs» (edição portuguesa da Vega, em 1979, sendo o original de 1959) contava nem mais, nem menos que 9 histórias autónomas da mais fantástica e credível ficção-científica. Todos os contos são excepcionais, mas foi «Profissão» logo a princípio e «O Rapazito Feio» a terminar que fez com que o livro se tornasse num dos meus preferidos de todos os tempos. Motivado para conhecer melhor a obra de Asimov, comprei depois «A Ciência, os Números e Eu» (originalmente de 1968), que abordava a mundo científico de forma não erudita, mas mais não era do que um (sem dúvida) excelente texto de lógica matemática em vez de algo igualmente literário, como os «Nove Amanhãs» que me fascinaram.
No entanto, ao título deste segundo livro fui buscar hoje a inspiração para o título desta entrada: «A Sexualidade, os Números e Nós». Porquê? Porque decidi verificar e tornar público um pequeno balanço sobre as visitas que acabo de contabilizar nos nossos blogues. É que são já vários os que eu administro, com temáticas bem diferentes: uns são blogues ligados à minha actividade profissional, outros são pessoais (como este GAYFIELD, ou o l'avion rose, ou o gayFEEL), há ainda um de teor homoerótico (quiçá pornográfico) que ficará desta vez ainda por identificar e, por fim, mais um par deles anónimos que espero manter ainda de alguma forma privados. Mas os números falam por si e decidimos mostrar-vos o que eles nos dizem de vós, o que eles também vos dizem de nós. O primeiro valor corresponde à previsão do total de visitas de cada blogue no último ano, o segundo é real e é a contagem das visitas nos últimos 30 dias e o terceiro é o total no melhor dia dos últimos 30:

1) O blogue (não identifico) da minha profissão: 3.900 / 325 / 32 visitas;
2) O blogue (não identifico) do meu trabalho extra: 1.008 / 84 / 21 visitas;
3) O GAYFIELD: 22.128 / 1.844 / 171 visitas;
4) O l'avion rose: 12.912 / 1.076 / 45 visitas;
5) O gayFEEL: 9.852/ 821 / 41 visitas;
6) O blogue (não identifico) sobre imagem homoerótica (e pornográfica): 235.860/ 19.655 / 745 visitas.

Tenho ainda a meu cuidado mais dois blogues muito recentes (que também não identifico e onde ainda nem sequer configurei contadores), sendo um dedicado aos projectos para a velha casa que foi a dos meus pais, um outro (especialmente dirigido ao meu companheiro) onde registo as minhas paixões e obsessões ao longo da vida, recordando as primeiras experiências sexuais, os reencontros com antigos parceiros, as atracções de coup d'oeil e, claro, a minha própria memória desta intensa paixão que dura já desde 1986. Estes números falam da nossa capacidade de comunicar, de partilhar interesses e de captar a atenção de quem nos é próximo. Só tenho pena que haja tantas vozes refugiadas no silêncio. Porque, apesar dos números, às vezes é isso que se sente do lado de cá.

martin creed: expresses himself

Martin Creed nasceu em 1968, em Wakefiel (Inglaterra), e o seu trabalho artístico evoluiu com a arte conceptual dos anos 60 e 70. Cresceu em Glasgow e estudou em Londres, na Slade School of Art, de 1986 a 90. Dois anos antes formara uma banda de rock conceptual, os Owada, que só muitos anos depois (em 1997) lançou o seu primeiro disco («Nothing», editado pelo selo Piano, do compositor David Cunningham). Já as obras plásticas começaram a surgir em 1987 e a tomar títulos que mais parecem de composições de música clássica: «Work No. 1» (um opus 1, por assim dizer) e por aí adiante. Talvez a sua obra mais conhecida seja a que exibiu em 2001 por ocasião da mostra do Turner Prize na Tate Gallery, designada «Work No. 227», um trabalho minimalista concebido com jogos de luz numa sala vazia. Martin disse um dia para uma rara entrevista destinada ao livro «Art Now»: "The only thing I feel like I know is that I want to make things. Other than that, I feel like I don’t know. So the problem is in trying to make something without knowing what I want. (...) I think it’s all to do with wanting to communicate. I mean, I think I want to make things because I want to communicate with people, because I want to be loved, because I want to express myself". Express yourself, pois então!

Importado do blogue l'avion rose

2007/09/21

memórias vivas

Na tua ausência eu vou fazendo com que a presença aconteça. Hoje, afinal, vou comemorar o teu aniversário ainda que já não estejas cá, connosco, neste mundo por onde apenas permanecemos um quanto tempo. E vai ser assim todos os anos, como o será noutras datas poucas mas importantes para mim. Hoje, nessa ausência de quase um ano, nos 81 do teu nascimento, é mais do que em tudo nas tuas plantas, no teu jardim, que eu reencontro essa vida que nos une. Não só não te vou esquecer, nunca, como procurarei perpetuar junto de mim essas memórias vivas da tua existência. Parabéns, querida Mãe - as tuas plantas continuam lindas!...

Imagem via Looking Out From a Southern Closet
Importado do blogue gayFEEL

2007/09/07

cogito ainda

Quando voltei de férias (e já muito tempo se passou) eu havia sido surpreendido com nomeações para um punhado de "prémios" que me surpreenderam: a primeira a 10 de Julho via De Viris Pulchris et Aliis..., depois a 11 via O Melhor Dos Dois Mundos e uma outra a 16 via André Benjamim. Já antes havia entrado numa destas coisas de ser nomeado por alguém e, acreditem, lidei com alguma dificuldade com o assunto. Como sempre, "fui à guerra" e fiz o que pude. Mas pensava que já não voltaria a passar por outra. Desta vez pensei no assunto. Porra! Ainda se fosse só uma nova nomeação, mas logo três!... Como corresponder?... Não sei! Não, não sei!!! Sei apenas que não vou adiar mais este assunto, quando é tempo de resolver os assuntos em aberto para partir para outros. Cogitei, cogitei e cogito ainda, mas vou ficar por aqui. Agradeço a honra das nomeações e - francamente - não vou nomear ninguém porque não gosto de ser simplesmente simpático. O mais certo é que o foram comigo, pois eu não sei se mereceria tantas honras... Eu até tenho as minhas afinidades, eu até vou visitando com regularidade e às vezes comentando nos blogues dos meus amigos, mas nem sempre gosto daquilo que vejo, algumas outras vezes gosto mesmo muito e, seja como for, eu vou sempre voltando. Por outro lado, às vezes passo ao acaso por blogues surpreendentes, mas a blogosfera é tão imensa que não regresso a eles e perco a noção da sua localização. Parto para outras navegações, para outras descobertas. Por isso, se alguém merecesse a minha nomeação, hoje seriam todos e ninguém. Parece-me mais justo assim. Espero que me entendam ou, se necessário, que me perdoem simplesmente por (sobre isto) agora desistir de pensar...

Imagem via Rodin's Thinker
Importado do blogue gayFEEL