2007/11/23

na casa dos sigur rós

Deliciem-se com a edição especial do DVD «Heima», dos islandeses Sigur Rós. Ponham de lado as paisagens sonoras carregadas de electricidade e silêncio, esqueçam os efeitos conceptuais transpostos do seu imaginário para o écran, desmontem as personagens misteriosas e elaboradas que acreditamos serem as reais e as que se esconderão por detrás das guitarras eléctricas, da bateria, dos sintetizadores deste quarteto. «Heima» é o filme do regresso a casa após uma dessas representações sonoras e visuais que são os seus concertos e que os levaram para outros países. Este é um documentário ao vivo do seu regresso à Islândia que os viu nascer e crescer, à terra dos seus compatriotas, ao berço da sua sensibilidade e da sua cultura. Os quatro Sigur Rós que aqui encontramos são quatro simples músicos, despojados de artifícios tecnológicos, que tocam simples instrumentos acústicos, e que o fazem de terra em terra, ao longo de 15 localidades, nas cidades, nas aldeias, nas igrejas, nos parques nacionais, em fábricas abandonadas e em qualquer outro lugar onde comparecesse um grupo suficiente de espectadores que os acolhessem e à sua oferta generosa. «Heima» passou no cinema, fora de Portugal, mas por cá parece que apenas estará disponível para uso privado, em DVD (há uma edição simples e outra especial com um livro de imagens de 116 páginas, a não perder). Reúne canções dos seus quatro álbuns, renovadas para assinalar também os seus 10 anos de existência, e dois temas novos. O filme foi realizado por Dean Deblois, que nos facultou esta oportunidade de conhecer de perto os membros da banda, o seu mundo, o seu meio, a sua casa. E para nós, homossexuais, muito especialmente o estranho e fascinante Jón Þór Birgisson (Jónsi), assumidamente gay e namorado de Alex Somers, o principal responsável pela elaborada imagem gráfica do grupo.

2007/11/22

sempre comigo

Foi a 22 de Novembro de 2006, pouco passava das 13 horas. De repente o céu fez-se negro, quando antes já voltava a haver luz e a haver cor. Passou-se um ano, mas um ano depois é ainda muito pouco tempo depois. É tempo de olhar para dentro. Ainda. De reflectir. Ainda. De dedicar...
À minha mãe, que partiu, eu diria como no fado da Amália que o David Mourão-Ferreira escreveu: "tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo". Conheci-os aos dois, de forma fugaz, a ele numa conferência, a ela numa sessão de fotografia e depois num concerto para que fui convidado. Talvez por isso me sinto hoje ainda mais inclinado a identificar-me com ela e com ele, e a apropriar-me destas palavras, desta voz, que não são minhas, nem saberiam sequer quem eu sou. Mas que são de todos e muito belas:

De manhã, que medo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia.
Mas logo os teus olhos disseram que não!
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois numa rocha uma cruz
e o teu barco negro dançava na luz...
Vi teu braço acenando entre as velas já soltas...
Dizem as velhas da praia que não voltas.

São loucas... são loucas!

Eu sei, meu amor, que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros,
na água que canta no fogo mortiço,
no calor do leito dos bancos vazios,
dentro do meu peito estás sempre comigo.

A Amália cantou isto ao vivo em Bucareste e está online num filme que podem ver pelo link do título. Vejam-no lá, no YouTube, mas não façam aqui qualquer comentário. Apenas digam hoje algo de extraordinariamente belo a uma pessoa que amem muito: à Mãe, ao Pai, ao Companheiro, à Companheira, ou mesmo até à pessoa que está aí já ao lado...

2007/11/16

a um passo

Às vezes penso, como poderá Portugal dar o passo que deu a Espanha e estender o casamento civil aos homossexuais, quando aqui não temos nenhuma da visibilidade que há no país vizinho, nomeadamente através de marchas de orgulho com centenas de milhares de participantes... Não existe pressão política, nem aceitação social. Existe talvez consentimento comedido, como é próprio de uma sociedade hipócrita como a nossa. Recentemente disseram-me que existe cá um "observatório das sexualidades" e que, segundo estudos realizados por essa entidade, existiriam 30% de portugueses a favor do casamento entre homossexuais (em Espanha a mudança da lei deu-se com 48%) — serão então os 18% da diferença que nos faltam para a mudança da lei? Ou talvez nos baste a justiça do Tribunal Constitucional, onde pára agora o recurso da Teresa e da Lena e onde, como aconteceu na África do Sul (que como Portugal tem uma Constituição que não permite a discriminação pela orientação sexual, mas que ao contrário de nós já legalizou o casamento para casais do mesmo sexo após um casal lésbico ter insistido em recursos até — mais uma coincidência — ao Tribunal Constitucional), se espera uma última sentença nacional. Não percebo os homossexuais que são contra o casamento. Trata-se apenas de uma questão de direitos iguais no acesso a um contrato civil — não é relevante se vamos casar proporcionalmente mais ou menos que os casais heterossexuais e, de igual modo, se nos vamos divorciar mais ou menos depressa. Ao contrário do que possam pensar aqueles que crêem ser avançados e progressistas no seu pensamento, com ideias sobre um estilo de vida alternativo ao heterossexual (que mais não é do que aquele que se lhes permite ter na margem do colectivo), reaccionária é a oposição ao casamento de homossexuais. Por isso, também de pouco serve dizer "sim, sou a favor, mas não estou interessado em casar" — para atingirmos essa meta a primeira parte da frase é suficiente. Será possível que o nosso Tribunal Constitucional, como na África do Sul, largue a bomba e corte caminho? Estaremos em breve, alguns de nós, a assinar certidões nas conservatórias, a trocar alianças e a continuar as nossas vidas com uma maior legitimidade perante a lei?
"Parece impossível... com este frio e de manga curta!".

2007/11/06

o amor é...

Por causa de uma entrada que li (e comentei) hoje no blogue do André Benjamim parece-me por bem recordar uma belíssima letra de uma ainda mais bela canção dos Pop Dell'Arte, grupo que foi criado por João Peste, Zé Pedro Moura, Paulo Salgado e Ondina Pires em 1984, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa.
Ao longo dos anos a formação dos Pop Dell'Arte foi sendo alterada, mantendo a liderança e a voz de João Peste, que é também o autor das letras (no link do título podem encontrar mais notas sobre o grupo publicadas por nós, neste blogue). É do EP de 1989, onde se reunia «Illogik Plastik», «Poema Para Noiva Circular em Betão Armado Plástico Cor-de-Rosa & Rádio Digital Programado em FM», «Saltando Das Nuvens» e «O Amor é... um Gajo Estranho», que se destaca esta canção, estranha como o amor que canta, sedutora sob todas a formas, bela na música e na letra:

O amor é um gajo estranho
Não tem sonhos não tem coração
Vive tão longe e tão só
Preso à sua própria sedução!
O amor quando eu o conheci
Olhou para mim sorriu e disse:
"Eu sou apenas uma mentira
mas podes fazer de mim uma canção!"
O amor passa os dias frente ao espelho
Acredita num reencontro
Eu adormeço o rosto no seu peito nu
E sonho acordar noutro lugar
O amor nunca me mente
Quando me venho na sua boca
Abraça-me lentamente
E eu canto-lhe com a voz rouca!


(O amor é!?...)

2007/10/31

ladislaw starewicz: o natal dos insectos

Uma vez que se aproxima o Natal faz sentido agora mostrar-vos um pouco da obra do realizador de animação Ladislaw Starewicz, especialmente o extraordinário «The Insect's Christmas», realizado na Rússia em 1913 (podem vê-lo e descarregá-lo através da ligação no título). Este pequeno filme de animação feito com bonecos e minúsculos animais conta uma doce história de Natal passada no mundo dos insectos. É verdadeiramente bela e impressionante a concepção do filme e a delicadeza com que nos encanta. Está disponível na UbuWeb em formato "avi" e pesa 51,6MB.
Se o filme o impressionar, como nos impressionou a nós, no mesmo local poderá ainda ver e descarregar «The Cameraman's Revenge And Other Fantastic Tales», realizado um ano antes. Nesta sequência de contos destaca-se a primeira e talvez única versão cinematográfica sobre a infidelidade entre insectos, que faz a narrativa da viagem "de negócios" do Sr. Escaravelho que, ao chegar à cidade, se detém no The Gay Dragonfly e lá mete conversa com uma dançarina e, depois... Bem, é a história do costume! 13 minutos é quanto dura esta obra que pesa 143,3MB.
Ladislaw Starewicz nasceu na Rússia em 1882 e cedo se interessou pelo desenho, pela pintura e pelo estudo dos insectos. Depois fez teatro, fotografia e cinema. Viveu em Moscovo até 1919, estabelecendo-se a partir de 1920 em França, onde viria a falecer em 1965. Fez dezenas de filmes de animação e terá certamente inspirado a imaginação de muitas crianças e adultos, talvez até a de Tim Burton que em 1993 produziu o invulgar conto de Natal «The Nightmare Before Chrismas», apenas com paralelo no cinema de Ladislaw Starewicz.

2007/10/27

seu

Há muitos anos fiz um amigo que era uns 10 anos mais velho do que eu. A amizade surgiu porque comprávamos discos na mesma loja e havia muitas coincidências na música que nos interessava, quando essa música ainda interessava a pouca gente. Em termos temporais decorriam os anos 80, já lá para o final, e um dos grupos que eu descobri por sua conta foi o que tinha por nome Henry Cow (de tão estranho, o nome foi-me repetido e até traduzido — Vaca Henrique, clarificou ele! — e foi mais uma das descobertas que ainda hoje permanece fonte do meu interesse). Mas com o passar dos anos, apesar da amizade se ir reforçando e alargando também ao meu companheiro, as diferenças foram cavando um fosso cada vez mais largo e intransponível. Se, por um lado, abertamente me perguntou um dia se eu e o Gonçalo éramos namorados (respondi-lhe que sim, e ele passou a tratar-nos como tal), por outro (ao contrário de mim), tinha uma repulsa profunda por tudo quanto fosse música de origem brasileira (Caetano Veloso, Ambitious Lovers, Tom Zé e toda a música Made in Brazil era como se tivesse sido criada por algum demónio). À medida que fomos ficando mais velhos, a diferença de idades foi-se esbatendo, mas o resto não e há bem pouco tempo até nos cruzámos sem nos cumprimentarmos, por sinal à entrada para um concerto.
Não espero, por isso, vir a encontrar o Zé (é o seu primeiro nome, se bem que zés haja muitos) no início de Novembro, quando o brasileiro Seu Jorge se apresentar em concerto na cidade do Porto. Jorge Mário da Silva é um bonito homem de 36 anos de idade, magro e de tez escura. Descobri-o com o disco «Cru», que me atraiu pela capa mas não me levou a dar o passo da compra. Reencontrei-o em «The Life Aquatic Studio Sessions», banda-sonora da aventura oceanográfica que em 2004 Wes Anderson filmou — em português com o título «Um Peixe Fora de Água» — e onde o músico faz o papel de Pelé dos Santos. O disco mostra a peça composta por Seu Jorge para o filme («Team Zissou») e treze versões acústicas traduzidas de clássicos de David Bowie («Rebel Rebel», «Life on Mars?», «Ziggy Stardust», etc). O próprio Bowie elogiou o trabalho dizendo que "had Seu Jorge not recorded my songs acoustically in Portuguese I would never have heard this new level of beauty which he has imbued them with", fazendo do disco um must have absoluto! É deste Seu Jorge que que eu gosto, ou mesmo do Mané Galinha que ele interpretou no filme de Fernando Meirelles «Cidade de Deus». Ele que, nos anos 90, foi um dos sem-abrigo das ruas do Rio de Janeiro, vai agora estar em Portugal para nos deslumbrar em vários concertos, que passarão por Portalegre, Guimarães, Estarreja, Lisboa e Porto. Nesta cidade recebe-o a Casa da Música já a 1 e 7 de Novembro. Nós estaremos por lá, mas será que o Zé estará?...

2007/10/25

fermento no casamento

Tínhamos sido convidados para um jantar especial, com um pretexto-surpresa, num restaurante da baixa do Porto. As instruções marcavam o dia e a hora, bem como o local exacto, mas ao questionar o secretismo do convite foi-nos dito que seria melhor não o revelar aos amigos comuns com quem entretanto pudéssemos vir a estar. Entre nós estudámos as possibilidades, desde o aniversário dela ou dele, à de quererem anunciar a vinda de um baby ou mesmo (com eles não seria nada de estranhar) a mudança com todas as armas e bagagens para um país distante (o Japão, se calhar). Mas não, não foi nada disso. À hora marcada lá entrámos no restaurante, fomos até à sala do fundo e, à volta da mesa, estavam a Diana e o Zé e duas mãos cheias de convidados. A surpresa das surpresas foi quando nos anunciaram que nesse dia se tinham casado (eles viviam juntos há anos e nós até pensávamos que essa situação estaria de alguma forma já resolvida). A surpresa não poderia ser mais agradável, até porque nos levou a recordar que se conheceram por nosso intermédio. E a noite avançou, agradável como o jantar, até ao fecho do restaurante e, depois, até quase à porta de casa na boleia de um outro simpático casal.
Hoje, a 25 de Outubro, o day after deste belo momento, também nós temos um acontecimento a assinalar: os 21 anos da noite em que nos conhecemos. Acordámos ainda há pouco e só mais logo, muito em cima da meia-noite, teremos de novo algum tempo para nós. Com champanhe para celebrar a dois, segundo as nossas intenções, mesmo que seja já na madrugada do dia seguinte. Mas os acontecimentos de ontem, que aceleraram os nossos átomos de amor, levam-nos a pedir para todos os que queiram casar, independentemente da sua orientação sexual, fermento no casamento. Isto faz todo o sentido numa sociedade equilibrada e justa e só parece não fazer sentido para quem decide manter ou apoiar a limitação dos direitos dos seus concidadãos.
(Parabéns Diana e Zé! Parabéns também para nós...)

2007/10/24

prazeres proibidos

Num dia de chuva que marca o fim do meu Verão, recordo Luis Cernuda, poeta espanhol nascido em 1902 nessa incontornável Sevilha, leitor e seguidor de Keats e de Gide, combatente antifascista na Guerra Civil, vanguardista no seu tempo, exilado em Inglaterra e, depois, no México que o levaria por fim deste mundo em 1963. Ficou ligado ao movimento intelectual e literário que incluía Federico García Lorca e se designou Geração de 27. Marcado por uma solidão e um desterro que poucos ousariam combater numa Espanha franquista e puritana, «Los Placeres Prohibidos» — de onde se mostra o poema «Os Marinheiros São as Asas do Amor» — é uma obra adiantada para o seu tempo, com marcas de surrealismo e uma óbvia sexualidade que Cernuda mais procura defender que esconder:

Os marinheiros são as asas do amor,
São os espelhos do amor,
O mar acompanha-os,
E os seus olhos são dourados como o amor
É dourado em seus olhos.

A alegria viva que lhes corre nas veias
É também dourada,
Semelhante à própria pele;
Não os deixes partir porque seu sorriso
É como o sorriso da liberdade,
Luz resplandecente aberta sobre o mar.

Se um marinheiro é um mar,
Dourado mar amoroso cuja presença é um cântico,
Não quero a cidade construída de sonhos cinzentos;
Quero apenas deitar-me ao mar e naufragar,
Barca sem norte,
Corpo à deriva afundar-me em sua luz de oiro.

«Os Prazeres Proibidos» apareceram em Portugal numa edição de 1985, pela Hiena Editora, de onde transcrevo o poema vindo à página 18. Acima, na foto, está o poeta junto ao mar de Castropol, numa memória do Verão de 1935, que pode ser consultada com mais detalhe pelo link do título. Havendo vontade recomendo ainda a leitura de «Birds in The Night» que foi escrito em Londres na mesma casa onde Cernuda habitou depois de nela terem vivido (bem) juntos Rimbaud e Verlaine. A «Pena Capital» de Mário Cesariny (no meu exemplar de 1982, que veio à luz pela edição da Assírio e Alvim) trás uma tradução a páginas 219 a 221.

2007/10/20

kaput

Após silêncio prolongado, aqui e além, como quem se perde entre o sítio presente e o nada, grito alto que vou deixar cair os braços, parar para quase tudo, aqui, ali e acolá. Regresso ao berço, ao GAYFIELD onde me viram primeiro. É para onde volto, é para onde hoje reencaminho quem ainda se vai mantendo próximo de mim. É para onde vos peço a atenção e é onde espero concentrar estes meus esforços dispersos. Por isso já não se prendam a mim no l'avion rose, nem mesmo aqui. Mais do que em qualquer outro sítio, eu estarei lá, estarei sim, ao lado do meu companheiro com quem agora partilho um LAR. Será lá, onde sempre estive, que de futuro vos esperarei. Vos esperaremos. Aqui, fico simplesmente kaput...
Apenas deixo ainda um grande obrigado, para todos vós!

Imagem via GayFeed
Importado do blogue gayFEEL

aos dois, a dois

Faz hoje dois anos que iniciámos o GAYFIELD. E os nossos 2 anos no Blogger são um pouco como os 25 da Madonna na Warner — a precisar de mudança. Por isso, como ela, também nós temos grandes e excitantes novidades para anunciar (embora no nosso caso, infelizmente, não haja nenhum contrato de dezenas de milhões de dólares envolvido na mudança). É que chegou o momento de concentrar esforços e, assim, juntar o que se encontrava disperso: o l'avion rose e o gayFEEL fundem-se a partir de hoje com o GAYFIELD, passando o conteúdo editorial dos três a estar integrado num só. A partir de agora podem contar aqui com as entradas do Luís sobre o mundo das artes plásticas, tal e como iam aparecendo no l'avion rose (queerness incluída); com as introspecções a que vos (e me) tinha habituado no gayFEEL, e mais o conteúdo familiar com que ambos vos vimos servindo, muito queridos leitores (vocês sabem, todos, quem são), aqui no GAYFIELD. Agora que vivemos finalmente juntos, esperamos ser assim mais frequentes, mais constantes... Ou melhor, diga-se em abono da verdade, espera assim o Luís que eu seja mais frequente, mais constante... Ou mais melhor ainda, esperamos assim que vocês continuem a ser frequentes e constantes. Ao fim destes dois anos a vossa presença e a vossa participação são o melhor deste blogue — obrigado!