2007/12/24

feliz natal


Este presépio teve origem no Edith Cavell Hospital, em Peterborough, Inglaterra, que o mandou em meados de Outubro a outros hospitais e a ex-pacientes, com a mensagem "It's a little premature, but Happy Christmas". Escusando-nos pela nossa falta de prematuridade, a todos vós também desejamos um Feliz Natal.

2007/12/13

treze

O número 13 é tido por muitos como um símbolo máximo do azar. Diz-se que tal superstição tem um fundamento na fé cristã e vem do facto de se terem reunido para a Última Ceia com Jesus os seus doze apóstolos. Não só é o número 13 que está presente no momento que antecede a histórica traição de Judas, como é o próprio apóstolo que o identificará com um beijo que nessa óptica está a mais e perfaz o número maldito, aquele que se deve evitar.
Na actualidade há culturas onde o número 13 é mesmo evitado, como salienta a versão portuguesa da Wikipédia que diz que "em muitas culturas e em atenção a essa tradição é costume em alguns países não haver andares com o número 13 nos prédios" ou mesmo que em alta competição "de Fórmula 1 geralmente não existe o carro de número 13". Engraçado é que o mesmo texto diz também que o número 13 "é muito explorado pela astrologia" e até que D. João VI nasceu a 13 de Maio e (!!!) "nossa senhora de fatima também". Certo mesmo é que Cristo terá morrido numa sexta-feira — a Sexta-Feira Santa. Assim se percebe melhor ainda porquê juntar o 13 a esse dia da semana é para muitos um sinal do azar.
A 13 de Dezembro de há uns quantos anos nasceu o meu Gonçalo e esse veio a ser um dia de sorte para mim. Por tanto (sim, por tanto), que venham daí muitos dias treze de Dezembro com o Salito lindo ao meu lado. A imagem retirei-a do blogue Smoke Yourself Thin, mas o autor não está nele identificado. Eu espero que gostem!

2007/12/12

okay, o civismo não deveria ser legislado

Li ontem num jornal um artigo de opinião sobre o consumo de tabaco a que não pude evitar este meu comentário. Começava por dizer nele Luísa Castel-Branco que "O tabaco faz mal. O tabaco mata." E prosseguia com comparações que eu até acho bem pouco relacionadas, como as gorduras em excesso, o sal em excesso, o álcool, a droga, a violência nas escolas, na noite, em casa... Mas até entendo aonde queria chegar. Afirmava ainda que "como fumadora, tenho consciência de que não se fuma num ambiente com pouco ar e com crianças, ou outras pessoas a quem o tabaco incomode", mas recusava-se "a aceitar este politicamente correcto importado..." e acrescentava que "talvez o Estado devesse olhar também para os fumadores como pessoas que necessitam de salas de chuto em vez de criminosos!"
Pois bem, nós até somos ex-fumadores. Nós até toleramos os fumadores e os fumadores reparam nisso. Nós até trabalhamos com patrões fumadores que simplesmente abusam porque são patrões. Nós até chegamos a casa a cheirar a tabaco, não porque o desejássemos. Nós até abrimos o guarda-fatos no dia seguinte e sentimos ainda e intensamente o cheiro do charuto do patrão do dia anterior. Nós até gostamos de tabaco, pois não deixámos de fumar porque não gostássemos de o fazer. Deixámos de fumar porque nos fazia mal, porque nos dava cabo do orçamento, porque fazia mal aos que estavam junto de nós. Deixámos por querermos e insistirmos nessa decisão, em não voltar a fumar. Okay que o civismo não deveria ser legislado. Okay, mas parece-me que é necessário. E duvido que seja suficiente. O que é pena, como noutras coisas também! Terei sido claro?...

2007/12/07

à mesa com o grip

É já na próxima semana semana que terá lugar o habitual "jantar de Natal" do Grupo de Reflexão e Intervenção do Porto da ILGA Portugal, assim convocado: "O GRIP vai organizar o jantar de Solstício de Inverno deste ano, no próximo dia 12 de Dezembro (quarta-feira), pelas 20h, em local a anunciar. Estão convidados tod@s @s associad@s, quem está inscrito na nossa mailing informativa, @s amig@s do GRIP, e todas as pessoas que quiserem vir conhecer o grupo. Quem desejar inscrever-se, ou obter mais informações, pode escrever para o nosso endereço (grip.ilga@gmail.com), indicando nome e contacto caso deseje comparecer no jantar. As inscrições estão abertas até dia 11. Esperamos ver-vos por lá!".
O GRIP é um grupo de acção ligado à Associação ILGA Portugal que pretende ser uma voz viva e activa a partir da cidade do Porto para as questões LGBT. O grupo promove encontros, debates, ciclos de cinema, acções de educação sexual nas escolas, parcerias com outras entidades, intervenção política e outras iniciativas que poderão ser acompanhadas através do seu blogue. A participação no jantar de Natal é uma forma de juntar activos e simpatizantes das causas LGBT e de, informalmente, trocar opiniões que façam avançar os interesses comuns.

2007/12/05

(she's) lost control

Onde já vão os anos 80. O tempo das roupas cinzentas, das camisas brancas, das gabardinas que se usavam todo o ano. Ou dos "urbano-depressivos" que estavam muito na moda, então. Era o tempo de arranque de muita coisa, alguma que nos tocou e outra que preferimos (ou poderíamos) evitar. Os meus amigos ouviam Joy Division. Eu preferia ainda o Bowie e os Echo, os Smiths, Durutti, Jesus, Bauhaus ou Pistols. Mas o tempo deu-lhes razão e "a" Joy Division (como gostavam de dizer os mais puristas) foi o que foi, tornou-se "na" New Order que veio a ser o que veio e que nunca passou de moda. Anton Corbijn, fotógrafo de nome, decidiu lembrar-nos Ian Curtis e tudo isso no filme «Control», sem dúvida um dos marcos cinematográficos de 2007. Agora «She's Lost Control» faz ainda mais sentido, pelo menos para mim:

Confusion in her eyes that says it all
She's lost control
And she's clinging to the nearest passer-by
She's lost control
And she gave away the secrets of her past and said
I've lost control again
And heard the voice that told her when and where to act
She said I've lost control again
And she turned around and took me by the hand and said
I've lost control again
How I'll never know just why or understand she said
I've lost control again
And she screamed out, kicking on her side and said
I've lost control again
And seized up on the floor, I thought she'd died She said
I've lost control

She's lost control again, she's lost control.

Well I had to phone her friend to state her case and say
She's lost control again
And she showed up all the errors and mistakes and said
I've lost control again
And she expressed herself in many different ways until
She's lost control again
And walked upon the edge of no escape and laughed
I've lost control
She's lost control again, she's lost control.

2007/11/30

um natal diferente

Este ano vou passar um Natal diferente: até aqui sempre o passei com os meus pais excepto (no que eu chamaria um momento de transição) no passado ano em que já não tinha nenhum dos meus ascendentes directos vivos e nós (o que restava do grupo familiar que se juntava pelo Natal) fomos celebrá-lo fora da cidade. Mas essa excepção justificada muito racionalmente indiciava que vinha para ficar. Eu senti-o já então e há um par de semanas antecipei-me e anunciei que receberia a família em minha casa ou que cumpriria a tradição aceitando juntar-me a todos como noutros anos, mas só se não saíssemos da cidade, se nos ficássemos por cá... E a minha previsão estava certa: ou saio do Porto e faço um Natal como no passado ano, ou fico por minha conta, na minha casa, com o meu companheiro, com quem quisermos. Assim o faremos, juntando-nos certamente aos parentes próximos que temos por cá, talvez até a alguns amigos... Para já, certamente mais logo (bem mais logo, já depois da meia-noite) faremos a nossa primeira árvore de Natal no novo apartamento. Há uma semana fomos comprar tudo o que julgámos adequado (não foi nada fácil) e agora haverá que ser criativos... Curiosamente por esta altura deveremos receber o cabide do Alexander Taylor que no início de Agosto tivemos a intenção de comprar (ver entrada do L'Avion Rose), mas que afinal estava esgotado. Já que a sua forma evoca as galhadas de um alce vamos fazer de conta que serão as renas que nos entram pela casa dentro... Por outro lado, no local de trabalho é um mero wallpaper que dá a cor do Natal ao meu computador. É esse que mostro aqui mesmo, mas há mais que podem ir buscar pelo link que liga ao site nipónico do criador de moda britânico Paul Smith. De quem eu gosto, como gosto do seu trabalho. Admirem-no!

2007/11/29

coisas de cinema

"Um travesti que perdeu o amor pela vida é confrontado com a alegria de viver de um adolescente com Síndrome de Down", é a forma como se pode resumir a história de «A Outra Margem». Não são temas que me levem ao cinema, mas não consegui resistir à curiosidade após assistir a uma interessante reportagem sobre o filme na TV e a ter sabido da opinião de dois ou três dos amigos daqui. Para mais, por um acaso ontem passei pelos Cinemas Medeia Cidade do Porto e lá perguntei até quando estaria ainda o filme em exibição, pensando vê-lo no próximo fim-de-semana com o Gonçalo. Mas era já o último dia e, apesar de nessa altura estar sem o meu companheiro que se encontrava a trabalhar, não pude deixar de me deslocar à extensão dos cinemas no Teatro do Campo Alegre onde, às 22 horas, assisti ao filme. E ainda bem! Confirmo que Filipe Duarte e Tomás de Almeida na minha opinião bem mereceram o prémio ex-aequo que receberam no Festival de Cinema do Mundo de Montreal, Canadá, para melhor actor. E Luís Filipe Rocha, o realizador que recebeu o Prémio Arco-Íris atribuído este ano pela ILGA Portugal e já antes tinha assinado o também belo «Sinais de Fogo» (filme inspirado no livro de Jorge de Sena), passou a ser também para mim uma das figuras portuguesas mais relevantes neste ano que se aproxima já do fim. Porquê? Porque fez pensar. Porque faz e fará ainda pensar em questões que não são fáceis e que Portugal costuma esquecer. E porque o faz (segundo acredito) numa perspectiva exterior aos temas reflectidos, mas fá-lo com correcção e com uma paixão que não pode ser acusada de exageros. Gostei de Filipe Duarte, como actor e da sua personagem que logo que entra em cena me lembra a "descida à terra" de Mick Jagger no filme «Bent». Ou, também nessa princípio da história, a bem conseguida alternância de imagem e entrosamento de som entre a actuação do travesti na discoteca e o crepitar do fogo da cremação do seu namorado que decorria ao mesmo tempo, noutro local. E as relações que se foram mostrando, como flores que se abrem: com a irmã, o pai, o sobrinho, a noiva abandonada e, até, com os engates de cada momento ou os adiamentos consecutivos na entrega das cinzas do companheiro às suas origens... «The Other Side» é o título em inglês para este filme que merece lugar na história do cinema internacional de temática gay. A propósito: «Paranoid Park» é o novo de Gus Van Sant e estreia hoje por cá. Antes do filme será exibida uma nova curta-metragem de Joaquim Pinto, um realizador que se mostrou pela primeira vez em 1988 com «Uma Pedra no Bolso». A esse voltarei depois, talvez num destes dias...

2007/11/23

na casa dos sigur rós

Deliciem-se com a edição especial do DVD «Heima», dos islandeses Sigur Rós. Ponham de lado as paisagens sonoras carregadas de electricidade e silêncio, esqueçam os efeitos conceptuais transpostos do seu imaginário para o écran, desmontem as personagens misteriosas e elaboradas que acreditamos serem as reais e as que se esconderão por detrás das guitarras eléctricas, da bateria, dos sintetizadores deste quarteto. «Heima» é o filme do regresso a casa após uma dessas representações sonoras e visuais que são os seus concertos e que os levaram para outros países. Este é um documentário ao vivo do seu regresso à Islândia que os viu nascer e crescer, à terra dos seus compatriotas, ao berço da sua sensibilidade e da sua cultura. Os quatro Sigur Rós que aqui encontramos são quatro simples músicos, despojados de artifícios tecnológicos, que tocam simples instrumentos acústicos, e que o fazem de terra em terra, ao longo de 15 localidades, nas cidades, nas aldeias, nas igrejas, nos parques nacionais, em fábricas abandonadas e em qualquer outro lugar onde comparecesse um grupo suficiente de espectadores que os acolhessem e à sua oferta generosa. «Heima» passou no cinema, fora de Portugal, mas por cá parece que apenas estará disponível para uso privado, em DVD (há uma edição simples e outra especial com um livro de imagens de 116 páginas, a não perder). Reúne canções dos seus quatro álbuns, renovadas para assinalar também os seus 10 anos de existência, e dois temas novos. O filme foi realizado por Dean Deblois, que nos facultou esta oportunidade de conhecer de perto os membros da banda, o seu mundo, o seu meio, a sua casa. E para nós, homossexuais, muito especialmente o estranho e fascinante Jón Þór Birgisson (Jónsi), assumidamente gay e namorado de Alex Somers, o principal responsável pela elaborada imagem gráfica do grupo.

2007/11/22

sempre comigo

Foi a 22 de Novembro de 2006, pouco passava das 13 horas. De repente o céu fez-se negro, quando antes já voltava a haver luz e a haver cor. Passou-se um ano, mas um ano depois é ainda muito pouco tempo depois. É tempo de olhar para dentro. Ainda. De reflectir. Ainda. De dedicar...
À minha mãe, que partiu, eu diria como no fado da Amália que o David Mourão-Ferreira escreveu: "tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo". Conheci-os aos dois, de forma fugaz, a ele numa conferência, a ela numa sessão de fotografia e depois num concerto para que fui convidado. Talvez por isso me sinto hoje ainda mais inclinado a identificar-me com ela e com ele, e a apropriar-me destas palavras, desta voz, que não são minhas, nem saberiam sequer quem eu sou. Mas que são de todos e muito belas:

De manhã, que medo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia.
Mas logo os teus olhos disseram que não!
E o sol penetrou no meu coração.

Vi depois numa rocha uma cruz
e o teu barco negro dançava na luz...
Vi teu braço acenando entre as velas já soltas...
Dizem as velhas da praia que não voltas.

São loucas... são loucas!

Eu sei, meu amor, que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo.

No vento que lança areia nos vidros,
na água que canta no fogo mortiço,
no calor do leito dos bancos vazios,
dentro do meu peito estás sempre comigo.

A Amália cantou isto ao vivo em Bucareste e está online num filme que podem ver pelo link do título. Vejam-no lá, no YouTube, mas não façam aqui qualquer comentário. Apenas digam hoje algo de extraordinariamente belo a uma pessoa que amem muito: à Mãe, ao Pai, ao Companheiro, à Companheira, ou mesmo até à pessoa que está aí já ao lado...

2007/11/16

a um passo

Às vezes penso, como poderá Portugal dar o passo que deu a Espanha e estender o casamento civil aos homossexuais, quando aqui não temos nenhuma da visibilidade que há no país vizinho, nomeadamente através de marchas de orgulho com centenas de milhares de participantes... Não existe pressão política, nem aceitação social. Existe talvez consentimento comedido, como é próprio de uma sociedade hipócrita como a nossa. Recentemente disseram-me que existe cá um "observatório das sexualidades" e que, segundo estudos realizados por essa entidade, existiriam 30% de portugueses a favor do casamento entre homossexuais (em Espanha a mudança da lei deu-se com 48%) — serão então os 18% da diferença que nos faltam para a mudança da lei? Ou talvez nos baste a justiça do Tribunal Constitucional, onde pára agora o recurso da Teresa e da Lena e onde, como aconteceu na África do Sul (que como Portugal tem uma Constituição que não permite a discriminação pela orientação sexual, mas que ao contrário de nós já legalizou o casamento para casais do mesmo sexo após um casal lésbico ter insistido em recursos até — mais uma coincidência — ao Tribunal Constitucional), se espera uma última sentença nacional. Não percebo os homossexuais que são contra o casamento. Trata-se apenas de uma questão de direitos iguais no acesso a um contrato civil — não é relevante se vamos casar proporcionalmente mais ou menos que os casais heterossexuais e, de igual modo, se nos vamos divorciar mais ou menos depressa. Ao contrário do que possam pensar aqueles que crêem ser avançados e progressistas no seu pensamento, com ideias sobre um estilo de vida alternativo ao heterossexual (que mais não é do que aquele que se lhes permite ter na margem do colectivo), reaccionária é a oposição ao casamento de homossexuais. Por isso, também de pouco serve dizer "sim, sou a favor, mas não estou interessado em casar" — para atingirmos essa meta a primeira parte da frase é suficiente. Será possível que o nosso Tribunal Constitucional, como na África do Sul, largue a bomba e corte caminho? Estaremos em breve, alguns de nós, a assinar certidões nas conservatórias, a trocar alianças e a continuar as nossas vidas com uma maior legitimidade perante a lei?
"Parece impossível... com este frio e de manga curta!".