2008/07/24

arte vs sexo

Aos poucos vou lendo «Arte vs Sexo», quinto livro de Miguel Angelo que de artista tem a fama como cantor do grupo Delfins (cuja dissolução foi recentemente anunciada para o final do próximo ano). Na literatura, ele começou a ser lido em 1998 com a edição de «A Queda de Um Homem». A Oficina do Livro lançou-lhe em 2005 a obra à mão, contendo 69 histórias curtas que "confrontam os dois vícios mais antigos do mundo". Da página 116 à 117 lê-se «O Mito do Pénis Encolhido», até agora a minha história preferida, que é assim:

Ao contrário do que a sociedade moderna questiona quando se trata de averiguar o tamanho do sexo do parceiro masculino (a eterna questão do tamanho contar ou não), os nus na arte antiga representavam sempre o órgão sexual masculino de forma diminuta, quer na pintura quer na escultura, e sem vergonha nenhuma, mais, sem que isso afectasse a virilidade daqueles deuses que dominavam as telas, a terra e os céus. Acreditando que nem todos os homens da altura teriam o pénis assim tão pequeno, que conclusões é que podemos tirar? Bem, algumas possíveis:
— Primeiro, que os artistas da época representavam o particular pela generalidade pois ainda hoje a percentagem de homens com pénis pequenos deve ser maior do que a dos homens com grandes;
— Segundo, que era uma espécie de autocensura artística de modo a que a obra se tornasse assexuada para não chocar reis, papas e restante nata de uma sociedade patrona dos artistas mais importantes do século e responsável pelas encomendas que hoje são património mundial e motivo de deslumbre;
— Terceiro, que o pénis da Idade Média era mesmo assim, mais pequeno do que o actual, na generalidade, antes da mistura racial que os séculos seguintes proporcionaria, nomeadamente com a entrada na Europa de muitos "membros" do continente africano;
— Quarto, que por os corpos existirem assim tão musculosos o pénis atrofiava e mais pequeno parecia no meio daquela massa muscular insuflada e arredondada. Isso hoje pode ser observado nos balneários masculinos de ginásios de musculação;
— Quinto, que aquela flacidez era a representação rápida e directa do órgão do modelo que resistisse nu e em pé horas a fio e ao frio enquanto os artistas trabalhavam o mais depressa que conseguiam, quer para entregar a encomenda aos patronos em tempo útil e receber a paga, quer para mandar o rapaz embora o mais rápido possível, pois também não gostavam de o ver sofrer;
— Sexto, que os artistas de então eram todos gays, representando o órgão masculino encolhido como forma de protesto quanto aos seus direitos enquanto minoria, como por exemplo o direito dos casais heterossexuais pagarem um só imposto ao rei ao viverem em união de facto;
— Sétimo, e final, que o tamanho não importa mesmo, sendo as preocupações estético-artísticas da altura de carácter puramente intelectual.
Sete tópicos oportunos sem serem istas que ajudarão porventura os interessados a tirar outras ilações sobre o mito do pénis encolhido, presente e desnudado em quase todas as obras religiosas de então. Obrigado pela atenção. E desculpem a interrupção.

A imagem que ilustra é do pintor Steve Walker e tem por título «David and Me». É claro que este David também é do Michelangelo, mas do outro: o Buonarroti.

2008/07/21

inquérito público



Na sua página de entrada, logo abaixo da coluna "Bolsa" e acima da coluna "Blogues", o sítio do Público colocou-nos uma questão:
— Acha que o casamento gay deve estar consagrado na lei?
Um amigo deu-nos conta e acrescentou que "na realidade, este tipo de inquéritos nem deveriam existir". Simplesmente porque — diz ele ainda — "valores como Igualdade, Liberdade, Dignidade, Respeito" e outros assim "não deveriam ser sondados". E tem toda a razão, claro!
Depois, há a questão do casamento "gay". Alguém quer um casamento gay? Só se for mesmo pela diversão (porque sabemos divertir-nos, quando queremos divertir-nos). Porque o que todos nós queremos é a mais básica igualdade (nada menos, nada mais)... Ah já tínhamos dito, não já?!
Mas vá lá, votem. E ainda que tenha que ser a esta forma equívoca de nos colocar a questão, não deixem de votar a favor, por favor, mesmo que não queiram casar-se, mesmo que seja só para dizer de forma clara que acham que o casamento civil deveria ser um direito de todos.
Um direito assente em valores como a Igualdade, a Liberdade, a Dignidade, o Respeito e outros assim, que todos nós tanto prezamos.

2008/07/08

provença: 8 dias em 8 imagens

30 de Junho: Fontaine des Quatre Dauphins, Aix-en-Provence

1 de Julho: Café Les Deux Garçons, Aix-en-Provence

2 de Julho: «Passion» (Pascal Dusapin), Teatro Jeu de Paume, Aix-en-Provence

3 de Julho: La Cité Radieuse (Le Corbusier), Marselha

4 de Julho: Vieux Port, Marselha

5 de Julho: Participação no Lesbian & Gay Pride, Marselha

6 de Julho: Cruzeiro pelas Calanques, Marselha

7 de Julho: Regresso.

2008/06/28

marchar ou não marchar

Chegou a temporada das marchas e das festas: na fotografia de Zsolt Szigetváry (que descobri através do feliz Paulo), dois homens vítimas de ataque homofóbico durante a marcha do orgulho realizada no ano passado na Hungria, aguardam assistência médica. A fotografia valeu ao autor o segundo prémio da World Press Photo na categoria Contemporary Issues, mas entretanto, de lá para cá, de então para agora, pouca coisa terá mudado. Não me sinto à vontade para dar a cara em marchas, não marcho, porque temo a presença de câmaras que divulguem a minha identidade sexual a quem eu não a quero revelar. Mas tenho vergonha, cada vez tenho mais vergonha de não participar, quando há outros que o fazem por mim, às vezes sob pena de serem espancados por pessoas que nos odeiam. Acredito que é importante ir para a rua, acredito que isso ajuda a mudar mentalidades, acredito que isso foi importante para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja hoje uma realidade em Espanha e noutros países (mais recentemente na Noruega). Não engulo os argumentos de que as marchas são contraproducentes, esse parece-me ser um argumento de quem, como eu, tem medo de dar a cara, mas não o admite. Portanto participem, hoje 28 de Junho em Lisboa, no dia 12 de Julho no Porto — não deixem de ir, pelos que lá estão e pelos que não vão.

2008/06/19

o compasso político


Há dias os Felizes Juntos mostraram-nos um teste de tendência política (o «Politicômetro») promovido pela revista brasileira Veja. Este descobri-o num outro sítio e parece-me bem mais completo no questionário e na exposição das conclusões. Convido-vos a experimentá-lo, já que eu fiquei como se vê, tá-se mesmo a ver...

2008/06/12

mostrar e lembrar

«Escrevo Para Desistir» foi escrito por Isabel de Sá e lançado à rua há duas décadas pela editora & etc. Um excerto, lido à página 53:

Faltou-me sempre paciência para guardar um manuscrito. À medida que o texto se forma vou destruindo as páginas que parecem imperfeitas. Trato a escrita com displicência, assim é a caligrafia desses instantes, sem o gosto que lhe imprimo ao escrever cartas.
Ao pensar na essência da palavra, nas cartas do pintor a seu irmão, detenho-me na última: "O meu trabalho, nele arrisco a vida e nele perdi, em parte, a razão". O testemunho da dor humana faz-nos aquietar as flutuações do espírito. Triunfar na dificuldade de cada dia. Esse grito agónico é particularmente visível nos "auto-retratos", na sua crispação e tragédia. Também nós somos mais visíveis quando ao espelho deciframos o tumulto que muitas vezes nos impede de viver na claridade.

Isabel começou na & etc em 1979, com «Esquilo Frenia» e «Escrevo Para Desistir» foi o seu oitavo livro publicado, com data de 1988.
Amanhã, 13 de Junho de 2008, fará mais um ano (o 11º) que Al Berto — escritor também e co-fundador da & etc — nos deixou. Pela amizade e pela saudade não ficará mal lembrá-lo na citação deste poema.

2008/06/02

coragem para mudar

Às poucas-vergonhas recentes e não recentes da política nacional ainda vou conseguindo fugir; à mediocridade e falta de pudor das TVs com o futebol, as telenovelas e a música pimba já é bem mais difícil, não tenho onde me esconder; mas a esta notícia (citada pelo blogue Felizes Juntos) eu não consegui menos do que... sair para a rua e aplaudir: obrigado Eminência Reverendíssima, obrigado meus queridos!

2008/05/30

let's (rock and) look at the video

Começa hoje em Lisboa o Rock in Rio, que vai até 6 de Junho e trás até cá o nosso amigo Déjan... Também hoje, já bem à noite, passam pela Casa da Música os tão aguardados galeses Young Marble Giants que fizeram um novo estilo musical nos anos 80 e a sensação do momento, os nova-iorquinos Vampire Weekend — estaremos lá. Hoje ainda — aqui onde estamos —, o regresso dos Sigur Rós com o anúncio de um novo álbum e o seu surpreendente vídeo «Gobbledigook» (para maiores de 18 anos), a ver pela ligação oficial do título.
So, let's (rock and) look at the video...

2008/05/23

filmes à letra

Há 3 anos, o GRIP (Grupo de Reflexão e Intervenção do Porto da ILGA Portugal) apresentou o seu primeiro ciclo de cinema. Em parceria com a UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) o GRIP propõe-se de novo a apresentar um ciclo de cinema, que desta vez terá lugar no espaço Maria Vai Com As Outras (Rua do Almada nº 443, no Porto), com a porta aberta a quem queira entrar.
Em quatro fins-de-semana, a partir de 30 de Maio, Filmes À Letra será dedicado aos temas que representam cada uma das letras da sigla LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros). Durando até 5 de Julho, o ciclo decorrerá nas noites de sexta-feira e sábado, após as 22h30, integrando oito filmes e quatro debates que acontecerão após os filmes de sábado. Para abordar a transsexualidade, a bissexualidade, o lesbianismo e a homossexualidade masculina, o programa de Filmes À Letra é o seguinte:

30 de Maio (sexta-feira)
«Boys Don't Cry»
(Transsexualidade / biografia, romance, drama.) O jovem Brandon muda-se para Falls City, onde encontra emprego, faz novos amigos, e conhece Lana, a namorada. Mas ninguém a não ser Brandon sabe que ele não nasceu da maneira que o imaginavam. Baseado numa história real. Óscar para Melhor Actriz Principal e Melhor Actriz Secundária, Globo de Ouro para Melhor Actriz e Melhor Actriz Secundária. 1999, EUA, M/16. Realizadora: Kimberley Pierce. Elenco: Hilary Swank, Chloe Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendan Sexton.

31 de Maio (sábado)
«Ma Vie en Rose»
(Transsexualidade / comédia, drama.) Ludo é tratada pelos pais, irmãos e professores como rapaz. Mas, num mundo de adultos confusos, só ela consegue ver com clareza suficiente para saber que nunca foi outra coisa que não uma menina. Globo de Cristal para Melhor Filme, Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro. 1997, França, Bélgica, Reino Unido, M/6. Realizador: Alain Berliner. Elenco: Georges du Fresne, Michèle Laroque, Jean-Phillipe Écoffey. No final, conversa com Nuno Carneiro (psicólogo, Faculdade de Psicologia do Porto) e elementos do GRIT (Ivo, Filipe, Luísa).

6 de Junho (sexta-feira)
«Gia»
(Bissexualidade / biografia, drama.) Um filme baseado na história de Gia Carangi, a primeira super-modelo. A beleza de Gia, recém-chegada a Nova Iorque, captura o olhar de uma agente, e ela ascende rapidamente no mundo da moda. Mas, ao mesmo tempo que se envolve com Linda, descobre que não consegue deixar de se sentir sozinha. Globo de Ouro para Melhor Actriz Principal e Melhor Actriz Secundária. 1998, EUA, M/16, 126 minutos. Realizador: Michael Cristofer. Elenco: Angelina Jolie, Elizabeth Mitchell, Eric Cole, Kylie Travis.

7 de Junho (sábado)
«Kinsey»
(Bissexualidade / biografia, drama.) Baseado na vida e trabalho de Alfred Kinsey, cuja pesquisa mudou para sempre a maneira como era vista a sexualidade. Globo de Ouro para Melhor Filme, Melhor Actor Principal, Melhor Actriz Secundária, nomeação para Óscar de Melhor Actriz Secundária. 2004, Estados Unidos/Alemanha, M/16, 118 minutos. Realizador: Bill Condon. Elenco: Liam Neeson, Laura Linney, Peter Sarsgaard, Chris O'Donnell. No final, conversa com Isabel Menezes (psicóloga, Faculdade de Psicologia do Porto).

20 de Junho (sexta-feira)
«Imagine Me And You»
(Lesbianismo / comédia romântica.) Rachel e Hector namoram há anos, e decidem finalmente casar-se. Pouco antes do casamento, ela conhece Lucy. A amizade vai crescendo, e Rachel não consegue deixar de pensar na nova amiga mesmo depois do casamento. Nomeado para Prémio da GLAAD de Melhor Filme. 2005, EUA/Inglaterra/Alemanha, M/12, 98 minutos. Realizador: Ol Parker. Elenco: Piper Perabo, Lena Headey, Matthew Goode, Celia Imrie e Anthony Head.

21 de Junho (sábado)
«Producing Adults»
(Lesbianismo / drama.) Venla quer engravidar, mas o namorado, Antero, tem medo que um filho comprometa a sua carreira. Ela acaba por pedir ajuda a uma colega na clínica de fertilidade, Sati, e entre as duas desenvolve-se uma relação que vai para além do profissional. Prémios FIPRESCI e Rosebud para o Melhor Filme. 2004, Finlândia/Suécia, M/12, 102 minutos. Realizador: Aleksi Salmenpera. Elenco: Kari-Pekka, Tolvonen, Minna Haapkyla, Minttu Mustakallio. No final, conversa com Maria João Silva (Associação para o Planeamento da Família).

4 de Julho (sexta-feira)
«The Bubble»
(Homossexualidade masculina / romance, drama.) Noam, um soldado israelita, conhece Ashraf, um jovem palestiniano, num posto de controle. Dias mais tarde, voltam a encontrar-se na casa que Noam partilha com Yali e Lulu. No meio do conflito, o amor nasce espontaneamente entre os dois. Prémio CICAE do Festival Internacional de Berlin e Melhor Argumento no Festival Internacional de Durban. 2006, Israel, M/16, 114 minutos. Realizador: Eytan Fox. Elenco: Ohad Knoller, Alon Friedman, Daniela Virtzer, Yousef Sweid.

5 de Julho (sábado)
«Wedding Wars»
(Homossexualidade masculina / comédia.) Ben pede ao irmão, Shel, designer de cerimónias, para organizar o seu casamento com Maggie. Shel descobre que afinal é Ben quem é responsável pelo discurso contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo que o governador Welling, pai de Maggie, vai usar na sua campanha eleitoral. Shel fica indignado, e organiza uma greve! 2006, EUA/Canadá, M/12, 87 minutos. Realizador: Jim Fall. Elenco: John Stamos, Eric Dane, Bonnie Somerville, Sean Maher. No final, conversa com Gabriela Moita (psicóloga, Faculdade de Psicologia do Porto) e encerramento do ciclo.

A imagem por nós escolhida é retirada do filme «The Bubble».