2008/07/28
2008/07/24
arte vs sexo
Aos poucos vou lendo «Arte vs Sexo», quinto livro de Miguel Angelo que de artista tem a fama como cantor do grupo Delfins (cuja dissolução foi recentemente anunciada para o final do próximo ano). Na literatura, ele começou a ser lido em 1998 com a edição de «A Queda de Um Homem». A Oficina do Livro lançou-lhe em 2005 a obra à mão, contendo 69 histórias curtas que "confrontam os dois vícios mais antigos do mundo". Da página 116 à 117 lê-se «O Mito do Pénis Encolhido», até agora a minha história preferida, que é assim:Ao contrário do que a sociedade moderna questiona quando se trata de averiguar o tamanho do sexo do parceiro masculino (a eterna questão do tamanho contar ou não), os nus na arte antiga representavam sempre o órgão sexual masculino de forma diminuta, quer na pintura quer na escultura, e sem vergonha nenhuma, mais, sem que isso afectasse a virilidade daqueles deuses que dominavam as telas, a terra e os céus. Acreditando que nem todos os homens da altura teriam o pénis assim tão pequeno, que conclusões é que podemos tirar? Bem, algumas possíveis:
— Primeiro, que os artistas da época representavam o particular pela generalidade pois ainda hoje a percentagem de homens com pénis pequenos deve ser maior do que a dos homens com grandes;
— Segundo, que era uma espécie de autocensura artística de modo a que a obra se tornasse assexuada para não chocar reis, papas e restante nata de uma sociedade patrona dos artistas mais importantes do século e responsável pelas encomendas que hoje são património mundial e motivo de deslumbre;
— Terceiro, que o pénis da Idade Média era mesmo assim, mais pequeno do que o actual, na generalidade, antes da mistura racial que os séculos seguintes proporcionaria, nomeadamente com a entrada na Europa de muitos "membros" do continente africano;
— Quarto, que por os corpos existirem assim tão musculosos o pénis atrofiava e mais pequeno parecia no meio daquela massa muscular insuflada e arredondada. Isso hoje pode ser observado nos balneários masculinos de ginásios de musculação;
— Quinto, que aquela flacidez era a representação rápida e directa do órgão do modelo que resistisse nu e em pé horas a fio e ao frio enquanto os artistas trabalhavam o mais depressa que conseguiam, quer para entregar a encomenda aos patronos em tempo útil e receber a paga, quer para mandar o rapaz embora o mais rápido possível, pois também não gostavam de o ver sofrer;
— Sexto, que os artistas de então eram todos gays, representando o órgão masculino encolhido como forma de protesto quanto aos seus direitos enquanto minoria, como por exemplo o direito dos casais heterossexuais pagarem um só imposto ao rei ao viverem em união de facto;
— Sétimo, e final, que o tamanho não importa mesmo, sendo as preocupações estético-artísticas da altura de carácter puramente intelectual.
Sete tópicos oportunos sem serem istas que ajudarão porventura os interessados a tirar outras ilações sobre o mito do pénis encolhido, presente e desnudado em quase todas as obras religiosas de então. Obrigado pela atenção. E desculpem a interrupção.
A imagem que ilustra é do pintor Steve Walker e tem por título «David and Me». É claro que este David também é do Michelangelo, mas do outro: o Buonarroti.
2008/07/21
inquérito público

Na sua página de entrada, logo abaixo da coluna "Bolsa" e acima da coluna "Blogues", o sítio do Público colocou-nos uma questão:
— Acha que o casamento gay deve estar consagrado na lei?
Um amigo deu-nos conta e acrescentou que "na realidade, este tipo de inquéritos nem deveriam existir". Simplesmente porque — diz ele ainda — "valores como Igualdade, Liberdade, Dignidade, Respeito" e outros assim "não deveriam ser sondados". E tem toda a razão, claro!
Depois, há a questão do casamento "gay". Alguém quer um casamento gay? Só se for mesmo pela diversão (porque sabemos divertir-nos, quando queremos divertir-nos). Porque o que todos nós queremos é a mais básica igualdade (nada menos, nada mais)... Ah já tínhamos dito, não já?!
Mas vá lá, votem. E ainda que tenha que ser a esta forma equívoca de nos colocar a questão, não deixem de votar a favor, por favor, mesmo que não queiram casar-se, mesmo que seja só para dizer de forma clara que acham que o casamento civil deveria ser um direito de todos.
Um direito assente em valores como a Igualdade, a Liberdade, a Dignidade, o Respeito e outros assim, que todos nós tanto prezamos.
2008/07/20
2008/07/08
provença: 8 dias em 8 imagens
2008/06/28
marchar ou não marchar
Chegou a temporada das marchas e das festas: na fotografia de Zsolt Szigetváry (que descobri através do feliz Paulo), dois homens vítimas de ataque homofóbico durante a marcha do orgulho realizada no ano passado na Hungria, aguardam assistência médica. A fotografia valeu ao autor o segundo prémio da World Press Photo na categoria Contemporary Issues, mas entretanto, de lá para cá, de então para agora, pouca coisa terá mudado. Não me sinto à vontade para dar a cara em marchas, não marcho, porque temo a presença de câmaras que divulguem a minha identidade sexual a quem eu não a quero revelar. Mas tenho vergonha, cada vez tenho mais vergonha de não participar, quando há outros que o fazem por mim, às vezes sob pena de serem espancados por pessoas que nos odeiam. Acredito que é importante ir para a rua, acredito que isso ajuda a mudar mentalidades, acredito que isso foi importante para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja hoje uma realidade em Espanha e noutros países (mais recentemente na Noruega). Não engulo os argumentos de que as marchas são contraproducentes, esse parece-me ser um argumento de quem, como eu, tem medo de dar a cara, mas não o admite. Portanto participem, hoje 28 de Junho em Lisboa, no dia 12 de Julho no Porto — não deixem de ir, pelos que lá estão e pelos que não vão.
2008/06/19
o compasso político

Há dias os Felizes Juntos mostraram-nos um teste de tendência política (o «Politicômetro») promovido pela revista brasileira Veja. Este descobri-o num outro sítio e parece-me bem mais completo no questionário e na exposição das conclusões. Convido-vos a experimentá-lo, já que eu fiquei como se vê, tá-se mesmo a ver...
2008/06/12
mostrar e lembrar
«Escrevo Para Desistir» foi escrito por Isabel de Sá e lançado à rua há duas décadas pela editora & etc. Um excerto, lido à página 53:Faltou-me sempre paciência para guardar um manuscrito. À medida que o texto se forma vou destruindo as páginas que parecem imperfeitas. Trato a escrita com displicência, assim é a caligrafia desses instantes, sem o gosto que lhe imprimo ao escrever cartas.
Ao pensar na essência da palavra, nas cartas do pintor a seu irmão, detenho-me na última: "O meu trabalho, nele arrisco a vida e nele perdi, em parte, a razão". O testemunho da dor humana faz-nos aquietar as flutuações do espírito. Triunfar na dificuldade de cada dia. Esse grito agónico é particularmente visível nos "auto-retratos", na sua crispação e tragédia. Também nós somos mais visíveis quando ao espelho deciframos o tumulto que muitas vezes nos impede de viver na claridade.
Isabel começou na & etc em 1979, com «Esquilo Frenia» e «Escrevo Para Desistir» foi o seu oitavo livro publicado, com data de 1988.
Amanhã, 13 de Junho de 2008, fará mais um ano (o 11º) que Al Berto — escritor também e co-fundador da & etc — nos deixou. Pela amizade e pela saudade não ficará mal lembrá-lo na citação deste poema.
2008/06/02
coragem para mudar
Às poucas-vergonhas recentes e não recentes da política nacional ainda vou conseguindo fugir; à mediocridade e falta de pudor das TVs com o futebol, as telenovelas e a música pimba já é bem mais difícil, não tenho onde me esconder; mas a esta notícia (citada pelo blogue Felizes Juntos) eu não consegui menos do que... sair para a rua e aplaudir: obrigado Eminência Reverendíssima, obrigado meus queridos!
2008/05/30
let's (rock and) look at the video
Começa hoje em Lisboa o Rock in Rio, que vai até 6 de Junho e trás até cá o nosso amigo Déjan... Também hoje, já bem à noite, passam pela Casa da Música os tão aguardados galeses Young Marble Giants que fizeram um novo estilo musical nos anos 80 e a sensação do momento, os nova-iorquinos Vampire Weekend — estaremos lá. Hoje ainda — aqui onde estamos —, o regresso dos Sigur Rós com o anúncio de um novo álbum e o seu surpreendente vídeo «Gobbledigook» (para maiores de 18 anos), a ver pela ligação oficial do título.So, let's (rock and) look at the video...
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