2008/08/16

god save the queen


God save our gracious Queen,
Long live our noble Queen,
God save the Queen:
Send her victorious,
Happy and glorious,
Long to reign over us:
God save the Queen.

O Lord, our God, arise,
Scatter her enemies,
And make them fall.
Confound their politics,
Frustrate their knavish tricks,
On Thee our hopes we fix,
God save us all.

Thy choicest gifts in store,
On her be pleased to pour;
Long may she reign:
May she defend our laws,
And ever give us cause
To sing with heart and voice
God save the Queen.

2008/07/30

saída do armário

Finalmente apareceu nas bancas uma revista portuguesa mainstream dirigida a um público glbt. Eu digo "finalmente" porque, pela minha parte, era algo há muito aguardado. Não é só pela informação que a revista em si possa fazer chegar à comunidade a que se destina, mas pelo simples facto de existir e estar presente nas bancas. Pode haver as mais diversas opiniões sobre este tipo de publicações, pode-se criticar a sua vertente de incentivo ao consumo e a exploração que faz de um determinado tipo ou imagem do indivíduo homossexual, mas certo é que esse tipo de lógica aplica-se também a quase todo o universo de revistas presentes no mercado: das revistas de moda às revistas de música, passando pela culinária, as viagens e um sem número de outras variantes temáticas e respectivos públicos-alvo. Por isso, o primeiro feito da Com'Out é existir, contribuindo para normalizar a percepção que a sociedade tem dos temas glbt e dos homens e mulheres homossexuais. A revista inclui artigos de discussão sobre os gay pride; reportagem sobre a marcha de Lisboa; dossier sobre o estado do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo nos vários países da Europa; entrevista com o Guilherme de Melo e a Solange F.; guia de viagem à Croácia, e muitos outros artigos, colunas, destaques e propostas. Entre os colaboradores deste primeiro número estão o Miguel Vale de Almeida e o Paulo Côrte-Real. Não identifico os outros nomes ou a equipa que faz a revista, sei que estão de parabéns por terem levado avante este projecto, e que desejo sinceramente que vá sempre evoluindo e melhorando, e que permaneça por muitos anos. Para isso são necessários leitores. A maior parte de nós, acho, compra e lê com mais ou menos regularidade as congéneres estrangeiras Zero, Têtu, Gay Times ou Advocate — citando um artista plástico que há uns anos atrás assim brincava com os estereótipos: o good gay guy é, agora, aquele que compra e lê a Com'Out.

2008/07/24

arte vs sexo

Aos poucos vou lendo «Arte vs Sexo», quinto livro de Miguel Angelo que de artista tem a fama como cantor do grupo Delfins (cuja dissolução foi recentemente anunciada para o final do próximo ano). Na literatura, ele começou a ser lido em 1998 com a edição de «A Queda de Um Homem». A Oficina do Livro lançou-lhe em 2005 a obra à mão, contendo 69 histórias curtas que "confrontam os dois vícios mais antigos do mundo". Da página 116 à 117 lê-se «O Mito do Pénis Encolhido», até agora a minha história preferida, que é assim:

Ao contrário do que a sociedade moderna questiona quando se trata de averiguar o tamanho do sexo do parceiro masculino (a eterna questão do tamanho contar ou não), os nus na arte antiga representavam sempre o órgão sexual masculino de forma diminuta, quer na pintura quer na escultura, e sem vergonha nenhuma, mais, sem que isso afectasse a virilidade daqueles deuses que dominavam as telas, a terra e os céus. Acreditando que nem todos os homens da altura teriam o pénis assim tão pequeno, que conclusões é que podemos tirar? Bem, algumas possíveis:
— Primeiro, que os artistas da época representavam o particular pela generalidade pois ainda hoje a percentagem de homens com pénis pequenos deve ser maior do que a dos homens com grandes;
— Segundo, que era uma espécie de autocensura artística de modo a que a obra se tornasse assexuada para não chocar reis, papas e restante nata de uma sociedade patrona dos artistas mais importantes do século e responsável pelas encomendas que hoje são património mundial e motivo de deslumbre;
— Terceiro, que o pénis da Idade Média era mesmo assim, mais pequeno do que o actual, na generalidade, antes da mistura racial que os séculos seguintes proporcionaria, nomeadamente com a entrada na Europa de muitos "membros" do continente africano;
— Quarto, que por os corpos existirem assim tão musculosos o pénis atrofiava e mais pequeno parecia no meio daquela massa muscular insuflada e arredondada. Isso hoje pode ser observado nos balneários masculinos de ginásios de musculação;
— Quinto, que aquela flacidez era a representação rápida e directa do órgão do modelo que resistisse nu e em pé horas a fio e ao frio enquanto os artistas trabalhavam o mais depressa que conseguiam, quer para entregar a encomenda aos patronos em tempo útil e receber a paga, quer para mandar o rapaz embora o mais rápido possível, pois também não gostavam de o ver sofrer;
— Sexto, que os artistas de então eram todos gays, representando o órgão masculino encolhido como forma de protesto quanto aos seus direitos enquanto minoria, como por exemplo o direito dos casais heterossexuais pagarem um só imposto ao rei ao viverem em união de facto;
— Sétimo, e final, que o tamanho não importa mesmo, sendo as preocupações estético-artísticas da altura de carácter puramente intelectual.
Sete tópicos oportunos sem serem istas que ajudarão porventura os interessados a tirar outras ilações sobre o mito do pénis encolhido, presente e desnudado em quase todas as obras religiosas de então. Obrigado pela atenção. E desculpem a interrupção.

A imagem que ilustra é do pintor Steve Walker e tem por título «David and Me». É claro que este David também é do Michelangelo, mas do outro: o Buonarroti.

2008/07/21

inquérito público



Na sua página de entrada, logo abaixo da coluna "Bolsa" e acima da coluna "Blogues", o sítio do Público colocou-nos uma questão:
— Acha que o casamento gay deve estar consagrado na lei?
Um amigo deu-nos conta e acrescentou que "na realidade, este tipo de inquéritos nem deveriam existir". Simplesmente porque — diz ele ainda — "valores como Igualdade, Liberdade, Dignidade, Respeito" e outros assim "não deveriam ser sondados". E tem toda a razão, claro!
Depois, há a questão do casamento "gay". Alguém quer um casamento gay? Só se for mesmo pela diversão (porque sabemos divertir-nos, quando queremos divertir-nos). Porque o que todos nós queremos é a mais básica igualdade (nada menos, nada mais)... Ah já tínhamos dito, não já?!
Mas vá lá, votem. E ainda que tenha que ser a esta forma equívoca de nos colocar a questão, não deixem de votar a favor, por favor, mesmo que não queiram casar-se, mesmo que seja só para dizer de forma clara que acham que o casamento civil deveria ser um direito de todos.
Um direito assente em valores como a Igualdade, a Liberdade, a Dignidade, o Respeito e outros assim, que todos nós tanto prezamos.

2008/07/08

provença: 8 dias em 8 imagens

30 de Junho: Fontaine des Quatre Dauphins, Aix-en-Provence

1 de Julho: Café Les Deux Garçons, Aix-en-Provence

2 de Julho: «Passion» (Pascal Dusapin), Teatro Jeu de Paume, Aix-en-Provence

3 de Julho: La Cité Radieuse (Le Corbusier), Marselha

4 de Julho: Vieux Port, Marselha

5 de Julho: Participação no Lesbian & Gay Pride, Marselha

6 de Julho: Cruzeiro pelas Calanques, Marselha

7 de Julho: Regresso.

2008/06/28

marchar ou não marchar

Chegou a temporada das marchas e das festas: na fotografia de Zsolt Szigetváry (que descobri através do feliz Paulo), dois homens vítimas de ataque homofóbico durante a marcha do orgulho realizada no ano passado na Hungria, aguardam assistência médica. A fotografia valeu ao autor o segundo prémio da World Press Photo na categoria Contemporary Issues, mas entretanto, de lá para cá, de então para agora, pouca coisa terá mudado. Não me sinto à vontade para dar a cara em marchas, não marcho, porque temo a presença de câmaras que divulguem a minha identidade sexual a quem eu não a quero revelar. Mas tenho vergonha, cada vez tenho mais vergonha de não participar, quando há outros que o fazem por mim, às vezes sob pena de serem espancados por pessoas que nos odeiam. Acredito que é importante ir para a rua, acredito que isso ajuda a mudar mentalidades, acredito que isso foi importante para que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seja hoje uma realidade em Espanha e noutros países (mais recentemente na Noruega). Não engulo os argumentos de que as marchas são contraproducentes, esse parece-me ser um argumento de quem, como eu, tem medo de dar a cara, mas não o admite. Portanto participem, hoje 28 de Junho em Lisboa, no dia 12 de Julho no Porto — não deixem de ir, pelos que lá estão e pelos que não vão.

2008/06/19

o compasso político


Há dias os Felizes Juntos mostraram-nos um teste de tendência política (o «Politicômetro») promovido pela revista brasileira Veja. Este descobri-o num outro sítio e parece-me bem mais completo no questionário e na exposição das conclusões. Convido-vos a experimentá-lo, já que eu fiquei como se vê, tá-se mesmo a ver...

2008/06/12

mostrar e lembrar

«Escrevo Para Desistir» foi escrito por Isabel de Sá e lançado à rua há duas décadas pela editora & etc. Um excerto, lido à página 53:

Faltou-me sempre paciência para guardar um manuscrito. À medida que o texto se forma vou destruindo as páginas que parecem imperfeitas. Trato a escrita com displicência, assim é a caligrafia desses instantes, sem o gosto que lhe imprimo ao escrever cartas.
Ao pensar na essência da palavra, nas cartas do pintor a seu irmão, detenho-me na última: "O meu trabalho, nele arrisco a vida e nele perdi, em parte, a razão". O testemunho da dor humana faz-nos aquietar as flutuações do espírito. Triunfar na dificuldade de cada dia. Esse grito agónico é particularmente visível nos "auto-retratos", na sua crispação e tragédia. Também nós somos mais visíveis quando ao espelho deciframos o tumulto que muitas vezes nos impede de viver na claridade.

Isabel começou na & etc em 1979, com «Esquilo Frenia» e «Escrevo Para Desistir» foi o seu oitavo livro publicado, com data de 1988.
Amanhã, 13 de Junho de 2008, fará mais um ano (o 11º) que Al Berto — escritor também e co-fundador da & etc — nos deixou. Pela amizade e pela saudade não ficará mal lembrá-lo na citação deste poema.