2008/09/23

como um penso rápido

Não gosto da expressão "casamento homossexual" nem de "casamento gay". Nesta questão que ressurgiu nos últimos dias por via das propostas legislativas do Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) trata-se, de facto, de alargar o acesso ao casamento aos casais gay, ou homossexuais, mas a expressão presta-se a confusões, porque não só não se pretende um casamento especial, como nada se ganha em criar na cabeça das pessoas menos informadas imagens hollywoodescas de bodas estilo "gaiola das malucas". Falemos então do acesso ao casamento para pessoas do mesmo sexo — é politicamente correcto, é verdade, mas o politicamente correcto muitas vezes é mesmo o mais correcto. Tem sido comentado, aqui e ali, que o Bloco de Esquerda e os Verdes foram inoportunos, que não prepararam o terreno para que as suas propostas de lei possam efectivamente ser aprovadas, que estão mais preocupados em desafiar o PS... No entanto a proposta aí está, porque não passá-la? A Juventude Socialista é a favor, a Juventude Social Democrata é a favor, parte da bancada socialista é a favor, são-no também, obviamente, o BE e o PEV, e talvez até uma parte dos deputados do PSD, do CDS/PP e do PCP. Qual é então o problema, o termo "casamento"? A palavra deriva de casa, nada tem de religioso, não há razão para criar uma designação especial (uma discriminação por palavras) para um casal ("casa") de homens ou um de mulheres. Estará a dificuldade, no que diz respeito ao PS, em fazer justiça e conceder um direito não anunciado previamente no programa de governo votado nas eleições? Mas será que os eleitores do PS não estarão já habituados a ouvi-lo aliciar eleitores com o alargamento do casamento civil aos casais do mesmo sexo, prometendo a sua concretização em sucessivos adiamentos... Ou então é, talvez, a urgência e primazia da política económica, como se um assunto inviabilizasse o outro. Ou foi o "aborto", uma questão fracturante, que acabou com a quota-parte de questões fracturantes aceitáveis num só mandato... Tenham juízo e, sobretudo, tenham vergonha na cara. A altura é ideal. No dia 10 de Outubro, façam passar a proposta de lei do BE — a do Bloco de Esquerda, sim, porque a dos Verdes, vá-se lá saber porquê, perpetua a homofobia, impedindo o acesso à adopção. Seria como tirar um penso rápido — "scrrt!" — dói um bocadinho no instante, mas depois passou e ficamos todos bem.

2008/09/12

+ um (que partiu)

Morreu Hector Zazou, na manhã do passado dia 8 de Setembro, mas só o soubemos hoje. De nada adianta vir aqui contar-vos das mil e uma maravilhas ou das muitas mais que ele criou e nos deixou em vida. Se não sabem de quem falo, do que falo eu, acordem! Acordem, se fazem o favor, vão e procurem-no ainda. Nas lojas, na net, mas mexam-se!...

2008/09/10

acorrentado...

Só agora me pude virar para o «Acorrentado…», o mais recente desafio bloguista que nos foi lançado (ou aceite, pelo menos), desta vez pelo nosso recente amigo how the enGine throbs... Propunha-nos ele que se respondesse a umas quantas questões sobre cultura, que ligeiramente adaptámos para melhor corresponderem ao nosso estilo de escrita. O responso não é propriamente colectivo, não vale pelos dois, é mais coisa minha com muito das duas almas que habitam esta casa, nestas quatro respostas:

Pergunta 1) Se, num dia de férias, pudesses assistir a quatro espectáculos culturais — dança/bailado, teatro, exposição, cinema — que programa escolherias e como o distribuirias cronologicamente ao longo do teu dia?

Resposta 1) Hoje mesmo, antes ou depois de almoço, começaria por uma (re)visita à exposição de pintura e cerâmica «Miguel d'Alte — Evocação de um amigo...» que está desde o dia 4 na Cooperativa Árvore, depois seguia para os cinemas do Arrábida Shopping onde iria ver às 16h25 o filme «Get Smart - Olho Vivo», depois do jantar, pelas 22h00, entregava-me à peça de teatro «Desafinado», que está a ser representada no CACE Cultural do Porto e, para fechar a noite, ia ver os clientes da discoteca Boys'R'Us a dançar, participando no bailado...

P2) Um filme visto ou revisto recentemente e um filme que queres ver ou rever?

R2) Visto? Temos ido tão pouco ao cinema!... Mas quase de certeza que foi «Nightwatching», o novo do Peter Greenaway. Os de casa quase não contam, certamente, se bem que por cá tenham passado bastantes: o excelente «Les Chansons d'Amour», o «Cidade de Deus», «Le Bal», mais recentemente o «Birdy»... No cinema espero que passe num destes dias próximos a nova versão do «Brideshead Revisited».

P3) Um livro lido recentemente e um livro que queres ler ou reler?

R3) Eu tenho sempre muito pouco tempo para ler, até porque nós temos o hábito de tratar bem os livros e acabam por ser lidos sempre em casa, quando quase nunca há tempo. Mas até às férias era uma rotina diária e foi «Arte vs Sexo», de Miguel Angelo, o último que li. Julho e Agosto, e Setembro, tem sido um corre-corre com muitas actividades menos habituais mas em que tenho que cumprir objectivos temporais. Roubo tempo à leitura, como roubo tempo ao blogue (já se notou, não já?). À saudade tem-me vindo a escrita do Al Berto. Mas às vezes pego simplesmente num ou noutro livro e devoro umas quantas páginas. Depois ele volta para a estante, à espera de tempo e disposição para outro. E vai ser assim, pelo menos durante mais algumas semanas. Também há umas obras de arte e design que me interessaram bastante, mas não comprei (é um ensaio escrito pelo David Hockney e uma monografia sobre Naoto Fukasawa). E há ainda o guia Wallpaper sobre Marselha que à falta de stock nas livrarias lá me dei ao trabalho de o encomendar, finalmente.

P4) Que espectáculo de música recente viste e qual desejas ver?

R4) Vimos há 2 dias o Zé Perdigão numa apresentação promocional no Porto. Fomos lá porque um amigo nosso também lá foi... O Zé Perdigão é um cantor de fado que está a ser "apadrinhado" pelo Cid, e que no seu primeiro disco — «Os Fados do Rock» — faz apenas versões fadistas de canções do rock nacional. Curioso, nota positiva para os músicos que o acompanham e para ele próprio, que tem uma excelente voz, se bem que nalguns momento eu preferisse ouvi-lo num tom mais suave... Experiência interessante! A seguir vem a Madonna (para o Gonçalo, já que eu não vou lá estar), mas quem eu gostava+gostava+gostava mesmo de ver/ouvir ao vivo um dia destes (é muito pouco provável) é o senhor Robert Wyatt (contentava-me, de imediato, em ver/ouvir os queridinhos Sigur Rós se eles viessem ao Porto ou se eu tivesse a possibilidade de os ir ver no sítio certo, em Reiquejavique).

Notas para fechar: Perdoem-me a dispersão, a falta de detalhe nalguns pontos, alguma incorrecção porventura, mas participo neste desafio porque me comprometi a fazê-lo e ou o fazia assim e agora, ou talvez acabasse por já não lhe corresponder. Os desafiados serão todos os que quiserem pegar na brincadeira (se o fizerem digam-me aqui alguma coisa, pode ser?). Na imagem (respeitosamente pilhada da net) está o pintor Miguel d'Alte, cuja obra eu conheço há muito e muito aprecio. A exposição a que me referi acima é póstuma porque "no dia 24 de Dezembro de 2007, houve um comboio que se atravessou no caminho do Miguel e levou-o para muito, muuuito longe de nós". Quantos lamentam!...

2008/08/28

se a nivea o faz...

Sempre fui um fã da Nivea. É uma daquelas marcas clássicas que não desapontam e que sobrevivem graças à capacidade de manter a qualidade ao longo das décadas, conservando o que nos produtos há a conservar e desenvolvendo onde tal se impõe. A Nivea foi, para além do mais, uma das marcas pioneiras na comercialização de produtos de higiene específicos para homem, contribuindo para desfazer a ideia de que os cuidados cosméticos são só para as mulheres, logo, convidando os homens a alterar os seus hábitos e acabando com preconceitos sobre o que é masculino. E depois há a publicidade, que constrói imagens muito atraentes de saúde e beleza, num contexto que explora o quotidiano mais do que o glamour. E é com este ponto que agora justifico esta entrada — Aos senhores responsáveis de marca que não arriscam anunciar na Com'Out: apesar de uma evidente imagem de tradição a defender, a Nivea não recuou perante o interesse de publicitar em revistas gay, inclusive alterando os detalhes necessários para que um determinado anúncio melhor se adaptasse a essa função (no caso que a imagem ilustra, substituindo um rosto feminino por uma simbólica bola de espelhos). Se a Nivea o faz, porquê não podem vocês?...

2008/08/24

1 bilhete para madonna

A digressão «Sticky & Sweet» estreou ontem em Cardiff e iniciou a contagem decrescente para a passagem em Lisboa, a 14 de Setembro no Parque da Bela Vista. Temos um bilhete a mais, para vender ao preço de custo. Os interessados devem contactar-nos para o e-mail lavionrose@sapo.pt. Isto não é um leilão. Quem contactar primeiro leva o bilhete — e há só um!... Assim que o bilhete esteja vendido daremos conta do facto, aqui.

Nota: O bilhete já foi vendido — obrigado a todos.

2008/08/19

já o número 2

Já está nas bancas a edição de Agosto da Com'Out. Na capa, Madonna, a propósito do 50º aniversário (já aqui celebrado com hino e tudo) e do concerto de dia 14 de Setembro (o último a chegar é heterossexual :-) Este número inclui ainda entrevista a Richard Zimler; reportagem sobre os jovens e a saída do armário; fins-de-semana coloridos no Algarve; a Sparkling Party e o Labyrinto. No editorial comenta-se a economia associada ao 'euro cor-de-rosa', chamando a atenção para o caso espanhol e para o facto do volume do consumo dos gays e lésbicas vizinhos ter feito pesar a balança política a seu favor. Mas, mais importante, a equipa da Com'Out denuncia a hipocrisia de empresas portuguesas que, apesar de terem uma grande parte dos seus lucros a provir do consumo do público glbt, estão relutantes em anunciar os seus produtos na revista. É pena que em Portugal não exista um movimento associativo capaz de gerar boicotes às marcas homófobas. Mas, como de facto não existe, para já o melhor que podemos fazer é continuar a comprar a revista e, dessa forma, fazer pesar a balança a nosso favor.

2008/08/16

god save the queen


God save our gracious Queen,
Long live our noble Queen,
God save the Queen:
Send her victorious,
Happy and glorious,
Long to reign over us:
God save the Queen.

O Lord, our God, arise,
Scatter her enemies,
And make them fall.
Confound their politics,
Frustrate their knavish tricks,
On Thee our hopes we fix,
God save us all.

Thy choicest gifts in store,
On her be pleased to pour;
Long may she reign:
May she defend our laws,
And ever give us cause
To sing with heart and voice
God save the Queen.

2008/07/30

saída do armário

Finalmente apareceu nas bancas uma revista portuguesa mainstream dirigida a um público glbt. Eu digo "finalmente" porque, pela minha parte, era algo há muito aguardado. Não é só pela informação que a revista em si possa fazer chegar à comunidade a que se destina, mas pelo simples facto de existir e estar presente nas bancas. Pode haver as mais diversas opiniões sobre este tipo de publicações, pode-se criticar a sua vertente de incentivo ao consumo e a exploração que faz de um determinado tipo ou imagem do indivíduo homossexual, mas certo é que esse tipo de lógica aplica-se também a quase todo o universo de revistas presentes no mercado: das revistas de moda às revistas de música, passando pela culinária, as viagens e um sem número de outras variantes temáticas e respectivos públicos-alvo. Por isso, o primeiro feito da Com'Out é existir, contribuindo para normalizar a percepção que a sociedade tem dos temas glbt e dos homens e mulheres homossexuais. A revista inclui artigos de discussão sobre os gay pride; reportagem sobre a marcha de Lisboa; dossier sobre o estado do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo nos vários países da Europa; entrevista com o Guilherme de Melo e a Solange F.; guia de viagem à Croácia, e muitos outros artigos, colunas, destaques e propostas. Entre os colaboradores deste primeiro número estão o Miguel Vale de Almeida e o Paulo Côrte-Real. Não identifico os outros nomes ou a equipa que faz a revista, sei que estão de parabéns por terem levado avante este projecto, e que desejo sinceramente que vá sempre evoluindo e melhorando, e que permaneça por muitos anos. Para isso são necessários leitores. A maior parte de nós, acho, compra e lê com mais ou menos regularidade as congéneres estrangeiras Zero, Têtu, Gay Times ou Advocate — citando um artista plástico que há uns anos atrás assim brincava com os estereótipos: o good gay guy é, agora, aquele que compra e lê a Com'Out.

2008/07/24

arte vs sexo

Aos poucos vou lendo «Arte vs Sexo», quinto livro de Miguel Angelo que de artista tem a fama como cantor do grupo Delfins (cuja dissolução foi recentemente anunciada para o final do próximo ano). Na literatura, ele começou a ser lido em 1998 com a edição de «A Queda de Um Homem». A Oficina do Livro lançou-lhe em 2005 a obra à mão, contendo 69 histórias curtas que "confrontam os dois vícios mais antigos do mundo". Da página 116 à 117 lê-se «O Mito do Pénis Encolhido», até agora a minha história preferida, que é assim:

Ao contrário do que a sociedade moderna questiona quando se trata de averiguar o tamanho do sexo do parceiro masculino (a eterna questão do tamanho contar ou não), os nus na arte antiga representavam sempre o órgão sexual masculino de forma diminuta, quer na pintura quer na escultura, e sem vergonha nenhuma, mais, sem que isso afectasse a virilidade daqueles deuses que dominavam as telas, a terra e os céus. Acreditando que nem todos os homens da altura teriam o pénis assim tão pequeno, que conclusões é que podemos tirar? Bem, algumas possíveis:
— Primeiro, que os artistas da época representavam o particular pela generalidade pois ainda hoje a percentagem de homens com pénis pequenos deve ser maior do que a dos homens com grandes;
— Segundo, que era uma espécie de autocensura artística de modo a que a obra se tornasse assexuada para não chocar reis, papas e restante nata de uma sociedade patrona dos artistas mais importantes do século e responsável pelas encomendas que hoje são património mundial e motivo de deslumbre;
— Terceiro, que o pénis da Idade Média era mesmo assim, mais pequeno do que o actual, na generalidade, antes da mistura racial que os séculos seguintes proporcionaria, nomeadamente com a entrada na Europa de muitos "membros" do continente africano;
— Quarto, que por os corpos existirem assim tão musculosos o pénis atrofiava e mais pequeno parecia no meio daquela massa muscular insuflada e arredondada. Isso hoje pode ser observado nos balneários masculinos de ginásios de musculação;
— Quinto, que aquela flacidez era a representação rápida e directa do órgão do modelo que resistisse nu e em pé horas a fio e ao frio enquanto os artistas trabalhavam o mais depressa que conseguiam, quer para entregar a encomenda aos patronos em tempo útil e receber a paga, quer para mandar o rapaz embora o mais rápido possível, pois também não gostavam de o ver sofrer;
— Sexto, que os artistas de então eram todos gays, representando o órgão masculino encolhido como forma de protesto quanto aos seus direitos enquanto minoria, como por exemplo o direito dos casais heterossexuais pagarem um só imposto ao rei ao viverem em união de facto;
— Sétimo, e final, que o tamanho não importa mesmo, sendo as preocupações estético-artísticas da altura de carácter puramente intelectual.
Sete tópicos oportunos sem serem istas que ajudarão porventura os interessados a tirar outras ilações sobre o mito do pénis encolhido, presente e desnudado em quase todas as obras religiosas de então. Obrigado pela atenção. E desculpem a interrupção.

A imagem que ilustra é do pintor Steve Walker e tem por título «David and Me». É claro que este David também é do Michelangelo, mas do outro: o Buonarroti.