2008/12/31

adeus, 2008

Outro ano está no fim e (com alguma dificuldade, confessamos) tentámos compor uma lista do que mais nos marcou nestes últimos 366 dias. Apesar das habituais-normais divergências de opinião, nalguns pontos ficámos de acordo como, por exemplo, ao considerar que o nosso melhor momento do ano foi o da viagem à Provença e, já agora, que a loja que mais nos agradou foi a La Cure Gourmande, em Marselha, todo cheiinha de coisas bonitas, raras e doces. Também elegemos em uníssono que o chumbo parlamentar das propostas pela igualdade no casamento civil foi o acontecimento (negativo) do ano enquanto, por outro lado, a leitura que nos marcou 2008 foi a nova e aclamada revista Com'Out. No campo virtual houve um site que foi o mais relevante de todos para nós: a bonita loja online de Thorsten van Elten (de onde vem a foto em destaque).
Já nos DVDs adquiridos tivemos alguma discórdia: o Luís foi por «As Canções de Amor» de Christophe Honoré (um belo trabalho desenvolvido a partir de um triângulo amoroso, com Louis Garrel como Ismaël e com Grégoire Leprince-Ringuet como Erwann) e o Gonçalo pela colecção operática «The Copenhagen Ring» de Richard Wagner, produzida por Kasper Bech Holten. No cinema de grande ecrã também divergimos em opinião: o Gonçalo escolheu o filme de Eric Rohmer «Os Amores de Astrea e de Celadon», enquanto já em final do ano o Luís se decidiu pelo «Ensaio Sobre a Cegueira» dirigido por Fernando Meirelles a partir da mesma obra literária de José Saramago. Nos discos estão em destaque as senhoras, já que foi o Luís pelo novo «Hurricane» de Grace Jones e o Gonçalo pelo «Watershed» de K.D. Lang. Quase o mesmo se passou em matéria de concertos: o Gonçalo escolheu o «Sticky & Sweet Tour» de Madonna no Parque da Bela Vista (em Lisboa) e o Luís o dos Young Marble Giants no «Clubbing» da Casa da Música (no Porto). Bem mais difícil é eleger as personalidades do ano que, num plano, poderia ser o senhor Pedro Passos Coelho só per ter defendido a igualdade no casamento durante a sua campanha à presidência do PSD e, num outro, o senhor Barack Obama pelo que significa a sua eleição enquanto reconfiguração completa do perfil do presidente dos Estados Unidos da América.
Projectos para 2009? Votar, votar muito, mas claramente votar apenas em quem dê a voz mais justa às nossas justas reivindicações: casamento civil para todos, com plena igualdade de direitos e de deveres, como em tudo o resto. Em breve estaremos de volta mas, para já, ficam os nossos votos de um novo ano cheio de energia e de muitas alegrias!

2008/12/29

the fall em janeiro

A notícia do dia, para mim, foi a de que o grupo post-punk britânico The Fall, criado em 1976 e desde então liderado pelo vocalista Mark E. Smith, estará a 17 de Janeiro na Casa da Música. Coisa rara, The Fall é um desses grupos que nunca deixou de se mostrar bem vivo ao longo do tempo, tendo quase tantos álbuns de estúdio quantos os anos de actividade, que são já 32. O nome veio-lhe do título de um romance de Albert Camus, «La Chute» («The Fall» em inglês). Nessa linha, também as canções parecem transbordar de vertigens, de emoções fortes, de um encanto decadentista. Quem conhece a voz de Mark E. Smith (que recentemente a emprestou também ao projecto Von Südenfed) não a esquece e sabe bem que cada nova canção é um regresso diferente a um estilo nascido na proximidade dos Buzzcocks, Joy Division ou A Certain Ratio, grupos que deram nome à Manchester dos últimos anos de 70 e do início dos 80. «Imperial Wax Solvent» (Sanctuary, 2008) é o seu mais recente álbum e foi considerado por muitos um dos melhores do ano. A revista britânica de novas músicas The Wire considera-o o nono melhor disco de 2008, referindo-o como "caustically cerebral and sonically inventive" ou "a vital late period masterpiece". Incontornável!

2008/12/27

um café com amizade

A capa é do nº 9, mas o texto é de um anúncio da marca BICAFÉ no 10 (número de Dezembro) da revista UmCafé. Saboreiem-no e que nos sirva de reflexão neste final de ano:

Um professor diante da sua turma, sem dizer uma palavra, pegou num frasco grande e vazio de maionese e começou a enchê-lo com bolas de golfe.
A seguir perguntou aos estudantes se o frasco estava cheio. Todos estiveram de acordo em dizer que "sim". O professor pegou então numa caixa de fósforos e deitou-a dentro do frasco de maionese. Os fósforos preencheram os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor voltou a perguntar aos alunos se o frasco estava cheio, e eles voltaram a responder que "Sim". Logo, o professor pegou numa caixa de areia e despejou-a dentro do frasco. Obviamente que a areia encheu todos os espaços vazios e o professor questionou novamente se o frasco estava cheio. Os alunos responderam-lhe com um "Sim" retumbante.
O professor, em seguida, adicionou duas chávenas de café ao conteúdo do frasco que preencheram todos os espaços vazios entre a areia. Os estudantes riram-se nessa ocasião. Quando os risos terminaram, o professor comentou:
"Quero que percebam que este frasco é a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes: a família, os filhos, a saúde, a alegria, os amigos, as coisas que vos apaixonam! São coisas que, mesmo que perdêssemos tudo o resto, manteriam a nossa vida ainda cheia. Os fósforos representam outros elementos importantes da nossa vida tais como o trabalho, a casa, o carro, etc. A areia é tudo o resto, são as pequenas coisas. Se primeiro colocamos a areia no frasco, não haverá espaço para os fósforos, nem para as bolas de golfe. O mesmo ocorre com a vida. Se gastarmos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teremos lugar para as coisas que realmente são importantes. Prestem atenção às coisas que realmente importam. Estabeleçam as vossas prioridades e, o resto, é só areia."
Um dos estudantes levantou a mão e perguntou: "Então e o que representa o café?"
O professor sorriu e disse: "Ainda bem que perguntas! Isso é só para vos mostrar que, por mais ocupada que a vossa vida possa parecer, há sempre lugar para tomar um café com um amigo".

2008/12/22

natal feliz

Os presépios podem ser um dos mais belos símbolos do Natal. Este, da marca italiana Alessi, é um dos mais interessantes que se encontram de momento no mercado. É bonito, simples, bem proporcionado, e agrada tanto aos graúdos como aos miúdos. É até, certamente, um bom investimento a médio ou longo prazo, desde que se goste dele como algo que queremos junto a nós, ano após ano. «Presepe», desenhado pela L.P.W.K. Design e Massimo Giacon, existe assim com o estábulo em branco, mas também em vermelho. Gostos aqui nem se discutem e ambos nos fascinam. Mede 16x13 cm por 13,5 de altura. Se calhar estão já a pensar que ele é feito de plástico, mas não: é todinho de porcelana, purinha como deveríamos desejar. Encontram-no pela ligação no título, se o quiserem. A todos vós, nós queremos desejar-vos um Natal Feliz e uma novo ano repleto de agradáveis momentos.

2008/12/12

não, senhora deputada

Para a capa do primeiro número de Natal da Com'Out, estava já a contar (frivolamente, eu sei) com uma daquelas imagens de um pai natal sexy e meio despido, talvez representado por algum dos nossos lindos novos actores. Ou a fotografia fantástica de alguma personalidade que neste número fizesse o seu com'out... Mas o casamento é um tema excelente também, talvez a deputada Marta Rebelo traga boas notícias, pensei. Mas as más escolhas começaram logo na frase que na capa destaca a entrevista: «Marta Rebelo — a deputada do PS explica o Não ao casamento gay». Casamento gay? Não sou um defensor do politicamente correcto a todo o custo, mas a linguagem é importante para definir as coisas na cabeça das pessoas, e não se trata (a Com'Out deveria sabê-lo) de criar uma nova figura de casamento, mas sim de conceder igualdade no acesso ao casamento civil que já existe. O título deveria ser então: Marta Rebelo — a deputada do PS explica o Não aos gays. Mas tudo bem, passemos então à entrevista e às boas notícias ou, no mínimo, às boas explicações. Abrimos na página 20 e ficamos logo a saber que a deputada votou contra mas está bem com a sua consciência. O deputado Manuel Alegre esteve bem no voto a favor porque o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo constava do seu programa presidencial, explica, donde concluímos que se pode trair as nossas convicções, sempre e quando elas não constem de um programa eleitoral. Depois vem o argumento da necessidade de maior consenso nacional e mais debate — mas como é que o PS tem cara para falar em mais debate, se a disciplina de voto do "Não" cria um muro em torno da questão e reforça a convicção de quem é contra? Debater seria ter deixado que os deputados votassem segundo as suas convicções; a lei muito provavelmente não seria aprovada, na mesma, mas o debate criaria confronto aberto de ideias e demonstraria ao público e aos eleitores quem pensa o quê. De resto, e de tão óbvios e repetitivos, não vale a pena reproduzir os argumentos, que são os mesmíssimos que já haviam sido utilizados na altura da votação pelos porta-vozes do PS e pelo próprio Sócrates, só que agora em vez de ser pela voz de um "barão" conservador é pela voz de uma bonita e jovem deputada que diz não ter «uma gota que seja de homofobia». Para terminar em beleza, a deputada revela, em resposta a se os seus amigos teriam ficado desiludidos com ela: «(...) Também confesso que tenho muitos amigos homossexuais, que nunca manifestaram vontade de casar. Inúmeros amigos meus vivem em união de facto, talvez por isso não tenham inquirido tanto sobre o meu sentido de voto.» Que é mais ou menos, desculpem-me a dureza da comparação, como quem justificasse um voto contra a IVG com o argumento de que os amigos até queriam ter filhos. Posso compreender que a Com'Out desse ao PS uma oportunidade de se explicar, não compreendo que perante o resultado da entrevista (aliás demasiado passiva por parte do interlocutor) tenham dado o destaque e o glamour que lhe deram. Não, senhora deputada, o meu voto continua a ir para o Bloco de Esquerda — com mais ou menos oportunismo, fizeram constar do seu programa eleitoral o acesso de casais homossexuais ao casamento civil e cumpriram. Para terminar, relembro que José Sócrates continua a argumentar, quando o interrogam sobre o assunto, que não existe um número significativo de pessoas a reclamar a igualdade no acesso ao casamento civil. Se não começarmos a reclamá-lo mais claramente acabaremos por não o ter ou tê-lo apenas numa figura jurídica de segunda.

2008/12/03

love, love me do

Love, love me do
You know I love you...

2008/12/02

mick mouse

Li algures que Philip Glass está a preparar uma nova obra que será dedicada ao mestre Walt Disney. Perdi a noção da fonte, mas tal não me impede de dar a notícia e os vivas por tal homenagem que, se calhar, só chegará a nós no próximo ano. Este, já muito perto do fim, é mais um ano para esquecer. Primeiro, pelo chumbo socialista das propostas parlamentares que tardaram (sim, que tardaram!) mas que, também por isso, mereciam ser acolhidas e aprovadas por uma maioria muito ampla de deputados. Já sabem do que falo, claro... Pelo Porto, hoje, a noite volta a estar fria e a manhã de amanhã deverá chegar molhada. É este o Outono invernoso que temos, este é o fim de ano que todos julgam que merecemos: desconfortável, sombrio, estupidificante. Eu estou sentado no sofá, computador no colo, TV ligada entre a primária «Liga dos Últimos» e a telenovela "gayata" «Olhos nos Olhos». O Gonçalo trabalha até tarde e só agora deverá estar a caminho de casa. Volto a olhar para a imagem do meu Mick Mouse que vai ilustrar o pretexto desta entrada. É também um bom pretexto, não é?

2008/11/11

lis boa

Citando notícia da ILGA, a "Assembleia Municipal de Lisboa aprova moção sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo". Transcrita na íntegra (siga-se a ligação no título), a informação da associação ILGA acrescenta que "A moção do Bloco de Esquerda mereceu os votos favoráveis do PS, PCP, PEV e de quatro deputados do PSD. Todos os deputados municipais do PS votaram a favor da alteração da lei para permitir o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, contrastando com a conduta deste partido na Assembleia da República, ao chumbar duas propostas que iam no mesmo sentido. Na proposta aprovada pode ler-se que a Assembleia Municipal se pronuncia a favor do princípio constitucional da não discriminação de cidadãos com base na orientação sexual e, em consequência, pela consagração na lei do acesso ao casamento civil a pessoas do mesmo sexo. Apenas 19 deputados do PSD e 2 do CDS/PP votaram contra. A maior parte do grupo municipal do PSD absteve-se, tendo ainda quatro deputados deste partido votado a favor. Mas o facto mais curioso foi a atitude dos deputados do PS, que, contrariamente ao que havia feito este partido no parlamento, votaram todos a favor da proposta do Bloco. Miguel Coelho e Maria de Belém são dois dos deputados municipais que sendo também deputados na Assembleia da República votaram de uma forma no parlamento e de outra na Assembleia Municipal." Parece estranho que as coisas aconteçam assim, como se relatam. Mas, de alguma forma é caso para o dizer, também é bom quando nos surpreendemos pela positiva. E em Lisboa haverá mais surpresas boas, com os islandeses Sigur Rós a actuar logo no Campo Pequeno. A não perder, por quem possa comparecer!

2008/10/29

que portugalidade?

Segundo notícias hoje chegadas à TV, parece que a nossa ganapada poderá vir a passar automaticamente de classe escolar até que complete os 12 anos de idade. Esta notícia teve por base uma recomendação do Conselho Nacional de Educação ao respectivo ministério, entretanto já divulgada noutros meios da comunicação social. Pelo que se entendeu parece que já não importará se se é bom ou mau aluno, se se vai ou não às aulas, se se agride ou não os colegas, empregados ou professores... A primeira preocupação do Estado será passar de ano os alunos e só depois, então, se pensará nas alternativas ao "insucesso" escolar.
Não posso deixar de manifestar a minha estupefacção extra e de exibir que isto é afinal, como se costuma dizer, mais uma pedrinha para o meu sapato. É que esta coisa de estarem sempre a actualizar o grau da escolaridade mínima (da quarta classe ao 12º ano) até pode fazer algum sentido numa sociedade que se quer cada vez mais culta e mais moderna, mas tal não deveria ser nunca uma obrigação universal e descontrolada, mas apenas uma opção ditada pelas vocações de cada um. Tanto mais que tem vindo a penalizar todos os que optaram nos seus tempos de estudante pelo ensino básico (ou mais do que isso, alguns) e hoje se vêm desvalorizados numa sociedade que só reconhece diplomas, mesmo quando os seus titulares mal sabem executar o mais essencial da sua portugalidade: falar e escrever correctamente o Português!

[A imagem é de uma reinterpretação artística do Galo de Barcelos por Carla Gonçalves.]